Projetos
sob gestão indígena buscam investimentos para turbinar bioeconomia — e salvar a
natureza
Ao
longo do território brasileiro, em diferentes ecossistemas, empresas lideradas
por comunidades indígenas exercem um papel fundamental de proteção das
florestas e de restauração de paisagens degradadas. O impacto dessas
iniciativas vai além da conservação: aliando serviços ambientais a soluções
financeiras, muitos projetos geram fonte de renda para grupos economicamente
marginalizados, fortalecendo os pilares da bioeconomia.
Com
foco na sustentabilidade, a estrutura de negócios no coração dos principais
biomas inclui o cultivo do açaí (Euterpe oleracea) e da castanha-do-brasil
(Bertholletia excelsa), além da produção do óleo de andiroba (Carapa
guianensis) e jambu (Acmella oleracea), entre outros. A rede de soluções
indígenas bioeconômicas também abrange práticas agroecológicas e
agroflorestais, o ecoturismo, serviços de reflorestamento e o artesanato.
Consequentemente, muitos projetos abrem caminho para a criação de ferramentas
financeiras, como cooperativas e consultorias.
No
entanto, os obstáculos se amontoam, tornando desafiadora a expansão dos
empreendimentos indígenas. Problemas vão desde iniciativas que sofrem para
conquistar reconhecimento formal até barreiras ao acesso à infraestrutura
administrativa e regulatória — como sistemas de registro, licenciamento e apoio
operacional, etapas indispensáveis para se administrar um negócio.
“Um dos
principais desafios enfrentados pelos povos indígenas e pelas comunidades
tradicionais está na forma como a maioria dos mecanismos de financiamento é
estruturada”, disse Rose Apurinã, vice-diretora do Podáali – Fundo Indígena da
Amazônia Brasileira. O projeto se descreve como “o primeiro mecanismo de
abrangência amazônica para captação e redistribuição de recursos”.
“[Essas
estruturas] se baseiam em lógicas externas [às comunidades], coloniais e
centralizadoras que desconsideram as formas próprias de organização social
desses grupos”, explicou Rose.
Ainda
segundo ela, a maioria das oportunidades de subsídio e financiamento “impõe
barreiras técnicas, burocráticas e institucionais que tornam difícil — ou mesmo
impossível — que pessoas em territórios [indígenas e tradicionais] acessem os
recursos diretamente”.
Para
resolver esse quebra-cabeça, uma aliança entre investidores, ONGs e
organizações comunitárias se uniu para criar a Coalizão Brasil para o
Financiamento da Restauração e da Bioeconomia (BRB FC). Lançado em 2024, o
grupo trabalha para tornar o capital mais acessível a iniciativas sob liderança
indígena, quilombola e ribeirinha. O projeto se propõe a mudar a forma como o
sistema financeiro nacional percebe e apoia esses empreendimentos,
reconhecendo-os como protetores da sociobiodiversidade e do clim.
Entre
suas metas, a BRB FC busca levantar 10 bilhões de dólares (R$ 54 bilhões) até
2030, parte de um plano para proteger e restaurar 5,5 milhões de hectares na
Amazônia, no Cerrado, na Caatinga e na Mata Atlântica. O processo, que mira
construir “do zero” uma estrutura econômica baseada no meio ambiente, também
estima um investimento de US$ 500 (R$ 2,6 bilhões) em negócios geridos por
grupos indígenas e outras comunidades tradicionais.
A
coalizão conta com 22 organizações representantes dos setores público e
privado, instituições de filantropia e grupos da sociedade civil. Entidades com
grande relevância, como o Banco do Brasil, o Fórum Econômico Mundial e o Banco
Mundial, integram a iniciativa.
De
acordo com Maria Netto Schneider, diretora do Instituto Clima e Sociedade
(iCS), um dos membros do BRB FC, o Brasil tem “um potencial único em [temas de]
restauração [ambiental]”.
“Há
pelo menos 100 milhões de hectares de terras degradadas que poderiam ser
restauradas. E temos um enorme potencial de bioeconomia e formas de valorizar
as florestas que seguem em pé, gerando renda e construindo cadeias de valor”,
disse à Mongabay.
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Comunidades tradicionais lideram trabalho de resistência
O apoio
a essas ações é visto por especialistas como uma “estratégia fundamental” tanto
para a conservação do meio ambiente quanto para se buscar um quadro de equidade
socioeconômica. Para Fabíola Zerbini, diretora da Conexsus — uma organização
sem fins lucrativos que apoia negócios sustentáveis —, essas comunidades,
incluindo pequenos agricultores sem terra, ocupam mais da metade da cobertura
florestal remanescente na Amazônia, por exemplo.
