Giovanni
Alves: O declínio da família no Brasil
A
partir da década de 1990, as transformações na estrutura familiar ocorridas na
era neoliberal não podem ser compreendidas como simples mudanças de costumes,
escolhas privadas ou rearranjos afetivos. Elas devem ser situadas no interior
de uma ruptura histórica nas condições de reprodução social do capitalismo
global.
O que
se observa, sobretudo nos últimos trinta anos, é o aprofundamento do declínio
estrutural do Ocidente. Como argumenta Emmanuel Todd em Le Défi de l’Occident,
o Ocidente global – do qual o Brasil é uma província periférica e dependente –
atravessa uma crise estrutural de reprodução, e não apenas um ciclo econômico
negativo. O Ocidente já não ocupa o centro dinâmico da história mundial: o
crescimento econômico desacelera, a inovação perde centralidade e a autoridade
moral e política se dissolve. No caso brasileiro, esse processo assume uma
forma particular. Na década de 1980, o país realizou simultaneamente a
transição para a democracia liberal e a constituição do Estado neoliberal. A
democracia liberal sobreviveu como forma política esvaziada de conteúdo social,
sustentada pela persistente despolitização das massas e pela transferência
efetiva do poder para elites tecnocráticas e financeiras –isto é, pela
continuidade do domínio oligárquico sob novas roupagens institucionais. O
Brasil, portanto, integra um processo mais amplo de decadência do Ocidente
capitalista neoliberal. A desigualdade crescente corroeu a coesão cultural e
política das sociedades ocidentais, por meio da concentração de renda, da
erosão da classe média e da dualização social – dinâmica que ajuda a explicar –
trinta anos depois – a ascensão da extrema direita.
Emmanuel
Todd articula o declínio do Ocidente a fenômenos como a baixa fecundidade, o
envelhecimento populacional e a desorganização familiar, que produzem
conservadorismo defensivo, medo do futuro e regressão ideológica. Esse ambiente
torna-se particularmente propício – como ocorre no Brasil – à ascensão do
neopentecostalismo, ao fortalecimento de forças de extrema direita e ao
transformismo da esquerda, entendido aqui como uma forma específica de
regressão ideológica. Na verdade, a força ideológica do Estado neoliberal
intensifica conflitos identitários e fragmenta o espaço público. A crise da
família brasileira, manifestada na era neoliberal, deve ser compreendida como
parte de uma crise mais ampla da família enquanto infraestrutura antropológica
da sociedade. Para Emmanuel Todd, a família constitui uma estrutura
antropológica básica, responsável pela socialização primária, pela transmissão
de valores (autoridade, igualdade, autonomia), pela internalização da
temporalidade (passado–presente–futuro) e pela mediação entre indivíduo e
coletividade. Quando a família se desorganiza, não estamos diante de uma
simples “mudança de costumes”, mas de uma crise profunda da reprodução social.
Nos
últimos trinta anos, o Brasil vive uma crise de reprodução social. O que
colapsou não foi a chamada “família tradicional”, mas a capacidade da família
de produzir sujeitos socialmente integrados. Sem horizonte histórico, a família
perde sua função estruturante: deixa de proteger contra o mundo social e passa
a refletir a brutalidade da própria sociedade neoliberal. A queda acentuada da
natalidade no Ocidente é interpretada por Emmanuel Todd como recusa
inconsciente do futuro, cálculo racional diante da insegurança social e
expressão antropológica do medo histórico. No Brasil, a queda da fertilidade é
flagrante. Ter filhos deixa de ser um gesto de confiança no mundo e passa a ser
percebido como risco excessivo. A crise da família é, portanto, também uma
crise da confiança histórica.
