segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Fernando Nogueira da Costa: Estratégias Graduais de Transição diante do Rentismo Global

Explorar estratégias graduais de transição dentro do modelo de Hierarquia Rentista Global (HRG) exige aceitar um ponto de partida realista: não há, no curto prazo, coalizão política capaz de uma ruptura frontal com o rentismo periférico. Logo, as estratégias factíveis são incrementais, defensivas e cumulativas, operando por deslocamentos marginais de função, não por confrontação direta.

Então, o objetivo brasileiro não seria “sair” do Nível III de imediato, mas reduzir sua rigidez, criando graus de liberdade para transições futuras. A seguir, apresento um menu estratégico coerente, organizado por quatro frentes complementares, cada uma desenhada para minimizar vetos políticos e reações sistêmicas.

A primeira das estratégias graduais de transição do Brasil na HRG seria a refuncionalização da dívida pública sem confrontar o rentismo. A dívida pública é hoje eixo do rentismo, instrumento de política monetária e principal ativo financeiro doméstico. Ela não pode ser eliminada, mas pode mudar de função.

Entre as estratégias factíveis, destacam-se, primeiro, o alongamento sistemático do perfil ao reduzir peso de títulos indexados à Selic e ampliar prefixados longos e indexados ao crescimento. Depois, seria prudente a criação de títulos produtivos vinculados à infraestrutura, à transição energética e à logística. Finalmente, faria uma segmentação da base de investidores ao emitir certos títulos exclusivos para fundos de pensão e seguradoras, ou seja, investidores institucionais.

É vantagem política não mexer no estoque da dívida, não ameaçar contratos existentes e preservar a narrativa de responsabilidade fiscal. O efeito na posição brasileira na HRG seria reduzir o papel da dívida como instrumento de arbitragem de curto prazo.

A segunda dessas estratégias graduais seria a redução silenciosa da dominância da Selic. A taxa de juro básica, fixada pelo Banco Central do Brasil, organiza expectativas, spreads, portfólios e discurso econômico. Confrontá-la diretamente é politicamente inviável.

Entre a estratégias factíveis, para tanto, encontra-se a expansão de crédito parafiscal do BNDES, dos demais bancos públicos e dos fundos garantidores como FGTS. Ofereceriam taxas administradas abaixo da Selic, mas com critérios técnicos e foco setorial, além de criar indexadores alternativos em contratos de longo prazo.

A vantagem política seria não exigir mudança formal de mandato de autonomia do Banco Central do Brasil. Operaria “por fora” do núcleo simbólico da política monetária.

O efeito na posição brasileira na HRG seria criar um subcircuito financeiro não-rentista, sem romper o circuito dominante.

Quanto à terceira estratégia, a reconstrução seletiva do mercado de capitais doméstico, partiria do diagnóstico de a bolsa de valores brasileira não financiar investimentos, ser dominada por estrangeiros e politicamente sensível

Entre as estratégias factíveis encontram-se a criação de um mercado de capitais fechado/seletivo com, debêntures incentivadas, project bonds e fundos de infraestrutura. Project bonds são títulos de dívida de longo prazo emitidos para financiar projetos específicos de grande escala, como infraestrutura, energia ou telecomunicações, onde o pagamento aos investidores vem exclusivamente do fluxo de caixa gerado por aquele projeto, e não do balanço geral da empresa emissora, oferecendo uma alternativa ao financiamento bancário tradicional e atraindo investidores para o setor de infraestrutura.

Dar-se-ia incentivos fiscais condicionais em benefício atrelado a prazo e investimento real. Adotaria uma proteção suave ao investidor doméstico com redução de custos e estabilidade regulatória.

A vantagem política seria não confrontar investidores estrangeiros e não alterar regras do mercado à vista. O efeito na posição brasileira na HRG seria deslocar o papel do mercado de capitais de arbitragem para financiamento dirigido.

Na quarta estratégia, a redução da vulnerabilidade externa sem controle explícito de capitais, partiria da constatação de o controle direto de capitais gerar veto imediato. Por isso, estão entre as estratégias mais factíveis a gestão macroprudencial assimétrica com exigências de capital diferenciadas e impostos regulatórios temporários. Somar-se-ia ao uso estratégico de reservas via swaps e linhas regionais, além da gradual expansão de comércio em moedas locais como a Unit dos BRICS.

Sua vantagem política seria apresentá-la como técnica e preventiva. Já possui precedentes internacionais. O efeito na posição brasileira na HRG seria reduzir a frequência de choques cujos efeitos reforçam o rentismo periférico.

