sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Luís Nassif: A Geopolítica do Petrodólar - Irã, Venezuela e a Disputa pela Ordem Mundial

Impérios em declínio tendem a intensificar controle sobre recursos estratégicos e reagir violentamente à ascensão de rivais.

<><> Direitos Humanos como Instrumento Geopolítico

O Irã desrespeita direitos humanos? Sim. Assim como a Arábia Saudita, Israel, Egito, Emirados Árabes Unidos, Honduras, Colômbia, Tailândia e Paquistão — todos aliados dos Estados Unidos.

Nos próprios Estados Unidos opera Guantánamo, com prisões sem julgamento, torturas e detidos há mais de 20 anos sem condenação. A violência policial e o racismo estrutural manifestam-se em casos emblemáticos como George Floyd e Breonna Taylor. Há um sistema de tortura institucionalizado pós-11 de setembro, praticado pela CIA, e intervenções militares “humanitárias” que resultaram em bombardeios com mortes civis massivas no Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria.

Portanto, quando ler sobre desrespeito aos direitos humanos no Irã, considere que frequentemente isso serve como álibi convencional para interferência política norte-americana na região — padrão semelhante ao observado nas chamadas Primaveras Árabes.

Entendido esse contexto, vamos às verdadeiras razões dessa agitação geopolítica.

A Arquitetura do Petrodólar

Irã e Venezuela estão inseridos na mesma estratégia da geopolítica do petróleo. Quando Richard Nixon desatrelou o dólar do ouro em 1971, o mundo foi tragado pelo turbilhão do livre fluxo de capitais e políticas cambiais anárquicas. Iniciou-se uma corrida para encontrar o ativo que substituísse o ouro como âncora do dólar.

Para preservar o poder da moeda americana, a saída foi um acordo firmado com a Arábia Saudita em 1974: seu petróleo seria vendido exclusivamente em dólares. O mundo entrou na era dos petrodólares, assegurando a manutenção do dólar como reserva de valor global.

Desde então, o governo norte-americano utiliza projeção de poder militar e pressões políticas para desencorajar nações — especialmente no Oriente Médio — de abandonarem o sistema do petrodólar. Trata-se de ponto fundamental para garantir a gestão de uma dívida nacional que atingiu 37 trilhões de dólares.

<><> Trump, China e o Novo Acordo Estratégico

Um dos pontos centrais da estratégia norte-americana é convencer a China a aceitar compromissos que ajudem a estabilizar o dólar e reduzir a pressão da dívida dos EUA. Será o principal tema da conversa de Donald Trump com Xi Jinping, o presidente chinês.

No fundo, Trump pretende reeditar com a China um tratado em defesa do dólar com a mesma relevância daquele firmado com a Arábia Saudita — transformar Pequim em garante da hegemonia monetária americana.

<><> O Dólar como Arma e Seus Efeitos Colaterais

Essa ofensiva ocorre em momento crítico. Desde que o dólar passou a ser utilizado como arma política — com a exclusão da Rússia do SWIFT, o sistema de compensação de reservas internacionais — passou também a ser visto como ameaça à autonomia dos países.

Os EUA estariam conduzindo operações geopolíticas (como intervenções em países ricos em energia) para forçar a China a continuar usando o dólar e reforçar sua dependência da economia americana. A Rússia e o comércio de commodities (prata, petróleo, metais raros) são peças críticas neste jogo de influência econômica.

<><> Venezuela e Irã: Estrangulamento Estratégico

A intervenção recente na Venezuela — incluindo ações militares, sanções e apoio a oposições — seria uma tentativa americana de estrangular o acesso da China às reservas de petróleo e recursos estratégicos na América Latina.

A intervenção no Irã é ainda mais problemática, por ser país-chave no fornecimento de petróleo para a China fora do sistema dólar. Esse fato traz risco de escalada ou conflito maior envolvendo forças dos EUA, aliados e potências rivais.

<><> As Fragilidades do Império

Há outros fatores críticos na equação, sendo os mais relevantes as fragilidades da própria economia norte-americana:

  • A bolha da inteligência artificial (IA)
  • O questionamento crescente do dólar como moeda global
  • A especulação desenfreada com criptomoedas e metais preciosos
  • A queda de popularidade de Trump, provocando instabilidade social interna

<><> Os Campos de Batalha: A Visão de Jiang Xueqin

Considerado um dos grandes analistas da geopolítica mundial, Jiang Xueqin traça os seguintes pontos de conflito para a década:

>>> 1. Eixo Central: EUA × China

A disputa entre Estados Unidos e China será o evento estruturante da década. Não é guerra direta: é guerra econômica, financeira e tecnológica. Jiang compara ao duelo EUA × URSS, mas com interdependência econômica — o que torna tudo mais instável e perigoso.