Com a
fragilização da família, caberia ao Estado assumir funções de proteção;
entretanto, o Estado neoliberal – o necroEstado – se retrai. O resultado é a
produção de indivíduos isolados, famílias sobrecarregadas e a ausência de
mediações coletivas eficazes. Esse vazio estrutural de proteção é preenchido
por moralismos, identitarismos, autoritarismos e fundamentalismos – fenômenos
amplamente difundidos no Brasil neoliberal. A família não desaparece; ela se
torna disfuncional. Não se trata do “fim da família”, mas de sua transformação
em uma forma social instável. Ela persiste como espaço afetivo frágil, unidade
econômica precária e refúgio simbólico insuficiente. A família sobrevive, mas
já não cumpre plenamente sua função histórica clássica. Assim, a crise da
família no Ocidente expressa, em nível antropológico, o esgotamento histórico
do capitalismo desenvolvido: quando o futuro se fecha, a transmissão entre
gerações se rompe e a família perde sua capacidade de produzir sujeitos
socialmente integrados.
Para
Emmanuel Todd, a crise dos sistemas familiares – enquanto infraestrutura
antropológica das ideologias políticas – não destrói apenas a economia ou o
Estado, mas a própria matriz de reprodução simbólica da sociedade. A
desorganização familiar constitui um dos lugares privilegiados do niilismo
contemporâneo: ruptura da transmissão intergeracional, pais incapazes de
prometer futuro, filhos socializados na precariedade histórica. Emerge, assim,
um niilismo antropológico – visível no Brasil neoliberal – no qual a vida
continua, mas a reprodução do sentido se interrompe. Nesse ponto, Emmanuel Todd
aproxima-se de uma intuição freudiano-lacaniana: quando a filiação simbólica se
rompe, o sujeito passa a viver em um presente absoluto (a “presentificação
crônica” como diria Eric Hobsbawn em A era dos extremos). O sujeito neoliberal
pratica um niilismo cotidiano: vive-se sem projeto, administra-se a
sobrevivência. Quando o universal perde sentido – como ocorre com a crise dos
partidos de esquerda e das ideologias coletivistas –, o particularismo
converte-se em refúgio: identitarismos fragmentários, autoempreendedorismo e
fundamentalismo religioso da Teologia da prosperidade.
Em Le
Défi de l’Occident, Emmanuel Todd é enfático: o neoliberalismo não transforma
apenas a economia; ele dissolve as mediações sociais que organizavam a vida
cotidiana – trabalho relativamente estável, direitos sociais, previsibilidade
do futuro –, produzindo impacto direto sobre a família enquanto instância de
socialização, proteção e transmissão simbólica. A família, longe de ser uma
forma natural ou imutável, sempre funcionou como mediação histórica entre
indivíduo, trabalho e sociedade. Sua estabilidade relativa dependia da
existência de horizontes de futuro, expectativas de mobilidade social e mínima
segurança material.
Desde
os anos 1990, observa-se não o “fim da família”, mas sua desorganização
funcional. Diferentemente dos países centrais, onde o Estado social amortecia
parcialmente a crise, no Brasil a família sempre funcionou como principal
instância de proteção social. Quando ela se desorganiza, não existem instâncias
substitutivas eficazes. O resultado é a sobrecarga da família pobre e
trabalhadora, que passa a concentrar funções excessivas: cuidado, renda, afeto,
disciplina e administração da sobrevivência cotidiana. Nos últimos trinta anos
de Estado neoliberal, a desorganização da estrutura familiar no Brasil não
produziu emancipação, mas intensificação da precariedade, fragilização
subjetiva e um profundo sentimento de abandono histórico, expresso tanto na
violência quanto na adesão a soluções autoritárias e moralizantes. Trata-se
menos de um “excesso de liberdade” e mais de uma experiência generalizada de
desamparo social, na qual indivíduos formalmente autônomos são deixados à
própria sorte em um mundo social hostil e instável. Nesse contexto, mesmo a
esquerda liberal – convertida no PT – tornou-se garantidora da ordem
neoliberal, integrando-se a ela por meio do projeto do lulismo. Assim, a crise
da família no Brasil não pode ser reduzida a um problema privado, moral ou
cultural. Ela expressa, de forma concentrada, a crise estrutural da reprodução
social sob o capitalismo dependente e neoliberal, na qual se rompem
simultaneamente as mediações do trabalho, do Estado e da transmissão simbólica
entre gerações. A família, longe de ser a causa dessa crise, torna-se um de
seus lugares mais visíveis e dolorosos.
