Amanda
Laudi: Após 8 de janeiro, governo gasta R$ 26 mi para ensinar democracia a
agentes de segurança
Depois
dos ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023, o Ministério da Justiça e
Segurança Pública (MJSP) do governo Lula já gastou mais de R$ 26 milhões, ao
longo de três anos, para capacitar agentes da segurança pública sobre como
defender o Estado Democrático de Direito. Naquele dia, policiais não
conseguiram conter o ataque dos manifestantes contra os prédios dos Três
Poderes em Brasília. Alguns “desistiram de lutar” e outros até abriram espaço
para a invasão.
O
episódio, que completa três anos nesta quinta-feira, deixou marcas na
democracia brasileira e foi uma das peças fundamentais para levar à condenação
o ex-presidente Jair Bolsonaro e outros réus acusados de planejar e articular
atos golpistas.
O curso
“O Papel dos Profissionais do Sistema Único de Segurança Pública na Defesa do
Estado Democrático de Direito” foi lançado ainda em 2023, poucos meses após os
episódios de vandalismo. Desde então, 29.923 agentes das 27 unidades da
federação concluíram a formação, que é on-line, tem duração de 60 horas e
oferece bolsa de R$ 900 para os aprovados. A grande maioria dos participantes é
formada por policiais e bombeiros militares. O número é relativamente baixo e
representa cerca de 6% do contingente de quase 500 mil policiais militares e
civis do país, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
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Por que isso importa?
• Agentes de Segurança do Distrito Federal
não conseguiram conter os atos de vandalismo praticados no dia 8 de janeiro de
2023.
• O STF informou em dezembro de 2025 que
810 pessoas foram condenadas pelos atos, além de 564 Acordos de Não Persecução
Penal.
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Estados com mais participantes
A
capacitação serve para complementar a formação obrigatória dos agentes, que já
têm no currículo noções sobre direitos humanos e o papel das forças de
segurança segundo a Constituição de 1988. Esses temas, porém, aparecem de forma
transversal em diferentes disciplinas, e não como um eixo específico da
formação inicial.
Para
Guaracy Mingardi, cientista político especialista em segurança pública,
iniciativas como essa podem ajudar, mas não resolvem um problema estrutural. “O
mais importante é ter um sistema de informações bom e antenado com a
democracia. E isso é um caminho longo”, afirma.
“Não é
apenas uma questão de formação, tem a ver com a cultura institucional. Pense no
caso das polícias militares, só introduzir direitos humanos no currículo não
mudou muita coisa. As melhorias têm mais a ver com o controle por parte das
chefias e do Ministério Público do que com o ensino propriamente”, continua
Mingardi.
Lenin
Pires, professor do Departamento de Segurança Pública da Faculdade de Direito
da Universidade Federal Fluminense, acredita que o investimento do governo nas
aulas foi “até barato”, considerando que pode haver uma inibição para os
policiais que receberam a bolsa. “Não quer dizer que um curso vai mudar a
cabeça das pessoas, particularmente no interior das polícias, mas sempre há um
constrangimento dependendo de como as instâncias superiores vão lidar com
isso”, afirma.
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Participantes por cargo
Segundo
o promotor do Ministério Público do Distrito Federal (MP-DF) Antônio Suxberger,
palestrante do curso, a necessidade de capacitações voltadas à democracia para
agentes de segurança já era discutida, mas os ataques de 8 de janeiro
“despertaram para a emergência” de reforçar esse conteúdo na formação dos
agentes.
“A
captura de agentes do Estado em favor de pautas antidemocráticas não é um risco
presente unicamente nas forças de segurança pública. O fenômeno assusta, quando
se trata dos órgãos de segurança, por conta do uso diferenciado da força de que
fazem uso esses órgãos de Estado. A preocupação dirigida à afirmação de uma
pauta firme e seriamente comprometida com a democracia deve ser perene”, afirma
Suxberger.
O curso
sobre a defesa do Estado Democrático de Direito faz parte do Programa Nacional
de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci 2). Os módulos incluem noções
sobre o Estado Democrático de Direito, origens históricas do conceito de
polícia, os desafios do Estado brasileiro e a segurança pública, e polícia e
esfera política.
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Golpistas também tiveram que estudar
A
formação dos agentes é semelhante à que os acusados pelos atentados de 8 de
janeiro que optaram por acordos de não persecução penal foram obrigados a
fazer. Ambas focam na importância da defesa da democracia e a submissão das
forças de segurança à Constituição Federal.
Bolsonaristas
que fecharam acordo com a Procuradoria-Geral da República para encerrar as
ações penais referentes ao 8 de janeiro tiveram que assistir a aulas sobre
“Democracia, Estado de Direito e Golpe de Estado”, com conteúdo feito pela
Escola Superior do Ministério Público da União.
A ideia
da inclusão do curso nos acordos foi inspirada em sentença da Corte
Interamericana de Direitos Humanos sobre o caso Gomes Lund, que em 2010
condenou o Brasil pelas mortes e desaparecimentos da Guerrilha do Araguaia,
durante a ditadura militar. A Corte impôs ao país, como garantia de não
repetição das práticas, a implementação de programa de educação em direitos
humanos permanentes dentro das Forças Armadas em todos os níveis hierárquicos.
