Luís
Nassif: O Brasil na véspera da grande crise global
Nesses
tempos de incertezas, a geopolítica muitas vezes não consegue se antecipar a um
modelo de mundo profundamente calcado no mercado financeiro e no modelo de
endividamento das nações, empresas e famílias.
Vale a
pena acompanhar o que diz Alex Krainer, analista de mercado, autor e ex-gestor
de hedge fund conhecido por sua atuação nas áreas de análise econômica,
comércio de commodities, tendências de mercado e comentários sobre economia
global e geopolítica.
As
principais ideias de Alex Krainer orbitam um diagnóstico duro — e pouco
convencional — do capitalismo contemporâneo. Ele mistura mercado financeiro,
geopolítica e ciclos históricos com a tranquilidade de quem já viu bolhas
suficientes para não se impressionar com fogos de artifício.
Muitas
vezes é criticado por um certo alarmismo, mas sempre consegue identificar as
grandes linhas da economia, facilitado por uma capacidade de antecipar
cenários, tendo como base o profundo conhecimento de mercado
Eis o
núcleo do pensamento do Alex Krainer:
1. O
sistema financeiro ocidental entrou em fase terminal
Krainer
sustenta que EUA e Europa vivem um esgotamento estrutural, não um “ciclo ruim”.
Segundo
ele:
• Dívida excessiva + juros artificialmente
manipulados
• Bancos centrais presos a políticas que
já não funcionam
• Crescimento sustentado por impressão de
dinheiro, não por produtividade
Para
ele, não é crise passageira: é mudança de regime histórico.
2.
Bancos centrais viraram gestores políticos, não técnicos
Uma de
suas teses mais repetidas:
• O Federal Reserve e o BCE deixaram de
ser árbitros neutros
• Passaram a socializar prejuízos e
privatizar ganhos
• Criaram distorções gigantescas em preços
de ativos
Resultado:
mercados “funcionam”, mas não dizem a verdade.
3.
Commodities são o “ativo esquecido” do próximo ciclo
Krainer
é conhecido por defender commodities quando elas ainda eram o patinho feio do
mercado:
• Energia
• Metais industriais
• Alimentos
Ele vê
commodities como:
• Proteção contra inflação estrutural
• Ativos reais num mundo saturado de
ativos financeiros inflados
• Termômetro da geopolítica (sanções,
guerras, cadeias de suprimento)
Em
tradução livre: papel aceita tudo; barril de petróleo, não.
4. O
mundo caminha para a desdolarização
Krainer
antecipa — antes de virar moda — que:
• O dólar segue forte no curto prazo
• Mas perdeu a neutralidade geopolítica
• Sanções financeiras aceleram a busca por
alternativas
Ele
observa com atenção:
• China
• Rússia
• Blocos regionais
• Comércio bilateral fora do dólar
Não é
“fim do dólar amanhã”, mas erosão constante do monopólio.
5.
Geopolítica manda mais que planilha
Para
Krainer:
• Mercados não são autônomos
• São extensões da disputa de poder global
Guerras,
sanções, choques energéticos e crises institucionais não são exceções, mas
instrumentos.
O
investidor que ignora isso, segundo ele, opera no escuro.
6.
Crises não são acidentes — são ferramentas
Uma
ideia provocadora (e polêmica):
• Crises recorrentes funcionam como
mecanismos de reorganização de poder em tempos de crise
• Transferem riqueza
• Eliminam concorrentes
• Reforçam centros financeiros dominantes
Ele não
romantiza conspirações, mas insiste: inocência demais também é um erro
analítico.
Os
riscos presentes
Ai se
entra no cerne de seu raciocínio: as guerras são alternativas ao alto
endividamento dos EUA e de suas empresas. Desenvolve seu raciocínio da seguinte
maneira:
1. Dívida Pública: A “Prova de Fogo” de 2026
1. A dívida pública americana ultrapassou os
US$ 37 trilhões em 2025, e as projeções para 2026 indicam que o custo para
manter essa dívida (pagamento de juros) já consome cerca de 17% de todo o
orçamento federal.
