Fernando
Nogueira da Costa: Estratégias Graduais de Transição diante do Rentismo Global
Explorar
estratégias graduais de transição dentro do modelo de Hierarquia Rentista
Global (HRG) exige aceitar um ponto de partida realista: não há, no curto
prazo, coalizão política capaz de uma ruptura frontal com o rentismo
periférico. Logo, as estratégias factíveis são incrementais, defensivas e
cumulativas, operando por deslocamentos marginais de função, não por
confrontação direta.
Então,
o objetivo brasileiro não seria “sair” do Nível III de imediato, mas reduzir
sua rigidez, criando graus de liberdade para transições futuras. A seguir,
apresento um menu estratégico coerente, organizado por quatro frentes
complementares, cada uma desenhada para minimizar vetos políticos e reações
sistêmicas.
A
primeira das estratégias graduais de transição do Brasil na HRG seria a
refuncionalização da dívida pública sem confrontar o rentismo. A dívida pública
é hoje eixo do rentismo, instrumento de política monetária e principal ativo
financeiro doméstico. Ela não pode ser eliminada, mas pode mudar de função.
Entre
as estratégias factíveis, destacam-se, primeiro, o alongamento sistemático do
perfil ao reduzir peso de títulos indexados à Selic e ampliar prefixados longos
e indexados ao crescimento. Depois, seria prudente a criação de títulos
produtivos vinculados à infraestrutura, à transição energética e à logística.
Finalmente, faria uma segmentação da base de investidores ao emitir certos
títulos exclusivos para fundos de pensão e seguradoras, ou seja, investidores
institucionais.
É
vantagem política não mexer no estoque da dívida, não ameaçar contratos
existentes e preservar a narrativa de responsabilidade fiscal. O efeito na
posição brasileira na HRG seria reduzir o papel da dívida como instrumento de
arbitragem de curto prazo.
A
segunda dessas estratégias graduais seria a redução silenciosa da dominância da
Selic. A taxa de juro básica, fixada pelo Banco Central do Brasil, organiza
expectativas, spreads, portfólios e discurso econômico. Confrontá-la
diretamente é politicamente inviável.
Entre a
estratégias factíveis, para tanto, encontra-se a expansão de crédito parafiscal
do BNDES, dos demais bancos públicos e dos fundos garantidores como FGTS.
Ofereceriam taxas administradas abaixo da Selic, mas com critérios técnicos e
foco setorial, além de criar indexadores alternativos em contratos de longo
prazo.
A
vantagem política seria não exigir mudança formal de mandato de autonomia do
Banco Central do Brasil. Operaria “por fora” do núcleo simbólico da política
monetária.
O
efeito na posição brasileira na HRG seria criar um subcircuito financeiro
não-rentista, sem romper o circuito dominante.
Quanto
à terceira estratégia, a reconstrução seletiva do mercado de capitais
doméstico, partiria do diagnóstico de a bolsa de valores brasileira não
financiar investimentos, ser dominada por estrangeiros e politicamente sensível
Entre
as estratégias factíveis encontram-se a criação de um mercado de capitais
fechado/seletivo com, debêntures incentivadas, project bonds e fundos de
infraestrutura. Project bonds são títulos de dívida de longo prazo emitidos
para financiar projetos específicos de grande escala, como infraestrutura,
energia ou telecomunicações, onde o pagamento aos investidores vem
exclusivamente do fluxo de caixa gerado por aquele projeto, e não do balanço
geral da empresa emissora, oferecendo uma alternativa ao financiamento bancário
tradicional e atraindo investidores para o setor de infraestrutura.
Dar-se-ia
incentivos fiscais condicionais em benefício atrelado a prazo e investimento
real. Adotaria uma proteção suave ao investidor doméstico com redução de custos
e estabilidade regulatória.
A
vantagem política seria não confrontar investidores estrangeiros e não alterar
regras do mercado à vista. O efeito na posição brasileira na HRG seria deslocar
o papel do mercado de capitais de arbitragem para financiamento dirigido.
Na
quarta estratégia, a redução da vulnerabilidade externa sem controle explícito
de capitais, partiria da constatação de o controle direto de capitais gerar
veto imediato. Por isso, estão entre as estratégias mais factíveis a gestão
macroprudencial assimétrica com exigências de capital diferenciadas e impostos
regulatórios temporários. Somar-se-ia ao uso estratégico de reservas via swaps
e linhas regionais, além da gradual expansão de comércio em moedas locais como
a Unit dos BRICS.
Sua
vantagem política seria apresentá-la como técnica e preventiva. Já possui
precedentes internacionais. O efeito na posição brasileira na HRG seria reduzir
a frequência de choques cujos efeitos reforçam o rentismo periférico.
