Choque
de realidade (ou a realidade do choque)
A
princípio pensei escrever sobre o sequestro de Nicolás Maduro, suas causas e
consequências, mas foi impossível manter o foco no tema em si, já que suas
implicações abrem o debate sobre vários outros assuntos. Vou tratar de todos os
que me ocorreram, tentando evitar uma dispersão. Começo por discutir o
sequestro em si. Todos os que se pronunciaram sobre a operação policial/militar
de Donald Trump tiveram que tocar no aspecto mais surpreendente deste fato:
como foi possível que dois helicópteros, carregando um máximo de 50 soldados,
tenham sido capazes de entrar e sair do espaço aéreo da Venezuela em pouco mais
de duas horas, levando ninguém menos do que o presidente/ditador e sua esposa? Será
que assistimos a um episódio de Mission impossible, com Tom Cruise
arrasando malvados inimigos super armados? O sequestro aconteceu sem uma só
baixa (mortos ou feridos) entre os atacantes e sem sequer um tiro de fuzil ou
pistola atingindo as aeronaves. Os alvos do operativo foram capturados no meio
do maior centro militar da Venezuela, cercado de radares que deveriam ter dado
o alarma a partir do momento em que os helicópteros e aviões de apoio entraram
no espaço aéreo dos nossos vizinhos. A surpresa foi total e pegou dormindo a
guarda pessoal de Nicolás Maduro, deixando 32 mortos entre os cubanos (quantos
feridos?) e outros tantos venezuelanos, inclusive civis atingidos pelos
bombardeios nesta e noutras bases (provavelmente ações visando dissimular o
foco do operativo). Sabemos os nomes de todos os cubanos vitimados, mas nada
foi dito sobre quem eram as vítimas venezuelanas e onde foram abatidas. Eram
elas também membros da guarda pessoal? Ou foram só os cubanos a reagir ao
ataque?
O fato
inegável é que o sistema de alarme não funcionou, a ponto de Nicolás Maduro não
ter tido tempo de se abrigar em um “aposento invulnerável”. Como foi isto
possível? Circulou nas redes a notícia, confirmada pela mídia convencional, da
demissão e prisão do general comandante da guarda do presidente, general
Tábata, também responsável pelos serviços de inteligência das Forças Armadas,
acusado de ter desarmado o sistema de alarme. Se isto é verdade, é preciso
explicar como é que a ordem foi dada e cumprida sem reação de soldados e
oficiais, já que não pode se tratar de um mero botão a ser apertado por um só
manda-chuvas. A traição, ainda restrita nas notícias a um só personagem,
supostamente de total confiança do regime e do presidente, explica como foi
possível este feito militar impressionante. Mas não explica a motivação nem as
ramificações das responsabilidades: quem mais estava no complô? Após a
surpresa, para não dizer a estupefação com a audácia e eficiência do operativo,
vieram outras notícias surpreendentes. O primeiro comunicado do governo, com a
fumaça dos bombardeios e o cheiro de pólvora ainda no ar, foi para exigir a
libertação de Nicolás Maduro e para afirmar que “a calma reinava no país”. Como
assim? O inimigo imperialista invade o maior quartel da Venezuela, sequestra o
presidente e está tudo bem? Na sequência se noticiam contatos telefônicos da
vice-presidente, Delcy Rodríguez, com ninguém menos do que Donald Trump, o
chefe dos agressores. Um pouco mais tarde surgem informações de que Delcy Rodríguez
teria ligado para seus contatos na indústria petroleira americana, reclamando
do ataque, já que o governo de Nicolás Maduro estava em negociação com Donald
Trump sobre o acesso destas indústrias ao petróleo venezuelano. Boatos
anteriores, indicando estas negociações, foram confirmados e o ataque teria
ocorrido pela resistência de Nicolás Maduro de entregar o poder imediatamente
(ele teria pedido dois a três anos de transição). Estas negociações não podiam
estar ocorrendo sem que a alta cúpula das Forças Armadas venezuelanas e do
governo estivessem ao par e delas participando. Com a resistência de Nicolás
Maduro, Donald Trump optou por uma ação militar para tirá-lo do jogo e contou
para isso com auxílio interno na cúpula das Forças Armadas bolivarianas. Fica,
mais uma vez, a pergunta: apoio individual ou apoio estrutural? Qual a
amplitude da ramificação deste complô?
