'EUA
têm longa história de distorcer lei internacional em nome de seus interesses',
diz especialista britânico
A operação militar do governo de Donald
Trump para
deter o presidente da Venezuela Nicolás Maduro e sua esposa,
Cilia Flores, terá uma posição de destaque dentro de um "longo histórico
do país de distorcer regras do direito internacional" para promover
interesses próprios, avalia Marko Milanovic, professor de Direito Internacional
Público da Universidade de Reading, na Inglaterra.
"[Esta
operação] marca uma mudança, mas também faz parte de um contexto mais
amplo", disse o especialista em entrevista à BBC News Brasil.
"Como
o Estado mais poderoso do mundo, os EUA têm uma longa história de esticar no
limite as regras do direito internacional que regem o uso da força para
promover seus interesses. Mas este é um exemplo que vai muito além de esticar
esses limites. Trata-se de uma violação descarada da lei."
O
governo americano nega qualquer irregularidade na ação.
Após a
operação, Trump afirmou que os Estados Unidos
"governariam" a Venezuela e que as empresas petrolíferas
americanas "começariam a gerar lucro para o país".
O líder
americano e integrantes do seu governo também fizeram ameaças a Colômbia, Cuba
e México.
A bordo
do Air Force One, avião presidencial americano, Trump foi questionado por
jornalistas se os Estados Unidos realizariam uma operação militar contra a
Colômbia. O republicano então respondeu: "Para mim, parece uma boa
ideia."
Ele
ainda voltou a propor a anexação da
Groenlândia pelos Estados Unidos.
"Os
Estados Unidos também têm uma longa história de intervenção imperialista na
América Latina, mas, desde o fim da Guerra Fria, esse tipo de
exercício descarado do poder tem sido substancialmente limitado", afirma
Milanovic.
"O
que temos aqui é simplesmente o poder fazendo valer a razão, de certa forma nos
levando de volta ao século 19."
Informações
divulgadas por autoridades americanas e reportagens publicadas nos últimos
dias mostram que o governo Trump vinha monitorando cada movimento de Maduro,
com fontes que incluíam até um integrante do governo venezuelano.
O plano
foi resultado de meses de planejamento e envolveu até mesmo ensaios em uma
réplica exata do esconderijo de Maduro em Caracas.
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'Posição do EUA ficará muito prejudicada'
Assim
como outros especialistas têm alertado, Milanovic argumenta
que os Estados Unidos violaram "inúmeras" regras do direito
internacional com a operação.
"Usaram
a força ilegalmente, violando a Carta das Nações Unidas
[ONU];
intervieram nos assuntos internos da Venezuela; violaram a sua soberania;
exerceram ilegalmente jurisdição extraterritorial no estrangeiro; raptaram duas
pessoas e mataram muitas outras, violando os seus
direitos humanos no processo."
A Carta
de Princípios da ONU, da qual os Estados Unidos são signatários, proíbe países
de ameaçarem ou usarem a força contra a integridade territorial ou a
independência política de qualquer Estado, salvo nas circunstâncias
estritamente previstas nela.
O
professor entende que mesmo assim "os Estados Unidos, devido ao seu poder,
possam escapar impunes".
"Isso
não é nada incomum. Na maioria dos sistemas jurídicos nacionais, e também no
direito internacional, os poderosos podem se safar de coisas que os fracos não
conseguem", afirma.
Milanovic
avalia, no entanto, que a posição do país ficará bastante prejudicada,
"especialmente na América Latina".
"Em
muitos aspectos, isso é pior do que a invasão do Iraque em 2003, quando os
Estados Unidos pelo menos tentaram justificar o uso da força dentro do quadro
do direito internacional", afirma.
Outro
episódio citado por ele foi a invasão americana do Panamá, em 1989.
"Ambas
constituíram usos ilegais da força nos termos da Carta [da ONU]. Mas há algumas
diferenças. No caso do Panamá, os Estados Unidos basearam-se em um convite para
intervir feito pelo suposto governo legítimo do Panamá. Aqui não houve nada
disso."
Ele
compara a operação de Trump em Caracas à guerra entre Rússia e Ucrânia.
"Não
se tratou de um uso da força para fins de aplicação da lei. Da mesma forma que
Putin declarar Zelensky um líder ilegítimo e prendê-lo sob acusações de um
promotor em Moscou não seria aplicação da lei", diz Milanovic.
