Leite
de jumenta vira aposta para saúde, cosméticos e economia do Nordeste
Muitos
mistérios rondam a vida de Cleópatra, a rainha mais famosa do Egito. Há até
dúvida sobre sua beleza, retratada nos livros e filmes. Mas, uma coisa é certa:
ela estava à frente do seu tempo. Quando o mundo ainda contava o tempo Antes de
Cristo, ela já usava batom vermelho e tomava banhos de leite de jumenta. O
bicho ameaçado de extinção no Nordeste banhava a pele de uma das mulheres mais
importantes da história com a composição que pode ser a salvação do semiárido
nordestino. Já conhecido como “ouro branco”, o leite de jumenta é rentável e
muito mais nutritivo que o leite de vaca. É, inclusive, o que mais se aproxima
do leite materno de nós, os seres humanos.
Se você
fez cara de nojinho, imaginando beber leite de jumenta ou, pior, disse um
sonoro “lá ele”, saiba que você está muito enganado. Só para se ter uma ideia,
o próprio Hipócrates, o Pai da Medicina, dava leite de jumenta a seus pacientes
na Grécia Antiga.
Na
Europa, não é nenhuma novidade. O consumo é cada vez mais comum e caro: o leite
pode custar 50 euros, cerca de R$ 314. Imagine, então, o Nordeste exportando
esta iguaria. Imaginou?
No
Brasil, é quase impossível conseguir um vendedor. Não existe um comércio
formal. Contudo, 2026 promete virar essa chave, inclusive, para abastecer os
bancos de leite das UTIs neonatais pelo país, já que o leite se assemelha ao
humano. Na Universidade do Agreste de Pernambuco (Ufape), em Garanhuns,
cientistas trabalham para que, ainda este ano, o leite de jumenta possa ser
utilizado com segurança em unidades de terapia intensiva pediátrica, graças ao
seu potencial terapêutico. À frente do grupo de pesquisa, o professor Jorge
Lucena explica que todo o processo segue um rígido controle sanitário e de
produção. Mas, está bem avançado.
“Tudo é
desenvolvido com base nas boas práticas. Temos um rebanho controlado, vacinado
contra as principais enfermidades, além das boas práticas de ordenha e da
pasteurização do leite”, diz. Segundo ele, a expectativa é que os testes finais
em humanos sejam concluídos em breve, possibilitando o uso do alimento em UTIs
neonatais de hospitais pernambucanos ainda no primeiro semestre.
O leite
de jumenta apresenta baixo teor de gordura e calorias, alto teor de lactose e
whey proteins, que são proteínas solúveis que facilitam a digestão, além de uma
baixa proporção de caseína, a principal responsável pelas reações alérgicas ao
leite de vaca. Essa combinação explica porque, em diversos estudos clínicos,
entre 82,6% e 98,5% das crianças com alergia à proteína do leite de vaca
toleram bem o consumo do leite de jumenta.
Esse
perfil nutricional faz dele um candidato valioso como alternativa para
indivíduos com alergias alimentares e sensibilidades digestivas, em especial
crianças pequenas que não toleram o leite bovino e precisam de uma fonte de
nutrientes de fácil digestão. Pesquisas apontam ainda que o leite de jumenta
pode modular o microbioma intestinal, aumentar a defesa antioxidante e exercer
efeitos anti-inflamatórios, embora a maior parte desses efeitos ainda esteja
sendo estudada em modelos experimentais e ainda precisem de ensaios clínicos em
larga escala para confirmar benefícios terapêuticos amplos. Mas, convenhamos, é
um avanço.
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Cosméticos
O leite
de jumenta também é um bom produto para a confecção de cosméticos, sendo
benéfico em outro aspecto: não precisa abater o animal, como ocorre atualmente
e está dizimando a espécie na região Nordeste.
Os
pesquisadores destacam ainda que essa experiência já é realidade em países como
a Itália, que serviu de inspiração para o modelo adotado por aqui. “Além do
consumo direto, o leite pode ser transformado em derivados cosméticos e
alimentos funcionais, contribuindo para o desenvolvimento de cadeias produtivas
locais e para a geração de renda complementar aos produtores rurais”, afirma o
professor de veterinária Gustavo Carneiro, da Universidade Federal Rural de
Pernambuco (UFRPE).
O leite
de jumenta é rico em vitaminas (incluindo C e diversas do complexo B) e
minerais, e os estudos apontam que esses constituintes podem favorecer
hidratação, elasticidade e reparação cutânea (cicatrização), razão pela qual já
é ingrediente de cremes, sabonetes e máscaras faciais usados especialmente no
mercado europeu e asiático. Nas plataformas
de comércio eletrônico, o leite de jumenta começa a ganhar espaço no
nicho fora do país. Consumidores interessados em versões liofilizadas (em pó)
ou embaladas para consumo direto já encontram opções em marketplaces globais e
em sites especializados em produtos naturais, embora a oferta ainda não é
continuada e frequentemente envolve importação.
O
interesse crescente também alimenta uma revalorização da asinocultura, a
criação de jumentos voltada para produção de leite, como componente de uma
economia rural mais diversificada. Com a possibilidade de transformar não
apenas o leite, mas também subprodutos como colágeno, gelatina, queijos e
biofármacos, a cadeia produtiva associa sustentabilidade, inovação e geração de
valor agregado aos pequenos produtores. E, repetimos, preservando a espécie,
que não precisa ser abatida - as principais causas para o abate da espécie são
a exportação de pele e o desuso do trabalho do jumento no campo por causa da
mecanização.
Segundo
o zootecnista Alex Bastos, responsável técnico da Nordeste Pecuária, essa
mudança de cenário remodela a importância do animal que, apesar de ser um
símbolo do Nordeste, é oriundo da África, mais precisamente, da região da
Etiópia. “Sem valor econômico e social, o animal doméstico tende ao abandono.
Quando passa a ser valorizado, recebe cuidado, manejo adequado e passa a
integrar um ciclo produtivo sustentável. O clima, a vegetação da caatinga e a
rusticidade do animal formam uma combinação altamente favorável. Com manejo
zootécnico adequado, o semiárido se torna uma região extremamente competitiva
para a asinocultura”, pondera.
O
Brasil pode estar diante de uma nova fronteira na alimentação funcional e na
saúde pública, com o leite de jumenta desempenhando um papel que vai muito além
da curiosidade histórica de Cleópatra. Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, já cantava
a importância do animal: “O jumento sempre foi o maior desenvolvimentista do
sertão! O jumento é nosso irmão”. Tomando como base que nosso leite se
assemelha ao deles, Gonzagão estava certo mesmo.
Fonte:
Correio

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