Com um
acordo em andamento com a cúpula do chavismo por que será que Donald Trump
optou pela intervenção militar? Há duas boas razões, além da resistência de
Nicolás Maduro a partir rapidamente. A primeira é a necessidade de uma ação
espetacular para mostrar a força do império e justificar perante o eleitorado
americano os gastos milionários com o deslocamento da frota e do contingente de
mais de 15 mil marines e outros soldados. A segunda é a importância da mensagem
do uso da força sem limitações legais e morais. A mensagem vale para a própria
Delcy Rodríguez e a cúpula chavista, embora os mais bem informados sobre o
operativo saibam que não teria havido este sucesso espetacular sem a
colaboração interna de membros do regime. A mensagem vale ainda para todos os
países contra os quais se volta a sanha do imperador: Colômbia, Cuba, México,
Dinamarca, Irã, Nigéria e, (por que não?) o Brasil. A nova e ainda mais
espetacular notícia foi a declaração de Donald Trump indicando que aceitava
Delcy Rodríguez como interlocutora para negociar (ou entubar) as suas decisões
sobre o destino do petróleo venezuelano. Para cúmulo do absurdo (aparente)
Donald Trump “elegeu” Delcy Rodríguez como interlocutora aceitável por
indicação da CIA e do cartel da indústria petroleira. Delcy Rodríguez foi
oficialmente proclamada presidente “interina” e nada foi cobrado por Donald
Trump em relação ao futuro do establishment chavista no poder.
O regime segue o mesmo, apenas sem Nicolás Maduro, e agora sob tutela de Donald
Trump.
O proto
ditador americano sequer mencionou a questão que vinha sendo usada para
justificar o cerco à Venezuela: o fato de que o poder no país estaria nas mãos
de um “cartel de los soles”, expoente do narcotráfico. Aliás, esta acusação foi
deixada de lado quando Nicolás Maduro foi levado à justiça em Nova Iorque,
sobrando uma acusação de leniência com o narcotráfico e outras miçangas quase
risíveis. E parece que ele era o único “narcoterrorista” porque o resto do
governo e das Forças Armadas permanece intocado. De toda esta história da
carochinha sobram os fatos nus e crus:
Donald
Trump está pouco se lixando para a democracia na Venezuela. Deu um chega para
lá curto e grosso na líder da extrema direita venezuelana, Corina Machado e no
presidente eleito em 2024, Edmundo Gonzalez. Por que o fez? Segundo ele mesmo,
ela não teria o apoio necessário para manter o país “estável”. O raciocínio de
Donald Trump não deixa de ser coerente. Se ele buscasse uma mudança de regime,
ele teria que mandar empossar Edmundo González, por ele mesmo reconhecido, no
ano passado, como o legítimo vencedor das eleições vencidas/roubadas por
Nicolás Maduro. É de todo improvável que o aparelho de poder do chavismo
aceitasse entregar o Estado e todas as benesses que seus detentores amealharam
todos estes anos. Além disso, a Assembleia Legislativa eleita em outubro
passado e recém-empossada com 90% de adeptos do chavismo teria que ser
dissolvida e novas eleições convocadas. Tudo isto indica que somente uma
intervenção militar direta, com ocupação e tudo mais, poderia dar suporte a uma
mudança de regime tão ampla e drástica. Donald Trump sabe que uma invasão e
ocupação seria algo muito mais perigoso politicamente (e militarmente), com
provável instabilidade política e social por um bom tempo. Espertamente, ele
entendeu que o discurso “esquerdista” e “anti-imperialista” da casta de mais de
2000 generais e muitos outros oficiais das Forças Armadas que ocuparam a
maioria dos postos de governo e das empresas estatais da Venezuela era mais da
boca para fora e que eles estavam prontos para negociar um acordo com o seu
arqui-inimigo.
Resultado:
a casta fica no poder (formal), entregando o que Donald Trump quer, ou seja,
petróleo e outras matérias primas. A democracia e o povo venezuelano, para
Donald Trump, valem a mesma coisa do que a ideologia bolivariana
anti-imperialista para os militares … nada. Os fatos até agora apurados sobre a
operação sequestro mostram a mais impressionante desfaçatez do presidente
americano. Ele ordenou uma operação de guerra sem autorização do Congresso
americano, dizendo que era apenas uma operação policial. E para esfregar sal na
ferida dos parlamentares humilhados, o cubanito que dirige o Departamento de
Estado acrescentou: “se pedíssemos autorização ao Congresso a informação ia
vazar”. Donald Trump também passou por cima das convenções e leis
internacionais assinadas (ainda) pelos EUA, violando a soberania da Venezuela.
Isto não chega a ser uma novidade e vamos discutir mais adiante, mas a forma
descarada assumida por Trump é sim, algo novo. Em resumo: Trump escancarou a
velha lei do mais forte com um arrogante “fiz porque quero e posso fazer”. E
quanto às motivações do reizinho? Há um quase consenso nos diferentes tipos de
mídia sobre a intenção de Donald Trump de tomar para os americanos as “maiores
reservas de petróleo do mundo”. A meu ver, esta afirmação é mais do que
discutível. Fala-se que as reservas de petróleo “provadas” na Venezuela chegam
a 303 bilhões de barris. Há duas perguntas a fazer: (i) este número está
correto? (ii) de que tipo de petróleo estamos falando?
Segundo
a revista especializada Rystad Energy, uma espécie de Bíblia do
setor petroleiro, mais respeitada do que a Agência Internacional de Energia, as
reservas totais de petróleo da Venezuela são muito menores: 4 bilhões de barris
“provados” e 23 bilhões de barris “descobertos”. A discrepância gigantesca se
deve, segundo a revista, ao fato de que os números maiores, aceitos pela
Agência Internacional de Energia, provém da própria PDVSA (estatal petroleira
da Venezuela) e datam do começo da década passada, quando o barril de petróleo
estava valendo mais de 100 dólares. Com a queda do valor do barril, a partir de
2015, as reservas da Venezuela ficaram inexploráveis. Este último fato nos leva
à questão do tipo de petróleo de que estamos falando. Até a primeira década
deste século, a Venezuela produzia principalmente petróleo leve de alta
qualidade (chamado de “doce”ou “leve”) e petróleo pesado e ultra pesado, mais
caros de extrair e refinar e com preços mais baixos. As reservas de petróleo
leve entraram em declínio em 2002, e a parte do petróleo mais pesado foi
aumentando, chegando hoje a 67% do total. O petróleo pesado é usado quase
inteiramente para a produção de óleo diesel, enquanto o ultra pesado é usado
para a produção de asfalto. A produção de petróleo na Venezuela (de todos os
tipos) chegou a um máximo de 3,7 milhões de barris, em 1970, com o mínimo, em
2021, chegando a 665 mil barris e, hoje, chegando a 1,1 milhão de barris. A
mídia antichavista tende a culpar o regime pela queda da produção da PDVSA, empresa
estatal criada em 1997 (muito antes de Hugo Chaves), mas a produção se manteve
próxima do máximo até a já citada queda dos preços do petróleo na década
passada. A debacle da PDVSA tem a ver, em primeiro lugar, com o esgotamento das
reservas do petróleo convencional, o custo muito mais alto da extração do
petróleo pesado e a queda dos preços a partir de meados da década passada. É
sabido que a gestão política da PDVSA gerou perdas consideráveis de eficiência
e corrupção, mas o fator mercado e o esgotamento das reservas de petróleo
convencional foram determinantes.
Tudo
isto é para dizer que, se Donald Trump pensa que está botando a mão em uma
Arábia Saudita, ele vai acabar abraçando um mico. Não é um acaso os CEOs das
petroleiras, reunidos por Donald Trump, terem sido mais do que hesitantes em se
comprometer com grandes investimentos na Venezuela. Eles sabem que os custos
são muito altos, o tempo de maturação dos investimentos é de pelo menos 12 anos
e que o tipo de petróleo tem um mercado menos atraente, embora longe de ser
desimportante. De toda forma, ao contrário dos presidentes Jimmy Carter, Ronal
Reagan, George Bush (pai), Bill Clinton e George Bush (filho), Donald Trump não
tem que se preocupar com o acesso dos americanos ao petróleo, pelo menos não no
curto prazo. Desde os tempos de Barack Obama e do primeiro governo do
imperador, a exploração do óleo e gás de xisto em território americano garantiu
a autossuficiência do país, com sobras para uma importante exportação. É muito
discutido quanto tempo este recurso vai durar e as apostas vão de 2030 a 2050.
