Coisa
de rico? Por que o silêncio se tornou o maior luxo da atual "era do
barulho"
A
trilha sonora da vida moderna está chegando ao seu ápice, desde o rugido do
trânsito e dos sopradores de folhas até os telefones celulares transmitindo
vídeos 24h por dia. Essa cacofonia avassaladora tem levado muitas pessoas a
buscar uma paisagem sonora cada vez mais difícil de encontrar: o silêncio.
“Não
acho que estejamos preparados para a quantidade de ruído a que estamos expostos
ou para a sobrecarga de estímulos”, afirma a psicóloga Olga Lehmann, radicada
na Noruega, cujo trabalho se concentra no silêncio. A superexposição à poluição
sonora — particularmente sons acima de 85 decibéis, aproximadamente o nível de
um restaurante barulhento, por exemplo, pode levar à perda auditiva,
hipertensão, estresse e insônia.
Algumas
pessoas escapam da agitação viajando em busca de silêncio, mas momentos de
tranquilidade em casa são igualmente cruciais. “Pequenos momentos de silêncio
no dia a dia podem nos ajudar a regular o estresse e nos tornar menos
impulsivos”, afirma Lehmann, observando que seu objetivo não é abafar
completamente o ruído da vida.
Trata-se
de encontrar um equilíbrio entre a paz e o caos da vida cotidiana — e isso está
se tornando mais alcançável à medida que um crescente movimento que busca
incorporar o silêncio em diferentes partes de nossas rotinas.
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Uma contracultura silenciosa
Poucas
tendências demonstraram a crescente busca por silêncio, principalmente entre as
gerações mais jovens, como a caminhada silenciosa, um fenômeno que viralizou no
TikTok no ano passado, com criadores de conteúdo elogiando o valor de caminhar
sem distrações — sem podcasts, música ou telefonemas. Apesar das críticas das
gerações pré-smartphones, a popularidade generalizada da atividade ressalta o
quanto os nativos digitais anseiam por uma pausa do ruído.
Alguns
buscadores de silêncio adotam medidas mais drásticas, como meditações
silenciosas de vários dias ou retiros na escuridão. Este último ganhou força
significativa após a experiência do jogador quarterback da NFL, Aaron Rodgers,
que foi para um retiro no Sky Caves Retreat, no Oregon, Estados Unidos.
Essas
experiências de privação sensorial vão além da audição; elas emergem os
participantes na escuridão total e em quase isolamento por vários dias, com o
objetivo de autodescoberta e introspecção. Lehmann afirma que opções
extenuantes funcionam para alguns, "mas eu prefiro começar com pequenos
desafios".
Pode
ser algo tão simples quanto sentar em um parque, museu ou biblioteca local, sem
usar tecnologia, por 10 minutos, ou participar de uma aula de meditação ou yoga
— ou, melhor ainda, yoga silenciosa. Independentemente da prática, um momento
de silêncio não significa necessariamente isolamento. "Estamos vivendo uma
pandemia de desconexão e solidão", comenta Lehmann. "É o que eu
chamaria de lado sombrio do silêncio."
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Socializar em silêncio… Por que não?!
Felizmente,
muitos que buscam tranquilidade a combinam com a comunidade. Organizações como
a Peace in the Wild, sediada no estado norte-americano da Geórgia, que conecta
entusiastas da natureza por meio de atividades recreativas ao ar livre,
transformaram caminhadas silenciosas em uma atividade meditativa em grupo.
O Clube
do Livro Silencioso, que reúne leitores para lerem juntos durante uma hora sem
conversar, teve um aumento significativo de popularidade recentemente graças a
comunidades nas redes sociais como BookTok e Bookstagram.
"Nós
o chamamos de happy hour dos introvertidos", diz Guinevere de la Mare,
cofundadora do grupo, que possui mais de 1 mil capítulos em 50 países. "Os
clubes do livro silenciosos surgiram como uma forma de interagir com outras
pessoas de maneira descontraída e sem pressão após a pandemia."
