A
soberania nacional tecnológica
Estamos
entrando no último ano do terceiro governo Lula e a aproximadamente dez meses
das eleições presidenciais de 2026. O atual governo teve alguns importantes
momentos para proposição de políticas econômicas e sociais alternativas, muito
especialmente a taxação das grandes fortunas, a isenção do imposto de renda
para quem recebe até cinco mil reais e a luta pela inconstitucionalidade da
jornada de trabalho 6 por 1. Parece-nos que uma análise mais detida nos
aspectos econômicos e que retirem algumas consequências táticas em termos de
intervenção política se faz necessário.
Utilizamos
os dados divulgados pelo IBGE em duas pesquisas diferentes (PIM e PNAD-C)[i]
para estabelecer um quadro geral da conjuntura econômica e principalmente
retratar elementos do mercado de trabalho, tanto para vislumbrar possíveis
alterações no quadro social, quanto pensar a intervenção política no próximo
ciclo.
Primeiro
vale analisar os dados da Pesquisa Industrial Mensal, mesmo que o peso da
indústria não tenha se alterado substancialmente, a despeito do projeto de
“Nova Indústria Brasil”, porém sua significação sobre o emprego urbano e
influência sobre os demais setores (serviços, agropecuária e construção civil)
mantém-se como sinalizador do desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) como um
todo e, principalmente como um elemento que pode ou não sugerir alterações no
quadro econômico de médio prazo.
O
declínio da indústria nacional e sua recuperação já é um ponto de debate
estrutural central, se tornando ainda mais relevante em função das grande
alterações geopolíticas colocadas, algo expresso no próprio discurso
estadunidense, tanto nos governos republicanos (Donald Trump) quanto nos
democratas (Joe Biden e Kamalla Harris), portanto acompanhar esses dados são
centrais para pensarmos possíveis saídas para o caso brasileiro e também como
as políticas de geração de novos postos de trabalho industriais devem se
colocar na centralidade do debate nacional em torno da soberania nacional
tecnológica.
Assim,
mesmo que o peso da indústria de transformação na composição do PIB tenha se
reduzido nos últimos anos, de 20%, na década de 1980, para somente 14,4% em
2024, alterando a produção industrial podemos interferir com grande expressão
no crescimento do PIB dos próximos anos e, principalmente, na geração de
empregos de qualidade tecnológica superiores, estabelecendo uma agenda tanto de
reindustrialização, quanto de organização das cadeias de produção nacionais.
Para o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI, 2025)[ii]
a manutenção de um mesmo padrão industrial tem dificultado uma retomada
inovativa da indústria brasileira.
Nos
“nove meses já cobertos pelas estatísticas do IBGE, a indústria não cresceu em
cinco deles e nos demais meses, em geral, ficou perto da estabilidade”, sendo
fundamental o fortalecimento de uma política de planejamento industrial de
longo prazo para o país, o que aqui denominamos de fortalecimento da soberania
nacional tecnológica.
Os
dados da PIM (Pesquisa Industrial Mensal) mostram desempenhos tímidos e que
para podermos pensar um outro padrão industrial terão que ser alterados, uma
tarefa central para se pensar um projeto de nação. Assim, se observam os
seguintes parâmetros gerais, em comparação ao ano de 2024:
Indústria
geral: +3,2% no 4º trim/24; +2,0% no 1º trim/25; +0,6% no 2º trim/25 e +0,5% no
3º trim/25; Bens de capital: +14,1; +4,6%; -2,2% e -2,4%, respectivamente; Bens
intermediários: +2,9%; +1,4%; +3,0% e +2,5%; Bens de consumo duráveis: +17,1%;
+11,4%; +5,6% e -1,2%; Bens de consumo semi e não duráveis: 0%; +1,2%; -5,3% e
-3,1%, respectivamente.
