Faça
aos outros o que gostaria que fizessem a você
Os
cristãos parecem não ter mais muito espaço na esquerda — e aqueles que ainda
restam raramente falam abertamente sobre sua fé. No entanto, como Tony Benn
frequentemente apontava, existe uma longa história do que ele chamava de
socialismo cristão, uma corrente com a qual simpatizava profundamente, apesar
de não se identificar como cristão.
E
sempre que falo sobre como minha própria espiritualidade influencia minha
política, muitos outros se manifestam dizendo que também foram inspirados a se
envolver na militância socialista por razões semelhantes — mesmo que não
destaquem esse aspecto de sua identidade política em círculos militantes. Essa
tensão entre a visão generalizada na esquerda de que a Igreja muitas vezes
representa uma força regressiva na sociedade britânica e a fé cristã
profundamente arraigada de muitos militantes de esquerda é muito real — e
suspeito que seja uma tensão que não se limita à minha própria Igreja
Anglicana.
As
raízes da compreensão de Tony Benn sobre o socialismo cristão residem na sua
identificação da profunda divisão que sempre existiu entre as instituições
religiosas, enquanto bastiões do status quo, e a promessa revolucionária da
espiritualidade cristã — melhor exemplificada nos modos de vida comunistas
praticados pelos primeiros cristãos. Os ensinamentos de Jesus encontraram forte
resistência perante as autoridades religiosas da época precisamente porque a
ideia de amor radical, que se encontra na base do cristianismo — e, de fato, da
maioria das grandes religiões — é uma afronta à religião organizada, que muitas
vezes se preocupa mais com questões de poder.
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Conservadorismo cristão
AIgreja
Anglicana é, sem dúvida, um bastião do status quo na sociedade britânica. A
Igreja da Inglaterra é a décima terceira maior proprietária de terras do país;
possui mais de 40 mil hectares de terra, avaliados em mais de 2 bilhões de
libras. Justin Welby, o atual líder da Igreja da Inglaterra, é um ex-aluno de
Eton e graduado pela Universidade de Cambridge, que passou o início de sua
carreira trabalhando na indústria petrolífera. Sua chefe é, naturalmente, a
Rainha. Isso não significa que a Igreja não faça nada de bom. Os fiéis costumam
ser alguns dos primeiros voluntários em centros de distribuição de alimentos,
centros para jovens e projetos para pessoas em situação de rua. E o próprio
Welby já fez campanha sobre questões como a relação entre austeridade e o uso
de bancos de alimentos, sonegação de impostos e imigração. Mas a postura
voluntarista da Igreja prioriza a filantropia e campanhas pontuais em
detrimento de reformas estruturais que poderiam, de fato, oferecer soluções
para esses desafios.
E há
muita verdade na ideia de que a Igreja Anglicana é o Partido Conservador em
oração. Em 2017, 58% dos membros da Igreja da Inglaterra votaram nos
Conservadores. Quando fui levada à igreja ainda jovem, frequentemente me
perguntava como alguém que se dizia cristão poderia justificar votar no Partido
Conservador. Recebi diversas explicações tímidas sobre a necessidade de manter
política e fé separadas, ou sobre a diferença entre praticar o amor e a
tolerância na própria vida e tentar construir uma sociedade baseada em
princípios cristãos, que, em um mundo imperfeito, inevitavelmente descambaria
para o totalitarismo.
Nos
Estados Unidos, onde pode ser ainda mais difícil entender como eleitores
republicanos, defensores do porte de armas e negacionistas das mudanças
climáticas, podem se declarar cristãos, os evangélicos estiveram no centro do
movimento para eleger Donald Trump. Uma das vertentes mais importantes desse
movimento é a chamada “teologia da prosperidade”, que forneceu uma base
ideológica para a direita religiosa nos Estados Unidos. Seus adeptos sustentam
que a riqueza é uma bênção de Deus que pode ser acumulada com base em
expressões de fé ou doações a uma determinada igreja, dando grande importância
à Parábola dos Talentos encontrada nos evangelhos de Lucas e Mateus.
Mas,
embora essa doutrina seja predominantemente estadunidense, o conservadorismo
cristão está longe de ser um fenômeno exclusivo dos EUA. Ao conversar com
cristãos praticantes em países ricos, percebe-se que eles frequentemente estão
entre os primeiros a defender o status quo, ao mesmo tempo que expressam
compaixão por suas vítimas. Nesse contexto, a fé cristã se torna, nas palavras
de Tony Benn, uma “injunção generalizada dirigida aos ricos e poderosos para
que expressem seu amor sendo bons e gentis; e aos pobres para que retribuam
esse amor sendo pacientes e submissos”. Não é de se admirar que as pessoas
vejam cada vez mais o cristianismo como uma mistura confusa de contradições e
hipocrisia.
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A prática e a pregação
Mas a
hipocrisia da Igreja revela sua natureza dual. Por um lado, a Igreja é uma
instituição que funciona como um centro de conexões glorificado para a elite
britânica e, historicamente, como uma forma de exigir obediência da maioria da
população sob supostos pretextos éticos. Por outro lado, a vida e os
ensinamentos de Jesus nos encorajam a questionar constantemente a autoridade
arbitrária, a priorizar o cuidado mútuo em detrimento da competição e a exaltar
tanto a natureza quanto a vida humana como sagradas, em oposição a uma
sociedade que as trata como descartáveis.