No
entanto, esses grupos vivem sob a ameaça de invasões e enfrentam a degradação
de suas terras, seja pelo avanço do garimpo ou pela extração ilegal de madeira
— duas práticas que colocam em risco suas fontes de subsistência. Segundo
Zerbini, fortalecer os empreendimentos comunitários torna esses territórios
menos vulneráveis, ao passo que protege o ecossistema do qual seus residentes
dependem.
“Trata-se
de redistribuir riqueza e renda, garantindo que essas comunidades possam
permanecer em suas terras, cuidar delas e protegê-las”, disse a diretora.
Para
guiar sua estratégia de investimento, a BRB FC encomendou um estudo para mapear
37 iniciativas, fundos comunitários e pequenas organizações em atividade. Dos
projetos mapeados, 21 funcionam sob a gestão de povos indígenas ou comunidades
tradicionais, seis têm estrutura comunitária e outros dez são entidades de
apoio — como organizações sem fins lucrativos e cooperativas que fornecem algum
tipo de assistência técnica às empresas.
Segundo
especialistas, a abordagem permite que a coalizão identifique empreendedores
com grande potencial de atuação, para que eventuais investimentos possam ter o
maior impacto possível em termos econômicos e ambientais. O relatório, apoiado
pelo iCS e pela organização The Nature Conservancy Brasil, destaca as
principais iniciativas em diversos biomas do Brasil, dando destaque à Amazônia.
“Terras
indígenas, territórios quilombolas e áreas protegidas desempenham um papel
fundamental na captura de carbono”, diz o estudo. “Muitas organizações e
empresas consultadas para o mapeamento relataram envolvimento em projetos de
reflorestamento em áreas degradadas, aumentando ainda mais os níveis de
captura.”
Essas
empresas estão sediadas em territórios que contribuem para o que se pode chamar
de “resiliência climática”. Tudo está interligado: segundo estudos, áreas sob
manejo de grupos indígenas e quilombolas podem capturar até 2 toneladas
métricas de CO2 por hectare a cada ano. De acordo com pesquisadores, uma vez
que 73% das emissões do Brasil estão ligadas a mudanças no uso da terra, apoiar
esses grupos ganha um aspecto climático e social. Além disso, em 2024, a
Amazônia registrou números recordes de emissão de carbono após um surto de
incêndios florestais, como destacou a Mongabay em outubro.
“Esses
grupos comunitários não são apenas guardiões da floresta”, disse Cristina
Orpheo, diretora do Fundo Casa Socioambiental, uma organização que também apoia
projetos de conservação sob liderança tradicional. “Eles desempenham papéis
centrais nas cadeias de abastecimento de sementes e nas economias locais.
Investir em empresas sob sua liderança não é caridade: é algo essencial.”
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No meio do caminho havia uma barreira financeira
Grupos
indígenas e outras comunidades brasileiras ainda enfrentam grandes entraves em
sua busca por acesso ao sistema financeiro. Parte desse empecilho se relaciona
ao ritmo das iniciativas: muitos projetos de restauração podem se estender por
anos — o que, muitas vezes, é visto por potenciais investidores como uma aposta
de risco.
Schneider,
da iCS, afirma que muitas soluções financeiras também não levam em conta as
necessidades particulares de organizações localizadas em áreas remotas e com
pequena estrutura. Ela acrescenta que muitos projetos também exigem dessas
empresas uma infraestrutura empresarial e burocrática mais ampla.
Orpheo
complementa que “editais, programas de crédito e políticas públicas exigem
documentos, certificações e relatórios que simplesmente não estão alinhados à
realidade dessas comunidades de base”.
A
representante do Fundo Casa Socioambiental também disse que muitas iniciativas
carecem de estrutura legal formalizada e de títulos de propriedade, o que as
exclui de linhas de crédito. Somam-se a esse quadro de exclusão uma linguagem
altamente técnica e sistemas de inscrição exclusivamente digitais. “Esses
processos são projetados para grandes instituições, não para aquelas que
trabalham em territórios sob liderança indígena e tradicional.”
Para
contornar (ou, pelo menos, descomplicar) esse emaranhado burocrático, empresas
ligadas ao meio ambiente apostam em modelos “locais” de financiamento. O
Podáali, que é administrado por e para indígenas, é um desses exemplos. O fundo
oferece às comunidades indígenas um pacote de financiamento direto e com pouca
burocracia.
Ao
contrário de muitos mecanismos convencionais de suporte financeiro, o fundo
indígena é construído “a partir dos próprios territórios”, segundo Rose
Apurinã, priorizando “a escuta, a tomada de decisão coletiva e o respeito à
autonomia indígena”.
“Acredito
que o apoio mais eficaz é aquele que valoriza e respeita a autonomia dos povos
indígenas e das comunidades tradicionais, financiando seus próprios mecanismos
de organização e gestão. Algo feito em sintonia com suas diversas visões de
mundo e realidades”, disse a vice-diretora. “É essencial que esse apoio seja
flexível, descentralizado e construído por meio da escuta e do diálogo com suas
organizações de base.”