O
objetivo deste artigo é analisar as mudanças na estrutura familiar no Brasil na
era neoliberal. Em textos posteriores, serão abordadas a crise do cuidado, o
futuro das gerações sem filhos e a catástrofe do envelhecimento populacional –
problemáticas interligadas que tendem a se aprofundar nas próximas décadas e
que deveriam ocupar lugar central no debate público e na formulação de
políticas sociais. Os dados do Censo Demográfico de 2022, divulgados pelo IBGE,
confirmam empiricamente a profundidade das transformações na estrutura familiar
brasileira ao longo das últimas décadas. A família no Brasil passou por uma
reconfiguração acelerada, cuja magnitude não pode ser dissociada do contexto
histórico da consolidação do Estado neoliberal e da reestruturação regressiva
do capitalismo dependente.
Em
2022, as famílias formadas por casais com filhos representavam apenas 42% dos
domicílios brasileiros, contra 56,4% em 2000. Pela primeira vez, portanto, esse
arranjo deixou de ser majoritário. Em sentido inverso, cresceram de forma
expressiva os casais sem filhos, que passaram de 13% para 24,1%, bem como os
domicílios unipessoais, que triplicaram entre 2000 e 2022, alcançando 13,6
milhões de residências, o equivalente a 19,1% dos lares brasileiros – dado
particularmente alarmante em um país que envelhece rapidamente. Observa-se
também o crescimento das famílias chefiadas por mulheres. Em 2022, 51% dos
domicílios brasileiros tinham mulheres como responsáveis, superando pela
primeira vez os domicílios chefiados por homens (49%). Entre esses arranjos,
destacam-se as mulheres sem cônjuge e com filhos, que somam 13,5% dos lares,
correspondendo a cerca de 7,8 milhões de famílias, além do crescimento, ainda
que menor, de homens sem cônjuge e com filhos, que alcançam 2% dos domicílios
(aproximadamente 1,2 milhão). No plano das formas de união, os dados revelam
uma inflexão histórica: as uniões consensuais superaram, pela primeira vez, os
casamentos civis e religiosos, atingindo 38,9% do total. As uniões
homoafetivas, embora ainda minoritárias, cresceram de forma significativa,
passando de 0,1% em 2010 para 0,7% em 2022, o que corresponde a cerca de 480
mil unidades familiares.
Esses
dados indicam uma pluralização dos arranjos familiares, frequentemente
celebrada pelo discurso liberal como sinal de autonomia individual e liberdade
de escolha. No entanto, quando analisados sob a perspectiva histórica da
hegemonia neoliberal, tais transformações revelam um quadro muito mais
problemático. Em um país marcado pelo envelhecimento acelerado, pela
precarização estrutural do trabalho e pela retração das políticas públicas
universais, essa reconfiguração tende a produzir efeitos socialmente
regressivos e antropologicamente destrutivos. A leitura puramente demográfica –
frequentemente adotada pelo próprio IBGE – atribui essas mudanças a fatores
como urbanização, maior escolaridade feminina e amplo acesso a métodos
contraceptivos. Embora esses elementos sejam relevantes, eles são insuficientes
para explicar a profundidade do processo. A transição demográfica brasileira
ocorre sob o signo do neoliberalismo, isto é, em um contexto de
desindustrialização, desemprego estrutural, informalidade, financeirização da
vida cotidiana e desproteção social permanente. Trata-se do resultado de uma
longa transição sociodemográfica, iniciada ao menos há trinta anos. Em meados
da década de 1990, a estrutura familiar brasileira ainda era majoritariamente
nuclear. Em 1995, cerca de 57% dos lares eram compostos por casais com filhos,
e a taxa de fecundidade girava em torno de 2,4 a 2,5 filhos por mulher – já em
queda em relação às décadas anteriores, mas ainda distante do patamar atual
(hoje a taxa de fecundidade no Brasil está em 1,55 a 1,60 filho por mulher). Na
década de 1960, vale lembrar, a média era de aproximadamente seis filhos por
mulher. Naquele período, o Estado ainda operava sob a lógica implícita da
família-providência, delegando às famílias – sobretudo às mulheres – a
responsabilidade pelo cuidado de crianças, idosos e doentes. Esse modelo
tornou-se progressivamente inviável com a precarização do trabalho e o
enfraquecimento dos vínculos familiares.
Um
marco decisivo dos anos 1990 foi a chamada ascensão da mulher como “chefe de
família”. O IBGE tende a interpretar esse fenômeno como indicador positivo de
emancipação feminina. Tal leitura, porém, é ideológica quando abstrai o
contexto material. Em uma sociedade marcada pelo trabalho precário e mal
remunerado, a entrada massiva das mulheres no mercado não significou
emancipação, mas intensificação da exploração, dupla ou tripla jornada e
desorganização do arranjo familiar anterior. Em 1995, as famílias chefiadas por
mulheres já representavam cerca de 23% dos domicílios, e as mulheres dedicavam
quase o triplo do tempo aos afazeres domésticos em comparação aos homens.
Naquele mesmo período, o divórcio – legalizado apenas em 1977 – tornava-se
socialmente mais aceito, e cerca de 16% dos lares eram formados por mães solo.
As famílias reconstituídas começavam a ganhar visibilidade, assim como as
famílias extensas, que ainda funcionavam como importante mecanismo de
sobrevivência, sobretudo entre as classes populares. As famílias unipessoais,
por sua vez, representavam apenas 7% a 8% dos domicílios, em geral compostas
por idosos viúvos ou jovens estudantes.
A
transição demográfica, entretanto, não ocorreu de forma homogênea. Em meados
dos anos 1990, o Brasil era um mosaico de contrastes regionais. O Sudeste e o
Sul lideravam a redução do tamanho das famílias, com taxas de fecundidade
próximas ao nível de reposição (2,1 filhos por mulher), impulsionadas pela
urbanização acelerada e pelo alto custo de vida. Já o Nordeste e o Norte
mantinham estruturas familiares mais numerosas, especialmente em áreas rurais,
onde a taxa de fecundidade ainda superava três filhos por mulher. Curiosamente,
essas regiões já apresentavam elevados índices de mulheres chefes de família,
muitas vezes em função da migração masculina para o Sudeste.
Um dos
fenômenos mais marcantes das últimas décadas é a explosão das famílias
unipessoais, domicílios compostos por uma única pessoa, que inaugura o que pode
ser chamado de era da solidão. O “morar sozinho” deixou de ser exceção para se
tornar tendência estrutural. O que antes aparecia como situação transitória –
viúvez, migração temporária, opção juvenil – converteu-se em tendência
estrutural das sociedades capitalistas desenvolvidas que está crescendo também
no Brasil. O IBGE costuma associar esse processo à autonomia individual e à
mudança nos projetos de vida. Mas essa transformação não pode ser explicada
apenas por mudanças culturais, maior tolerância a estilos de vida individuais
ou valorização da autonomia pessoal.
As
famílias unipessoais expressam, antes de tudo, uma ruptura histórica nas
condições de reprodução social. Elas são o sintoma visível de um processo mais
profundo: a decomposição das mediações coletivas – família extensa, vizinhança,
trabalho estável, sindicatos, comunidades religiosas ou políticas – que,
durante boa parte do século XX, amorteceram os impactos da exploração
capitalista sobre a vida privada.