Pelo
menos um militar que se tornou réu por incitação ao golpe de Estado vai
assistir às aulas. O coronel da reserva José Placídio Matias dos Santos, que
conclamou as Forças Armadas contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no 8
de janeiro, obteve autorização para suspender a ação penal que respondia em
troca de admitir culpa, pagar uma multa, ficar fora das redes sociais, prestar
serviços comunitários, e aprender sobre democracia.
• Há três anos: “Golpe adentro, temi ser
linchada”. Por Tereza Cruvinel
Naquele
domingo, logo que eu soube do que estava acontecendo em Brasília, corri para a
Esplanada dos Ministérios. Uma live estava em curso na TV 247 e decidi que o
melhor seria eu fazer algumas entradas ao vivo de lá. Na época alguns disseram
que fui voluntarista ou insensata, mas fiz o que mandou meu senso profissional.
O que vivi naquele dia, as agressões que sofri e o medo que senti em alguns
momentos, relatei no artigo que se segue, publicado então pelo Brasil 247, pelo
site da ABI, por outras publicações nacionais, por um jornal do Chile e um da
Argentina.
Dois
dias depois foi que entendi porque tantos grupos de bolsonaristas me cercavam e
me agrediam na Esplanada. Alguém me enviou uma foto minha que circulou entre os
grupos de Whatsapp deles, avisando que eu estava “fotografando os patriotas”
para serem identificados. Reproduzo aqui
a foto juntamente com o artigo.
No dia
9, o então ministro-chefe da Secom, Paulo Pimenta, fez uma reunião com 12 que
relataram ter sofrido violências e agressões durante os ataques aos Três
Poderes. Alguns viveram situações mais graves do que eu. A pedido de Pimenta a
Polícia Civil abriu um inquérito específico para apurar agressões a
jornalistas, mas ele foi encerrado sem que fosse possível identificar os
agressores.
• Bolsonaristas invadem ato da esquerda
contra a anistia, promovem pancadaria e são expulsos
Um ato
em defesa da democracia e contra a anistia aos golpistas envolvidos nos ataques
de 8 de janeiro de 2023 foi marcado por tumulto após a invasão de bolsonaristas
na noite desta quinta-feira (8), no Salão Nobre da Faculdade de Direito da USP,
no Largo de São Francisco, centro de São Paulo. Vídeos gravados por
participantes e pelos próprios envolvidos mostram provocações, agressões
físicas e a expulsão dos invasores do local.
A
manifestação, organizada pelo PT-SP, pelo Centro Acadêmico XI de Agosto e pelo
grupo Prerrogativas, reuniu dezenas de entidades e marcou os três anos da
invasão às sedes dos Três Poderes, além de protestar contra o Projeto de Lei da
Dosimetria, vetado horas antes pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva . O
objetivo central do ato era afirmar o 8 de janeiro como uma data de memória,
vigilância democrática e rejeição a qualquer tentativa de perdão aos envolvidos
na trama golpista.
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Provocação bolsonarista e confronto
A
confusão teve início quando o ex-deputado estadual Douglas Garcia (União
Brasil) entrou no salão e subiu até as galerias para gravar vídeos e provocar
os manifestantes, tática conhecida do Movimento Brasil Livre (MBL), grupo ao
qual pertencia Garcia. Aos gritos de
“fascista” e “sem anistia”, os presentes reagiram e passaram a expulsá-lo do
espaço. Garcia teve a camisa rasgada e foi forçado a descer as escadarias sob
vaias.
No
térreo, a situação se agravou com a presença do vereador paulistano Rubinho
Nunes (União Brasil), de sua equipe, e do vereador de Vinhedo Malcon Mazzucatto
(União Brasil). Houve troca de socos e empurrões, registrada em vídeos que
circularam nas redes sociais. As imagens mostram os bolsonaristas discutindo e
entrando em confronto físico com militantes, enquanto policiais acompanhavam a
cena sem intervir.
Do
outro lado, militantes relataram agressões por parte dos políticos
bolsonaristas. Luiz Nicoletti, 21, do coletivo Graúna, afirmou ter sido atacado
pelo vereador. “Eles vieram tumultuar, principalmente Douglas, que vira e mexe
está em atos da esquerda. A polícia só ficou cercando o local, sem nenhuma
intervenção”, disse.
Em
nota, o Centro Acadêmico XI de Agosto responsabilizou diretamente os
bolsonaristas pela confusão e classificou o episódio como uma ação planejada
para gerar confronto e exploração política nas redes.
“Trata-se
do conhecido modus operandi do bolsonarismo e de seus grupos satélites:
infiltrar-se em manifestações da esquerda e dos movimentos sociais com o único
intuito de tumultuar, incitar conflitos e fabricar narrativas vitimistas para
as redes sociais. O objetivo é claro: criar o caos para constranger a luta
popular e gerar engajamento através da mentira”, afirmou a entidade.
Para o
CA, foi “inadmissível” que, justamente na data que simboliza a resistência
democrática, o espaço fosse usado para provocação de bolsonaristas.
Fonte:
Agencia Pública/Brasil 247/Fórum

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