'Idosos
gritavam pedindo ajuda': jornalista da BBC se infiltra em casa de repouso de
luxo
m
minhas sete semanas disfarçada em uma casa de repouso sobrecarregada,
presenciei muitas cenas de cuidados precários e sofrimento. Mas suspeito que um
incidente irá permanecer comigo por muito tempo.
Nos
piores dias, quando a quantidade de funcionários era mínima, os moradores
chegavam a gritar pedindo ajuda, quando ouviam meu carrinho de limpeza passando
pelos seus quartos.
Alguns
estavam desesperados para ir ao banheiro, enquanto outros queriam simplesmente
ser lavados e vestidos para o dia.
Como
faxineira, eu pouco podia fazer, exceto oferecer palavras de conforto e a
garantia de que eu comunicaria os funcionários responsáveis.
Um dia,
eu me sentei com uma mulher de camisola, que precisava de ajuda para ser levada
da cama para o banheiro, a apenas 2,5 metros de distância.
Seu
quarto trazia sinais de uma vida bem vivida: orgulho da carreira, férias no
exterior com sua família amorosa e um guarda-roupa com blusas de cashmere
imaculadamente escolhidas.
Enquanto
esperávamos a chegada da cuidadora, ela me implorou para que eu não saísse.
Ela
estava ficando cada vez mais desconfortável. Tentei distraí-la conversando
sobre a vista e o tempo.
Ela me
ouviu até não conseguir mais esconder a sua angústia. Quando sua capacidade
física de esperar pelo toalete finalmente ruiu, ela começou a chorar.
Fiquei
triste muitas vezes na casa de repouso, mas foi naquela perda de dignidade
totalmente evitável que senti raiva pela primeira vez.
Nossa
investigação foi despertada por uma entrevista com Susan Christie. Seu pai
passou dois anos em Castlehill, a maior clínica de repouso de Inverness, na
Escócia.
Ela é
anunciada como casa de luxo e a internação custa até 1,8 mil libras (cerca de
R$ 13,1 mil) por semana.
Mas
Susan ficou tão preocupada com os padrões de cuidados com seu pai que instalou
uma câmera escondida no quarto dele. E ficou horrorizada com o que viu.
"Ele
não recebia higiene adequada, era deixado com uma fralda geriátrica por mais de
12 horas, nunca era levado ao toalete e a comida era colocada fora do seu
alcance, derramando mingau quente sobre ele", ela conta.
"Era
negligência."
A gota
d'água veio quando um faxineiro foi filmado contendo o idoso e agitando
violentamente o estrado, antes de cutucá-lo com uma bengala.
Ele foi
demitido e Susan teve nove queixas acolhidas pela Inspetoria do setor. Em maio,
ela retirou seu pai de Castlehill.
Para
poder comparar Castlehill às outras 1 mil casas de repouso da Escócia, a BBC
enviou um pedido, com base na lei de Liberdade de Informação, para o órgão
regulador do setor, a Inspetoria de Cuidados. Perguntamos quais casas de
repouso escocesas tinham o maior número de queixas apresentadas contra elas.
Castlehill
liderava a lista com 10 queixas apresentadas em 2024.
Entrevistamos
outras quatro famílias, todas com histórias de preocupações similares. Mas
todos os casos já eram do passado.
A única
forma de verificar se a situação ainda permanecia era entrar e ver por nós
mesmos.
Passamos
pelos rigorosos processos internos da BBC, pedindo permissão para filmar
secretamente. E a conclusão foi que havia interesse público significativo para
reunir evidências desta natureza.
Em
maio, telefonei para a casa de repouso, perguntando se havia vagas para
faxineira. Fui convidada para uma entrevista e me pediram para começar
imediatamente.
Na
época, a casa estava tomando medidas especiais, devido aos avisos solicitando
melhorias, emitidos pela Inspetoria de Cuidados sobre uma série de questões.
Eles
estavam sendo investigados. Certamente, tudo iria melhorar, certo?
O que
encontrei foi uma casa com falta de funcionários e sem a composição certa de
profissionais para lidar com as necessidades básicas dos moradores,
particularmente dos que sofrem de demência.
Isso
gerava angústia, comportamentos agressivos e situações de crise.