No
capitalismo neoliberal que viceja no Brasil, o indivíduo é progressivamente
desvinculado de laços duráveis e devolvido a si mesmo como unidade isolada de
sobrevivência. A família unipessoal não representa, portanto, um triunfo da
liberdade individual, mas a internalização privada de riscos sociais que antes
eram compartilhados. O custo da moradia, o cuidado com a saúde, o
envelhecimento, o desemprego e o sofrimento psíquico passam a ser administrados
solitariamente, no interior de um mercado que transforma todas essas
necessidades em mercadorias.
Há aqui
uma contradição central. O mesmo sistema que promove a ideologia da autonomia –
“seja você mesmo”, “cuide da sua própria vida”, “não dependa de ninguém” –
destrói materialmente as condições para uma vida efetivamente autônoma. O morar
sozinho aparece como escolha, mas frequentemente é o resultado forçado de
jornadas de trabalho extensas, mobilidade laboral permanente, instabilidade
afetiva, precarização econômica e erosão do tempo social. A solidão deixa de
ser um estado subjetivo e converte-se em forma objetiva de vida.
As
famílias unipessoais também revelam uma mutação no vínculo entre trabalho e
intimidade. No regime do capitalismo dependente e financeirizado, o trabalho
invade a casa – home office, conectividade permanente, bicos digitais –
enquanto a casa deixa de ser espaço de convivência e cuidado para tornar-se
ponto de apoio funcional da força de trabalho isolada. O lar unipessoal é,
muitas vezes, o complemento invisível da superexploração: menos despesas
coletivas, menos tempo de cuidado, mais disponibilidade individual para o
mercado. Do ponto de vista geracional, esse fenômeno assume contornos ainda
mais dramáticos. Jovens adultos – que tem condições financeiras por conta de
trabalho estável – vivem sós não porque conquistaram estabilidade, mas porque
não conseguem projetar o futuro: adiam filhos, evitam compromissos duradouros,
mantêm relações frágeis e reversíveis.
Já os
idosos que moram sozinhos, por sua vez, enfrentam a solidão como abandono
estrutural, num contexto em que o envelhecimento se converte em “custo” e o
cuidado é mercantilizado ou simplesmente negado. A família unipessoal, nesses
casos, aproxima-se perigosamente de uma forma social de descarte. Por isso, a
chamada era da solidão não deve ser confundida com retraimento psicológico ou
déficit afetivo individual. Trata-se de uma solidão socialmente produzida,
funcional à racionalidade neoliberal. Ao fragmentar os vínculos, o sistema
reduz a capacidade de resistência coletiva, enfraquece identidades comuns e
transforma o sofrimento em problema privado, medicalizável e silencioso. Cada
indivíduo isolado torna-se, ao mesmo tempo, consumidor de soluções e portador
solitário do fracasso estrutural.
Em
suma, a explosão das famílias unipessoais na era neoliberal não anuncia uma
sociedade mais livre, mas uma sociedade mais desamparada, na qual a vida é
organizada sob a forma da separação. O morar sozinho é o emblema cotidiano de
um mundo em que a reprodução da existência foi descoletivizada, e em que a
solidão deixou de ser exceção biográfica para tornar-se regra histórica do
capitalismo em crise.
E
quanto aos jovens adultos altamente escolarizados – mas sem condições
financeiras e com trabalho precário – que ainda vivem na casa dos pais? O
crescimento do número de jovens adultos altamente escolarizados que permanecem
na casa dos pais – apesar de diplomas, qualificações e capital cultural – é o
outro polo estrutural do mesmo processo histórico que produz as famílias
unipessoais.