Na quinta estratégia, a reorientação da subjetividade financeira, em longo prazo, o diagnóstico inicial é o rentismo ser socialmente legitimado. Daí, entre as estratégias factíveis encontram-se a educação financeira crítica, focada no destaque do custo social dos juros e de avaliação do risco sistêmico.

Haveria também uma mudança no discurso institucional para ênfase no crescimento como estabilidade inflacionária em lugar de só esta última meta.

O investimento em parceria público-privada seria realizado com prudência. Com o tempo haveria exemplos públicos bem-sucedidos de projetos financiados fora da Selic.

Sua vantagem política seria o baixo custo imediato e o alto efeito cumulativo. O efeito na posição brasileira na HRG seria desgastar lentamente a hegemonia simbólica do rentismo.

O insight central do apresentado é a transição factível não ocorrer por “enfrentamento”, mas por deslocamento funcional. O sistema financeiro nacional continua existindo, mas passa a cumprir menos eficientemente sua função rentista e mais eficientemente funções produtivas.

No modelo HRG, isso equivale a afrouxar o Nível III, sem ainda ascender plenamente ao Nível II.

Dentro das restrições políticas reais, o caminho brasileiro não é o da ruptura heroica nem da adaptação passiva, mas o da engenharia institucional gradual, capaz de reduzir a centralidade do juro, multiplicar circuitos financeiros alternativos e criar condições políticas para transições futuras.

•        O Fórum Econômico Mundial desorientado. Por Sérgio Ferrari

A partir de 19 de janeiro, e durante cinco dias, a cidade de Davos, nos Alpes Suíços, recebe a 56a reunião anual do Fórum Econômico Mundial (WFE).

A elite econômica e política global buscará, nesse lugar paradisíaco, uma forma de se tranquilizar em meio a uma situação internacional complexa marcada por mudanças de paradigma e liderança.

Adaptado aos mais de 2000 participantes esperados – incluindo várias dezenas de chefes de Estado e de governo --, Davos será novamente uma fortaleza murada. Para protegê-la, cerca de cinco mil militares e outros corpos de segurança, a instalação de um sofisticado aparato logístico e, além disso, quase 50 quilômetros de espaço aéreo semicerrado sob controle rigoroso durante toda a semana do evento. Um ponto chave dessa implantação é a segurança de Donald Trump, que, segundo várias fontes, participará novamente pessoalmente.

Segundo o Financial Times, o presidente dos EUA teria pressionado os organizadores a excluir temas considerados "woke" do evento de 2026. Segundo o jornal, altos funcionários dos EUA pediram ao Fórum que evitasse ou limitasse discussões relacionadas ao empoderamento das mulheres, diversidade, mudanças climáticas e financiamento de ajuda ao desenvolvimento. Essas são algumas das questões que Donald Trump critica regularmente, acusando instituições internacionais de promover uma agenda progressista contrária aos interesses estadunidenses.

Nesse "momento crucial", segundo os organizadores, a nova reunião anual em Davos se baseia na tradição do Fórum de reunir atores de diferentes geografias, setores econômicos e gerações para fomentar um diálogo real, abordar desafios compartilhados e destacar inovações que estão impulsionando o futuro.

Sob o lema "Um espírito de diálogo", seus organizadores o estruturaram como uma série de debates sobre cinco desafios globais: cooperação em um mundo em disputa, abertura de novas fontes de crescimento, investimento em pessoas, implantação responsável da inovação e construção de prosperidade dentro dos limites planetários. "Em meio à crescente fragmentação", argumentam, "a complexidade acelerada e as rápidas mudanças tecnológicas, a necessidade de uma plataforma imparcial para o diálogo nunca foi tão urgente". Ao mesmo tempo, seus organizadores reconhecem que mudanças nos mercados e a incerteza geopolítica estão reescrevendo as regras do comércio global."

<><> Fórum enfraquecido em um contexto complexo

A reunião que começa em 19 de janeiro constitui um grande desafio para o próprio Fórum, após cinquenta e cinco anos de existência e após uma crise interna tão recente quanto profunda. O futuro do Fórum dependerá, no médio prazo, dos resultados dessa edição. Especificamente, sua capacidade de atrair novamente personalidades representativas do grande setor empresarial e das elites políticas mundiais e, além disso, de recuperar uma confiança parcialmente perdida devido a essa crise.Em outubro de 2025, a plataforma suíça swissinfo publicou um artigo intitulado "O declínio de Davos: o Fórum Econômico Mundial vai sobreviver?". Retomando uma análise do Financial Times, o artigo menciona um relatório investigativo sobre graves alegações de desvio de fundos e abuso de funcionários contra Klaus Schwab durante seu mandato como diretor executivo do WEF.

