Gabriel
Zucman: Compreender a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela
Não se
trata de minimizar os aspectos ideológicos ou geopolíticos da intervenção
norte-americana: reafirmar a Doutrina Monroe, estabelecer esferas de influência
imperial.
Mas o
motivo essencial desse golpe de força é o petróleo: sua apropriação e a
extração das maiores reservas de ouro negro do mundo, exploradas durante muito
tempo com uma rentabilidade sem precedentes pelas multinacionais
norte-americanas e seus acionistas.
Maduro
era um ditador brutal e corrupto, mas Trump se dá muito bem com muitos
ditadores brutais e corruptos, o que não lhe gera nenhuma hostilidade.
O
objetivo principal da expedição trumpista é outro: retomar a exploração do maná
petrolífero venezuelano em benefício das grandes fortunas norte-americanas,
exploração que atingiu seu primeiro auge na década de 1950, durante a “idade de
ouro” mitificada pelo movimento MAGA.
Se
quisermos compreender a ambição da Casa Branca, devemos voltar a essa história
pouco conhecida: a de um extrativismo internacional levado ao extremo, do qual
Trump busca hoje escrever um novo capítulo que, se conseguir, poderá ser ainda
mais extremo.
A
produção petrolífera venezuelana começa na década de 1910 com um vício
fundador: o petróleo é entregue, por assim dizer, às grandes empresas
estrangeiras.
O
ditador Juan Vicente Gómez concedeu concessões extraordinariamente generosas às
multinacionais norte-americanas e britânicas, que rapidamente desenvolveram a
produção.
Em
1929, Caracas representava mais de 10% da produção mundial de ouro negro e era
o maior exportador do mundo.
Em
1957, o equivalente a 12% do produto interno líquido venezuelano ia parar nas
mãos de acionistas norte-americanos.
Inicialmente,
britânicos e norte-americanos dividiam o bolo. Ao final da Segunda Guerra
Mundial, estes últimos acabaram levando todo o butim. A Venezuela tornou-se o
principal destino dos investimentos internacionais dos Estados Unidos e sua
principal fonte de lucros externos.
Em
1957, no auge desse extrativismo transfronteiriço, os lucros registrados pelas
grandes empresas norte-americanas na Venezuela eram da mesma ordem de grandeza
que o conjunto dos lucros obtidos por todas as multinacionais norte-americanas
— de todos os setores — em todos os demais países da América Latina e em todos
os países da Europa continental juntos.
O
equivalente a 12% do produto interno líquido venezuelano — isto é, o valor de
todos os bens e serviços produzidos anualmente no país — ia para os acionistas
norte-americanos. Ou seja, aproximadamente o mesmo que recebia a classe popular
da Venezuela, os 50% mais pobres do país.
O PIB
da Venezuela crescia, mas em benefício das grandes fortunas norte-americanas
que recebiam os dividendos e dos empregados norte-americanos bem remunerados.
No
início da década de 1960, a Venezuela abrigava a maior comunidade de
expatriados norte-americanos. Eles viviam em enclaves reservados, dotados de
hospitais modernos e luxuosos campos de beisebol.
É a
“idade de ouro” à qual o poder trumpista deseja retornar. Uma repartição das
receitas do petróleo que dificilmente poderia ser mais injusta e desigual.
Trata-se
também de um modelo de desenvolvimento profundamente instável, que só pode
provocar reações violentas.
Como
aceitar que as receitas percebidas pelos acionistas estrangeiros sejam da mesma
ordem de grandeza que as percebidas por metade da população local?
Até a
década de 1950, seguindo os passos de Gómez, os diferentes regimes que se
sucederam no poder em Caracas preferiram mimar o capital internacional,
mantendo uma tributação leve, dobrando-se aos desejos das grandes empresas e,
muitas vezes, enriquecendo-se no processo.
A
partir da década de 1960, assim como no restante da América Latina, os governos
sucessivos tentaram negociar condições financeiras mais equilibradas.
A
Venezuela colocou-se na vanguarda desse movimento. O político venezuelano Juan
Pablo Pérez Alfonzo foi o impulsionador da criação da OPEP (Organização dos
Países Exportadores de Petróleo) em 1960. O país assumiu a liderança do
movimento para instaurar uma “nova ordem econômica internacional” e exigir uma
revisão das regras do comércio mundial.
Esse
processo culminou em 1976 com a nacionalização dos ativos da ExxonMobil, Shell
e Chevron na Venezuela.