Um
levantamento divulgado em 2025 mostra que entre 2012 e 2022 o número de
brasileiros de 25 a 34 anos que moram com os pais cresceu cerca de 137%. Esse
dado é parte de uma pesquisa da Kantar IBOPE Media, que identifica um aumento
expressivo desse padrão de convivência familiar – fenômeno apelidado de
“geração canguru”. Se, de um lado, temos a solidão como forma de vida
individualizada, de outro surge a coabitação forçada, marcada por dependência
material prolongada e autonomia bloqueada. Ambas expressam a crise da
reprodução social no capitalismo neoliberal. Esse fenômeno não pode ser
explicado por “imaturidade”, comodismo ou mudança de valores juvenis. Trata-se
de uma contradição objetiva do capital: o sistema educacional expandiu-se,
prometendo mobilidade social, enquanto o mercado de trabalho se precarizou
estruturalmente, destruindo os empregos capazes de sustentar a independência
material. O Brasil é o paraíso do precariado. O resultado é uma geração
superqualificada para trabalhos sub-remunerados, intermitentes e instáveis –
estágio permanente, bolsas temporárias, freelancing, “empreendedorismo de
sobrevivência”. A permanência na casa dos pais indica, assim, uma adultescência
bloqueada. O jovem é adulto do ponto de vista das exigências – produtividade,
desempenho, flexibilidade, responsabilidade individual –, mas tratado como
menor no plano material: sem renda suficiente, sem moradia própria, sem
capacidade real de planejamento do futuro. A passagem clássica para a vida
adulta – sair de casa, constituir domicílio, formar família, estabilizar-se no
trabalho – deixa de ser norma social e converte-se em privilégio de classe.
No
interior do lar parental, instaura-se uma nova forma de tensão. A casa deixa de
ser espaço de transição e torna-se infraestrutura de compensação da crise: os
pais subsidiam a reprodução da força de trabalho dos filhos adultos.
Alimentação, moradia, internet, energia, cuidados cotidianos — tudo isso
funciona como salário indireto familiar, invisível às estatísticas e
fundamental para a sobrevivência do capitalismo precarizado. A família, mais
uma vez, é convocada a absorver o choque que o mercado e o Estado recusam
enfrentar. Há também uma dimensão política decisiva. Ao manter jovens adultos
dependentes do núcleo familiar, o Estado neoliberal desativa potencialidades de
conflito social. A dependência econômica dificulta a ruptura simbólica com a
autoridade parental, enfraquece a autonomia política e retarda a constituição
de projetos coletivos. A casa dos pais torna-se um espaço ambíguo: proteção
material mínima e, ao mesmo tempo, contenção social da rebeldia. Esse quadro se
articula diretamente com a explosão das famílias unipessoais. Muitos desses
jovens desejam sair de casa, mas não conseguem; outros saem, mas retornam;
alguns conseguem morar sozinhos por períodos curtos, apenas para recair na
dependência. Temos, assim, uma circulação instável entre solidão forçada e
coabitação forçada, ambas determinadas pela precariedade estrutural do trabalho
e pela financeirização da moradia. A casa dos pais torna-se, assim, não um
refúgio confortável, mas o último amortecedor privado de um sistema incapaz de
garantir futuro. Tal como os outros jovens adultos das famílias unipessoais,
não conseguem projetar o futuro – do mesmo modo, adiam filhos, evitam
compromissos duradouros, mantêm relações frágeis e reversíveis.
Concluindo,
podemos dizer que o predomínio das famílias unipessoais já produz impactos
visíveis na economia e na cultura: proliferação de microapartamentos,
crescimento de produtos de consumo individualizados e expansão da chamada pet
economy, na qual animais de estimação passam a ocupar o lugar de companhia
central em lares solitários. Trata-se de uma sociabilidade compensatória, na
qual a dissolução do laço social humano é substituída por próteses afetivas
compatíveis com a lógica mercantil. Portanto, os dados do IBGE expostos acima
não indicam uma simples diversificação das formas familiares, mas evidenciam
uma crise profunda da reprodução social. No contexto do capitalismo dependente
e neoliberal brasileiro, a desorganização da família não produz liberdade, mas
solidão, sobrecarga, fragilização subjetiva e niilismo cotidiano. A família,
último amortecedor social, encontra-se em processo de colapso silencioso –
expressão concreta da crise estrutural do capitalismo neoliberal no Brasil.
Fonte:
A Terra é Redonda

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