De
Monroe a Trump: a lógica do domínio estadunidense
Desde a
ascensão de Hugo Chávez e, posteriormente, de Nicolás Maduro, a Venezuela tem
sido alvo constante das pressões do imperialismo ocidental, especialmente dos
Estados Unidos. A narrativa construída sobre o país, apresentada como uma
“ditadura”, tem servido para justificar as sanções, o cerco econômico e, agora,
a intervenção militar. No entanto, o que está em jogo está longe de ser a tão
idolatrada democracia burguesa, mas o fato de que aquele país latino-americano,
assim como outros da região, tem se esforçado para trilhar um caminho de
independência econômica, política e social, algo que é profundamente ameaçador
para a ordem mundial estabelecida pelas potências ocidentais.
No
último dia 3 de janeiro de 2026, o mundo assistiu a mais uma tragédia provocada
pela irracionalidade, desta vez com os Estados Unidos invadindo a Venezuela e
sequestrando seu Presidente eleito, Nicolás Maduro. Este evento — que pode
parecer isolado em sua natureza geopolítica imediata — é, em si, a mais recente
manifestação de uma longa história de dominação e de exploração que remonta às
políticas coloniais de potências hegemônicas e que ecoa, com assustadora
clareza, os princípios da Doutrina Monroe. Para além dos fatos, o que precisa
ser analisado são as estruturas que sustentam essas ações e a perpetuação de um
ciclo de violência que, em sua essência, é alimentado pela ideia de que os
Estados Unidos têm direito — seja por força militar ou pela manipulação de
aliados internacionais — de dominar e controlar o que consideram ser sua “área
de influência”.
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Expropriação das riquezas e da autonomia política
O
imperialismo moderno — que se disfarça de liberalismo e de democracia — não
difere em nada das práticas coloniais do passado. A diferença está apenas na
sofisticação das ferramentas de opressão e de controle. Ao invadir a Venezuela,
os Estados Unidos desafiaram a soberania de um país latino-americano e, mais
uma vez, expuseram a continuidade de uma lógica imperialista que atravessa
séculos de história. O processo colonial não é algo que possa ser
desconsiderado como um evento pertencente ao passado. Ele nunca foi
verdadeiramente interrompido. O que a história revela, repetidamente, é a
adaptação e a reconfiguração das velhas práticas coloniais sob novas formas de
poder.
A
Doutrina Monroe — proclamada em 1823 — sempre foi uma justificativa velada para
a intervenção dos Estados Unidos no continente americano. Ao afirmar que “a
América para os americanos”, aquela potência do Norte estabeleceu um conceito
de “poderes exclusivos” sobre as terras da América Latina. O que na época foi
justificado como uma simples defesa contra a intervenção das potências
europeias, ao longo dos anos se transformou na principal justificativa para as
ações militares, políticas e econômicas de dominação. Embora a doutrina tenha
sido, em certo ponto, reinterpretada ao longo do tempo, o seu cerne permanece
inalterado, qual seja, a ideia de que os países latino-americanos são, de
alguma forma, subalternos aos interesses dos Estados Unidos.
Ao
invadir a Venezuela, o governo liderado por Donald Trump utilizou como
pretexto uma acusação de que o Presidente Nicolás Maduro é um
narcoterrorista, sem apresentar nenhuma comprovação. Não é difícil perceber
que, por trás desses discursos vazios, esconde-se uma luta por recursos, pela
manutenção da hegemonia econômica e pela preservação de um sistema
internacional desigual, no qual as potências ocidentais, particularmente os
EUA, detêm os meios para impor sua vontade aos demais países.
Mas se
olharmos para o processo de colonialismo que a Doutrina Monroe sustentou, não
podemos ignorar as dinâmicas complexas que estão em jogo. O imperialismo, além
de encarnar em si a necessidade de conquista territorial, também está revestido
da lógica de controle ideológico e econômico. As potências coloniais,
historicamente, impuseram suas estruturas de poder sobre povos e nações
inteiras, destituindo-os de sua autonomia e forçando-os a integrar um sistema
global desigual, cujos benefícios estavam concentrados nas mãos dos
colonizadores.
A
invasão à Venezuela ultrapassa um ataque militar, pois se trata da continuação
de uma longa tradição de expropriação e de desestabilização de países que não
se alinham aos interesses dos impérios dominantes. A expropriação, nesse
contexto, não se limitará à retirada material de riquezas naturais — o país é o
maior detentor de reservas de petróleo do Planeta, assim como detém 65% das
reservas mundiais de lítio, 38% de cobre, 42% de prata, 21% de ferro, 33% de
estanho, 18% de bauxita e 14% de níquel, além de ser muito rica em alumínio,
cobre, ferro, gás natural, entre outras — embora esta seja um de seus eixos
centrais. Ela envolve também a expropriação da autonomia política, da
capacidade de decisão soberana e do direito de um povo definir seus próprios caminhos
históricos.