Na
quinta estratégia, a reorientação da subjetividade financeira, em longo prazo,
o diagnóstico inicial é o rentismo ser socialmente legitimado. Daí, entre as
estratégias factíveis encontram-se a educação financeira crítica, focada no
destaque do custo social dos juros e de avaliação do risco sistêmico.
Haveria
também uma mudança no discurso institucional para ênfase no crescimento como
estabilidade inflacionária em lugar de só esta última meta.
O
investimento em parceria público-privada seria realizado com prudência. Com o
tempo haveria exemplos públicos bem-sucedidos de projetos financiados fora da
Selic.
Sua
vantagem política seria o baixo custo imediato e o alto efeito cumulativo. O
efeito na posição brasileira na HRG seria desgastar lentamente a hegemonia
simbólica do rentismo.
O
insight central do apresentado é a transição factível não ocorrer por
“enfrentamento”, mas por deslocamento funcional. O sistema financeiro nacional
continua existindo, mas passa a cumprir menos eficientemente sua função
rentista e mais eficientemente funções produtivas.
No
modelo HRG, isso equivale a afrouxar o Nível III, sem ainda ascender plenamente
ao Nível II.
Dentro
das restrições políticas reais, o caminho brasileiro não é o da ruptura heroica
nem da adaptação passiva, mas o da engenharia institucional gradual, capaz de
reduzir a centralidade do juro, multiplicar circuitos financeiros alternativos
e criar condições políticas para transições futuras.
• O Fórum Econômico Mundial desorientado.
Por Sérgio Ferrari
A
partir de 19 de janeiro, e durante cinco dias, a cidade de Davos, nos Alpes
Suíços, recebe a 56a reunião anual do Fórum Econômico Mundial (WFE).
A elite
econômica e política global buscará, nesse lugar paradisíaco, uma forma de se
tranquilizar em meio a uma situação internacional complexa marcada por mudanças
de paradigma e liderança.
Adaptado
aos mais de 2000 participantes esperados – incluindo várias dezenas de chefes
de Estado e de governo --, Davos será novamente uma fortaleza murada. Para
protegê-la, cerca de cinco mil militares e outros corpos de segurança, a
instalação de um sofisticado aparato logístico e, além disso, quase 50
quilômetros de espaço aéreo semicerrado sob controle rigoroso durante toda a
semana do evento. Um ponto chave dessa implantação é a segurança de Donald
Trump, que, segundo várias fontes, participará novamente pessoalmente.
Segundo
o Financial Times, o presidente dos EUA teria pressionado os organizadores a
excluir temas considerados "woke" do evento de 2026. Segundo o
jornal, altos funcionários dos EUA pediram ao Fórum que evitasse ou limitasse
discussões relacionadas ao empoderamento das mulheres, diversidade, mudanças
climáticas e financiamento de ajuda ao desenvolvimento. Essas são algumas das
questões que Donald Trump critica regularmente, acusando instituições
internacionais de promover uma agenda progressista contrária aos interesses
estadunidenses.
Nesse
"momento crucial", segundo os organizadores, a nova reunião anual em
Davos se baseia na tradição do Fórum de reunir atores de diferentes geografias,
setores econômicos e gerações para fomentar um diálogo real, abordar desafios
compartilhados e destacar inovações que estão impulsionando o futuro.
Sob o
lema "Um espírito de diálogo", seus organizadores o estruturaram como
uma série de debates sobre cinco desafios globais: cooperação em um mundo em
disputa, abertura de novas fontes de crescimento, investimento em pessoas,
implantação responsável da inovação e construção de prosperidade dentro dos
limites planetários. "Em meio à crescente fragmentação", argumentam,
"a complexidade acelerada e as rápidas mudanças tecnológicas, a
necessidade de uma plataforma imparcial para o diálogo nunca foi tão urgente".
Ao mesmo tempo, seus organizadores reconhecem que mudanças nos mercados e a
incerteza geopolítica estão reescrevendo as regras do comércio global."
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Fórum enfraquecido em um contexto complexo
A
reunião que começa em 19 de janeiro constitui um grande desafio para o próprio
Fórum, após cinquenta e cinco anos de existência e após uma crise interna tão
recente quanto profunda. O futuro do Fórum dependerá, no médio prazo, dos
resultados dessa edição. Especificamente, sua capacidade de atrair novamente
personalidades representativas do grande setor empresarial e das elites
políticas mundiais e, além disso, de recuperar uma confiança parcialmente
perdida devido a essa crise.Em outubro de 2025, a plataforma suíça swissinfo
publicou um artigo intitulado "O declínio de Davos: o Fórum Econômico
Mundial vai sobreviver?". Retomando uma análise do Financial Times, o
artigo menciona um relatório investigativo sobre graves alegações de desvio de
fundos e abuso de funcionários contra Klaus Schwab durante seu mandato como
diretor executivo do WEF.
