terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Projetos sob gestão indígena buscam investimentos para turbinar bioeconomia — e salvar a natureza

Ao longo do território brasileiro, em diferentes ecossistemas, empresas lideradas por comunidades indígenas exercem um papel fundamental de proteção das florestas e de restauração de paisagens degradadas. O impacto dessas iniciativas vai além da conservação: aliando serviços ambientais a soluções financeiras, muitos projetos geram fonte de renda para grupos economicamente marginalizados, fortalecendo os pilares da bioeconomia.

Com foco na sustentabilidade, a estrutura de negócios no coração dos principais biomas inclui o cultivo do açaí (Euterpe oleracea) e da castanha-do-brasil (Bertholletia excelsa), além da produção do óleo de andiroba (Carapa guianensis) e jambu (Acmella oleracea), entre outros. A rede de soluções indígenas bioeconômicas também abrange práticas agroecológicas e agroflorestais, o ecoturismo, serviços de reflorestamento e o artesanato. Consequentemente, muitos projetos abrem caminho para a criação de ferramentas financeiras, como cooperativas e consultorias.

No entanto, os obstáculos se amontoam, tornando desafiadora a expansão dos empreendimentos indígenas. Problemas vão desde iniciativas que sofrem para conquistar reconhecimento formal até barreiras ao acesso à infraestrutura administrativa e regulatória — como sistemas de registro, licenciamento e apoio operacional, etapas indispensáveis para se administrar um negócio.

“Um dos principais desafios enfrentados pelos povos indígenas e pelas comunidades tradicionais está na forma como a maioria dos mecanismos de financiamento é estruturada”, disse Rose Apurinã, vice-diretora do Podáali – Fundo Indígena da Amazônia Brasileira. O projeto se descreve como “o primeiro mecanismo de abrangência amazônica para captação e redistribuição de recursos”.

“[Essas estruturas] se baseiam em lógicas externas [às comunidades], coloniais e centralizadoras que desconsideram as formas próprias de organização social desses grupos”, explicou Rose.

Ainda segundo ela, a maioria das oportunidades de subsídio e financiamento “impõe barreiras técnicas, burocráticas e institucionais que tornam difícil — ou mesmo impossível — que pessoas em territórios [indígenas e tradicionais] acessem os recursos diretamente”.

Para resolver esse quebra-cabeça, uma aliança entre investidores, ONGs e organizações comunitárias se uniu para criar a Coalizão Brasil para o Financiamento da Restauração e da Bioeconomia (BRB FC). Lançado em 2024, o grupo trabalha para tornar o capital mais acessível a iniciativas sob liderança indígena, quilombola e ribeirinha. O projeto se propõe a mudar a forma como o sistema financeiro nacional percebe e apoia esses empreendimentos, reconhecendo-os como protetores da sociobiodiversidade e do clim.

Entre suas metas, a BRB FC busca levantar 10 bilhões de dólares (R$ 54 bilhões) até 2030, parte de um plano para proteger e restaurar 5,5 milhões de hectares na Amazônia, no Cerrado, na Caatinga e na Mata Atlântica. O processo, que mira construir “do zero” uma estrutura econômica baseada no meio ambiente, também estima um investimento de US$ 500 (R$ 2,6 bilhões) em negócios geridos por grupos indígenas e outras comunidades tradicionais.

A coalizão conta com 22 organizações representantes dos setores público e privado, instituições de filantropia e grupos da sociedade civil. Entidades com grande relevância, como o Banco do Brasil, o Fórum Econômico Mundial e o Banco Mundial, integram a iniciativa.

De acordo com Maria Netto Schneider, diretora do Instituto Clima e Sociedade (iCS), um dos membros do BRB FC, o Brasil tem “um potencial único em [temas de] restauração [ambiental]”.

“Há pelo menos 100 milhões de hectares de terras degradadas que poderiam ser restauradas. E temos um enorme potencial de bioeconomia e formas de valorizar as florestas que seguem em pé, gerando renda e construindo cadeias de valor”, disse à Mongabay.

<><> Comunidades tradicionais lideram trabalho de resistência

O apoio a essas ações é visto por especialistas como uma “estratégia fundamental” tanto para a conservação do meio ambiente quanto para se buscar um quadro de equidade socioeconômica. Para Fabíola Zerbini, diretora da Conexsus — uma organização sem fins lucrativos que apoia negócios sustentáveis —, essas comunidades, incluindo pequenos agricultores sem terra, ocupam mais da metade da cobertura florestal remanescente na Amazônia, por exemplo.