"Os
Estados Unidos não podem, segundo o direito internacional, prender pessoas no
território de outros Estados sem o consentimento desses Estados, mesmo que elas
tenham, sem dúvida, cometido os crimes de que são acusadas."
Os
Estados Unidos há muito tempo acusam Nicolás Maduro de liderar uma organização
internacional de tráfico de drogas, algo que o venezuelano nega.
Milanovic
lembra também das ameaças de Trump contra os governos do Panamá e da Colômbia e
de seu desejo expresso de anexar a Groenlândia.
"É
bem possível que o governo Trump embarque em mais aventuras militares desse
tipo. Mas não há nada disso em relação à aplicação da lei."
Para o
especialista, há pouca chance de que haja uma reação no campo legal contra o
governo Trump pela ação militar americana na Venezuela.
"Os
tribunais dos Estados Unidos têm historicamente evitado lidar com a legalidade
do uso da força, seja sob a Constituição americana ou sob o direito
internacional, declarando que se trata de questões políticas não
judicializáveis", diz o professor.
"É
teoricamente possível que um tribunal internacional se pronuncie sobre algumas
delas — por exemplo, a Corte Internacional de Justiça poderia receber um pedido
da Assembleia Geral da ONU para emitir um parecer consultivo a esse respeito.
Mas isso é apenas especulação neste momento."
Ele
avalia que o Congresso americano também não deve reagir.
"O
Congresso tem muitos mecanismos, incluindo o poder do orçamento. O problema é
que a grande maioria dos congressistas e senadores republicanos nada mais são
do que servos obedientes de Trump."
Nas
redes sociais, a procuradora-geral dos Estados Unidos, Pam Bondi, afirmou que
Washington "buscou todas as opções legais para resolver este assunto de
forma pacífica", mas que essas alternativas "foram reiteradamente
rejeitadas".
Segundo
ela, "a responsabilidade por este desfecho recai exclusivamente sobre
aqueles que optaram por continuar com atividades criminosas".
Na
mesma linha, o secretário de Estado Marco Rubio disse que a operação não
configurou uma invasão nem exigia autorização do Congresso.
"Isso
não foi uma invasão. Nós não ocupamos um país. Foi uma operação de prisão. Foi
uma operação de aplicação da lei", afirmou em entrevista à ABC News.
Rubio
sustentou que Maduro foi preso por agentes do FBI em solo venezuelano, teve
seus direitos lidos e foi retirado do país.
Ele
também justificou o envolvimento militar alegando riscos à segurança dos
agentes. "Evidentemente, não se tratava de um território amistoso e, para
prendê-lo, tivemos de solicitar o envolvimento do Departamento de Guerra",
disse.
Segundo
o secretário, a ação foi "limitada e direcionada", baseada em
condições específicas como localização e clima, e não poderia ter sido
previamente comunicada ao Congresso por razões de segurança operacional.
"A principal razão é que haveria vazamento. Isso teria colocado as pessoas
em risco", afirmou.
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Argumentos de Maduro são 'válidos'
Durante
a primeira audiência no tribunal federal de Nova York, nos Estados Unidos, na
segunda-feira (5/1), Maduro se declarou inocente das acusações
do governo Trump para justificar sua prisão, disse ter sido sequestrado e
afirmou que continua sendo o presidente da Venezuela.
Maduro
foi indiciado pela Procuradoria-geral americana por conspiração
narcoterrorista, conspiração para importação de cocaína, posse de metralhadoras
e dispositivos destrutivos e conspiração para possuir metralhadoras e
dispositivos destrutivos e outros crimes.
Para
Milanovic, ainda que possa haver, do ponto de vista do direito internacional,
argumentos válidos em favor de Maduro, caberá aos tribunais se pronunciar — mas
ele afirma que o histórico neste campo não é favorável ao líder venezuelano.
"Tenho
certeza de que os advogados de Maduro apresentarão todos os tipos de argumentos
perante os tribunais americanos sobre sua imunidade como chefe de Estado e a
ilegalidade de sua abdução. Do ponto de vista do direito internacional, esses
argumentos são manifestamente válidos", diz Milanovic.
