sábado, 24 de janeiro de 2026

Gabriel Zucman: Compreender a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela

Não se trata de minimizar os aspectos ideológicos ou geopolíticos da intervenção norte-americana: reafirmar a Doutrina Monroe, estabelecer esferas de influência imperial.

Mas o motivo essencial desse golpe de força é o petróleo: sua apropriação e a extração das maiores reservas de ouro negro do mundo, exploradas durante muito tempo com uma rentabilidade sem precedentes pelas multinacionais norte-americanas e seus acionistas.

Maduro era um ditador brutal e corrupto, mas Trump se dá muito bem com muitos ditadores brutais e corruptos, o que não lhe gera nenhuma hostilidade.

O objetivo principal da expedição trumpista é outro: retomar a exploração do maná petrolífero venezuelano em benefício das grandes fortunas norte-americanas, exploração que atingiu seu primeiro auge na década de 1950, durante a “idade de ouro” mitificada pelo movimento MAGA.

Se quisermos compreender a ambição da Casa Branca, devemos voltar a essa história pouco conhecida: a de um extrativismo internacional levado ao extremo, do qual Trump busca hoje escrever um novo capítulo que, se conseguir, poderá ser ainda mais extremo.

A produção petrolífera venezuelana começa na década de 1910 com um vício fundador: o petróleo é entregue, por assim dizer, às grandes empresas estrangeiras.

O ditador Juan Vicente Gómez concedeu concessões extraordinariamente generosas às multinacionais norte-americanas e britânicas, que rapidamente desenvolveram a produção.

Em 1929, Caracas representava mais de 10% da produção mundial de ouro negro e era o maior exportador do mundo.

Em 1957, o equivalente a 12% do produto interno líquido venezuelano ia parar nas mãos de acionistas norte-americanos.

Inicialmente, britânicos e norte-americanos dividiam o bolo. Ao final da Segunda Guerra Mundial, estes últimos acabaram levando todo o butim. A Venezuela tornou-se o principal destino dos investimentos internacionais dos Estados Unidos e sua principal fonte de lucros externos.

Em 1957, no auge desse extrativismo transfronteiriço, os lucros registrados pelas grandes empresas norte-americanas na Venezuela eram da mesma ordem de grandeza que o conjunto dos lucros obtidos por todas as multinacionais norte-americanas — de todos os setores — em todos os demais países da América Latina e em todos os países da Europa continental juntos.

O equivalente a 12% do produto interno líquido venezuelano — isto é, o valor de todos os bens e serviços produzidos anualmente no país — ia para os acionistas norte-americanos. Ou seja, aproximadamente o mesmo que recebia a classe popular da Venezuela, os 50% mais pobres do país.

O PIB da Venezuela crescia, mas em benefício das grandes fortunas norte-americanas que recebiam os dividendos e dos empregados norte-americanos bem remunerados.

No início da década de 1960, a Venezuela abrigava a maior comunidade de expatriados norte-americanos. Eles viviam em enclaves reservados, dotados de hospitais modernos e luxuosos campos de beisebol.

É a “idade de ouro” à qual o poder trumpista deseja retornar. Uma repartição das receitas do petróleo que dificilmente poderia ser mais injusta e desigual.

Trata-se também de um modelo de desenvolvimento profundamente instável, que só pode provocar reações violentas.

Como aceitar que as receitas percebidas pelos acionistas estrangeiros sejam da mesma ordem de grandeza que as percebidas por metade da população local?

Até a década de 1950, seguindo os passos de Gómez, os diferentes regimes que se sucederam no poder em Caracas preferiram mimar o capital internacional, mantendo uma tributação leve, dobrando-se aos desejos das grandes empresas e, muitas vezes, enriquecendo-se no processo.

A partir da década de 1960, assim como no restante da América Latina, os governos sucessivos tentaram negociar condições financeiras mais equilibradas.

A Venezuela colocou-se na vanguarda desse movimento. O político venezuelano Juan Pablo Pérez Alfonzo foi o impulsionador da criação da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) em 1960. O país assumiu a liderança do movimento para instaurar uma “nova ordem econômica internacional” e exigir uma revisão das regras do comércio mundial.

Esse processo culminou em 1976 com a nacionalização dos ativos da ExxonMobil, Shell e Chevron na Venezuela.