Ou seja: é possível que este esforço de controle das reservas venezuelanas
tenha uma visão estratégica por trás, embora mal informada. Mas Donald Trump
parece estar movido pelo imediato, forçando Delcy Rodríguez a entregar 50
milhões de barris de petróleo, entre o pirateado no Caribe e no Atlântico Norte
e reservas acumuladas em depósitos na Venezuela, impedidos de exportação pelos
embargos dos EUA. Este petróleo, na verdade, tem outro dono, a China, que tem
recebido remessas como pagamento de investimentos tanto no setor petroleiro,
como em infraestruturas variadas, sobretudo de transportes. Nos últimos anos, a
China tem recebido perto de 80% da produção venezuelana, sendo que os outros
20% têm ido, sobretudo, para a Rússia e uma pequena fração para Cuba e Nicarágua.
Isto não se deu por escolha do regime de Nicolás Maduro, mas devido às sanções
do governo americano restringirem os compradores. Os chineses e os indianos são
os maiores compradores e consumidores de petróleo pesado e ultra pesado, mas os
Estados Unidos têm refinarias no golfo do México voltadas para óleo deste tipo.
Durante o bloqueio mais rigoroso das exportações venezuelanas as refinarias do
Golfo importaram petróleo do Canadá, que tem as mesmas características embora
venha de outra fonte, as areais betuminosas.
Isto
nos leva à discussão de uma segunda explicação para as intenções de Donald
Trump nesta operação militar.
Uma
parcela da mídia está relativizando a importância do petróleo em si como objeto
de desejo de Donald Trump e indicando como meta fechar o acesso da China aos
mercados latino-americanos. A operação em Caracas seria a continuidade de
outras iniciativas, visando conter a China. A primeira foi a ameaça de retomada
do Canal do Panamá pelos EUA se o governo deste país não anulasse o contrato de
gestão do canal com uma empresa chinesa, ameaça imediatamente entubada. A
segunda foi uma operação de interferência no processo eleitoral de Honduras,
inclusive com a soltura de um narcotraficante condenado nos EUA e com muita
influência política, que levou à vitória do candidato trumpista. A terceira foi
a ameaça aos países membros do BRICS+ (inclusive o Brasil), contra a intenção
de criar um sistema de mercado não atrelado ao dólar. Esta ameaça caiu em
ouvidos moucos, pois não há como os EUA evitarem que países soberanos troquem
mercadorias em outras moedas ou definindo um padrão de referência não
monetário, como foi o ouro até 1973, quando foi substituído pelo dólar. O fato
de que a Venezuela estava vendendo seu petróleo em yuans e rublos era parte ou
talvez a maior parte do incomodo de Donald Trump com o chavismo. É óbvio que
Donald Trump não tem como controlar mundialmente este mercado paralelo ao
dólar, mas pode e parece pretender fazê-lo, no seu “quintal”, a América Latina.
Isto significa que os próximos alvos serão a Colômbia, o México e o Brasil,
todos três exportadores de petróleo e grãos para a China e grandes importadores
de produtos industrializados deste país.
Como
será que Trump pretende enquadrar, por exemplo, o Brasil? Não pode se tratar de
uma disputa de mercado, pois seria necessário que os produtos americanos
pudessem concorrer com os chineses e não podem. Mas poderia ser cobrado de um
governo brasileiro que use sempre o dólar como moeda de troca. Alguém duvida
que um governo bolsonarista aceitaria a chantagem? A pressão também pode se
dirigir para a retirada do Brasil do BRICS+. O mesmo pode se passar nos outros
países citados e, tanto Colômbia como Brasil terão eleições presidenciais e
parlamentares este ano. Não tenham dúvidas de que o império vai usar todos os
seus recursos para derrotar candidaturas como a de Lula, apesar de toda a
química entre eles. Embora as exportações “solidárias” de petróleo para Cuba e
Nicarágua sejam diminutas em volume, Donald Trump tornou este mercado uma
questão política e já ordenou que Delcy Rodríguez suspenda o fornecimento,
apertando ainda mais o cerco sobre os tenazes e sofridos cubanos. Em outra
linha de discussão, registro que muitos têm considerado que esta invasão
militar americana representa uma ruptura frontal e histórica do
multilateralismo e do regime das leis e dos tratados internacionais, regendo as
relações entre os países. Embora admita que exista uma brutal diferença de
estilo entre Donald Trump e outros presidentes americanos, pode-se dizer que o
comportamento não é essencialmente distinto. Para citar o caso mais espetacular
e escandaloso, lembro que republicanos e democratas se sucederam na presidência
dos EUA de 1952 até 1975, sempre aumentando o envolvimento de tropas americanas
no Vietnã até chegarem a ter um milhão de combatentes e auxiliares no final de
1968, quando Richard Nixon iniciou a retirada, concluída em 1973. Tudo isso sem
apoio legal da ONU ou do Congresso americano.
