Luís
Nassif: A Geopolítica do Petrodólar - Irã, Venezuela e a Disputa pela Ordem
Mundial
Impérios
em declínio tendem a intensificar controle sobre recursos estratégicos e reagir
violentamente à ascensão de rivais.
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Direitos Humanos como Instrumento Geopolítico
O Irã
desrespeita direitos humanos? Sim. Assim como a Arábia Saudita, Israel, Egito,
Emirados Árabes Unidos, Honduras, Colômbia, Tailândia e Paquistão — todos
aliados dos Estados Unidos.
Nos
próprios Estados Unidos opera Guantánamo, com prisões sem julgamento, torturas
e detidos há mais de 20 anos sem condenação. A violência policial e o racismo
estrutural manifestam-se em casos emblemáticos como George Floyd e Breonna
Taylor. Há um sistema de tortura institucionalizado pós-11 de setembro,
praticado pela CIA, e intervenções militares “humanitárias” que resultaram em
bombardeios com mortes civis massivas no Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria.
Portanto,
quando ler sobre desrespeito aos direitos humanos no Irã, considere que
frequentemente isso serve como álibi convencional para interferência política
norte-americana na região — padrão semelhante ao observado nas chamadas
Primaveras Árabes.
Entendido
esse contexto, vamos às verdadeiras razões dessa agitação geopolítica.
A
Arquitetura do Petrodólar
Irã e
Venezuela estão inseridos na mesma estratégia da geopolítica do petróleo.
Quando Richard Nixon desatrelou o dólar do ouro em 1971, o mundo foi tragado
pelo turbilhão do livre fluxo de capitais e políticas cambiais anárquicas.
Iniciou-se uma corrida para encontrar o ativo que substituísse o ouro como
âncora do dólar.
Para
preservar o poder da moeda americana, a saída foi um acordo firmado com a
Arábia Saudita em 1974: seu petróleo seria vendido exclusivamente em dólares. O
mundo entrou na era dos petrodólares, assegurando a manutenção do dólar como
reserva de valor global.
Desde
então, o governo norte-americano utiliza projeção de poder militar e pressões
políticas para desencorajar nações — especialmente no Oriente Médio — de
abandonarem o sistema do petrodólar. Trata-se de ponto fundamental para
garantir a gestão de uma dívida nacional que atingiu 37 trilhões de dólares.
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Trump, China e o Novo Acordo Estratégico
Um dos
pontos centrais da estratégia norte-americana é convencer a China a aceitar
compromissos que ajudem a estabilizar o dólar e reduzir a pressão da dívida dos
EUA. Será o principal tema da conversa de Donald Trump com Xi Jinping, o
presidente chinês.
No
fundo, Trump pretende reeditar com a China um tratado em defesa do dólar com a
mesma relevância daquele firmado com a Arábia Saudita — transformar Pequim em
garante da hegemonia monetária americana.
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O Dólar como Arma e Seus Efeitos Colaterais
Essa
ofensiva ocorre em momento crítico. Desde que o dólar passou a ser utilizado
como arma política — com a exclusão da Rússia do SWIFT, o sistema de
compensação de reservas internacionais — passou também a ser visto como ameaça
à autonomia dos países.
Os EUA
estariam conduzindo operações geopolíticas (como intervenções em países ricos
em energia) para forçar a China a continuar usando o dólar e reforçar sua
dependência da economia americana. A Rússia e o comércio de commodities (prata,
petróleo, metais raros) são peças críticas neste jogo de influência econômica.
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Venezuela e Irã: Estrangulamento Estratégico
A
intervenção recente na Venezuela — incluindo ações militares, sanções e apoio a
oposições — seria uma tentativa americana de estrangular o acesso da China às
reservas de petróleo e recursos estratégicos na América Latina.
A
intervenção no Irã é ainda mais problemática, por ser país-chave no
fornecimento de petróleo para a China fora do sistema dólar. Esse fato traz
risco de escalada ou conflito maior envolvendo forças dos EUA, aliados e
potências rivais.
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As Fragilidades do Império
Há
outros fatores críticos na equação, sendo os mais relevantes as fragilidades da
própria economia norte-americana:
- A bolha da
inteligência artificial (IA)
- O questionamento
crescente do dólar como moeda global
- A especulação
desenfreada com criptomoedas e metais preciosos
- A queda de
popularidade de Trump, provocando instabilidade social interna
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Os Campos de Batalha: A Visão de Jiang Xueqin
Considerado
um dos grandes analistas da geopolítica mundial, Jiang Xueqin traça os
seguintes pontos de conflito para a década:
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1. Eixo Central: EUA × China
A
disputa entre Estados Unidos e China será o evento estruturante da década. Não
é guerra direta: é guerra econômica, financeira e tecnológica. Jiang compara ao
duelo EUA × URSS, mas com interdependência econômica — o que torna tudo mais
instável e perigoso.