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Soluções locais para problemas gerais
Embora
ainda ofereça soluções de pequena escala, o Podáali representa um tipo de ação
de base comunitária que entra cada vez mais no radar de grupos como a BRB FC.
Nesse sentido, a coalizão busca encontrar e apoiar novos empreendimentos, dando
atenção às barreiras estruturais existentes no Brasil de forma a liberar
maiores fluxos de financiamento.
O Fundo
Casa Socioambiental também se insere nessa dinâmica. O grupo apoia a
restauração ambiental e incentiva cadeias de valor sustentáveis e adaptação
climática em todos os biomas, distribuindo mais de R$ 2 milhões anualmente para
iniciativas de base. Para estimular a inclusão, as propostas utilizam uma
linguagem acessível e oferecem diferentes níveis de suporte técnico.
“Mostramos
que é possível financiar soluções locais e garantir que os recursos cheguem
onde são mais necessários”, disse a diretora, Cristina Orpheo. Desde sua
fundação em 2005, o fundo apoiou mais de 4,5 mil iniciativas e distribuiu pelo
menos R$ 160 milhões — são 418 projetos apoiados só em 2025.
Segundo
Schneider, o BRB FC trabalha para desbloquear e ampliar redes de financiamento,
de modo que os recursos de organizações como o Podáali e o Fundo Casa
Socioambiental possam “fluir de forma mais eficiente e direta” para as
entidades indígenas e tradicionais.
“Muitas
dessas comunidades nem sequer contam com situação legal para acessar
empréstimos”, disse Maria Netto Schneider, diretora do iCS. “Isso não significa
que elas não sejam boas tomadoras de empréstimos — significa que o sistema não
foi feito para elas.”
O
relatório do qual o iCS participou destaca várias iniciativas. No estado do
Amazonas, a Associação de Produtores Agroextrativistas da Colônia do Sardinha
(Aspacs), que desde 1997 representa ribeirinhos e produtores indígenas dentro
da lógica do extrativismo sustentável, é um dos exemplos. A organização fornece
óleos e sementes coletados de forma ecológica para a Natura, empresa
multinacional do setor de cosméticos e cuidados pessoais.
Já na
região do Rio Negro, no mesmo estado, o Fundo Indígena do Rio Negro (FIRN)
também atua em apoio ao manejo florestal, à agrossilvicultura e à capacitação
jurídica, com planos de arrecadar até R$ 1 milhão para expandir atividades
ligadas à bioeconomia.
Há,
porém, outro ponto sensível. Além dos conhecidos desafios de acesso aos
serviços financeiros e ao capital, muitas comunidades também enfrentam
problemas relacionados às mudanças climáticas. Das 21 empresas de gestão
indígena e tradicional mapeadas no estudo solicitado pela BRB FC, 18 relataram
ter sido afetadas por grandes períodos de seca. Outras citaram inundações e
escassez de água potável. Incêndios e conflitos por terra também entram na
equação.
“Não há
justiça climática sem justiça territorial”, disse Cristina Orpheo à Mongabay.
“Isso significa reconhecer, valorizar e financiar aqueles que já fazem — com
resiliência e sabedoria — aquilo que muitos outros apenas mantêm no papel.”
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Apoio à conservação florestal
O
momento de apoio à expansão da bioeconomia se entrelaça com metas
governamentais de redução de desmatamento, um dos principais objetivos do
governo federal desde o início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, em 2023.
Entre
as medidas anunciadas sob o atual governo, destaca-se o relançamento do Plano
de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm). A
medida inclui o apoio à economia sustentável liderada pelas comunidades
tradicionais espalhadas pelo país.
Outra
iniciativa é o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em
inglês), anunciado em novembro de 2024. Lançado na última conferência da ONU
sobre mudanças climáticas, a COP30, ocorrida em Belém, o fundo planeja
recompensar financeiramente os países e investidores em troca da preservação de
florestas tropicais.
Todavia,
segundo Orpheo, embora as estruturas políticas para a conservação progridam, há
lacunas em seus processos de implementação. “Mesmo quando há créditos estatais,
essa ferramenta não chega às comunidades [tradicionais]. Precisamos de mais
fundos, mais parcerias e ousadia política para ampliar o que já funciona”,
disse.
Já
Maria Schneider afirmou que abrir caminho para soluções atreladas à natureza
exigirá ferramentas financeiras “sob medida”, além de mais ações de governança
e uma mudança de mentalidade. Ela explicou à Mongabay que empresas comunitárias
já operam em regiões críticas para a mitigação do clima. Agora, elas precisam
de ferramentas que se adaptem ao seu contexto de vida, com “financiamento
flexível e capacitação” que minimizem seus problemas.
Fonte:
Mongabay

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