É claro
que o interesse de classe puro e simples se sobrepõe à religião na maioria das
vezes — da mesma forma que também prevalece sobre a ideologia. Liberais
fervorosos frequentemente sacrificam seu suposto compromisso com a liberdade de
expressão quando se trata de reprimir as atividades dos sindicatos; e cristãos
ricos facilmente se esquecem das passagens bíblicas em que Jesus fala sobre a
influência corruptora da riqueza na alma humana.
Mas o
fato de a classe social poder se sobrepor à ideologia não significa que a
ideologia seja irrelevante. A teoria liberal fornece um conjunto de padrões
pelos quais podemos avaliar as conquistas do liberalismo na prática — uma
comparação que revela as profundas deficiências do mundo em que vivemos. Um
mundo com liberdade de expressão e mercados genuinamente livres seria muito
diferente daquele em que vivemos, onde o protesto é criminalizado enquanto as
grandes empresas e instituições financeiras saem impunes de suas transgressões.
Da
mesma forma, observar que a Igreja Cristã muitas vezes age como um baluarte do
status quo não deve nos impedir de notar a enorme lacuna que existe entre as
práticas diárias da Igreja e a natureza radical dos ensinamentos cristãos.
Quando conversei com o Dr. Cornel West no meu podcast A World to Win [Um Mundo
a Ganhar], tivemos uma longa discussão sobre o papel do cristianismo no
movimento socialista. Ele falou sobre como sempre se viu como “um cristão
revolucionário, no sentido do legado de Martin Luther King e Fannie Lou Hamer”.
Ele reconheceu as críticas à Igreja Cristã feitas por grupos como os Panteras
Negras, bem como as críticas às próprias escrituras — particularmente
“elementos da Bíblia Hebraica sobre genocídio e patriarcado”, que, segundo ele,
devem ser mantidos à distância do restante dos ensinamentos de Jesus.
Mas,
segundo o Dr. West, o fundamento do cristianismo é a ideia de que “a forma mais
elevada de ser humano é espalhar a bondade amorosa”. Essa compreensão do
cristianismo como um projeto de “libertação e emancipação” — do tipo buscado
por Moisés — exige que façamos “uma crítica profunda não apenas ao Faraó, mas
também ao sistema que o mantinha no poder”.
E esses
elementos radicais também podem ser encontrados nas próprias escrituras. West
cita a expulsão dos mercadores do templo por Jesus:
Quem
são os verdadeiros magnatas do império estadunidense? Wall Street, Pentágono,
Casa Branca, Congresso, Hollywood, todos no mesmo lugar. Harvard, Yale,
Princeton, todos no mesmo lugar. Jesus os expulsa a todos. E é por isso que ele
foi crucificado pelo império mais poderoso da época. Então, nesse sentido, há o
que eu chamo de uma faísca profética naquela escritura hebraica; vinda de
Jesus, de Maomé à sua maneira profética, que leva a um Malcolm X, por exemplo.
Essa
visão do cristianismo teria encontrado eco em Tony Benn, que via a Bíblia como
uma história de luta entre “os reis que detinham o poder e os profetas que
pregavam a justiça”. “Essa interpretação radical da mensagem de fraternidade e
sua clara agitação anti-establishment”, argumentava ele, “surgiu repetidas
vezes ao longo de nossa história”, desde a Revolta Camponesa, passando pelos
Diggers, até os metodistas que ajudaram a formar o Partido Trabalhista.
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Cristianismo revolucionário
Éclaro
que não estou argumentando que seja necessário ser cristão, ou mesmo ter
qualquer fé, para ser socialista. Concordo com Tony Benn que os socialistas
podem aprender muito com os ensinamentos de Jesus, o que nos permite expor uma
elite que se reveste de religiosidade, enquanto sequer tenta viver como Jesus
viveu. O próprio Jesus fez exatamente isso com os fariseus, que o viam como uma
ameaça ao seu poder e prestígio: ele usou seu conhecimento incomparável das
escrituras hebraicas para encurralá-los, expondo sua hipocrisia para todos
verem.
Esse
argumento é corroborado pela mensagem do próprio Dr. Martin Luther King Jr.,
cujo legado radical é frequentemente ignorado por uma elite que busca cooptar
sua vida. Talvez o elemento mais relevante dos ensinamentos do Dr. King hoje
seja sua observação de que:
O poder
sem amor é imprudente e abusivo, e o amor sem poder é sentimental e anêmico. O
poder, em sua melhor forma, é o amor implementando as exigências da justiça, e
a justiça, em sua melhor forma, é o poder corrigindo tudo o que se opõe ao
amor. Os socialistas frequentemente se dirigem ao mundo com uma mensagem de
amor que ignora as realidades do poder; e se dirigem uns aos outros com uma
orientação voltada para o poder que ignora nossa mensagem de amor.
A fé
cristã oferece tanto um conjunto de ensinamentos que podem expor a hipocrisia
dos poderosos, quanto um conjunto de práticas a serem observadas em nossas
interações com o mundo e uns com os outros. Só por isso, já vale a pena dedicar
alguma atenção à vida e à obra de Jesus.
Fonte:
Por Grace Blakeley - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil

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