Quando
andava com meu carrinho de limpeza pelos corredores, observava casos agudos de
rostos suplicantes espiando dos banheiros, esperando por alguns minutos de
companhia e conversa.
Aquelas
pessoas, pelo menos, ainda esperavam por um momento de conexão humana. Vim a
perceber que outras já haviam desistido.
Um dia,
confortei um homem que precisava do toalete: "Falei com os cuidadores,
eles disseram que estão vindo."
"Sim,
e também é Natal", respondeu ele.
Eu
tentei me preparar para muitas coisas antes de ir disfarçada para a casa de
repouso. Mas não imaginei que formaria conexões verdadeiras com as pessoas que
moravam ali.
Esta
realidade me atingiu um dia, quando me sentei no meu carro durante um intervalo
e fui tomada pela emoção.
Mais
cedo, enquanto limpava o quarto de um morador, acabei tendo ânsia de vômito
devido ao cheiro. Fui incapaz de ficar ali por mais de 20 segundos.
O antes
orgulhoso cavalheiro das Terras Altas escocesas havia recebido seu café da
manhã e passado horas sentado sozinho no seu quarto. Ninguém teve a ideia de
abrir suas cortinas ou janelas.
Pelo
menos, eu conseguia sair dali no fim do meu turno. Eles, não.
A
jornalista Catriona MacPhee na casa de repouso, vestida com uniforme azul,
aparentemente com a câmera sobre uma mesa. No fundo, o interior da casa com seu
material de faxina ao lado.
Durante
minha estada na casa, encontrei frequentemente os moradores deitados com roupas
molhadas ou lençóis sujos.
Ouvi
mulheres gritando de trás de portas fechadas porque cuidadores homens estavam
fazendo seus cuidados íntimos.
As
consequências da sobrecarga dos funcionários eram claras. Eles tinham uma lista
de tarefas a cumprir que, muitas vezes, eram muito longas.
Elas
incluíam engajamento significativo, apoio para comer ou atenção cuidadosa com a
incontinência.
Alguns
cuidadores lutavam para melhorar a vida dos moradores. Eles conseguiam reservar
tempo nos seus dias atarefados para se dedicar a eles. Mas os momentos eram
poucos e muito espaçados.
Os
cuidadores recebiam 13 libras (cerca de R$ 95) por hora para cuidados pessoais
íntimos e muito mais, para pessoas com necessidades muito complexas. Os valores
estão de acordo com os padrões do setor.
Entrevistei
Donald McAskill, da organização Scottish Care, para a investigação da BBC. Uma
das suas declarações me surpreendeu.
"Você
pode ganhar mais levando um cão para passear pelos gramados de Edimburgo,
capital da Escócia, do que sentado ao lado da cama de uma pessoa, segurando sua
mão enquanto ela dá seu último suspiro."
"Para
mim, isso é obsceno."
<><>
Quarto bagunçado
Os
especialistas que entrevistamos são unânimes em uma questão. Eles disseram que
o setor de assistência está em crise.
Eles
mencionaram falta de financiamento, poucos funcionários e corte sem precedentes
dos custos de assistência à demência.
E, com
o aumento da demanda por assistência (a previsão é que o número de pessoas com
demência dobre até 2040), todos os especialistas que colaboraram para o nosso
programa pediram um diálogo nacional sobre o futuro do setor.
Várias
famílias declararam que não tiveram outra opção, senão colocar seus entes
queridos em uma clínica de repouso. Não havia sido uma escolha, mas o resultado
de uma crise ou falta de assistência doméstica.
Eles
sentiam forte culpa, além do ônus dos complexos arranjos financeiros
decorrentes das casas de repouso. É uma situação que, em algum momento, atinge
a maioria das famílias.
<><>
Pegadas de urina no corredor
Nem
tudo no trabalho era tristeza.
Na
minha última semana, um novo líder de atividades começou a apresentar concertos
musicais, tocando bandolim nos salões, para grande alegria de alguns moradores.
Uma
nova vice-gerente também tomou para si a tarefa de enfrentar o cheiro de urina
que permeava o primeiro andar.
Os
moradores eram o motivo inesperado que me levava a continuar, quando tinha
dificuldade para voltar para Castlehill.
Um
homem me parou no corredor para me contar sobre seu trabalho voluntário e como
ele gostava daquela época em que ajudava os outros. Nós rimos sobre as
situações que ele havia vivido, quando ele subitamente interrompeu a conversa.