>>> 2. Dólar como Arma Geopolítica

Os EUA usam o dólar como instrumento de poder, forçando países (especialmente a China) a continuar operando dentro do sistema financeiro americano. Sanções, controle de bancos e manipulação do comércio internacional fazem parte da estratégia.

>>> 3. Energia como Campo de Batalha

Petróleo e gás seguem sendo ativos geopolíticos centrais. A Venezuela entra no tabuleiro por ser rica em petróleo e aliada da China. A pressão dos EUA visa cortar o acesso chinês a recursos estratégicos na América Latina.

>>> 4. Pontos Quentes no Mapa

## Ásia:

  • Taiwan: maior risco militar do planeta
  • Japão: rearmamento gradual
  • Mar do Sul da China: disputas navais crescentes

## Oriente Médio:

  • Irã como pivô de tensão regional
  • Risco de conflito indireto EUA × China/Rússia

## América Latina:

  • Região volta ao radar estratégico
  • EUA querem frear expansão chinesa em infraestrutura e energia

>>> 5. Tecnologia e Guerra Invisível

Chips, IA e dados são o novo “petróleo”. Os EUA tentam bloquear acesso chinês a semicondutores avançados, enquanto a China acelera seu projeto de autossuficiência tecnológica.

>>> 6. Fragilidades Internas dos EUA

Jiang alerta para:

  • Bolha especulativa em tecnologia e IA
  • Endividamento recorde e insustentável
  • Polarização política extrema
  • Risco de crises sociais internas

Resumo: império forte por fora, frágil por dentro.

>>> 7. Risco de Colapsos em Cadeia

Se a hegemonia americana enfraquecer abruptamente:

  • Mercados entram em pânico
  • Moedas sofrem desvalorizações em cascata
  • Conflitos regionais explodem
  • Alianças se reorganizam caoticamente

Efeito dominó global.

>>> 8. Leitura Histórica de Jiang

Ele usa padrões de impérios antigos:

  1. Ascensão
  2. Pico de poder
  3. Excesso e sobreextensão
  4. Desgaste interno
  5. Crise sistêmica

Para Jiang, os EUA estariam no estágio final de hegemonia — entre sobreextensão e crise sistêmica.

>>> 9. Conclusão Estratégica

 ## 2026 seria um ano-chave porque:

  • A tensão EUA × China atinge ponto crítico
  • Decisões tomadas agora moldam a ordem mundial por décadas
  • O mundo caminha para um sistema multipolar instável
  • A transição hegemônica pode ser pacífica ou catastrófica

<><> Conclusão

A história mostra que transições hegemônicas raramente são pacíficas. Impérios em declínio tendem a intensificar controle sobre recursos estratégicos e reagir violentamente à ascensão de rivais.

A questão central não é se haverá transição para um mundo multipolar, mas como ela ocorrerá. Num mundo nuclear e economicamente interdependente, os custos de uma transição mal gerida seriam catastróficos para toda a humanidade.

O petrodólar, nascido da crise de 1971, pode estar chegando ao fim de seu ciclo. O que virá depois permanece incerto — mas certamente não será pacífico.

¨      Venezuela: a Europa prostrada. Por Raul Noetzold

A crise venezuelana costuma ser apresentada no debate público europeu e norte-americano como um fenômeno isolado, resultado exclusivo de decisões internas, autoritarismo político ou má gestão econômica. Essa leitura, no entanto, ignora deliberadamente o contexto histórico mais amplo no qual a Venezuela se insere: o de uma América Latina sistematicamente tratada como zona de influência estratégica dos Estados Unidos desde o século XIX.

Mais do que uma exceção, a Venezuela constitui um caso exemplar da persistência de práticas imperialistas no continente americano. Sanções econômicas, isolamento diplomático, apoio seletivo a forças oposicionistas e a constante evocação da possibilidade de intervenção militar compõem um repertório já conhecido na história da região. O que distingue o caso venezuelano não é a novidade dos métodos empregados, mas a sua combinação com um cenário internacional marcado pela fragmentação da ordem liberal e pela intensificação das disputas entre grandes potências.

É nesse contexto que a posição da União Europeia merece atenção particular. Ao alinhar-se de forma quase automática à estratégia estadunidense em relação à Venezuela, a UE não apenas reforça dinâmicas que fragilizam o princípio da autodeterminação dos povos, como também expõe a sua própria incapacidade de atuar como um sujeito geopolítico autônomo. Longe de ser um problema distante ou periférico, a crise venezuelana revela contradições centrais da política externa europeia e antecipa dilemas que se manifestam de forma ainda mais aguda em outros conflitos contemporâneos.

<><> A União Europeia entre o direito internacional e a subordinação estratégica

A resposta da União Europeia à invasão da Venezuela em 3 de janeiro de 2026 não pode ser compreendida apenas como hesitação diplomática ou prudência institucional. Trata-se de algo mais profundo: a expressão reiterada de uma política externa estruturalmente subordinada aos Estados Unidos, incapaz de sustentar uma leitura coerente e universalista do direito internacional quando os interesses de Washington estão em jogo.

