terça-feira, 20 de janeiro de 2026

MISOGINIA NA POLÍTICA INTERNACIONAL: O palco muda, o silêncio permanece - as mulheres invisíveis da Venezuela

A crise venezuelana, em sua complexidade geopolítica, expõe uma ferida que o feminismo denuncia há décadas: quando a política se converte em força bruta ou disputa de narrativas hegemônicas, as mulheres são empurradas para o rodapé da história. No epicentro do atual xadrez político da Venezuela, três mulheres – Cilia Flores, María Corina Machado e Delcy Rodríguez – ocupam posições de poder absoluto ou influência decisiva diferentes no espectro ideológico. No entanto, a cobertura midiática internacional e o senso comum político as tratam, frequentemente, como meros satélites de protagonistas masculinos.

Cilia Flores possui uma trajetória pública que, em qualquer democracia estável, a colocaria no topo das análises de inteligência política. Advogada, ex-presidente da Assembleia Nacional e ex-procuradora-geral, ela é uma das arquitetas do poder chavista. Contudo, o rótulo que a persegue é o de “esposa de Maduro”. Esse é um recurso patriarcal clássico: quando uma mulher é poderosa demais para ser ignorada, ela é reduzida ao seu papel doméstico ou conjugal. O título de primeira-dama atua como uma âncora que a retira do palco de decisões estratégicas aos olhos do mundo. Há, inclusive, um dado simbólico brutal: raramente circulam fotos de Cilia como protagonista nas coberturas internacionais; ela existe como menção lateral, um vulto ao lado do governante. Esse apagamento visual não é acidental, é método.

No espectro oposto, María Corina Machado foi alçada à condição de “rosto da oposição”. Enquanto serviu como vitrine moral e símbolo de resistência para legitimar uma causa perante a comunidade internacional, foi celebrada. Todavia, quando a disputa migrou do discurso para a partilha real do poder e do controle de recursos, o sistema de visibilidade começou a falhar. Ela é frequentemente retratada como uma peça de substituição em um jogo cujo tabuleiro ainda pertence aos homens. Sua resiliência e base de apoio são lidas como concessões ou fenômenos passageiros, ignorando que sua liderança moldou os rumos da resistência venezuelana de forma autônoma.

Já Delcy Rodríguez, a atual vice-presidente, personifica a face executiva e técnica do regime. Em momentos de crise aguda, é ela quem assume a gestão direta e as frentes diplomáticas mais espinhosas. Mas sua autoridade é constantemente questionada sob o prisma do medo ou da subserviência, raramente sendo analisada por suas competências estratégicas. Delcy é a prova de que, mesmo no topo da hierarquia de um Estado, a mulher é obrigada a governar sob um escrutínio que nenhum de seus pares masculinos enfrenta.

O que assistimos na Venezuela é a repetição de um roteiro antigo. Este enredo poderia ser o Iraque de ontem ou o Afeganistão de antes. O contexto muda – invasões, disputas por petróleo, guerra fria 2.0 ou embates entre esquerda e direita –, mas a estrutura de invisibilização permanece a mesma. Quando o poder entra em disputa real, as mulheres são sistematicamente empurradas para fora do enquadramento. É como uma peça de teatro onde cenários e figurinos se renovam, mas a direção de cena segue a ordem arcaica de manter os homens no centro e as mulheres na margem.

A misoginia na política internacional não tem bandeira. Não importa se o vilão ou o herói da vez é de direita ou de esquerda; o apagamento feminino é o ponto de convergência entre os extremos. Tratar essas três mulheres poderosas como figurantes não é apenas um erro jornalístico de perspectiva; é uma miopia estratégica que impede a compreensão real do destino da Venezuela e da própria América Latina.

Um mundo que trata o silenciamento de lideranças femininas como um detalhe lateral não enfrenta apenas uma crise de governança. Reafirma-se a crença de que o poder tem dono — e que esse dono é, invariavelmente, um homem. Ignorar o papel de Flores, Machado e Rodríguez é subestimar as forças que realmente movem as engrenagens venezuelanas. Enquanto a imprensa não ajustar o foco, continuaremos assistindo a uma história contada pela metade.

 

Fonte: Por Thaís Cremasco, no Le Monde

 

Nenhum comentário: