sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Luís Nassif: O Brasil na véspera da grande crise global

Nesses tempos de incertezas, a geopolítica muitas vezes não consegue se antecipar a um modelo de mundo profundamente calcado no mercado financeiro e no modelo de endividamento das nações, empresas e famílias.

Vale a pena acompanhar o que diz Alex Krainer, analista de mercado, autor e ex-gestor de hedge fund conhecido por sua atuação nas áreas de análise econômica, comércio de commodities, tendências de mercado e comentários sobre economia global e geopolítica.

As principais ideias de Alex Krainer orbitam um diagnóstico duro — e pouco convencional — do capitalismo contemporâneo. Ele mistura mercado financeiro, geopolítica e ciclos históricos com a tranquilidade de quem já viu bolhas suficientes para não se impressionar com fogos de artifício.

Muitas vezes é criticado por um certo alarmismo, mas sempre consegue identificar as grandes linhas da economia, facilitado por uma capacidade de antecipar cenários, tendo como base o profundo conhecimento de mercado

Eis o núcleo do pensamento do Alex Krainer:

1. O sistema financeiro ocidental entrou em fase terminal

Krainer sustenta que EUA e Europa vivem um esgotamento estrutural, não um “ciclo ruim”.

Segundo ele:

•        Dívida excessiva + juros artificialmente manipulados

•        Bancos centrais presos a políticas que já não funcionam

•        Crescimento sustentado por impressão de dinheiro, não por produtividade

Para ele, não é crise passageira: é mudança de regime histórico.

2. Bancos centrais viraram gestores políticos, não técnicos

Uma de suas teses mais repetidas:

•        O Federal Reserve e o BCE deixaram de ser árbitros neutros

•        Passaram a socializar prejuízos e privatizar ganhos

•        Criaram distorções gigantescas em preços de ativos

Resultado: mercados “funcionam”, mas não dizem a verdade.

3. Commodities são o “ativo esquecido” do próximo ciclo

Krainer é conhecido por defender commodities quando elas ainda eram o patinho feio do mercado:

•        Energia

•        Metais industriais

•        Alimentos

Ele vê commodities como:

•        Proteção contra inflação estrutural

•        Ativos reais num mundo saturado de ativos financeiros inflados

•        Termômetro da geopolítica (sanções, guerras, cadeias de suprimento)

Em tradução livre: papel aceita tudo; barril de petróleo, não.

4. O mundo caminha para a desdolarização

Krainer antecipa — antes de virar moda — que:

•        O dólar segue forte no curto prazo

•        Mas perdeu a neutralidade geopolítica

•        Sanções financeiras aceleram a busca por alternativas

Ele observa com atenção:

•        China

•        Rússia

•        Blocos regionais

•        Comércio bilateral fora do dólar

Não é “fim do dólar amanhã”, mas erosão constante do monopólio.

5. Geopolítica manda mais que planilha

Para Krainer:

•        Mercados não são autônomos

•        São extensões da disputa de poder global

Guerras, sanções, choques energéticos e crises institucionais não são exceções, mas instrumentos.

O investidor que ignora isso, segundo ele, opera no escuro.

6. Crises não são acidentes — são ferramentas

Uma ideia provocadora (e polêmica):

•        Crises recorrentes funcionam como mecanismos de reorganização de poder em tempos de crise

•        Transferem riqueza

•        Eliminam concorrentes

•        Reforçam centros financeiros dominantes

Ele não romantiza conspirações, mas insiste: inocência demais também é um erro analítico.

Os riscos presentes

Ai se entra no cerne de seu raciocínio: as guerras são alternativas ao alto endividamento dos EUA e de suas empresas. Desenvolve seu raciocínio da seguinte maneira:

1.       Dívida Pública: A “Prova de Fogo” de 2026

1.       A dívida pública americana ultrapassou os US$ 37 trilhões em 2025, e as projeções para 2026 indicam que o custo para manter essa dívida (pagamento de juros) já consome cerca de 17% de todo o orçamento federal.