• Risco de Liquidez: Em 2026,
aproximadamente US$ 9 trilhões em títulos da dívida (Treasuries) vão vencer e
precisarão ser refinanciados. Se o mercado exigir juros mais altos para comprar
esses novos títulos, o governo terá ainda menos dinheiro para investimentos
públicos.
• Perda de Confiança: Analistas do Goldman
Sachs alertam para um “acerto de contas”. Se os investidores estrangeiros
reduzirem a compra de títulos americanos, o dólar pode sofrer uma depreciação
estrutural, acelerando a desdolarização global.
• Pressão Fiscal: O déficit projetado de
6% a 7% do PIB limita a capacidade do governo de responder a novas crises ou
recessões.
2.
Endividamento Corporativo e o “Shadow Banking”
• As empresas americanas também enfrentam
desafios. Após anos de juros baixos, muitas se endividaram para financiar
recompras de ações e expansão.
• Crise no Crédito Privado: Um dos maiores
riscos citados para 2026 é o estresse no setor de crédito privado (empréstimos
feitos fora dos bancos tradicionais). Se empresas de médio porte começarem a
falhar devido aos juros ainda elevados, pode haver um efeito contágio no
sistema financeiro.
• A Bolha da IA: Existe o temor de que o
investimento massivo em Inteligência Artificial não traga o retorno esperado no
curto prazo. Se as empresas de tecnologia (que sustentam boa parte do índice
S&P 500) não entregarem lucros que justifiquem suas dívidas, pode ocorrer
um crash no mercado de ações.
O
Brasil no mundo de Alex Krainer
O ponto
nevrálgico da análise dele: a transição de um mundo de “riqueza de papel”
(ativos financeiros, derivativos, dívida) para um mundo de “riqueza real”
(energia, alimentos, infraestrutura).
Krainer
pertence a uma linhagem de analistas que veem o mercado não como um gráfico
isolado, mas como um subproduto da história e da força bruta. A análise dele
sobre o Brasil é particularmente provocativa porque inverte a lógica
tradicional: o que o mercado financeiro vê como “atraso” (ser uma economia de
commodities), Krainer vê como o único bote salva-vidas em um naufrágio
sistêmico do Ocidente.
Para
aprofundarmos essa reflexão, vale destacar três pontos críticos que conectam a
teoria dele ao cenário de 2026:
Pelos
cenários de Alex Krainer, o Brasil aparece como peça-chave do próximo tabuleiro
global.
1. Commodities = poder (se bem jogado)
No
enquadramento de Krainer, o Brasil não é periférico:
• Agro (soja, milho, carnes)
• Energia (pré-sal, hidro, bioenergia)
• Mineração (ferro, níquel, cobre; terras
críticas na mira)
Em
ciclos de inflação estrutural, quem entrega coisas reais manda mais que quem
entrega papel.
Risco
kraineriano: virar apenas fornecedor barato se não subir na cadeia (logística,
refino, indústria).
2.
Energia: vantagem estratégica silenciosa
Enquanto
Europa e EUA sofrem com choques:
• Brasil tem matriz relativamente limpa
• Pré-sal com custo competitivo
• Capacidade de amortecer crises
energéticas
Para Krainer, energia é geopolítica pura.
Aqui, o Brasil tem carta forte — se não a jogar mal.
3.
Dólar forte? Sim. Dependência eterna? Não.
Krainer
diria:
• O Brasil não precisa liderar a
desdolarização
• Precisa reduzir vulnerabilidades:
o Comércio bilateral
o Moedas locais
o Reservas diversificadas
Autonomia
pragmática, não cruzada ideológica.
4.
Sistema financeiro: o ponto fraco
Onde
Krainer pisaria no freio:
• Juros estruturalmente altos
• Financeirização drenando investimento
produtivo
• Mercado de capitais curto-prazista
Commodities
fortes + finanças fracas = crescimento capenga.
Fonte:
Jornal GGN

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