Emiliano
José: O escândalo dos 61 bilhões
A
disputa entre o investimento público estruturante e a orgia das emendas
evidencia uma crise de prioridades, na qual o corte de direitos sociais
financia uma engrenagem política distante das reais necessidades da
população...
Caetano
sem lenço e sem documento. “O sol nas bancas de revista me enche de alegria e
preguiça”, ainda mais nesse início de ano novo. “Quem lê tanta notícia?” Quem?
Mundo desencontrado, este. Tanta, tanta notícia, ou que se chamou um dia
notícia, mercadoria vendida hoje sem muito critério.
Alegria,
alegria é um hino para ser cantado “no sol de quase dezembro”, com este “sol a
se repartir em crimes em cardinales bonitas e Brigite Bardot”, de partida tão
recente. “Sem livros e sem fuzil no coração do Brasil”, porque a Bahia é o
coração do Brasil, com licença de outros corações.
Quem lê
tanta notícia?
Amanheci
com essa pergunta, a me inquietar. Necessário recortar as notícias,
esquadrinhá-las, as coisas estão no mundo só que eu preciso aprender, outro
poeta, Paulinho da Viola, poeta e filósofo, como o menestrel de Santo Amaro da
Purificação.
Tanta
poesia, filosofia, “mora na filosofia, para que rimar amor e dor”, e eu volto a
Caetano, tanta beleza, e eu a pensar em emendas, é, botei na balança e as
emendas pesaram muito no meu pensamento.
Os
parlamentares brasileiros, homens e mulheres, resolveram pesar a mão,
novamente, outra vez, a pensar apenas nos interesses de cada um, nenhuma
consideração com o destino da nação.
Leio
com estupefação. Dinheiro a rodo. Voltado apenas à reprodução de mandatos,
afora aqueles acostumados a separar um tanto, e nunca um tanto pequeno, para os
próprios bolsos. Sei da existência, no parlamento, de parlamentares sérios,
preocupados com o país, mas nem estes ficaram fora da orgia das emendas, não
obstante possam dar destino saudável ao dinheiro.
Tais
emendas fazem parte da construção de um parlamentarismo canhestro, obsceno,
voltado apenas a colocar a burra à disposição de interesses privados, no caso,
das centenas de parlamentares, como se tivessem direito a meter a mão no
dinheiro público, subverter a execução do orçamento.
Saudar
a iniciativa do Supremo Tribunal Federal, empenhado nesse momento, pelas mãos
do ministro Flávio Dino, a abrir a Caixa de Pandora dessas emendas, um dos
maiores, senão o maior escândalo da República. Pelo significado em si mesmo,
subversão da utilização do dinheiro público, e pelo sofrimento causado ao povo
brasileiro porque, com a fortuna de tais emendas, políticas públicas poderiam
ter alcance muito maior, em todas as áreas.
Para
chegar ao monumental valor das emendas, como se sabe, necessário cortar,
sangrar na carne da nossa gente, e isso não é apenas uma metáfora. Atinge
principalmente a população mais pobre. A mim, confesso, impressiona o silêncio
de tanta gente boa diante desse escândalo, de tanto parlamentar combativo.
Talvez melhor recorrer a Públio Terêncio, a me acalmar: “nada do que é humano
me é estranho”.
Guardo
a esperança de assistir à revelação de toda a maracutaia das emendas, ao menos
isso. Que os segredos sejam devidamente revelados, como pretende o ministro
Flávio Dino, uma das melhores figuras da República atualmente. Movimentos
contrários, sem dúvida há. Destinados a empurrar tudo para debaixo do tapete.
Sobretudo porque, nos últimos meses, o governo tem procurado chegar ao âmago do
crime organizado, localizado não nos morros e periferias, mas nas Faria Lima,
nos gabinetes acarpetados dos ultrabilionários.
Até o
Banco Central foi levado a dar um freio de arrumação no Banco Master, uma
movimentação de capital considerada atípica, para dizer de modo elegante. Uma
das maiores lições de algumas operações do governo federal foi esta: não é
preciso um banho de sangue, como aquele levado a cabo pelo governador Cláudio
Castro, para conter o crime organizado.
