sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

José Machado: O regozijo odioso dos vendilhões da pátria

Os governadores Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), Ratinho Júnior (PSD-PR), Ronaldo Caiado (União Brasil-GO), Romeu Zema (Novo-MG) e Cláudio Castro (PL-RJ), além do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), manifestaram-se nas redes sociais, aplaudindo o sequestro do presidente da Venezuela e o bombardeio contra Caracas e outras cidades venezuelanas, perpetrado pelas forças militares norte-americanas, a mando de Donald Trump.

Não deveríamos nos surpreender com o posicionamento desses senhores, afinal de contas, eles são quem são. Mas que isso causa uma espécie de indignação, ah, lá isso causa. Com exceção de Cláudio Castro, que almeja uma cadeira no Senado, os demais são postulantes à presidência da República. O fato de serem todos eles assumidamente de direita não os exime de terem uma postura condenatória à atitude dos Estados Unidos, que é frontalmente agressiva e desrespeitosa à soberania e à autodeterminação dos povos, princípios inscritos no Direito Internacional e na Carta das Nações Unidas. Além disso, ao apoiarem tal atitude, acabam por legitimar o intento neocolonialista de Trump sobre a América Latina, que se arvora no direito de intervir em qualquer país do nosso continente, inclusive pela força das armas, desde que sirva aos interesses norte-americanos.

Para evidenciar que existe uma direita mais perspicaz, trago aqui o posicionamento da líder da extrema-direita francesa, Marine Le Pen: "A soberania dos Estados nunca é negociável, independentemente do seu tamanho, do seu poder ou do continente em que se encontram. Ela é inviolável e sagrada. A renúncia a esse princípio equivale a aceitar 'nossa própria servidão'... e isso seria um 'perigo mortal' para a humanidade". E acrescenta: "Resta-nos apenas esperar diante dessa situação que a palavra seja devolvida o mais rápido possível ao povo venezuelano. É a ele que deve caber o poder de definir, soberana e livremente, o futuro que deseja para si como nação".

Trump, ao se pronunciar em entrevista coletiva sobre o fato ocorrido, não corou a sua face alaranjada ao afirmar categoricamente que pretende assumir o controle do petróleo venezuelano, dando a entender que, para além das aparências de querer combater o narcotráfico ou mesmo libertar a Venezuela do jugo de Maduro, o que lhe move de verdade são as riquezas minerais daquele país. Mas Trump não está de olho apenas no petróleo venezuelano. Ele vislumbra algo ainda mais ambicioso, seja para surrupiar os estratégicos minerais raros, disponíveis abundantemente no Brasil, seja para tornar a América Latina um mercado disponível exclusivamente para os Estados Unidos.

A ideia de ressuscitar a Doutrina Monroe (rebatizada pelo próprio Trump, como auto-homenagem, de Doutrina "Donroe") e, nessa perspectiva, recolonizar a América Latina, tem a ver obviamente com a disputa geopolítica com outros países, sobretudo a China. Os Estados Unidos, sob Trump, passaram a compreender os riscos do multilateralismo e dos novos arranjos geopolíticos como os BRICS e, ao invés de se imporem pela via diplomática, pela envergadura moral e pela negociação, a partir de suas vantagens tecnológicas comparativas, optaram pela guerra comercial (vide os tarifaços) combinadamente com a agressão militar e o uso ardiloso das big techs.

Nesse contexto, o Brasil é um alvo estratégico dos Estados Unidos, só não vê quem não quer ou tem cumplicidade. O Brasil é a maior economia da América Latina, é rico em minerais estratégicos raros, e está, sob Lula, engajado no multilateralismo (vide o seu papel protagônico nos BRICS, no acordo do Mercosul com a União Europeia, no G-20, na COP30, no Sul Global, etc.) e na defesa intransigente da soberania nacional. Além disso, o Brasil na atualidade tem na China o seu maior parceiro comercial. Esse quadro é inaceitável para os Estados Unidos, principalmente sob Trump. Nesse sentido, o ataque à Venezuela deve ser considerada uma ponta de lança para, num bote futuro mais ousado, tentar submeter o Brasil ao seu jugo.

Os presidenciáveis mencionados, todos eles de baixa estatura moral e política, que apoiaram a ação armada contra a Venezuela não compreendem os riscos para o Brasil. E, se compreendem, mas ousam menosprezar, é porque aceitam, sem pudor, o papel de vendilhões da Pátria.

Para Tarcísio “MAGA” de Freitas, Ratinho, Flávio Bolsonaro e os demais mencionados não faz nenhum sentido sonhar com um Projeto de País, que afirme o multilateralismo e a soberania nacional; e que, ademais, não abre mão de buscar alcançar um patamar elevado de desenvolvimento econômico-social, justo e ambientalmente sustentável.

Essas figuras sinistras e antipatrióticas, ao contrário, preferem um Brasil subalterno aos Estados Unidos, mesmo que isso custe manter nosso país no eterno estágio de subdesenvolvimento econômicos e social, com renda média baixa, desigualdades sociais abissais e enormes contingentes de extrema pobreza.