A
desestabilização, por sua vez, opera como técnica refinada de dominação. Ela se
manifesta na corrosão deliberada das instituições, na manipulação das tensões
sociais existentes e na indução de crises permanentes que impedem qualquer
projeto de desenvolvimento autônomo. O objetivo não é tão somente derrubar
governos específicos, mas tornar inviável a própria ideia de soberania fora dos
parâmetros impostos pelo centro hegemônico. Um país instável, permanentemente
em crise, torna-se mais facilmente governável a partir de fora.
Essa
tradição de desestabilização não nasce no século 21, nem é exclusiva de um
único território. Ela acompanha a expansão do capitalismo global desde sua fase
colonial, quando impérios europeus destruíam economias locais para integrar
territórios à lógica de extração e de dependência. O que tem sido mudado, ao
longo do tempo, são as narrativas justificadoras. Antes falava-se em missão
civilizatória; hoje, fala-se em defesa da democracia, da liberdade ou da ordem
internacional. A substância, contudo, permanece a mesma: a negação do direito à
autodeterminação.
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Nova face do colonialismo
A
Venezuela é vista como uma “pedra no sapato” do imperialismo, não por ser uma
ameaça militar direta, mas porque desafia a ideia de que os países do Sul
Global devem se submeter aos ditames dos países do Norte Global. Esse desafio à
ordem imperialista se reflete nas políticas de nacionalização de recursos, no
fortalecimento de alianças com países fora da esfera de influência dos EUA, e
na construção de uma alternativa política que é profundamente crítica do
sistema capitalista global — ainda que possamos ter muitas críticas a ela.
Por
trás das palavras “democracia” e “direitos humanos” — que desta vez nem foram
mencionadas por Donald Trump e seus comparsas —, escondem-se as reais intenções
da invasão. A manipulação da opinião pública global é uma das principais armas
utilizadas pelas potências hegemônicas para justificar suas ações. Ao rotular
os governos que não se alinham com seus interesses como “ditatoriais”,
“totalitários” ou “autoritários”— ou narcoterroristas, como foi agora o caso —
os EUA e seus aliados se eximem de qualquer responsabilidade por seus próprios
atos de agressão. A “intervenção” torna-se, assim, uma farsa, um disfarce para
a continuação de práticas imperialistas, que na verdade visam garantir o
controle de recursos naturais, rotas comerciais e, fundamentalmente, a
perpetuação do poder global de um único bloco.
A
invasão dos Estados Unidos à Venezuela é um reflexo dessa nova face do
colonialismo, que opera não mais pela simples ocupação territorial, mas pela
imposição de um modelo econômico e político que subordina os países a um
império global. A interdependência econômica que os EUA tentam impor aos países
latino-americanos serve para enfraquecer qualquer tentativa de autonomia. O
controle sobre as finanças, sobre o comércio e, principalmente, sobre os
recursos naturais, torna-se uma forma indireta de colonização, que busca
garantir que os países do Sul Global permaneçam dentro de um sistema que
beneficia apenas as potências hegemônicas.
A
reação mundial a este evento deve ser uma reflexão profunda sobre o papel do
imperialismo na atualidade e sobre como as nações do Sul Global podem se
organizar para resistir a esse processo de dominação. É imperativo questionar a
lógica da Doutrina Monroe, que, embora tenha sido proclamada no século 19,
continua sendo utilizada como justificativa para intervenções militares e
políticas nos países da América Latina. Mais do que isso, é necessário
construir alternativas ao sistema de poder global que perpetua a desigualdade,
a exploração e a dominação.
A
invasão dos EUA à Venezuela, portanto, não deve ser vista exclusivamente como
um episódio isolado, mas precisa ser analisada como um sintoma de um problema
maior, isto é, a manutenção de um sistema global de colonialismo. O que está em
jogo não é apenas a Venezuela e seu povo, mas a autonomia e a soberania de
todos os países que, ao longo da história, foram submetidos às garras do
imperialismo. E, mais importante ainda, é o momento de refletir sobre o papel
de todos nós na resistência a esse sistema, pois, em última instância, a luta
pela liberdade e pela justiça é a luta contra qualquer forma de dominação, seja
ela explícita ou velada.
Neste
contexto, as ações militares, os discursos de poder e as justificativas
políticas não podem ser encarados apenas como acontecimentos históricos, mas
como alertas de um sistema que, embora aparentemente transformado, continua
agindo de maneira a subordinar e colonizar, como sempre fez. Ao recorrer à
força militar na Venezuela, os EUA estão reafirmando um princípio organizador
do mundo, qual seja, o de que o poder, em última instância, ainda se sustenta
na capacidade de coerção. Essa dinâmica revela um sistema que não tolera
desvios estruturais.
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O custo da permissividade
Países
que tentam reorganizar suas economias, controlar recursos estratégicos ou
adotar políticas externas menos alinhadas aos centros hegemônicos são
rapidamente enquadrados como riscos à ordem. A punição não é imediata nem
necessariamente militar, mas começa com pressões diplomáticas, com sanções, com
isolamento financeiro e com campanhas de deslegitimação. É nesse cenário que se
torna necessário refletir, com seriedade, sobre a recorrente retórica
beligerante de lideranças políticas associadas ao nacionalismo imperial, como
Donald Trump. Ainda que não se trate de afirmar planos concretos ou
inevitáveis, o histórico de declarações, de ameaças simbólicas e de desprezo
por mecanismos multilaterais indica uma visão de mundo na qual a força é
instrumento legítimo de política externa.