Não é
preciso dar um tiro. Usar a inteligência. Correr atrás do dinheiro, e ele não
está nas favelas: está nas instituições financeiras, de toda natureza. É o
capital, estúpido, para parafrasear James Carville, o assessor de Clinton. O
mundo financeiro não quer saber a origem da grana, que só sabe destruir coisas
belas, a acompanhar outra vez Caetano, e Marx, este porque disse que o dinheiro
destrói todos os deuses do homem.
Muito
dinheiro. As emendas parlamentares, para o ano de 2026, passaram da milionária
quantia de R$ 50 bilhões para outro astronômico número: R$ 61 bilhões.
Dizer
“um escândalo” é pouco. Valor superior a orçamento de ministérios inteiros. O
investimento do governo federal deve chegar a R$ 83 bilhões. Não é preciso ser
bom de conta para perceber a magnitude do valor das emendas, uma competição
absurda com a ação do executivo, sabendo-se de uma aplicação avessa ao
interesse público.
Tal
dinheiro é voltado à reprodução dos mandatos, quando não subsidiariamente como
instrumento de enriquecimento privado, e esse mecanismo está sendo apurado pelo
STF. A verdade: com tal valor, com essa montanha de dinheiro nas mãos de
parlamentares, rouba-se parte substancial da autonomia do Executivo na
aplicação do orçamento sem que tenha havido qualquer movimento destinado a
modificar o sistema de governo, a seguir presidencialista, mitigado por conta
dessa manobra parlamentar. O parlamentarismo, na nossa história, quando
tentado, foi derrotado. Como aceitar isso?
Para
garantir os R$ 61 bilhões, o Congresso Nacional realizou cortes de monta em
áreas sociais e despesas obrigatórias. Na Previdência Social, redução de R$ 6
bilhões na previsão de despesas – os pobres pagam a conta, e não há qualquer
preocupação dos parlamentares com isso.
Na
Saúde, reduzidos os recursos da Farmácia Popular, de onde tiraram R$ 1 bilhão –
pobres seguem pagando a conta. Também no Trabalho e na Assistência Social,
reduções nas dotações orçamentárias.
A
navalha visa sempre o pescoço da população de renda mais baixa,
inapelavelmente. Os cortes incidiram sobre despesas consideradas essenciais,
obrigatórias. O parlamento brasileiro segue a lógica do capital.
Talvez,
arrisco dizer, os parlamentares nem pensem nas consequências disso para o
ensino superior público, ao qual a navalha dos parlamentares não perdoou.
Talvez nem reflitam sobre a evolução, melhor dizer involução, da área:
atualmente, as matrículas, grosso modo, concentram-se principalmente no setor
privado, coisa de 80%.
As
instituições públicas de ensino superior alcançam apenas 20%. Lembro de nossas
lutas, ano de 1968, contra o Acordo MEC-USAID, a nos batermos contra a
privatização do ensino, afinal largamente vitorioso após a ditadura dobrar a
aposta, com o AI-5, de dezembro daquele ano.
Talvez
os parlamentares sequer pensem no significado da universidade pública para os
destinos da Nação, do quanto pesa tal instituição para o projeto de
desenvolvimento do Brasil. A área privada não está nem aí para o projeto
nacional, para o desenvolvimento do conhecimento em seu sentido mais profundo,
para conquistas tecnológicas e científicas, para projetos de extensão. Está
voltada para o lucro.
E menos
ainda para a inclusão dos mais pobres e das negras e negros, política
desenvolvida com rigor pelos governos de Lula e de Dilma Rousseff, seguida
agora, com dificuldades, nesse terceiro mandato do presidente Lula, e digo com
dificuldades por conta exatamente das restrições orçamentárias, e o valor
milionário das emendas contribui decisivamente para tais restrições.
Não
será aqui, mas registro: é essencial colocar à mesa a discussão sobre o papel
da universidade pública em relação ao projeto nacional. Não há desenvolvimento
de nenhum país sem a existência de universidades dotadas de forte
financiamento, capazes de com ele contribuir de modo decisivo para os avanços
econômicos e científicos, além do político e cultural.
Não
creio corretas as tentativas de opor a educação básica e a educação superior,
como se a primeira fosse essencial, a segunda, secundária. O País não pode
prescindir de nenhuma delas, e um projeto de Brasil não caminha se as duas não
andarem juntas, devidamente articuladas, com financiamento adequado.