Essas figuras sinistras, antipatrióticas e andidemocráticas repudiam o que consideram a Ditadura na Venezuela, mas sempre estiveram (e continuam) de mãos dadas com os que planejaram dar um golpe de Estado no Brasil, para implantar uma Ditadura aqui. Hipócritas!

Os Estados Unidos perderam ao longo dos anos parcelas importantes de sua influência global e, por essa razão, o governo Trump, sob o lema “Make America Great Again/Fazer a América Grande Novamente” (ou MAGA) projeta retomar a América Latina como seu quintal e expropriar suas riquezas, mesmo se for na marra.

O Brasil pode, e deve, manter relações diplomáticas e comerciais com os Estados Unidos, como o faz livremente com outros países do Planeta. Mas sem beijar a bandeira norte-americana e sem vestir o boné vermelho com a inscrição “MAGA”.

Vassalagem, jamais! Soberania sempre!

•        Hipocrisia imperialista: petróleo, droga e subserviência da direita brasileira. Por Chico Vigilante

A recente escalada de ameaças dos Estados Unidos contra a Venezuela, sob o pretexto raso de um "combate ao narcotráfico", é uma farsa cínica que deve ser desmascarada com vigor. Não posso me calar diante desta nova investida imperialista, que encontra eco vergonhoso em setores da extrema-direita brasileira. A história recente, que muitos tentam apagar, nos fornece as chaves para entender o jogo. O alvo real não é um suposto combate às drogas, mas as vastas riquezas do subsolo venezuelano, o imenso mar de petróleo que há décadas atiça a cobiça do Tio Sam.

A hipocrisia da narrativa norte-americana salta aos olhos quando confrontada com seus próprios atos. O mesmo governo que hoje vocifera contra Maduro, no passado recente perdoou um ex-presidente de Honduras condenado por tráfico de drogas. O silêncio ensurdecedor de então, de figuras como Trump, sobre graves episódios que mancharam outros países, revela a seletividade geopolítica de sua "guerra às drogas". Essa guerra só é declarada quando serve a interesses estratégicos e econômicos, nunca quando envolve aliados submissos ou quando a sujeira respinga em suas próprias elites.

Nós, brasileiros, sabemos bem como essa hipocrisia se manifesta. Não podemos e não vamos esquecer o dia 25 de junho de 2019, quando um sargento da Aeronáutica foi preso no aeroporto de Sevilha, na Espanha, com 39 quilos de cocaína em um avião da Presidência da República. Era a aeronave oficial, à disposição do então presidente Bolsonaro, em viagem para uma cúpula do G20. Esse episódio gravíssimo, que expôs ao mundo o envolvimento de entes oficiais brasileiros no narcotráfico, foi convenientemente varrido para debaixo do tapete pela mesma extrema-direita que hoje aponta o dedo para a Venezuela.

Essa mesma direita subserviente, que passa uma borracha em seus próprios escândalos, agora se faz de surda e cega aos reais motivos do cerco à Venezuela. Eles, que deveriam zelar pela soberania nacional, chegam ao cúmulo do repugnante: há figuras no Congresso, como certo deputado mineiro que chamo de "chupetinha do império", que ousam pedir a invasão do Brasil e a prisão do presidente Lula pelos Estados Unidos. São picaretas que não entendem o significado de nação, que cospem no conceito de nacionalismo e atraiçoam a defesa da pátria em troca de likes e aplausos de seus senhores estrangeiros.

Portanto, quando vejo esses setores apoiando as investidas contra Caracas, enojamento é pouco. É uma traição dupla: à história do nosso próprio país, com seus episódios obscuros que eles insistem em esquecer, e ao futuro da América Latina, que precisa de integração e não de intervenção. Eles protegem traficantes de farda em seu próprio quintal enquanto acusam, sem provas, um presidente estrangeiro. Sua moral é de conveniência, seu patriotismo, de fachada.

A defesa da soberania venezuelana é, assim, inseparável da defesa da nossa própria soberania. Permitir que a narrativa hipócrita do combate às drogas justifique uma agressão é abrir um precedente perigosíssimo para toda a região. O petróleo venezuelano é do povo venezuelano. As contradições e problemas da Venezuela devem ser resolvidos pelos venezuelanos, sem a espada nem o dólar estadunidense ameaçando sua autodeterminação.

Como deputado de esquerda, sempre lutei contra as amarras do imperialismo e em defesa dos recursos nacionais. O ataque à Venezuela é a face mais crua dessa lógica. Reavivar a memória sobre o caso do avião presidencial carregado de cocaína não é mero revisionismo; é um dever político para desnudar quem, de fato, compactua com o tráfico e a ilegalidade quando isso lhe interessa. A luta é pela verdade.

Conclamo a sociedade brasileira a rejeitar esse discurso belicista e hipócrita. Devemos repudiar veementemente os canalhas internos que pedem intervenção estrangeira e nos solidarizar com o povo irmão da Venezuela. O caminho para a América Latina é o da união, da diplomacia e do respeito mútuo, nunca o da pilhagem disfarçada de moralidade. A extrema-direita brasileira que se alinha a esse projeto não merece respeito, mas sim a nossa mais firme e organizada resistência.

 

Fonte: Brasil 247

 

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