Apesar
do nome, os eventos do Clube do Livro Silencioso não são totalmente
silenciosos. Seus locais de encontro, geralmente cafés locais, têm seu próprio
ruído — mas alguns cafés silenciosos no Japão mostram que cafés barulhentos não
precisam ser a norma.
O mais
recente, o novo café silencioso Shojo em Osaka, é administrado em grande parte
por pessoas surdas ou com deficiência auditiva. O local promove um ambiente
tranquilo e silencioso; os clientes usam linguagem de sinais, escrita à mão e
gestos para fazer seus pedidos.
Locais
com pouco ruído são mais difíceis de encontrar nos Estados Unidos, mas não
impossíveis. A rede de cafés Starbucks, por exemplo, anunciou recentemente a
instalação de painéis acústicos no teto, conhecidos como baffles, em mais de 1
mil lojas.
A
plataforma norte-americana Soundprint, semelhante ao Yelp para restaurantes
silenciosos, permite que os usuários meçam e compartilhem os níveis de som em
estabelecimentos, de cafeterias a casas noturnas, em todo o mundo. Mais de 1
mil locais de encontro com níveis de ruído medidos aparecem em seu mapa global,
classificados de silenciosos (abaixo de 70 decibéis) a muito barulhentos (acima
de 81 decibéis).
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Melhorando as paisagens sonoras da cidade
Desintoxicações
digitais e refúgios tranquilos só resolvem parte do problema, especialmente em
cidades barulhentas, onde vive mais de 50% da população mundial. A Organização
Mundial da Saúde apontou a poluição sonora como um dos principais fatores
ambientais desencadeadores de problemas de saúde, perdendo apenas para a
poluição do ar.
Esse é
um fato que não surpreende, visto que os habitantes urbanos estão cronicamente
expostos a ruídos acima de 85 decibéis. Além disso, o Serviço Nacional de
Parques dos Estados Unidos estima que a poluição sonora mais que dobra a cada
30 anos — e está crescendo mais rápido do que a população do país.
“O
principal problema nas cidades é sempre o ruído do tráfego rodoviário; é por
isso que muitas pessoas estão defendendo a ideia de veículos elétricos”, afirma
Francesco Aletta, arquiteto, planejador de som urbano e professor da University
College London.
Os
veículos elétricos são significativamente mais silenciosos do que os carros
movidos a combustíveis fósseis em velocidades mais baixas em áreas
residenciais. Nas rodovias, onde o ruído vem dos pneus, as autoridades
municipais estão adotando tecnologias mais silenciosas para o asfalto, afirma
Aletta.
Infelizmente,
a ação em nível governamental exige tempo e é burocrática — principalmente em
lugares como os Estados Unidos, onde a pesquisa sobre exposição ao ruído ainda
é pouco estudada e pouco regulamentada. Mas as cidades estão mostrando pequenos
sinais de progresso.
No ano
passado, a Câmara Municipal de Nova York instalou câmeras de ruído para
monitorar veículos que ultrapassam o limite de 85 decibéis da cidade. Regras
que limitam o uso de sopradores de folhas a gasolina barulhentos estão tornando
mais silenciosas as áreas urbanas e suburbanas em todo o país, de Washington,
D.C. a Portland, Oregon.
A
vegetação também pode desempenhar um papel importante. O plantio de fileiras de
árvores em rodovias reduz o ruído em até 12 decibéis. E paredes verdes, como a
fachada com 30 mil plantas de um prédio comercial em Düsseldorf, na Alemanha —
a maior fachada verde da Europa — absorvem o ruído e minimizam o calor urbano.
Uma
tecnologia que Aletta prevê que continuará a atender à demanda da sociedade por
silêncio: dispositivos vestíveis, como o Apple Watch, que alertam os usuários
sobre os níveis de ruído ambiental.
"No
momento em que você começa a monitorar e a se conscientizar, você age",
afirma ele, observando avanços recentes, como a aprovação de uma lei no País de
Gales para proteger as paisagens sonoras juntamente com o ar limpo, o que lhe
dá esperança. "Considero esses tipos de políticas e essas novas leis um
bom sinal de que a maré está mudando."
Fonte:
The National Geographic Brasil

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