Donald tinha então 30 anos. Hoje, não cessa de denunciar esse “roubo”. E não esconde seu principal objetivo: voltar às condições leoninas do período 1920–1960.

Se conseguir, pode-se prever uma duplicação ou mesmo uma triplicação dos lucros da indústria petrolífera norte-americana, um dos maiores financiadores de Trump e do Partido Republicano.

As reservas de ouro negro da Venezuela são, de fato, consideráveis — as maiores do mundo. E estão praticamente inexploradas, já que a produção despencou devido à má gestão do regime chavista e ao endurecimento das sanções norte-americanas em 2017.

Os interesses financeiros são tanto mais importantes quanto mais elevados forem os preços do petróleo em relação aos anos 1950. Se Trump conseguisse restabelecer as condições financeiras que prevaleciam em meados do século XX, os ganhos obtidos pelas grandes empresas norte-americanas e por seus proprietários aumentariam na mesma proporção.

Quando Trump diz que quer “governar” a Venezuela, esse é o seu projeto.

Para se ter uma ideia da magnitude, os lucros da Aramco, principal produtora de petróleo da Arábia Saudita, país que abriga as segundas maiores reservas de ouro negro, alcançaram nos últimos anos entre 100 e 150 bilhões de dólares por ano.

Entre 100 e 150 bilhões de dólares por ano: essa é a soma que está hoje em jogo após o sequestro de Maduro.

¨     Venezuela: a Europa prostrada. Por Raul Noetzold

Passividade diante da agressão de Trump custará caro, e não apenas porque a Groenlândia está ameaçada. Continente parece incapaz tanto de defender o direito internacional quanto de atuar como um sujeito autônomo, num tempo de transformações geopolíticas...

<><> I. A Venezuela no centro de uma ordem em crise

A crise venezuelana costuma ser apresentada no debate público europeu e norte-americano como um fenômeno isolado, resultado exclusivo de decisões internas, autoritarismo político ou má gestão econômica. Essa leitura, no entanto, ignora deliberadamente o contexto histórico mais amplo no qual a Venezuela se insere: o de uma América Latina sistematicamente tratada como zona de influência estratégica dos Estados Unidos desde o século XIX.

Mais do que uma exceção, a Venezuela constitui um caso exemplar da persistência de práticas imperialistas no continente americano. Sanções econômicas, isolamento diplomático, apoio seletivo a forças oposicionistas e a constante evocação da possibilidade de intervenção militar compõem um repertório já conhecido na história da região. O que distingue o caso venezuelano não é a novidade dos métodos empregados, mas a sua combinação com um cenário internacional marcado pela fragmentação da ordem liberal e pela intensificação das disputas entre grandes potências.

É nesse contexto que a posição da União Europeia merece atenção particular. Ao alinhar-se de forma quase automática à estratégia estadunidense em relação à Venezuela, a UE não apenas reforça dinâmicas que fragilizam o princípio da autodeterminação dos povos, como também expõe a sua própria incapacidade de atuar como um sujeito geopolítico autônomo. Longe de ser um problema distante ou periférico, a crise venezuelana revela contradições centrais da política externa europeia e antecipa dilemas que se manifestam de forma ainda mais aguda em outros conflitos contemporâneos.

<><> II. A União Europeia entre o direito internacional e a subordinação estratégica

A resposta da União Europeia à invasão da Venezuela em 3 de janeiro de 2026 não pode ser compreendida apenas como hesitação diplomática ou prudência institucional. Trata-se de algo mais profundo: a expressão reiterada de uma política externa estruturalmente subordinada aos Estados Unidos, incapaz de sustentar uma leitura coerente e universalista do direito internacional quando os interesses de Washington estão em jogo.

Ao limitar-se a apelos genéricos à contenção, à estabilidade e à solução política, evitando qualificar explicitamente a ação estadunidense como invasão ou agressão, a União Europeia operou uma forma de neutralização discursiva da violência imperial. O direito internacional surge, assim, não como princípio normativo vinculante, mas como recurso retórico seletivo, acionado de acordo com a posição do ator que viola a soberania alheia.

