Toffoli
e Moraes deveriam se declarar suspeitos no caso do Banco Master, diz
especialista em regulação
Até
pouco tempo o Banco Master era desconhecido de boa parte dos brasileiros. É uma
instituição financeira pequena — e, no entanto, está no centro de uma crise
desengatilhada por suspeitas de fraudes bilionárias em operações financeiras
com ramificações que chegam ao mundo da política e ao Supremo Tribunal Federal
(STF).
"O
que me chama atenção nesse caso é a capacidade de um sujeito que tem um banco
pequeno de botar braço para tudo quanto é lado num ambiente político e
institucional e contaminar isso", diz Cleveland Prates Teixeira,
economista e professor de regulação da Fipe-USP e da FGV-Law. "É isso que
me assusta." Ele se refere a Daniel Vorcaro, dono do Master, que foi preso
preventivamente em novembro no âmbito da investigação que apura fraudes em
operações financeiras realizadas pelo banco. Vorcaro passou 12 dias preso e
está sendo monitorado por tornozeleira eletrônica desde 29 de novembro.
Teixeira
chama atenção para a "contaminação" que o caso gerou no ambiente
político e institucional desde que a Polícia Federal declarou a operação
Compliance Zero em novembro e que o Banco Central determinou a liquidação do
Master com o intuito de evitar riscos maiores a todo sistema financeiro
brasileiro.
Nos
primeiros dias de 2026, o mercado financeiro recebeu com surpresa a notícia de
que o Tribunal de Contas da União (TCU) havia anunciado uma inspeção para
apurar o processo que levou o BC a determinar o encerramento das atividades do
banco.
A
medida, determinada pelo ministro Jhonatan de Jesus, que já foi deputado
federal por quatro mandatos, gerou temor de que o TCU pudesse tentar reverter a
liquidação do Master. Na avaliação de especialistas como Cleveland Prates
Teixeira, não caberia ao tribunal deliberar sobre a atividade regulatória do
Banco Central, já que seu papel é o de fiscalizar a administração do dinheiro
público.
Um dos
riscos dessa interferência, segundo ele, seria passar a mensagem de que, no
futuro, agentes reguladores poderiam se ver intimidados por instâncias
superiores a tomar decisões técnicas contra bancos que colocam a economia
nacional em risco.
Além
disso, ele acrescenta, os bancos teriam mais incentivos para tomar riscos
maiores, sabendo que pode haver um caminho jurídico no futuro para se proteger
das consequências de seus atos.
Confira
abaixo trechos da entrevista:
• O senhor disse recentemente que existe
um risco sistêmico envolvendo todo o problema do Banco Master e a forma como
isso está sendo tratado pelas instituições brasileiras. Qual é esse risco
exatamente?
Cleveland
Prates Teixeira – A primeira coisa que a gente tem que entender nessa história
toda é que botar um banco desses de volta dentro de um sistema financeiro, por
menor que ele seja, ele contamina as expectativas. É você pegar uma célula
cancerígena e colocar de novo no corpo. Você pode gerar uma metástase.
Você
pode gerar uma dúvida generalizada e criar um ambiente de incerteza sobre o que
pode acontecer, principalmente no futuro.
No
curto prazo, a minha preocupação é: se este banco voltar com os ativos dele,
ele não vai conseguir captar recursos. Ninguém acredita mais nesse banco. Uma
vez que você tomou a decisão de fechar, ele não vai conseguir pegar dinheiro no
mercado interbancário, não vai conseguir captar dinheiro e isso vai gerar uma
corrida aos bancos.
E isso
pode gerar uma contaminação. Não sabemos o quanto isso pode acontecer de fato,
porque nunca tivemos uma experiência dessas de volta de um banco que já estava
liquidado. Mas esse é um ponto muito preocupante.
Além
disso tem dois outros fatores que me preocupam muito mais quando falamos em
risco sistêmico.