As
intervenções militares americanas sem apoio legal (nacional e/ou internacional)
se sucederam ao longo da história, sendo as mais recentes as do Iraque, Líbia,
Afeganistão e, no Caribe, Granada e Panamá. Um pouco mais atrás, tivemos a
tentativa de invasão de Cuba por um contingente armado e orientado pela CIA.
Isto para não falarmos nas chamadas “covert operations” ou operações
secretas, como nos golpes no Brasil e no Chile ou na Guatemala, na República
Dominicana, no Irã e no Congo. A lista é interminável, estes são só exemplos. Após
o fim das guerras napoelonicas e o forte movimento de independencia das
colonias europeias nas Américas, criou-se nos EUA a doutrina Monroe (“América
para os americanos”), cujo objetivo era impedir a volta dos impérios europeus,
em particular Espanha e Portugal. No final do século XIX a doutrina foi
invocada para justificar uma guerra contra a Espanha, libertando sua última
colônia nas Américas, Cuba. Na verdade, tratava-se de evitar que o movimento
independentista cubano expulsasse os espanhóis e levasse ao poder a ala radical
de José Marti. A esta altura o significado da doutrina já era bem mais
restrito: a América como um todo devia ficar na área de influencia exclusiva
dos EUA – ponto final. No início do século passado, o presidente Roosevelt
completou com clareza o significado da doutrina: “walk softly and carry a
big stick” (caminhe suavemente e carregue um grande porrete). Com o tempo o
“resto” da América passou a ser asssumido pelos americanos (estadunidenses)
como “quintal” dos EUA.
Donald
Trump está atualizando estas práticas imperialistas mais do que surradas. Sua
principal diferença é que ele usa abertamente a ameaça e a pressão, chegando,
se necessário, às vias de fato. Ele não caminha suavemente, muito pelo
contrário. Como o lobo mau, ele urra e bufa furiosamente para amedrontar os
porquinhos. Mas é bom lembrar que Trump faz muito barulho, mas não é tão doido
quanto parece e não anda por aí correndo na frente de um trem gritando piuí,
pensando que é locomotiva. Também não costuma rasgar dinheiro, outro forte
sintoma de doidice.
O
ataque e sequestro de Nicolás Maduro tiveram uma margem mínima de risco, desde
que alguém na guarda bolivariana apagou o sistema de detecção de atacantes.
Ouso dizer que a ausência de nomes de soldados venezuelanos da guarda de Maduro
entre as vítimas do ataque, enquanto os cubanos foram todos identificados e
homenageados, aponta para uma possível retirada dos nacionais, ficando os
cubanos como bucha de canhão. Mas não importa se Donald Trump é, como eu
escrevi em artigo no início do seu governo, um “leão da Metro” (dois rugidos e
o resto é fita) ou um ousado (ou destrambelhado) imperador. A verdade que
importa é que, com todas as burrices óbvias e tropeços e recuos eventuais, o
império ainda tem poder para fazer muito estrago, sobretudo no seu “quintal”. O
outro lado da moeda deste atropelo explícito das leis internacionais é que ele
abre a temporada de outras violações similares. Aliás, ela não abre, apenas
estende e estabelece uma divisão de áreas de influência.
O
ataque de Vladimir Putin à Ucrânia foi uma clara violação do direito
internacional e continua sendo, mas se a Europa se esforça por conter os
russos, Donald Trump parece ter entregado o espaço europeu e ameaça sair da
OTAN. Espera-se agora a intervenção da China em Taiwan. Neste caso eu diria que
o causus beli parece mais legítimo do que na Palestina ou na Ucrânia. Afinal,
ninguém discute que a ilha de Taiwan sempre fez parte do Império e da
incipiente República chinesa, algo que o Donetz nunca foi da Rússia. Aparentemente
estamos assistindo a uma partilha de áreas de influência ou um redesenho das
áreas existentes. Trump quer assegurar-se do controle total do chamado (por
ele) “quintal da América”, do Alaska à Patagônia. Ele já tem domínio sobre
Argentina, Paraguai, Bolívia, Peru, Equador, Chile e a totalidade da América
Central e do Caribe, com exceção de Cuba e Nicarágua. Falta engolir a Colômbia,
o México, o Brasil e o Canadá. As eleições este ano devem ser o momento mais
pesado da “captura” de dois destes quatro resistentes. No que tange à Cuba e
Nicarágua espera-se um recrudescimento de sanções e pressões econômicas e
ameaças militares. Entretanto, apesar do estilo agressivo, a posição
estratégica dos americanos é defensiva. Donald Trump sabe que a moleza da
invasão relâmpago da Venezuela não vai se repetir em Cuba apesar dos arreganhos
patéticos de Marco Rúbio. Donald Trump também pretende o controle do Oriente
Médio, usando Israel como cabeça de ponte. Entretanto, este é um terreno mais
pantanoso, com amplas áreas de instabilidade (Palestina, Líbano, Síria, Iraque,
Iêmen, Líbia, Afeganistão) e outras (Turquia e Irã) fora do controle.