Embora
os resultados formais da investigação tenham encoberto Schwab, fundador e
pioneiro histórico, "em vez de fechar um capítulo", o artigo afirma:
"o Relatório marcou o fim do lento e doloroso desmoronamento do legado de
Schwab e da própria instituição". Ironicamente, argumenta, "toda a
agitação dentro do Fórum Mundial também reflete o destino da ordem multilateral
que [Schwab] defendeu". Em outras palavras, "A crise do Fórum põe fim
a toda uma era: o período pós-Guerra Fria de integração global, otimismo de
mercado e institucionalismo liberal. Essa era deu vida a Davos, e por décadas
Davos a personificou".
"Com
crises internas e enfraquecimento externo", alerta o artigo, o Fórum
"está em uma fase de incerteza". Além disso, pode estar enfrentando o
principal desafio que enfrentou desde sua fundação, em 1971, devido a
"múltiplos obstáculos: o recuo da globalização, uma desconfiança
generalizada em relação às elites e a transição abrupta da liderança de Klaus
Schwab".
E
conclui que "o mundo é muito diferente em 2025. A economia global se
fragmentou, a política de mudanças climáticas influencia diretamente as agendas
nacionais, e novas tecnologias tornam a visão das sociedades sobre o futuro
mais rara... A premissa fundadora do Fundo Econômico Mundial de que o diálogo
entre elites é capaz de superar diferenças soa cada vez mais
ultrapassada".
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Protestos cidadãos
Embora
o mesmo movimento "altermundialista" nascido por volta de 2000 com o
Fórum Social Mundial de Porto Alegre também tenha perdido muita capacidade de
convocação, de qualquer forma as vozes contra Davos continuam válidas e em
formas, espaços e chamados muito variados, como, por exemplo, uma manifestação
de protesto em frente ao Centro de Convenções de Davos durante as sessões do
Fórum e a "Greve contra Davos", no fim de semana anterior à abertura
do WEF.
Apesar
das restrições impostas pelas autoridades locais para todos os tipos de
manifestações anti-Fórum, já é tradição que grupos altermundialistas cheguem ao
local do evento após percorrerem muitos quilômetros por estradas secundárias
totalmente nevadas e difíceis de circular.
"Nossa
marcha", dizem os organizadores da La Huelga (Greve), uma iniciativa que
reúne organizações de vários países europeus, "é um chamado por justiça
global". E eles afirmam: "Estamos comprometidos com a justiça social,
lutamos por um mundo onde todos tenham o suficiente para viver e somos a favor
de uma economia que coloque as necessidades das pessoas no centro de suas
preocupações".
Nos
mesmos dias, "O Outro Davos" se reunirá na cidade de Zurique. Este
ano, com foco em "respostas antimilitaristas à escalada das tensões e
guerras imperialistas, bem como solidariedade internacionalista com a
Palestina". Depois de todos esses anos de doutrina econômica neoliberal,
argumentam os organizadores da reunião em Zurique, estamos testemunhando
"um aumento das injustiças sociais, o empobrecimento de uma parte
crescente da população e uma crise da democracia liberal burguesa, que está
sendo explorada pela extrema-direita conservadora e reacionária. As conquistas
dos movimentos feministas estão sendo questionadas, e a incitação ao ódio
racial e à militarização são a nova norma da política (inter)nacional".
Por sua
vez, vários grupos juvenis e anticapitalistas convocaram uma manifestação nas
ruas de Berna em 17 de janeiro. E entre os dias 23 e 30, também em Berna,
acontecerá o habitual "Tour de Lorena" (Tour da Lorena), uma
mobilização com atividades políticas, sociais e culturais nesse bairro
alternativo da capital suíça. O cartaz diz: "Formem gangues coloridas!
Fortaleçam a resistência em solidariedade! Cansado do ambiente de crise? Você
ainda tem esperança ou já desistiu? De qualquer forma, é hora de unir forças!".
Os organizadores respondem: "Estamos convencidos de que juntos somos
fortes! Para alcançar isso, precisamos explorar pontos em comum e forjar
alianças. Vários princípios compartilhados servem de base, conforme indicado
pelo programa Tour de Lorena: solidariedade diária, sustentabilidade e justiça
global".
O
planeta se depara com um novo paradigma que busca controlar o modelo
multilateral atual, suas regras e instituições. Ao mesmo tempo, há uma crise de
iniciativas que, assim como o Fórum de Davos, durante o último meio século
forneceram bases ideológicas ao sistema que hoje sofre dessa crise de direção.
Essas também são questões e desafios válidos para o movimento altermundialista,
que, no entanto, continua a considerar Davos como um emblema simbólico a ser
denunciado. Convencido de que somente uma mobilização cidadã multiplicada pode
garantir a correção de uma tendência global perigosa e autodestrutiva e, assim,
contribuir para um planeta mais justo, sustentável e pacífico.
Fonte:
Brasil 247

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