Donald
tinha então 30 anos. Hoje, não cessa de denunciar esse “roubo”. E não esconde
seu principal objetivo: voltar às condições leoninas do período 1920–1960.
Se
conseguir, pode-se prever uma duplicação ou mesmo uma triplicação dos lucros da
indústria petrolífera norte-americana, um dos maiores financiadores de Trump e
do Partido Republicano.
As
reservas de ouro negro da Venezuela são, de fato, consideráveis — as maiores do
mundo. E estão praticamente inexploradas, já que a produção despencou devido à
má gestão do regime chavista e ao endurecimento das sanções norte-americanas em
2017.
Os
interesses financeiros são tanto mais importantes quanto mais elevados forem os
preços do petróleo em relação aos anos 1950. Se Trump conseguisse restabelecer
as condições financeiras que prevaleciam em meados do século XX, os ganhos
obtidos pelas grandes empresas norte-americanas e por seus proprietários
aumentariam na mesma proporção.
Quando
Trump diz que quer “governar” a Venezuela, esse é o seu projeto.
Para se
ter uma ideia da magnitude, os lucros da Aramco, principal produtora de
petróleo da Arábia Saudita, país que abriga as segundas maiores reservas de
ouro negro, alcançaram nos últimos anos entre 100 e 150 bilhões de dólares por
ano.
Entre
100 e 150 bilhões de dólares por ano: essa é a soma que está hoje em jogo após
o sequestro de Maduro.
¨ Venezuela: a Europa
prostrada. Por Raul Noetzold
Passividade
diante da agressão de Trump custará caro, e não apenas porque a Groenlândia
está ameaçada. Continente parece incapaz tanto de defender o direito
internacional quanto de atuar como um sujeito autônomo, num tempo de
transformações geopolíticas...
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I. A Venezuela no centro de uma ordem em crise
A crise
venezuelana costuma ser apresentada no debate público europeu e norte-americano
como um fenômeno isolado, resultado exclusivo de decisões internas,
autoritarismo político ou má gestão econômica. Essa leitura, no entanto, ignora
deliberadamente o contexto histórico mais amplo no qual a Venezuela se insere:
o de uma América Latina sistematicamente tratada como zona de influência
estratégica dos Estados Unidos desde o século XIX.
Mais do
que uma exceção, a Venezuela constitui um caso exemplar da
persistência de práticas imperialistas no continente americano. Sanções
econômicas, isolamento diplomático, apoio seletivo a forças oposicionistas e a
constante evocação da possibilidade de intervenção militar compõem um
repertório já conhecido na história da região. O que distingue o caso
venezuelano não é a novidade dos métodos empregados, mas a sua combinação com
um cenário internacional marcado pela fragmentação da ordem liberal e pela intensificação
das disputas entre grandes potências.
É nesse
contexto que a posição da União Europeia merece atenção particular. Ao
alinhar-se de forma quase automática à estratégia estadunidense em relação à
Venezuela, a UE não apenas reforça dinâmicas que fragilizam o princípio da
autodeterminação dos povos, como também expõe a sua própria incapacidade de
atuar como um sujeito geopolítico autônomo. Longe de ser um problema distante
ou periférico, a crise venezuelana revela contradições centrais da política
externa europeia e antecipa dilemas que se manifestam de forma ainda mais aguda
em outros conflitos contemporâneos.
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II. A União Europeia entre o direito internacional e a subordinação estratégica
A
resposta da União Europeia à invasão da Venezuela em 3 de janeiro de 2026 não
pode ser compreendida apenas como hesitação diplomática ou prudência
institucional. Trata-se de algo mais profundo: a expressão reiterada de uma
política externa estruturalmente subordinada aos Estados Unidos, incapaz de
sustentar uma leitura coerente e universalista do direito internacional quando
os interesses de Washington estão em jogo.
Ao
limitar-se a apelos genéricos à contenção, à estabilidade e à solução política,
evitando qualificar explicitamente a ação estadunidense como invasão ou
agressão, a União Europeia operou uma forma de neutralização discursiva da
violência imperial. O direito internacional surge, assim, não como princípio
normativo vinculante, mas como recurso retórico seletivo, acionado de acordo
com a posição do ator que viola a soberania alheia.