•        Risco de Liquidez: Em 2026, aproximadamente US$ 9 trilhões em títulos da dívida (Treasuries) vão vencer e precisarão ser refinanciados. Se o mercado exigir juros mais altos para comprar esses novos títulos, o governo terá ainda menos dinheiro para investimentos públicos.

•        Perda de Confiança: Analistas do Goldman Sachs alertam para um “acerto de contas”. Se os investidores estrangeiros reduzirem a compra de títulos americanos, o dólar pode sofrer uma depreciação estrutural, acelerando a desdolarização global.

•        Pressão Fiscal: O déficit projetado de 6% a 7% do PIB limita a capacidade do governo de responder a novas crises ou recessões.

2. Endividamento Corporativo e o “Shadow Banking”

•        As empresas americanas também enfrentam desafios. Após anos de juros baixos, muitas se endividaram para financiar recompras de ações e expansão.

•        Crise no Crédito Privado: Um dos maiores riscos citados para 2026 é o estresse no setor de crédito privado (empréstimos feitos fora dos bancos tradicionais). Se empresas de médio porte começarem a falhar devido aos juros ainda elevados, pode haver um efeito contágio no sistema financeiro.

•        A Bolha da IA: Existe o temor de que o investimento massivo em Inteligência Artificial não traga o retorno esperado no curto prazo. Se as empresas de tecnologia (que sustentam boa parte do índice S&P 500) não entregarem lucros que justifiquem suas dívidas, pode ocorrer um crash no mercado de ações.

O Brasil no mundo de Alex Krainer

O ponto nevrálgico da análise dele: a transição de um mundo de “riqueza de papel” (ativos financeiros, derivativos, dívida) para um mundo de “riqueza real” (energia, alimentos, infraestrutura).

Krainer pertence a uma linhagem de analistas que veem o mercado não como um gráfico isolado, mas como um subproduto da história e da força bruta. A análise dele sobre o Brasil é particularmente provocativa porque inverte a lógica tradicional: o que o mercado financeiro vê como “atraso” (ser uma economia de commodities), Krainer vê como o único bote salva-vidas em um naufrágio sistêmico do Ocidente.

Para aprofundarmos essa reflexão, vale destacar três pontos críticos que conectam a teoria dele ao cenário de 2026:

Pelos cenários de Alex Krainer, o Brasil aparece como peça-chave do próximo tabuleiro global.

1.       Commodities = poder (se bem jogado)

No enquadramento de Krainer, o Brasil não é periférico:

•        Agro (soja, milho, carnes)

•        Energia (pré-sal, hidro, bioenergia)

•        Mineração (ferro, níquel, cobre; terras críticas na mira)

Em ciclos de inflação estrutural, quem entrega coisas reais manda mais que quem entrega papel.

Risco kraineriano: virar apenas fornecedor barato se não subir na cadeia (logística, refino, indústria).

2. Energia: vantagem estratégica silenciosa

Enquanto Europa e EUA sofrem com choques:

•        Brasil tem matriz relativamente limpa

•        Pré-sal com custo competitivo

•        Capacidade de amortecer crises energéticas

 Para Krainer, energia é geopolítica pura. Aqui, o Brasil tem carta forte — se não a jogar mal.

3. Dólar forte? Sim. Dependência eterna? Não.

Krainer diria:

•        O Brasil não precisa liderar a desdolarização

•        Precisa reduzir vulnerabilidades:

o        Comércio bilateral

o        Moedas locais

o        Reservas diversificadas

Autonomia pragmática, não cruzada ideológica.

4. Sistema financeiro: o ponto fraco

Onde Krainer pisaria no freio:

•        Juros estruturalmente altos

•        Financeirização drenando investimento produtivo

•        Mercado de capitais curto-prazista

Commodities fortes + finanças fracas = crescimento capenga.

 

Fonte: Jornal GGN

 

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