Embora os resultados formais da investigação tenham encoberto Schwab, fundador e pioneiro histórico, "em vez de fechar um capítulo", o artigo afirma: "o Relatório marcou o fim do lento e doloroso desmoronamento do legado de Schwab e da própria instituição". Ironicamente, argumenta, "toda a agitação dentro do Fórum Mundial também reflete o destino da ordem multilateral que [Schwab] defendeu". Em outras palavras, "A crise do Fórum põe fim a toda uma era: o período pós-Guerra Fria de integração global, otimismo de mercado e institucionalismo liberal. Essa era deu vida a Davos, e por décadas Davos a personificou".

"Com crises internas e enfraquecimento externo", alerta o artigo, o Fórum "está em uma fase de incerteza". Além disso, pode estar enfrentando o principal desafio que enfrentou desde sua fundação, em 1971, devido a "múltiplos obstáculos: o recuo da globalização, uma desconfiança generalizada em relação às elites e a transição abrupta da liderança de Klaus Schwab".

E conclui que "o mundo é muito diferente em 2025. A economia global se fragmentou, a política de mudanças climáticas influencia diretamente as agendas nacionais, e novas tecnologias tornam a visão das sociedades sobre o futuro mais rara... A premissa fundadora do Fundo Econômico Mundial de que o diálogo entre elites é capaz de superar diferenças soa cada vez mais ultrapassada".

<><> Protestos cidadãos

Embora o mesmo movimento "altermundialista" nascido por volta de 2000 com o Fórum Social Mundial de Porto Alegre também tenha perdido muita capacidade de convocação, de qualquer forma as vozes contra Davos continuam válidas e em formas, espaços e chamados muito variados, como, por exemplo, uma manifestação de protesto em frente ao Centro de Convenções de Davos durante as sessões do Fórum e a "Greve contra Davos", no fim de semana anterior à abertura do WEF.

Apesar das restrições impostas pelas autoridades locais para todos os tipos de manifestações anti-Fórum, já é tradição que grupos altermundialistas cheguem ao local do evento após percorrerem muitos quilômetros por estradas secundárias totalmente nevadas e difíceis de circular.

"Nossa marcha", dizem os organizadores da La Huelga (Greve), uma iniciativa que reúne organizações de vários países europeus, "é um chamado por justiça global". E eles afirmam: "Estamos comprometidos com a justiça social, lutamos por um mundo onde todos tenham o suficiente para viver e somos a favor de uma economia que coloque as necessidades das pessoas no centro de suas preocupações".

Nos mesmos dias, "O Outro Davos" se reunirá na cidade de Zurique. Este ano, com foco em "respostas antimilitaristas à escalada das tensões e guerras imperialistas, bem como solidariedade internacionalista com a Palestina". Depois de todos esses anos de doutrina econômica neoliberal, argumentam os organizadores da reunião em Zurique, estamos testemunhando "um aumento das injustiças sociais, o empobrecimento de uma parte crescente da população e uma crise da democracia liberal burguesa, que está sendo explorada pela extrema-direita conservadora e reacionária. As conquistas dos movimentos feministas estão sendo questionadas, e a incitação ao ódio racial e à militarização são a nova norma da política (inter)nacional".

Por sua vez, vários grupos juvenis e anticapitalistas convocaram uma manifestação nas ruas de Berna em 17 de janeiro. E entre os dias 23 e 30, também em Berna, acontecerá o habitual "Tour de Lorena" (Tour da Lorena), uma mobilização com atividades políticas, sociais e culturais nesse bairro alternativo da capital suíça. O cartaz diz: "Formem gangues coloridas! Fortaleçam a resistência em solidariedade! Cansado do ambiente de crise? Você ainda tem esperança ou já desistiu? De qualquer forma, é hora de unir forças!". Os organizadores respondem: "Estamos convencidos de que juntos somos fortes! Para alcançar isso, precisamos explorar pontos em comum e forjar alianças. Vários princípios compartilhados servem de base, conforme indicado pelo programa Tour de Lorena: solidariedade diária, sustentabilidade e justiça global".

O planeta se depara com um novo paradigma que busca controlar o modelo multilateral atual, suas regras e instituições. Ao mesmo tempo, há uma crise de iniciativas que, assim como o Fórum de Davos, durante o último meio século forneceram bases ideológicas ao sistema que hoje sofre dessa crise de direção. Essas também são questões e desafios válidos para o movimento altermundialista, que, no entanto, continua a considerar Davos como um emblema simbólico a ser denunciado. Convencido de que somente uma mobilização cidadã multiplicada pode garantir a correção de uma tendência global perigosa e autodestrutiva e, assim, contribuir para um planeta mais justo, sustentável e pacífico.

 

Fonte: Brasil 247

 

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