Os
parlamentares, ao aprovar os R$ 61 bilhões de emendas, meteram a mão nos
recursos do Programa Pé-de-Meia, voltado à concessão de bolsas para estudantes
de ensino médio, tirando dali um total de R$ 540 milhões, a dificultar o acesso
deles à universidade porque criando obstáculos à permanência na escola. Uma
coisa não está separada da outra, como se vê.
Ex-reitor
da Universidade de São Carlos, Newton Lima, ex-deputado, com quem tive o prazer
de conviver na Câmara Federal, manifestou a indignação dele com os cortes de R$
488 milhões, subtraídos das universidades federais e R$ 186 milhões dos
institutos federais, além de cortes nas áreas de ciência de tecnologia.
Gustavo
Balduíno, secretário-executivo da Associação Nacional dos Dirigentes das
Instituições de Ensino Superior (Andifes), acentua o fato de que nos últimos
cinco anos os orçamentos das universidades federais vêm sofrendo cortes
sucessivos pelo Congresso Nacional – é um alvo dos parlamentares,
lamentavelmente. Nesse ano, chamou a atenção de todos a dimensão do corte e a
destinação explícita dos recursos para as milionárias emendas parlamentares.
Tais
cortes, na avaliação dele, a me parecer correta, indica, primeiro, uma atuação
deliberada de setores conservadores voltada ao desinvestimento das instituições
públicas de ensino superior, estendendo os cortes à ciência e à tecnologia.
Constata,
também, outra vez acertadamente, a ausência de articulação do campo
progressista em defesa das universidades federais, demonstrada pela
inexistência de uma Frente Parlamentar estruturada e mobilizada pela Andifes.
Aqui, acrescento, não se julga a atitude isolada de um outro parlamentar, mas a
movimentação coletiva.
Essa
situação de insuficiência de recursos, óbvia e crescente, nas universidades e
instituições de nível superior, cria a necessidade de suplementação permanente
e os reitores “são empurrados para uma política de balcão, que corrói a
autonomia das IFES e fragiliza a unidade da Andifes”.
Diante
dessas restrições orçamentárias e da ausência de uma solução coletiva ou
governamental, “as universidades passaram a mitigar perdas por meio de
iniciativas individuais de captação de emendas parlamentares”, o que é,
obviamente, muito grave.
Pode,
nessa esteira, na tentativa de defender esse obsceno valor das emendas
parlamentares, desenvolver-se o argumento dessa ou daquele parlamentar, de que
as emendas podem servir às necessidades da universidade pública. Podem,
eventualmente podem. Nunca como tapa-buraco, como uma espécie de mecenato
parlamentar, como vem ocorrendo ultimamente, como modo de obscurecer a carência
de recursos, a ausência de uma adequada política de financiamento das
instituições de nível superior de todo o País.
Na
visão de Gustavo Balduíno, impõe-se uma lei de financiamento das universidades
federais. Só assim, acrescento, seria possível garantir a efetiva autonomia do
ensino público superior, não mais sujeito aos sucessivos pedidos de
suplementação ou às muletas das emendas parlamentares. Até agora, no entanto,
não houve qualquer iniciativa no sentido de levar adiante a ideia, de
apresentar um projeto de lei daquela natureza. Continua, assim, a política de
balcão, lamentavelmente.
Volto
ao meu argumento: essencial a discussão sobre a universidade pública, sobre o
ensino superior público brasileiro. Avaliar a importância da instituição, o
papel dela para o projeto de nação, para o desenvolvimento do País, para a
formação de nossa juventude, capaz de orientá-la a projetos coletivos, voltados
ao bem comum, não a uma visão individualista e consumista.
Ajudar
os jovens na permanente busca de afirmação da cidadania, e isso significa uma
universidade sólida, adequadamente financiada, capaz de assegurar a permanência
dos estudantes pobres e negros, crescendo, dispostos a contribuir não apenas
com a família deles, mas com o país, tão necessitado de cérebros, de
conhecimento, só possíveis com uma universidade autônoma, inclusiva, com
recursos suficientes. Livre da política de balcão.
Fonte:
A Terra é Redonda

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