Historicamente, este é um espaço de disputa onde os EUA tiveram uma sucessão de
intervenções desastrosas. Assim como ingleses e franceses e, mais recentemente,
os russos.
O
império americano não tem uma proposta ou uma estratégia para a África, espaço
onde a penetração econômica chinesa é cada vez mais marcante. É também um
espaço onde os antigos países colonizadores estão perdendo seus últimos pontos
de influência política, econômica e militar, sem que os EUA assumam o lugar. Finalmente,
a Ásia vai saindo da agenda trumpista apesar do discurso de enfrentamento com a
China. Os aliados de Trump, Taiwan, Japão e Coreia do Sul estão assistindo com
ansiedade o imperador deixando esta agenda de lado. Os chineses optaram por uma
estratégia soft, essencialmente econômica via mercado e investimentos, nesta e
em outras áreas do mundo e não se veem deslocamentos de tropas ou
interferências políticas por parte da China. Mas depois dos movimentos de
Donald Trump e Vladimir Putin, a tentação de resolver a histórica secessão de
Taiwan com uma ação militar deve estar grande. Na divisão do mundo, os russos
têm um objetivo ainda restrito e modesto: retomar o espaço físico da antiga
União Soviética. No entanto, não se pode esperar movimentos expansionistas
enquanto a questão ucraniana não for resolvida. Se e quando isto for possível,
os próximos passos de Putin irão na direção de recuperar a influência nos
países da Europa do leste. Apesar da histeria antiputin da Europa Ocidental, as
ameaças ao velho continente são mais internas que externas e antigas potências
como Inglaterra, França e Alemanha vão escorregando mais ou menos lentamente no
rumo da irrelevância internacional da Espanha, Portugal, Itália e Áustria. Se a
União Europeia for desmontada, o que é uma possibilidade com o avanço da
extrema direita em todo continente, a irrelevância do Velho Continente na
política internacional será ainda maior. Não fosse o arsenal nuclear herdado da
antiga URSS a Rússia seria uma potência militar de segunda ordem, sobretudo
porque tem uma economia vulnerável estressada pelo esforço de manter o aparato
belicoso estratégico.
Para
concluir estas elocubrações sobre a Venezuela e sobre o mundo, resta anotar o
impacto sobre o nosso próprio quadro político.
Nossa
direita tacanha e servil não demorou a aplaudir a invasão e o sequestro de
Nicolás Maduro, lambendo os sapatos do reizinho com delícia. Sem desconfiarem
do seu mito, atribuíram a ele o mesmo discurso “democrático” que adotaram, da
boca para fora. Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado, Ratinho Jr. e Romeu Zema,
além do renque de lideranças da direita como Flávio Bolsonaro, Silas Malafaia,
Ciro Nogueira, Arthur Lira e muitos outros aplaudiram a violação da soberania
da Venezuela e saudaram o esperado afastamento do governo chavista e a entrega
do poder para Corina Machado. Não rolou, como todos sabemos, e os idiotas
ficaram pendurados na brocha, balançando as perninhas. Lula, felizmente rompido
com Nicolás Maduro desde as eleições de 2024, posicionou-se com total correção,
defendendo com vigor os princípios que devem regular as relações
internacionais, sem os misturar com a defesa do regime. A grande mídia,
desapontada por não poder atacar Lula, concordou com a posição do governo,
embora aplauda mais o Itamaraty do que o presidente. Ponto positivo nesta
campanha eleitoral antecipada. Podemos esperar que Donald Trump e as big
techs vão tentar de tudo para derrotar Lula nas próximas eleições, mas
felizmente, até agora, tanto os tarifaços como esta invasão estão jogando
contra o apoio de Donald Trump a Flávio Bolsonaro ou outro bolsonarista de
plantão. Que siga assim.
Fonte:
Por Jean Marc von der Weid, em A Terra é Redonda

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