Mesmo
considerando a fragilidade apresentada nos dados é importante observar um certo
comportamento positivo do setor de bens intermediários, havendo um parcial
rompimento com o retrocesso duradouro do setor que tinham marcado o período que
vai de 2015 a 2022. Segundo os dados do IBGE o setor responsável por fornecer
insumos ao restante da economia cresceu no último bimestre 2,5%, porém a
questão a ser observada é menos a magnitude do crescimento e mais a sua
permanência que vêm ocorrendo nos últimos quatro intervalos trimestrais.
Infelizmente não se observa esse comportamento em outro segmento chave: o de
bens de capital.
Os
dados da indústria podem ser cruzados com os dados de ocupação fornecidos pela
última PNAD-C, sendo que no terceiro trimestre de 2025 (ago/out) o IBGE
(Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostra que a taxa de
desocupação alcança o menor nível dos últimos cinco anos (5,6% ou 6,04 milhões
de brasileiros), porém a taxa combinada de desocupação e subocupação da força
de trabalho ainda se encontra muito elevada, próximo a 10% da força de trabalho
potencial, ou algo em torno de 10,5 milhões de trabalhadores nesta dupla
condição.
Vale
observar que a força de trabalho brasileira se torna crescentemente
precarizada, isso em função tanto das contrarreformas dos últimos anos de
neoliberalismo sanguinário (período Michel Temer/Jair Bolsonaro), quanto pelas
novas tecnologias de plataforma (capitalismo de plataforma) que avançam em
novas formas de informalidade e perdas de direitos sociais.
O
número de trabalhadores empregados no regime de conta própria representa um
número muito expressivo da força de trabalho total brasileira, sendo que neste
terceiro trimestre de 2025 representa 25,27% de uma força de trabalho total de
102,43 milhões de trabalhadores, ou seja, algo em torno de 25,27 milhões de
pessoas.
Esse
elevado número se coaduna com as formas precárias de emprego que se estabelecem
em um mercado de trabalho pouco estruturado e que apresenta elevada
informalidade. Assim, os dados de trabalhadores na informalidade também
continuam muito expressivos, o que denota uma característica estrutural da
economia brasileira, por mais que tenha havido uma pequena redução na taxa de
informalidade, mas ela se mantém elevada: em 2017 era de 40,2% (3° trimestre),
em 2025 encontra-se em 37,8% (3° trimestre), o que representa aproximadamente
38,7 milhões de trabalhadores.
Os
números da economia apontam que o atual governo conseguiu somente no limite
estabilizar alguns dos aspectos mais críticos da economia brasileira: taxa de
desocupação e taxa de inflação, porém ainda perdura uma incapacidade de alterar
padrões estruturais que penalizam a sociedade brasileira e, muito
especialmente, sua população trabalhadora.
Aqui
vale ressaltar dois aspectos de não ruptura do governo Lula 3 em relação ao
período imediatamente anterior que tornaram a gestão pública e a organização da
sociedade brasileira piores, nos referimos a manutenção de um regime fiscal
extremamente contracionista, que bloqueia a capacidade de expansão dos
investimentos públicos, somente alterando muito tenuemente em relação ao regime
de teto de gastos dos governos ultra neoliberais de Michel Temer e Jair
Bolsonaro.
Do
mesmo modo não foi realizado uma alteração qualitativa nos aspectos da
legislação trabalhista, mantidas as regras espoliativas da LC 13.467/17,
inclusive sem uma política de regulamentação necessária do trabalho de
plataforma.
Interessa
aos setores democráticos populares estabelecer, frente este cenário, uma
política coordenada de intervenção que capitalize bandeiras sociais como a
taxação dos mais ricos e a proibição de jornadas de trabalho espoliativas como
a jornada 6 por 1, da mesma forma travar disputas na sociedade que empurre o
governo Lula para posições mais reformistas, inclusive em termos de políticas
industriais de longo prazo que organize um novo padrão de soberania nacional
tecnológica.
Fonte:
Por José Raimundo Trindade, em A Terra é Redonda

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