Esse
padrão revela um problema estrutural do projeto europeu contemporâneo. Embora
frequentemente apresentada como potência normativa, promotora do
multilateralismo, da legalidade internacional e da diplomacia, a União Europeia
demonstra, nos momentos decisivos, uma incapacidade crônica de sustentar esses
princípios contra a principal potência militar do sistema internacional. A
invasão da Venezuela torna visível essa contradição: a UE critica regimes
periféricos em nome da democracia, mas evita confrontar diretamente a violação
armada da soberania quando ela parte do centro imperial.
As
declarações de figuras da esquerda europeia, como Catarina Martins, ao condenar
a invasão sem ambiguidades, revelam que alternativas políticas existem no
interior do espaço europeu. No entanto, o caráter marginal dessas posições no
processo decisório evidencia que o problema não é a ausência de crítica, mas a
arquitetura política da própria União Europeia, cuja política externa permanece
ancorada na lógica atlântica e na dependência estratégica em relação aos
Estados Unidos.
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III. Groenlândia: o espelho ártico da dependência europeia
A
questão da Groenlândia oferece um contraponto decisivo para compreender os
limites da soberania europeia. Formalmente vinculada à Dinamarca e, portanto,
ao espaço político europeu, a ilha ocupa uma posição estratégica central no
Ártico, região cada vez mais disputada em função de rotas marítimas, recursos
naturais e projeção militar.
O
interesse explícito dos Estados Unidos na Groenlândia — expresso em declarações
oficiais, reforço de presença militar e tentativas abertas de ampliar o
controle sobre o território — expõe de forma cristalina a assimetria da relação
transatlântica. Apesar de se tratar de um território ligado a um Estado-membro
da União Europeia, as decisões fundamentais sobre segurança e presença militar
são moldadas, na prática, fora da Europa.
A
comparação com a Venezuela é reveladora. Em ambos os casos, a soberania aparece
como variável negociável. Na América Latina, a violação assume a forma de
intervenção armada direta; no Ártico, manifesta-se por meio da naturalização da
presença militar estadunidense em território europeu. Em ambos os contextos, a
União Europeia demonstra incapacidade de afirmar-se como sujeito político
autônomo.
A
Groenlândia, longe de ser um caso periférico ou exótico, funciona como espelho
da condição europeia. Ela revela que a submissão estratégica não é apenas um
problema externo, projetado sobre o Sul Global, mas um elemento constitutivo da
própria fragilidade europeia. A incapacidade de defender plenamente a soberania
de seus próprios territórios lança dúvidas profundas sobre a viabilidade do
projeto europeu como ator geopolítico independente.
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IV. Anti-imperialismo como realismo europeu
É nesse
ponto que a crítica à União Europeia deve ultrapassar o registro moral e
assumir um caráter pedagógico e estratégico. Defender a soberania da Venezuela
diante da invasão estadunidense não é apenas um gesto de solidariedade
internacionalista ou coerência ideológica. Trata-se, para a Europa, de uma
questão de sobrevivência política.
Ao
aceitar a normalização da intervenção armada na América Latina, a União
Europeia contribui para consolidar uma ordem internacional em que a força
substitui o direito e em que a soberania se torna privilégio das grandes
potências. Essa mesma lógica, como demonstram os casos da Ucrânia e da
Groenlândia, retorna inevitavelmente ao próprio continente europeu,
transformando-o em espaço de disputa entre atores externos.
A
pergunta que se impõe, portanto, não é se a União Europeia deveria adotar uma
postura mais crítica em relação ao imperialismo estadunidense por razões
éticas, mas se pode continuar a existir como projeto político relevante
mantendo-se subordinada a ele. O alinhamento automático com Washington, longe
de garantir segurança, aprofunda a vulnerabilidade europeia num mundo marcado
pela competição entre grandes potências e pela erosão das regras multilaterais.
Romper
com essa lógica exigiria da União Europeia um gesto político de grande
envergadura: reconhecer que a defesa da autodeterminação dos povos (na
Venezuela, na América Latina e além) é inseparável da defesa de sua própria
autonomia estratégica. Sem isso, o projeto europeu corre o risco de se reduzir
a um espaço econômico integrado, mas politicamente tutelado, incapaz de definir
seu próprio destino.
Como
lembrava Eduardo Galeano, as veias abertas da América Latina não são apenas
feridas do passado, mas estruturas vivas do presente. A invasão da Venezuela
revela que essas veias continuam a ser exploradas e que a passividade europeia
diante desse processo compromete não apenas o Sul Global, mas o futuro da
própria Europa.
Fonte: Ctxt/Outras
Palavras

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