Esse padrão revela um problema estrutural do projeto europeu contemporâneo. Embora frequentemente apresentada como potência normativa, promotora do multilateralismo, da legalidade internacional e da diplomacia, a União Europeia demonstra, nos momentos decisivos, uma incapacidade crônica de sustentar esses princípios contra a principal potência militar do sistema internacional. A invasão da Venezuela torna visível essa contradição: a UE critica regimes periféricos em nome da democracia, mas evita confrontar diretamente a violação armada da soberania quando ela parte do centro imperial.

As declarações de figuras da esquerda europeia, como Catarina Martins, ao condenar a invasão sem ambiguidades, revelam que alternativas políticas existem no interior do espaço europeu. No entanto, o caráter marginal dessas posições no processo decisório evidencia que o problema não é a ausência de crítica, mas a arquitetura política da própria União Europeia, cuja política externa permanece ancorada na lógica atlântica e na dependência estratégica em relação aos Estados Unidos.

<><> III. Groenlândia: o espelho ártico da dependência europeia

A questão da Groenlândia oferece um contraponto decisivo para compreender os limites da soberania europeia. Formalmente vinculada à Dinamarca e, portanto, ao espaço político europeu, a ilha ocupa uma posição estratégica central no Ártico, região cada vez mais disputada em função de rotas marítimas, recursos naturais e projeção militar.

O interesse explícito dos Estados Unidos na Groenlândia — expresso em declarações oficiais, reforço de presença militar e tentativas abertas de ampliar o controle sobre o território — expõe de forma cristalina a assimetria da relação transatlântica. Apesar de se tratar de um território ligado a um Estado-membro da União Europeia, as decisões fundamentais sobre segurança e presença militar são moldadas, na prática, fora da Europa.

A comparação com a Venezuela é reveladora. Em ambos os casos, a soberania aparece como variável negociável. Na América Latina, a violação assume a forma de intervenção armada direta; no Ártico, manifesta-se por meio da naturalização da presença militar estadunidense em território europeu. Em ambos os contextos, a União Europeia demonstra incapacidade de afirmar-se como sujeito político autônomo.

A Groenlândia, longe de ser um caso periférico ou exótico, funciona como espelho da condição europeia. Ela revela que a submissão estratégica não é apenas um problema externo, projetado sobre o Sul Global, mas um elemento constitutivo da própria fragilidade europeia. A incapacidade de defender plenamente a soberania de seus próprios territórios lança dúvidas profundas sobre a viabilidade do projeto europeu como ator geopolítico independente.

<><> IV. Anti-imperialismo como realismo europeu

É nesse ponto que a crítica à União Europeia deve ultrapassar o registro moral e assumir um caráter pedagógico e estratégico. Defender a soberania da Venezuela diante da invasão estadunidense não é apenas um gesto de solidariedade internacionalista ou coerência ideológica. Trata-se, para a Europa, de uma questão de sobrevivência política.

Ao aceitar a normalização da intervenção armada na América Latina, a União Europeia contribui para consolidar uma ordem internacional em que a força substitui o direito e em que a soberania se torna privilégio das grandes potências. Essa mesma lógica, como demonstram os casos da Ucrânia e da Groenlândia, retorna inevitavelmente ao próprio continente europeu, transformando-o em espaço de disputa entre atores externos.

A pergunta que se impõe, portanto, não é se a União Europeia deveria adotar uma postura mais crítica em relação ao imperialismo estadunidense por razões éticas, mas se pode continuar a existir como projeto político relevante mantendo-se subordinada a ele. O alinhamento automático com Washington, longe de garantir segurança, aprofunda a vulnerabilidade europeia num mundo marcado pela competição entre grandes potências e pela erosão das regras multilaterais.

Romper com essa lógica exigiria da União Europeia um gesto político de grande envergadura: reconhecer que a defesa da autodeterminação dos povos (na Venezuela, na América Latina e além) é inseparável da defesa de sua própria autonomia estratégica. Sem isso, o projeto europeu corre o risco de se reduzir a um espaço econômico integrado, mas politicamente tutelado, incapaz de definir seu próprio destino.

Como lembrava Eduardo Galeano, as veias abertas da América Latina não são apenas feridas do passado, mas estruturas vivas do presente. A invasão da Venezuela revela que essas veias continuam a ser exploradas e que a passividade europeia diante desse processo compromete não apenas o Sul Global, mas o futuro da própria Europa.

 

Fonte: Ctxt/Outras Palavras

 

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