Ao limitar-se a apelos genéricos à contenção, à estabilidade e à solução política, evitando qualificar explicitamente a ação estadunidense como invasão ou agressão, a União Europeia operou uma forma de neutralização discursiva da violência imperial. O direito internacional surge, assim, não como princípio normativo vinculante, mas como recurso retórico seletivo, acionado de acordo com a posição do ator que viola a soberania alheia.

Esse padrão revela um problema estrutural do projeto europeu contemporâneo. Embora frequentemente apresentada como potência normativa, promotora do multilateralismo, da legalidade internacional e da diplomacia, a União Europeia demonstra, nos momentos decisivos, uma incapacidade crônica de sustentar esses princípios contra a principal potência militar do sistema internacional. A invasão da Venezuela torna visível essa contradição: a UE critica regimes periféricos em nome da democracia, mas evita confrontar diretamente a violação armada da soberania quando ela parte do centro imperial.

As declarações de figuras da esquerda europeia, como Catarina Martins, ao condenar a invasão sem ambiguidades, revelam que alternativas políticas existem no interior do espaço europeu. No entanto, o caráter marginal dessas posições no processo decisório evidencia que o problema não é a ausência de crítica, mas a arquitetura política da própria União Europeia, cuja política externa permanece ancorada na lógica atlântica e na dependência estratégica em relação aos Estados Unidos.

<><> Groenlândia: o espelho ártico da dependência europeia

A questão da Groenlândia oferece um contraponto decisivo para compreender os limites da soberania europeia. Formalmente vinculada à Dinamarca e, portanto, ao espaço político europeu, a ilha ocupa uma posição estratégica central no Ártico, região cada vez mais disputada em função de rotas marítimas, recursos naturais e projeção militar.

O interesse explícito dos Estados Unidos na Groenlândia — expresso em declarações oficiais, reforço de presença militar e tentativas abertas de ampliar o controle sobre o território — expõe de forma cristalina a assimetria da relação transatlântica. Apesar de se tratar de um território ligado a um Estado-membro da União Europeia, as decisões fundamentais sobre segurança e presença militar são moldadas, na prática, fora da Europa.

A comparação com a Venezuela é reveladora. Em ambos os casos, a soberania aparece como variável negociável. Na América Latina, a violação assume a forma de intervenção armada direta; no Ártico, manifesta-se por meio da naturalização da presença militar estadunidense em território europeu. Em ambos os contextos, a União Europeia demonstra incapacidade de afirmar-se como sujeito político autônomo.

A Groenlândia, longe de ser um caso periférico ou exótico, funciona como espelho da condição europeia. Ela revela que a submissão estratégica não é apenas um problema externo, projetado sobre o Sul Global, mas um elemento constitutivo da própria fragilidade europeia. A incapacidade de defender plenamente a soberania de seus próprios territórios lança dúvidas profundas sobre a viabilidade do projeto europeu como ator geopolítico independente.

<><> Anti-imperialismo como realismo europeu

É nesse ponto que a crítica à União Europeia deve ultrapassar o registro moral e assumir um caráter pedagógico e estratégico. Defender a soberania da Venezuela diante da invasão estadunidense não é apenas um gesto de solidariedade internacionalista ou coerência ideológica. Trata-se, para a Europa, de uma questão de sobrevivência política.

Ao aceitar a normalização da intervenção armada na América Latina, a União Europeia contribui para consolidar uma ordem internacional em que a força substitui o direito e em que a soberania se torna privilégio das grandes potências. Essa mesma lógica, como demonstram os casos da Ucrânia e da Groenlândia, retorna inevitavelmente ao próprio continente europeu, transformando-o em espaço de disputa entre atores externos.

A pergunta que se impõe, portanto, não é se a União Europeia deveria adotar uma postura mais crítica em relação ao imperialismo estadunidense por razões éticas, mas se pode continuar a existir como projeto político relevante mantendo-se subordinada a ele. O alinhamento automático com Washington, longe de garantir segurança, aprofunda a vulnerabilidade europeia num mundo marcado pela competição entre grandes potências e pela erosão das regras multilaterais.

Romper com essa lógica exigiria da União Europeia um gesto político de grande envergadura: reconhecer que a defesa da autodeterminação dos povos (na Venezuela, na América Latina e além) é inseparável da defesa de sua própria autonomia estratégica. Sem isso, o projeto europeu corre o risco de se reduzir a um espaço econômico integrado, mas politicamente tutelado, incapaz de definir seu próprio destino.

Como lembrava Eduardo Galeano, as veias abertas da América Latina não são apenas feridas do passado, mas estruturas vivas do presente. A invasão da Venezuela revela que essas veias continuam a ser exploradas e que a passividade europeia diante desse processo compromete não apenas o Sul Global, mas o futuro da própria Europa.

 

Fonte: Jornal GGN/Outras Palavras

 

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