MISOGINIA
NA POLÍTICA INTERNACIONAL: O palco muda, o silêncio permanece - as mulheres
invisíveis da Venezuela
A crise
venezuelana, em sua complexidade geopolítica, expõe uma ferida que o feminismo
denuncia há décadas: quando a política se converte em força bruta ou disputa de
narrativas hegemônicas, as mulheres são empurradas para o rodapé da história.
No epicentro do atual xadrez político da Venezuela, três mulheres – Cilia
Flores, María Corina Machado e Delcy Rodríguez – ocupam posições de poder
absoluto ou influência decisiva diferentes no espectro ideológico. No entanto,
a cobertura midiática internacional e o senso comum político as tratam,
frequentemente, como meros satélites de protagonistas masculinos.
Cilia
Flores possui uma trajetória pública que, em qualquer democracia estável, a
colocaria no topo das análises de inteligência política. Advogada,
ex-presidente da Assembleia Nacional e ex-procuradora-geral, ela é uma das
arquitetas do poder chavista. Contudo, o rótulo que a persegue é o de “esposa
de Maduro”. Esse é um recurso patriarcal clássico: quando uma mulher é poderosa
demais para ser ignorada, ela é reduzida ao seu papel doméstico ou conjugal. O
título de primeira-dama atua como uma âncora que a retira do palco de decisões
estratégicas aos olhos do mundo. Há, inclusive, um dado simbólico brutal:
raramente circulam fotos de Cilia como protagonista nas coberturas
internacionais; ela existe como menção lateral, um vulto ao lado do governante.
Esse apagamento visual não é acidental, é método.
No
espectro oposto, María Corina Machado foi alçada à condição de “rosto da
oposição”. Enquanto serviu como vitrine moral e símbolo de resistência para
legitimar uma causa perante a comunidade internacional, foi celebrada. Todavia,
quando a disputa migrou do discurso para a partilha real do poder e do controle
de recursos, o sistema de visibilidade começou a falhar. Ela é frequentemente
retratada como uma peça de substituição em um jogo cujo tabuleiro ainda
pertence aos homens. Sua resiliência e base de apoio são lidas como concessões
ou fenômenos passageiros, ignorando que sua liderança moldou os rumos da
resistência venezuelana de forma autônoma.
Já
Delcy Rodríguez, a atual vice-presidente, personifica a face executiva e
técnica do regime. Em momentos de crise aguda, é ela quem assume a gestão
direta e as frentes diplomáticas mais espinhosas. Mas sua autoridade é
constantemente questionada sob o prisma do medo ou da subserviência, raramente
sendo analisada por suas competências estratégicas. Delcy é a prova de que,
mesmo no topo da hierarquia de um Estado, a mulher é obrigada a governar sob um
escrutínio que nenhum de seus pares masculinos enfrenta.
O que
assistimos na Venezuela é a repetição de um roteiro antigo. Este enredo poderia
ser o Iraque de ontem ou o Afeganistão de antes. O contexto muda – invasões,
disputas por petróleo, guerra fria 2.0 ou embates entre esquerda e direita –,
mas a estrutura de invisibilização permanece a mesma. Quando o poder entra em
disputa real, as mulheres são sistematicamente empurradas para fora do
enquadramento. É como uma peça de teatro onde cenários e figurinos se renovam,
mas a direção de cena segue a ordem arcaica de manter os homens no centro e as
mulheres na margem.
A
misoginia na política internacional não tem bandeira. Não importa se o vilão ou
o herói da vez é de direita ou de esquerda; o apagamento feminino é o ponto de
convergência entre os extremos. Tratar essas três mulheres poderosas como
figurantes não é apenas um erro jornalístico de perspectiva; é uma miopia
estratégica que impede a compreensão real do destino da Venezuela e da própria
América Latina.
Um
mundo que trata o silenciamento de lideranças femininas como um detalhe lateral
não enfrenta apenas uma crise de governança. Reafirma-se a crença de que o
poder tem dono — e que esse dono é, invariavelmente, um homem. Ignorar o papel
de Flores, Machado e Rodríguez é subestimar as forças que realmente movem as
engrenagens venezuelanas. Enquanto a imprensa não ajustar o foco, continuaremos
assistindo a uma história contada pela metade.
Fonte:
Por Thaís Cremasco, no Le Monde

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