No entanto, esses grupos vivem sob a ameaça de invasões e enfrentam a degradação de suas terras, seja pelo avanço do garimpo ou pela extração ilegal de madeira — duas práticas que colocam em risco suas fontes de subsistência. Segundo Zerbini, fortalecer os empreendimentos comunitários torna esses territórios menos vulneráveis, ao passo que protege o ecossistema do qual seus residentes dependem.

“Trata-se de redistribuir riqueza e renda, garantindo que essas comunidades possam permanecer em suas terras, cuidar delas e protegê-las”, disse a diretora.

Para guiar sua estratégia de investimento, a BRB FC encomendou um estudo para mapear 37 iniciativas, fundos comunitários e pequenas organizações em atividade. Dos projetos mapeados, 21 funcionam sob a gestão de povos indígenas ou comunidades tradicionais, seis têm estrutura comunitária e outros dez são entidades de apoio — como organizações sem fins lucrativos e cooperativas que fornecem algum tipo de assistência técnica às empresas.

Segundo especialistas, a abordagem permite que a coalizão identifique empreendedores com grande potencial de atuação, para que eventuais investimentos possam ter o maior impacto possível em termos econômicos e ambientais. O relatório, apoiado pelo iCS e pela organização The Nature Conservancy Brasil, destaca as principais iniciativas em diversos biomas do Brasil, dando destaque à Amazônia.

“Terras indígenas, territórios quilombolas e áreas protegidas desempenham um papel fundamental na captura de carbono”, diz o estudo. “Muitas organizações e empresas consultadas para o mapeamento relataram envolvimento em projetos de reflorestamento em áreas degradadas, aumentando ainda mais os níveis de captura.”

Essas empresas estão sediadas em territórios que contribuem para o que se pode chamar de “resiliência climática”. Tudo está interligado: segundo estudos, áreas sob manejo de grupos indígenas e quilombolas podem capturar até 2 toneladas métricas de CO2 por hectare a cada ano. De acordo com pesquisadores, uma vez que 73% das emissões do Brasil estão ligadas a mudanças no uso da terra, apoiar esses grupos ganha um aspecto climático e social. Além disso, em 2024, a Amazônia registrou números recordes de emissão de carbono após um surto de incêndios florestais, como destacou a Mongabay em outubro.

“Esses grupos comunitários não são apenas guardiões da floresta”, disse Cristina Orpheo, diretora do Fundo Casa Socioambiental, uma organização que também apoia projetos de conservação sob liderança tradicional. “Eles desempenham papéis centrais nas cadeias de abastecimento de sementes e nas economias locais. Investir em empresas sob sua liderança não é caridade: é algo essencial.”

<><> No meio do caminho havia uma barreira financeira

Grupos indígenas e outras comunidades brasileiras ainda enfrentam grandes entraves em sua busca por acesso ao sistema financeiro. Parte desse empecilho se relaciona ao ritmo das iniciativas: muitos projetos de restauração podem se estender por anos — o que, muitas vezes, é visto por potenciais investidores como uma aposta de risco.

Schneider, da iCS, afirma que muitas soluções financeiras também não levam em conta as necessidades particulares de organizações localizadas em áreas remotas e com pequena estrutura. Ela acrescenta que muitos projetos também exigem dessas empresas uma infraestrutura empresarial e burocrática mais ampla.

Orpheo complementa que “editais, programas de crédito e políticas públicas exigem documentos, certificações e relatórios que simplesmente não estão alinhados à realidade dessas comunidades de base”.

A representante do Fundo Casa Socioambiental também disse que muitas iniciativas carecem de estrutura legal formalizada e de títulos de propriedade, o que as exclui de linhas de crédito. Somam-se a esse quadro de exclusão uma linguagem altamente técnica e sistemas de inscrição exclusivamente digitais. “Esses processos são projetados para grandes instituições, não para aquelas que trabalham em territórios sob liderança indígena e tradicional.”

Para contornar (ou, pelo menos, descomplicar) esse emaranhado burocrático, empresas ligadas ao meio ambiente apostam em modelos “locais” de financiamento. O Podáali, que é administrado por e para indígenas, é um desses exemplos. O fundo oferece às comunidades indígenas um pacote de financiamento direto e com pouca burocracia.

Ao contrário de muitos mecanismos convencionais de suporte financeiro, o fundo indígena é construído “a partir dos próprios territórios”, segundo Rose Apurinã, priorizando “a escuta, a tomada de decisão coletiva e o respeito à autonomia indígena”.

“Acredito que o apoio mais eficaz é aquele que valoriza e respeita a autonomia dos povos indígenas e das comunidades tradicionais, financiando seus próprios mecanismos de organização e gestão. Algo feito em sintonia com suas diversas visões de mundo e realidades”, disse a vice-diretora. “É essencial que esse apoio seja flexível, descentralizado e construído por meio da escuta e do diálogo com suas organizações de base.”