O
primeiro deles é você pensar sobre a extrapolação das atribuições do TCU. O TCU
não tem mandato para fiscalizar a atuação finalística do Banco Central — a
atuação regulatória, a atuação de fiscalização.
E toda
vez que ele faz isso — e o TCU tem feito muito isso em outros setores, em
agências reguladoras — ele cria um certo medo nos agentes públicos. Porque
quando eu tomo a decisão de te fiscalizar e posso te punir por algo que é uma
obrigação tua, você fica com medo. Você passa a pensar "para que eu vou
botar o meu CPF em risco?"
Isso
gera um incentivo ruim para o fiscalizador que vai deixar o negócio caminhar no
futuro se ele tiver medo de ser punido. Ele vai deixar o risco correr mais
solto.
Você
pode ter no futuro um outro banco que vai quebrar e, porque o agente público
está com medo, esse banco acaba contaminando outros bancos também. Então cresce
o problema.
Isso é
um risco que a gente percebe, por exemplo, em decisões que são postergadas em
agências reguladoras. No setor de telecomunicações e de portos já aconteceu
isso.
No caso
do Banco Central, é mais grave, porque você tem que resolver o problema muito
rápido para não contaminar o sistema.
• Em se tratando de um risco sistêmico,
qual é o pior cenário possível?
Teixeira
– Tem mais uma outra coisa que é importante no ponto de vista de risco
sistêmico. É o incentivo que você gera com uma decisão ruim e com uma
intervenção deste tipo para os próprios agentes de mercado. É o moral hazard,
ou risco moral.
Se eu
sou um gestor de um fundo ou banco e souber que se cometer algum erro grave, eu
posso no futuro utilizar órgãos públicos para impedir ou conturbar decisões
desfavoráveis — podendo questionar decisões na Justiça lá na frente — eu tenho
mais incentivo para tomar mais risco.
Meu
incentivo muda, porque eu sei que eu sempre terei uma porta de escape lá na
frente para pelo menos recuperar uma parte dos erros que eu cometi.
Isso
mostra para os maus gestores que eles têm alguma brecha lá na frente — uma
brecha política, uma brecha no Supremo, uma brecha no TCU, assim por diante.
É
preciso você mudar os incentivos dos agentes econômicos no mercado.
• Sempre se tem medo de um risco sistêmico
no mercado de bancos por um problema financeiro — por um banco quebrado
contaminar os demais. Mas nesse caso o maior risco sistêmico seria regulatório,
em vez de financeiro?
Teixeira
– O banco grande quebrando é muito ruim. Mas um banco pequeno quebrando também
é ruim, porque dá um sinal equivocado para a sociedade. A sociedade pode
entender: "se aquele banco quebrou, o meu também pode quebrar" e isso
pode gerar uma correria para se retirar dinheiro.
Outro
problema é você mudar o incentivo do regulador, que passa a demorar mais para
tomar uma atitude com relação aos bancos que estão com problemas. E se isso
acontece, isso amplifica o tamanho do problema.
Uma
instituição financeira com problemas começa a tomar mais dinheiro no mercado
financeiro com outros bancos. E ele pode amplificar o efeito. Se antes eu tinha
um banco prestes a quebrar, agora pode haver um segundo banco que está
associado a ele por empréstimos.
• Diante das movimentações que estamos
vendo — as notícias sobre o TCU, o STF e as notas das entidades bancárias —
existe um risco de se "desliquidar" o Banco Master?
Teixeira
– Quando a gente olha a movimentação política que tem, com o Supremo chamando
para si um caso que a gente não entende, quando a gente olha o TCU com um único
ministro tomando decisões que não tem o mínimo cabimento, eu vejo uma
movimentação para, no mínimo, querer conturbar um processo e gerar um fato
jurídico para se questionar essa decisão no futuro.
Ainda
mais quando se lê notícias sobre influencers sendo pagos para mudar a visão do
Banco Central. Tem um movimento muito estranho aí e a minha sensação por toda a
minha experiência que eu tenho em vários setores é que essa movimentação toda
busca em última instância criar um ambiente ruim sob o ponto de vista jurídico
para permitir um questionamento lá na frente sobre a atuação do Banco Central.