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2. Dólar como Arma Geopolítica
Os EUA
usam o dólar como instrumento de poder, forçando países (especialmente a China)
a continuar operando dentro do sistema financeiro americano. Sanções, controle
de bancos e manipulação do comércio internacional fazem parte da estratégia.
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3. Energia como Campo de Batalha
Petróleo
e gás seguem sendo ativos geopolíticos centrais. A Venezuela entra no tabuleiro
por ser rica em petróleo e aliada da China. A pressão dos EUA visa cortar o
acesso chinês a recursos estratégicos na América Latina.
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4. Pontos Quentes no Mapa
## Ásia:
- Taiwan: maior
risco militar do planeta
- Japão:
rearmamento gradual
- Mar do Sul da
China: disputas navais crescentes
## Oriente
Médio:
- Irã como pivô de
tensão regional
- Risco de
conflito indireto EUA × China/Rússia
## América
Latina:
- Região volta ao
radar estratégico
- EUA querem frear
expansão chinesa em infraestrutura e energia
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5. Tecnologia e Guerra Invisível
Chips,
IA e dados são o novo “petróleo”. Os EUA tentam bloquear acesso chinês a
semicondutores avançados, enquanto a China acelera seu projeto de
autossuficiência tecnológica.
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6. Fragilidades Internas dos EUA
Jiang
alerta para:
- Bolha
especulativa em tecnologia e IA
- Endividamento
recorde e insustentável
- Polarização
política extrema
- Risco de crises
sociais internas
Resumo: império
forte por fora, frágil por dentro.
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7. Risco de Colapsos em Cadeia
Se a
hegemonia americana enfraquecer abruptamente:
- Mercados entram
em pânico
- Moedas sofrem
desvalorizações em cascata
- Conflitos
regionais explodem
- Alianças se
reorganizam caoticamente
Efeito
dominó global.
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8. Leitura Histórica de Jiang
Ele usa
padrões de impérios antigos:
- Ascensão
- Pico de poder
- Excesso e
sobreextensão
- Desgaste interno
- Crise sistêmica
Para
Jiang, os EUA estariam no estágio final de hegemonia — entre sobreextensão e
crise sistêmica.
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9. Conclusão Estratégica
## 2026 seria um ano-chave porque:
- A tensão EUA ×
China atinge ponto crítico
- Decisões tomadas
agora moldam a ordem mundial por décadas
- O mundo caminha
para um sistema multipolar instável
- A transição
hegemônica pode ser pacífica ou catastrófica
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Conclusão
A
história mostra que transições hegemônicas raramente são pacíficas. Impérios em
declínio tendem a intensificar controle sobre recursos estratégicos e reagir
violentamente à ascensão de rivais.
A
questão central não é se haverá transição para um mundo multipolar,
mas como ela ocorrerá. Num mundo nuclear e economicamente
interdependente, os custos de uma transição mal gerida seriam catastróficos
para toda a humanidade.
O
petrodólar, nascido da crise de 1971, pode estar chegando ao fim de seu ciclo.
O que virá depois permanece incerto — mas certamente não será pacífico.
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Venezuela: a Europa prostrada. Por Raul Noetzold
A crise
venezuelana costuma ser apresentada no debate público europeu e norte-americano
como um fenômeno isolado, resultado exclusivo de decisões internas,
autoritarismo político ou má gestão econômica. Essa leitura, no entanto, ignora
deliberadamente o contexto histórico mais amplo no qual a Venezuela se insere:
o de uma América Latina sistematicamente tratada como zona de influência
estratégica dos Estados Unidos desde o século XIX.
Mais do
que uma exceção, a Venezuela constitui um caso exemplar da
persistência de práticas imperialistas no continente americano. Sanções
econômicas, isolamento diplomático, apoio seletivo a forças oposicionistas e a
constante evocação da possibilidade de intervenção militar compõem um
repertório já conhecido na história da região. O que distingue o caso
venezuelano não é a novidade dos métodos empregados, mas a sua combinação com
um cenário internacional marcado pela fragmentação da ordem liberal e pela intensificação
das disputas entre grandes potências.
É nesse
contexto que a posição da União Europeia merece atenção particular. Ao
alinhar-se de forma quase automática à estratégia estadunidense em relação à
Venezuela, a UE não apenas reforça dinâmicas que fragilizam o princípio da
autodeterminação dos povos, como também expõe a sua própria incapacidade de
atuar como um sujeito geopolítico autônomo. Longe de ser um problema distante
ou periférico, a crise venezuelana revela contradições centrais da política
externa europeia e antecipa dilemas que se manifestam de forma ainda mais aguda
em outros conflitos contemporâneos.
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A União Europeia entre o direito internacional e a subordinação estratégica
A
resposta da União Europeia à invasão da Venezuela em 3 de janeiro de 2026 não
pode ser compreendida apenas como hesitação diplomática ou prudência
institucional. Trata-se de algo mais profundo: a expressão reiterada de uma
política externa estruturalmente subordinada aos Estados Unidos, incapaz de
sustentar uma leitura coerente e universalista do direito internacional quando
os interesses de Washington estão em jogo.
Ao
limitar-se a apelos genéricos à contenção, à estabilidade e à solução política,
evitando qualificar explicitamente a ação estadunidense como invasão ou
agressão, a União Europeia operou uma forma de neutralização discursiva da
violência imperial. O direito internacional surge, assim, não como princípio
normativo vinculante, mas como recurso retórico seletivo, acionado de acordo
com a posição do ator que viola a soberania alheia.
Esse
padrão revela um problema estrutural do projeto europeu contemporâneo. Embora
frequentemente apresentada como potência normativa, promotora do
multilateralismo, da legalidade internacional e da diplomacia, a União Europeia
demonstra, nos momentos decisivos, uma incapacidade crônica de sustentar esses
princípios contra a principal potência militar do sistema internacional. A
invasão da Venezuela torna visível essa contradição: a UE critica regimes
periféricos em nome da democracia, mas evita confrontar diretamente a violação
armada da soberania quando ela parte do centro imperial.
As
declarações de figuras da esquerda europeia, como Catarina Martins, ao condenar
a invasão sem ambiguidades, revelam que alternativas políticas existem no
interior do espaço europeu. No entanto, o caráter marginal dessas posições no
processo decisório evidencia que o problema não é a ausência de crítica, mas a
arquitetura política da própria União Europeia, cuja política externa permanece
ancorada na lógica atlântica e na dependência estratégica em relação aos
Estados Unidos.
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Groenlândia: o espelho ártico da dependência europeia
A
questão da Groenlândia oferece um contraponto decisivo para compreender os
limites da soberania europeia. Formalmente vinculada à Dinamarca e, portanto,
ao espaço político europeu, a ilha ocupa uma posição estratégica central no
Ártico, região cada vez mais disputada em função de rotas marítimas, recursos
naturais e projeção militar.
O
interesse explícito dos Estados Unidos na Groenlândia — expresso em declarações
oficiais, reforço de presença militar e tentativas abertas de ampliar o
controle sobre o território — expõe de forma cristalina a assimetria da relação
transatlântica. Apesar de se tratar de um território ligado a um Estado-membro
da União Europeia, as decisões fundamentais sobre segurança e presença militar
são moldadas, na prática, fora da Europa.
A
comparação com a Venezuela é reveladora. Em ambos os casos, a soberania aparece
como variável negociável. Na América Latina, a violação assume a forma de
intervenção armada direta; no Ártico, manifesta-se por meio da naturalização da
presença militar estadunidense em território europeu. Em ambos os contextos, a
União Europeia demonstra incapacidade de afirmar-se como sujeito político
autônomo.
A
Groenlândia, longe de ser um caso periférico ou exótico, funciona como espelho
da condição europeia. Ela revela que a submissão estratégica não é apenas um
problema externo, projetado sobre o Sul Global, mas um elemento constitutivo da
própria fragilidade europeia. A incapacidade de defender plenamente a soberania
de seus próprios territórios lança dúvidas profundas sobre a viabilidade do
projeto europeu como ator geopolítico independente.
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Anti-imperialismo como realismo europeu
É nesse
ponto que a crítica à União Europeia deve ultrapassar o registro moral e
assumir um caráter pedagógico e estratégico. Defender a soberania da Venezuela
diante da invasão estadunidense não é apenas um gesto de solidariedade
internacionalista ou coerência ideológica. Trata-se, para a Europa, de uma
questão de sobrevivência política.
Ao
aceitar a normalização da intervenção armada na América Latina, a União
Europeia contribui para consolidar uma ordem internacional em que a força
substitui o direito e em que a soberania se torna privilégio das grandes
potências. Essa mesma lógica, como demonstram os casos da Ucrânia e da
Groenlândia, retorna inevitavelmente ao próprio continente europeu,
transformando-o em espaço de disputa entre atores externos.
A
pergunta que se impõe, portanto, não é se a União Europeia deveria adotar uma
postura mais crítica em relação ao imperialismo estadunidense por razões
éticas, mas se pode continuar a existir como projeto político relevante
mantendo-se subordinada a ele. O alinhamento automático com Washington, longe
de garantir segurança, aprofunda a vulnerabilidade europeia num mundo marcado
pela competição entre grandes potências e pela erosão das regras multilaterais.
Romper
com essa lógica exigiria da União Europeia um gesto político de grande
envergadura: reconhecer que a defesa da autodeterminação dos povos (na
Venezuela, na América Latina e além) é inseparável da defesa de sua própria
autonomia estratégica. Sem isso, o projeto europeu corre o risco de se reduzir
a um espaço econômico integrado, mas politicamente tutelado, incapaz de definir
seu próprio destino.
Como
lembrava Eduardo Galeano, as veias abertas da América Latina não são apenas
feridas do passado, mas estruturas vivas do presente. A invasão da Venezuela
revela que essas veias continuam a ser exploradas e que a passividade europeia
diante desse processo compromete não apenas o Sul Global, mas o futuro da
própria Europa.
Fonte:
Jornal GGN/Outras Palavras

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