A
América Latina, historicamente tratada como zona de influência e experimentação
do poder estadunidense, não está fora desse horizonte. Recentemente, em uma de
minhas aulas, afirmei que a permissividade com relação às atrocidades cometidas
pelo Estado de Israel ao povo palestino poderia custar muito caro ao mundo,
inclusive ao Brasil, porque aquilo abriria portas para outras ações igualmente
atrozes — e inclusive citei que poderia haver uma invasão da Venezuela pelos
EUA, e, posteriormente, a qualquer outra nação latino-americana que ousasse se
impor diante das exigências estadunidenses, entre elas o Brasil.
No que
se refere a países como o Brasil, cuja dimensão territorial, peso econômico e
protagonismo regional tornam a possibilidade de uma ocupação direta mais
distante, porém não impossível. Nesse caso, a lógica colonial tende a se
manifestar de outras formas: pressão sobre políticas ambientais; interferência
em decisões econômicas estratégicas; apoio indireto a instabilidades políticas
internas (o bolsonarismo está ansiando por isso); e condicionamento de acordos
comerciais à submissão geopolítica. Trata-se de uma colonização funcional, que
não precisa de tanques para operar, mas que produz efeitos igualmente profundos
sobre a soberania nacional.
Ainda
assim, a simples ideia de que um país latino-americano possa ser publicamente
ameaçado ou tratado como espaço disponível para intervenção já revela o quanto
a mentalidade imperial permanece viva. Ela se alimenta da assimetria de poder e
da crença de que certas nações não são plenamente donas de si. Quando discursos
políticos insinuam que a força pode ser usada para “corrigir” rumos internos de
outros países, o que se afirma é a negação do princípio básico da
autodeterminação.
Diante
disso, o verdadeiro desafio não é apenas resistir a uma liderança específica ou
a um governo circunstancial — mas questionar o sistema que permite que tais
ameaças sejam concebidas como aceitáveis. Enquanto a ordem internacional
continuar baseada em hierarquias rígidas e na concentração de poder militar,
econômico e simbólico, a colonização seguirá operando, mesmo que sob nomes mais
palatáveis.
O
alerta, portanto, aponta para a urgência de repensar as bases do convívio
global e de fortalecer projetos de soberania que não dependam da autorização
dos impérios. Tudo isso sem soberbas, sem vaidades, sem individualismos, sem a
ideia tola de querer ser o protagonista isolado, com discursos dissociados das
práticas, como muitas vezes faz o governo brasileiro, que inclusive nem sequer
citou o nome de Trump em seu comunicado sobre a invasão da Venezuela.
¨
Trump tem uma ‘política própria’ e considera apenas
interesses dos EUA, segundo analista internacional
O
sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, realizado pelos Estados
Unidos no último dia 3 de janeiro, deixou ouriçados líderes de direita e
extrema direita em todo o mundo. Empolgados com a nova empreitada de Donald
Trump, porém, eles parecem esquecer que o presidente dos Estados Unidos não é
plenamente fiel a seus parceiros ideológicos.
Em
entrevista nesta terça-feira (6) à primeira edição do jornal Conexão BdF, da
Rádio Brasil de Fato, a analista internacional Amanda Harumy, doutora pelo
Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina da Universidade de
São Paulo (Prolam/USP), citou mudanças recentes na postura do presidente Donald
Trump.
Para
Harumy, Trump percebeu que o bolsonarismo não tem tanta força e capilaridade no
Brasil quanto seus líderes propagavam e, por isso, deixou de lado o antes
aliado Jair Bolsonaro (PL). Na Venezuela, a situação se repete.
“Da
mesma forma que ele já descartou a María Corina na Venezuela, ele não é fiel a
seu campo de direita. Ele tem uma agenda própria, uma política própria, cujos
interesses são os dos Estados Unidos”, afirmou a especialista.
Harumy
afirmou, ainda, que o trumpismo faz interpretações particulares das normas do
direito internacional para justificar ações como a intervenção na Venezuela. Ao
acusar o presidente venezuelano de envolvimento com o narcotráfico, mesmo sem
provas, ele afirma ter respaldo para agir.
“Os
Estados Unidos utilizam uma perspectiva que é: ‘O Maduro não é reconhecido por
mais de 50 países como presidente’. Segundo a interpretação dos Estados Unidos,
o Maduro não é presidente, é um criminoso, um traficante, então eles podem usar
do direito internacional, a partir da extraterritorialidade para fazer uma
operação que eles dizem ter caráter e interesse doméstico aos EUA por conta das
questões sobre as drogas”, explicou.
Fonte:
Diálogos do Sul Global/Brasil de Fato

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