Me
parece que tem uma pizza sendo elaborada.
• Quais são os problemas no trâmite desse
processo todo envolvendo o Banco Master? E qual deveria ser o trâmite correto,
na sua opinião?
Teixeira
— Nitidamente estamos falando de um ministro no Supremo que deveria se declarar
suspeito.
Eu já
fui é membro de um tribunal administrativo, como conselheiro do Cade. Por muito
menos, por eu frequentar a casa do presidente de uma empresa que tinha um caso
lá no Cade e nunca ter conversado com ele sobre o assunto, eu me declarei
suspeito.
Se
declarar suspeito não é reconhecer que você não tem capacidade de julgar, não é
que você vai ser tendencioso ou coisa do tipo. Declaração de suspeito é para
você proteger a instituição.
No caso
dele [Dias Toffoli], em particular, a partir do momento que você observa ele
pegando um jato junto com o advogado para ver um jogo — que é o advogado do
banco — eu acho que só isso já é um péssimo sinal, e ele deveria ter se
declarado suspeito.
A
segunda coisa é que, até o momento, a única coisa que se achou neste processo
foi um contrato de compra e venda de uma de uma casa no sul da Bahia envolvendo
um deputado, e por isso puxou-se o caso para o Supremo.
Eu não
vejo que isso seria razão para puxar para o Supremo. Por muito mais, já se
deixou de puxar caso para o Supremo. Isso é muito estranho. O caso deveria
tramitar na primeira instância.
Observando
isso e juntando com a falta de transparência, a hora que você bota sigilo em
tudo é um péssimo sinal para a sociedade.
Em
paralelo, você tem um outro ministro [Alexandre de Moraes] cuja esposa tem um
contrato até hoje não explicado com o Banco Master. Tudo isso contamina
qualquer expectativa de uma decisão correta.
No
mínimo, você deveria ter um pouco de transparência dentro do Supremo sobre o
que está acontecendo. E isso não está acontecendo. Isso é uma preocupação muito
grande. O caso deveria voltar, até que se prove o contrário, para a primeira
instância.
Se
ficar no Supremo, tem dois juízes que deveriam se declarar claramente suspeitos
nesse caso, acho que não tem nenhuma dúvida disso. Até agora, o primeiro não se
declarou e o segundo não falou o que vai fazer.
E pior:
você não sabe por que isso está lá exatamente. A única questão que se tem em
discussão é que houve uma fraude. Só que fraude você discute, a salvo casos
específicos que tem alguém com foro privilegiado, na primeira instância, passa
para a segunda instância, aí vai para o STJ, não é nem para o Supremo, e assim
por diante.
• O TCU não deveria nem estar envolvido,
na sua opinião?
Teixeira
– Não. Qual a função do TCU? O nome já diz: Tribunal de Contas da União. É
cuidar das contas públicas e do dinheiro público.
• Ele pode fazer uma investigação do Banco
Central? Pode. Mas em que contexto?
Por
exemplo, se ele entender que o gasto do Banco Central com funcionários, com
compras públicas, está sendo feito de uma maneira errada. Aí ele vai poder
fazer uma inspeção nas contas do Banco Central para verificar se ele está
gerenciando bem o dinheiro público.
Ponto.
É isso que compete ao TCU. Se você olhar o artigo 71 da Constituição federal,
ele é muito claro sobre isso. Não compete ao TCU ficar metendo a mão em áreas
finalísticas.
Você
poderia argumentar que tem fundos de pensão de regime próprio da previdência
social estaduais. Então tem dinheiro público aí.
Mas
mesmo nesse caso, a quem compete fazer essa fiscalização? Aos tribunais de
contas estaduais, não ao Tribunal de Contas da União. E ao Ministério da
Previdência Social, que tem uma secretaria específica para isso.