<><> Soluções locais para problemas gerais

Embora ainda ofereça soluções de pequena escala, o Podáali representa um tipo de ação de base comunitária que entra cada vez mais no radar de grupos como a BRB FC. Nesse sentido, a coalizão busca encontrar e apoiar novos empreendimentos, dando atenção às barreiras estruturais existentes no Brasil de forma a liberar maiores fluxos de financiamento.

O Fundo Casa Socioambiental também se insere nessa dinâmica. O grupo apoia a restauração ambiental e incentiva cadeias de valor sustentáveis e adaptação climática em todos os biomas, distribuindo mais de R$ 2 milhões anualmente para iniciativas de base. Para estimular a inclusão, as propostas utilizam uma linguagem acessível e oferecem diferentes níveis de suporte técnico.

“Mostramos que é possível financiar soluções locais e garantir que os recursos cheguem onde são mais necessários”, disse a diretora, Cristina Orpheo. Desde sua fundação em 2005, o fundo apoiou mais de 4,5 mil iniciativas e distribuiu pelo menos R$ 160 milhões — são 418 projetos apoiados só em 2025.

Segundo Schneider, o BRB FC trabalha para desbloquear e ampliar redes de financiamento, de modo que os recursos de organizações como o Podáali e o Fundo Casa Socioambiental possam “fluir de forma mais eficiente e direta” para as entidades indígenas e tradicionais.

“Muitas dessas comunidades nem sequer contam com situação legal para acessar empréstimos”, disse Maria Netto Schneider, diretora do iCS. “Isso não significa que elas não sejam boas tomadoras de empréstimos — significa que o sistema não foi feito para elas.”

O relatório do qual o iCS participou destaca várias iniciativas. No estado do Amazonas, a Associação de Produtores Agroextrativistas da Colônia do Sardinha (Aspacs), que desde 1997 representa ribeirinhos e produtores indígenas dentro da lógica do extrativismo sustentável, é um dos exemplos. A organização fornece óleos e sementes coletados de forma ecológica para a Natura, empresa multinacional do setor de cosméticos e cuidados pessoais.

Já na região do Rio Negro, no mesmo estado, o Fundo Indígena do Rio Negro (FIRN) também atua em apoio ao manejo florestal, à agrossilvicultura e à capacitação jurídica, com planos de arrecadar até R$ 1 milhão para expandir atividades ligadas à bioeconomia.

Há, porém, outro ponto sensível. Além dos conhecidos desafios de acesso aos serviços financeiros e ao capital, muitas comunidades também enfrentam problemas relacionados às mudanças climáticas. Das 21 empresas de gestão indígena e tradicional mapeadas no estudo solicitado pela BRB FC, 18 relataram ter sido afetadas por grandes períodos de seca. Outras citaram inundações e escassez de água potável. Incêndios e conflitos por terra também entram na equação.

“Não há justiça climática sem justiça territorial”, disse Cristina Orpheo à Mongabay. “Isso significa reconhecer, valorizar e financiar aqueles que já fazem — com resiliência e sabedoria — aquilo que muitos outros apenas mantêm no papel.”

<><> Apoio à conservação florestal

O momento de apoio à expansão da bioeconomia se entrelaça com metas governamentais de redução de desmatamento, um dos principais objetivos do governo federal desde o início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2023.

Entre as medidas anunciadas sob o atual governo, destaca-se o relançamento do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm). A medida inclui o apoio à economia sustentável liderada pelas comunidades tradicionais espalhadas pelo país.

Outra iniciativa é o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês), anunciado em novembro de 2024. Lançado na última conferência da ONU sobre mudanças climáticas, a COP30, ocorrida em Belém, o fundo planeja recompensar financeiramente os países e investidores em troca da preservação de florestas tropicais.

Todavia, segundo Orpheo, embora as estruturas políticas para a conservação progridam, há lacunas em seus processos de implementação. “Mesmo quando há créditos estatais, essa ferramenta não chega às comunidades [tradicionais]. Precisamos de mais fundos, mais parcerias e ousadia política para ampliar o que já funciona”, disse.

Já Maria Schneider afirmou que abrir caminho para soluções atreladas à natureza exigirá ferramentas financeiras “sob medida”, além de mais ações de governança e uma mudança de mentalidade. Ela explicou à Mongabay que empresas comunitárias já operam em regiões críticas para a mitigação do clima. Agora, elas precisam de ferramentas que se adaptem ao seu contexto de vida, com “financiamento flexível e capacitação” que minimizem seus problemas.

 

Fonte: Mongabay

 

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