O
norueguês que inventou o sushi com salmão e conseguiu emplacá-lo no Japão
Em
1986, um homem do Ártico norueguês, profundamente apaixonado pelo Japão, teve
uma ideia que transformaria a forma como o mundo come sushi.
Naquela
época, a indústria norueguesa do salmão estava no auge, mas precisava abrir
novos mercados. Por isso, o governo lançou o Projeto Japão, esperando aumentar
as exportações de peixe para o país asiático, famoso pela sua predileção por
alimentos vindos do mar.
Mas
havia um problema: os japoneses não comiam salmão cru.
O jovem
norueguês em questão era Bjørn-Eirik Olsen. Profundamente fascinado pelo Japão,
ele começou a trabalhar como analista de mercado.
Sua
paixão pela cultura japonesa começou aos 12 anos, quando viu o clássico filme
de Akira Kurosawa (1910-1998) Os Sete Samurais (Shichinin no samurai), de 1954.
Em
2018, uma enquete realizada pela BBC elegeu Os Sete Samurais como o melhor
filme em língua não inglesa de todos os tempos.
"O
filme me cativou completamente e, naquele momento, decidi que queria ser como
eles", contou Bjørn-Eirik ao programa de rádio Witness History, do Serviço
Mundial da BBC.
Seu
interesse o levou a Osaka, uma importante cidade do Japão localizada a sudoeste
da capital do país, Tóquio.
Lá, ele
aprendeu o idioma e seguiu para a Universidade de Kyushu em Fukuoka, no sul do
Japão, para estudar a produção e o uso das algas.
A ideia
inicial do Projeto Japão era encontrar um novo mercado para peixes como o
capelim, cantarilho e o arenque, além do camarão.
Mas, no
final da década de 1980, a indústria norueguesa do salmão estava em rápido
crescimento. E Bjørn-Eirik Olsen percebeu o imenso potencial desta espécie de
peixe.
"Pude
observar que o segmento mais interessante do mercado japonês era o do sushi e
sashimi, dominado por peixes muito valiosos como o atum vermelho e a dourada,
além de vários tipos de frutos do mar", explica ele.
O peixe
servido cru no sushi e sashimi era vendido a preços até 10 vezes mais altos que
para cozinhar. Se o salmão norueguês conseguisse entrar naquele segmento, seria
algo transformador, mas havia um grande obstáculo.
"Quando
apresentamos pela primeira vez o salmão para sushi ou sashimi a profissionais
do setor, como atacadistas ou importadores, eles disseram: 'Não, nós,
japoneses, não comemos salmão cru", relembra Olsen.
"Eles
achavam que tinha cheiro de rio, que a textura não era adequada, que a cor não
era suficientemente vermelha."
Além
disso, acreditava-se no Japão que o salmão selvagem do Pacífico apresentava
risco de parasitas, enquanto o salmão do Atlântico, criado em cativeiro, era
considerado inferior.
Para
mudar esta percepção, Olsen e sua equipe criaram um novo nome para o produto.
Eles
eliminaram a palavra japonesa para salmão, shake, e a substituíram pelo nome
Noruee saamon, uma versão adaptada para o japonês de "salmão
norueguês".
Seguiram-se
campanhas de marketing e colaborações com chefs renomados, como Yutaka
Ishinabe, astro de um programa de cozinha de sucesso na televisão japonesa.
Mesmo
com estes esforços, o progresso foi lento, até que sobreveio a crise.
No
início da década de 1990, a produção de salmão em cativeiro na Noruega crescia
muito mais rápido que os compradores da Europa e dos Estados Unidos podiam
consumir. Com isso, toneladas de salmão ficaram encalhadas nos congeladores.
Os
preços despencaram, levando à falência metade dos piscicultores do país.
"Toda
a indústria do salmão corria o risco de entrar em colapso", explica Olsen.
Desesperados
para vender seus estoques, os exportadores noruegueses consideraram a venda de
12 mil toneladas de salmão para uma das maiores empresas pesqueiras do Japão,
para uso na sua cozinha tradicional, não no sushi, segundo ele.
"Se
isso for permitido, eles destruirão todo o nosso trabalho para criar a nova
reputação do salmão norueguês para sushi e sashimi", declarou Olsen aos
seus funcionários.
Em vez
disso, ele chegou a um acordo com a empresa japonesa Nichirei para a venda de 5
mil toneladas, a serem comercializadas como salmão para sushi.
Em
1994, com o fim do seu trabalho na comercialização do salmão norueguês para
sushi, Olsen deixou Tóquio e voltou para a Noruega. Ele estava otimista sobre a
consolidação do salmão no menu japonês.
No ano
seguinte, quando voltou ao Japão em visita, ele observou réplicas de niguiri de
salmão, feitas de plástico, na vitrine de uma loja de sushi.
Havia
réplicas de plástico de todos os alimentos que o estabelecimento servia, sinal
de que a tendência havia se estabelecido.
"Foi
ali que percebi um verdadeiro avanço, pois até as fábricas que produziam essas
imitações de plástico já fabricavam niguiri de salmão", afirma Olsen.
Mas
outro evento acabaria influenciando ainda mais o consumo de salmão cru entre os
japoneses.
Depois
de uma década de rápido crescimento, a bolha econômica do Japão estourou no
início dos anos 1990, aumentando a popularidade dos restaurantes de sushi mais
acessíveis, com correias transportadoras.
"Na
correia transportadora, enquanto o peixe circula, as crianças podem agarrá-lo
facilmente", conta Olsen.
"Elas
não tinham postura negativa contra o salmão e, quando viam passar um peixe
laranja ou dourado, elas pegavam. E gostavam muito."
"O
salmão norueguês praticamente se popularizou em poucos anos, graças a esta nova
forma de comer", explica ele.
Atualmente,
o salmão é um dos ingredientes de sushi mais populares em todo o mundo. E a
Noruega continua sendo o maior produtor de salmão por piscicultura, apesar das
preocupações ambientais sobre sua indústria e do impacto para os peixes
selvagens.
Bjørn-Eirik
Olsen continua viajando regularmente para o seu amado Japão e está escrevendo
um livro sobre sua experiência com o salmão e o sushi, em um relato pessoal e
profissional.
"Observar
a cultura japonesa se unindo com parte da norueguesa me enche de alegria."
Fonte:
Serviço Mundial da BBC

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