Mas não
ao TCU, que deveria cuidar do dinheiro público federal. Se não você cria um
problema jurídico imenso. Você cria uma insegurança jurídica muito grande. Não
tem razão para isso.
Na
melhor das hipóteses, ele poderia entender que a secretaria de Previdência
errou, não fiscalizou direito e eventualmente isso pode gerar um processo
daqueles fundos sobre o governo federal, portanto tem dinheiro público
envolvido.
Se você
forçar muito o entendimento, seria isso. Mas eu nem nem acho que seja isso.
• Uma das ferramentas para se evitar um
risco sistêmico no sistema financeiro brasileiro é o Fundo Garantir de Crédito
(FGC). Mas o FGC tem sido usado por bancos e corretoras como um argumento de
vendas aos clientes, para convencê-los a comprar produtos como CDBs. E todos
acabam tomando riscos maiores com produtos menos seguros, confiando que o FGC
vai bancar qualquer eventual problema. Não existe também no FGC um risco moral?
Teixeira
– O FGC não precisa acabar, mas ele precisa ser melhorado.
Eu acho
que tem algumas coisas que a gente precisa aprender de lição nesse caso.
Primeiro, qual o limite para esses agentes financeiros utilizarem argumentos
para vender o tipo de produto que eles vendem. Será que sob o ponto de vista do
consumidor, ele foi devidamente avisado sobre esse processo? Será que não seria
o caso de a gente introduzir uma punição para esse tipo de comportamento?
É uma
questão mais do que ética. É uma questão que afeta a higidez do sistema.
Outra
ponto é que o aporte exigido de capital por instituição financeira deveria
considerar não só o volume, mas também o risco do tipo de ativos.
Se eu
sou uma instituição que está se alavancando muito mais, então o meu nível de
exigência de depósito no FGC tem que ser maior. Se eu estou trabalhando com
produtos de muito maior risco, o meu nível de exigência de aporte no FGC tem
que ser maior.
Se você
fizer isso, a instituição financeira vai pensar duas vezes antes de correr mais
risco. Na medida em que você exige que ela contribua mais com o FGC, é isso
muda um pouco os incentivos do mercado.
Se você
junta isso com algum tipo de punição com relação a esses agentes de mercado,
inclusive não permitindo que esses agentes de mercado atuem nas duas pontas —
ao mesmo tempo eu recebo de quem emite o título e recebo da pessoa — você está
mudando todo o mercado e os incentivos.
Hoje um
agente [financeiro] recebe do banco, ele não recebe da pessoa [o cliente].
Então ele tem muito mais intenção de sair vendendo [o produto do banco], e não
de proteger o dinheiro da pessoa. Esse ambiente precisa ficar claro.
• O senhor tem bastante experiência em
conflitos regulatórios. Esse caso do Banco Master, com tantas viradas
políticas, surpreendeu o senhor? Ou isso tudo é o que normalmente acontece em
casos assim?
Teixeira
– Jogo político você sempre tem. Mas o que me chama atenção nesse caso é a
capacidade de um sujeito que tem um banco pequeno de botar braço para tudo
quanto é lado num ambiente político e institucional e contaminar isso. É isso
que me assusta.
É o que
me leva a crer que a gente precisa mudar a forma de escolher os ministros das
cortes superiores. Estamos falando de pessoas que estão tomando decisões e que
vieram de um ambiente político, cujo processo de decisão é muito diferente do
processo de decisão técnico.
Quando
se tem um ministro relator, que era um deputado, ou um presidente do TCU, que
era um deputado, é muito ruim isso. E quando você olha para o Supremo, pessoas
que saem do governo e que tem posturas políticas dentro do Supremo também é
muito ruim.
É
preciso mudar. Você deveria ter pessoas técnicas tomando decisões e não pessoas
vindo da política, porque o processo decisório é outro. Não é que a pessoa seja
ruim, não é que a pessoa vá sacanear, mas a forma de ela observar o processo
decisório é muito diferente de uma área técnica.
Fonte:
BBC News Brasil

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