Ele
disse que não queria perder seu ônibus, que chegaria a qualquer momento. Só
então entendi que ele pensava que éramos dois estranhos conversando no ponto de
ônibus.
A
situação era outra, mas nós dois nos alegramos com aquela conexão humana.
Aprendi
que, com alguns minutos do nosso tempo, podemos incentivar alguém a sair do
casulo ou aliviar seu estado de confusão.
Foi
todo o necessário para que ele se afastasse com um sorriso ou, pelo menos, mais
calmo do que quando me abordou.
Enquanto
trabalhava na casa, usei uma câmera escondida, que gravava a maior parte do
tempo.
Minha
preocupação era que alguém pudesse identificar a lente oculta ou que a bateria
caísse das minhas roupas. Felizmente, nada disso aconteceu.
Em uma
ocasião, eu me esqueci de usar os óculos falsos que havia adotado como parte do
disfarce.
Sou das
Terras Altas escocesas e outra preocupação era que alguém da minha cidade-natal
viesse até a casa e me reconhecesse. O disfarce me dava certa tranquilidade.
A meio
caminho de uma reunião de funcionários, alguém perguntou como eu conseguia
enxergar direito sem meus óculos.
Desajeitadamente,
expliquei que ainda não havia tomado café e os deixei no carro por engano. Foi
um descuido que não aconteceu outra vez.
Houve
dias em que a câmera falhou ou a bateria acabou. Em outros, precisei ajudar os
moradores antes de tudo e não consegui ligar a câmera.
Um
ponto ficou claro para mim desde o princípio: minha prioridade tinha que ser os
moradores e suas necessidades. Eles eram o objetivo da investigação. Filmar era
secundário.
Houve
certos incidentes de falta de cuidado que não gravei na câmera, mas saí com a
consciência limpa.
Foi um
privilégio cruzar meu caminho com personagens tão interessantes, charmosos e
engraçados, que tiveram vidas ricas e exuberantes.
Nós
cantamos juntos, dançamos no corredor, nos abraçamos e conversamos sobre todo
tipo de assuntos, de Caravaggio e aulas de gaélico até Donald Trump e passeios
com os cachorros. E rimos, muito.
Sem
perceberem, os moradores me ajudaram a enfrentar um trabalho difícil.
Deixei
a casa de repouso Castlehill em 9 de agosto. Quando saí pelos portões pela
última vez, uma questão se repetia na minha mente. Eles, com certeza, merecem
algo melhor.
Um
porta-voz da Casa de Repouso Castlehill, que opera com o nome Simply Inverness,
declarou: "Ficamos estarrecidos com a filmagem levada ao ar no programa da
BBC. Ela não nos foi fornecida antecipadamente e não reflete a situação
atual."
"A
segurança, a saúde e o bem-estar dos moradores permanecem sendo nossa
prioridade absoluta todo o tempo."
"A
Inspetoria de Cuidados reconheceu as melhorias significativas realizadas nos
últimos três meses. Devemos garantir que essas melhorias sejam mantidas."
"Mais
de 1 milhão de libras [cerca de R$ 7,3 milhões] estão sendo investidas na
renovação da casa e agradecemos a todos os moradores e suas famílias pela sua
paciência durante a renovação."
Um
porta-voz da Parceria para Saúde e Assistência Social das Terras Altas declarou
que "observar o conteúdo do documentário da BBC sobre a Casa de Saúde
Castlehill, destacando questões sobre o fornecimento de assistência segura e de
qualidade, foi preocupante para todos. Compreendemos como deve ter sido
profundamente angustiante para as famílias daqueles moradores."
"Temos
a responsabilidade, como importante parceiro, em relação ao apoio e à proteção
dos idosos e temos expectativas claras sobre os padrões a serem atendidos por
qualquer casa de repouso nas Terras Altas escocesas. O provedor da casa de
repouso Castlehill não atendeu a esses padrões."
"Atualmente,
as internações na casa de repouso permanecem suspensas e assim continuarão até
termos a absoluta confiança de que os padrões necessários tenham sido atendidos
e mantidos."
Fonte:
Por Catriona MacPhee, da BBC Escócia

Nenhum comentário:
Postar um comentário