"No
entanto, caberá aos tribunais se pronunciarem sobre essas questões, e, mais uma
vez, eles têm um histórico de evitar muitas delas. Isso inclui casos em que
agentes dos Estados Unidos sequestraram ou extraditaram pessoas do
exterior."
O
professor também é crítico em relação à fala do presidente americano sobre "governar" a
Venezuela "até uma transição segura".
"Ainda
não sabemos como isso funcionaria na prática. Qualquer envio de tropas
americanas ao país poderia constituir uma ocupação, na ausência do
consentimento do governo venezuelano", afirma Milanovic.
"É
evidente que a intervenção dos Estados Unidos é motivada pelo desejo de controlar o petróleo
venezuelano,
apesar do fato de que a Venezuela, sem dúvida, goza de soberania sobre seus
recursos naturais."
¨
CIA conclui que pessoas leais ao regime de Maduro são
mais adequados para liderar a Venezuela, dizem fontes
Uma
avaliação sigilosa da CIA apresentada ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, concluiu que lideranças leais ao presidente
deposto da Venezuela, Nicolás Maduro, incluindo a agora presidente interina,
Delcy Rodríguez, estavam mais bem posicionadas para manter a estabilidade
se Maduro perdesse o poder, disseram duas fontes informadas sobre o assunto na
segunda-feira (5).
As
fontes, falando sob condição de anonimato, confirmaram uma reportagem exclusiva
do 'Wall Street Journal'.
Trump
foi informado sobre o relatório e ele foi compartilhado com um pequeno grupo de
sua equipe graduada de segurança nacional, disseram as fontes.
A
avaliação foi uma das razões pelas quais Trump decidiu apoiar Rodríguez em vez
da líder da oposição María Corina Machado, disseram as fontes.
A Casa
Branca se recusou a confirmar a reportagem.
"O
presidente Trump é rotineiramente informado sobre a dinâmica política interna
em todo o mundo. O presidente e sua equipe de segurança nacional estão tomando
decisões realistas para finalmente garantir que a Venezuela se alinhe aos
interesses dos Estados Unidos e se torne um país melhor para o povo
venezuelano", disse a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline
Leavitt, em resposta a uma consulta.
¨
Venezuela anuncia início de processo para retomar
relações diplomáticas com os EUA
O
governo da Venezuela anunciou nesta sexta-feira (09/01) ter iniciado um
“processo exploratório” com os Estados Unidos para a retomada de relações
diplomáticas em ambos os países. Em comunicado, Caracas informa a chegada de
uma delegação de diplomatas do Departamento de Estado norte-americano para
realizar “avaliações técnicas e logísticas relacionadas às funções
diplomáticas”. Ao mesmo tempo, uma delegação de diplomatas venezuelanos será
enviada aos Estados Unidos. As relações entre os países estão rompidas desde
2019.
O
texto, publicado após a assinatura de acordos petrolíferos e a libertação de
prisioneiros de Estado venezuelano, detalhou que o processo “busca abordar as
consequências da agressão e do sequestro do presidente da República e da
primeira-dama, bem como desenvolver uma agenda de trabalho de interesse mútuo”,
Em 3 de
janeiro, as forças armadas norte-americanas bombardearam diversas localidades
do país sul-americano, inclusive a capital Caracas, matando ao menos cem
pessoas, entre civis e militares. O episódio culminou no sequestro ilegal do
presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores. “Ato que constitui
grave violação da imunidade de jurisdição dos chefes de Estado e de princípios
fundamentais do direito internacional”, destacou o governo.
Na
nota, o governo reiterou sua condenação a nível internacional à “agressão
criminosa, ilegítima e ilegal” promovida por Washington contra o seu território
e seu povo naquela data. Nesse sentido, Caracas entendeu que para abordar a
situação dentro do quadro jurídico internacional, e em estrita adesão aos
princípios da soberania nacional, o governo venezuelano tomou tal decisão.
Por
fim, a carta afirma que “como reiterou o presidente em comando, Delcy
Rodríguez, a Venezuela enfrentará essa agressão por canais diplomáticos,
convencida de que a Diplomacia Bolivariana da Paz é o caminho legítimo para a
defesa da soberania, a restauração do direito internacional e a preservação da
paz”.
• Petro convoca mobilização nacional
contra ameaça de intervenção militar dos EUA
O
presidente colombiano, Gustavo Petro, anunciou a primeira mobilização de 2026,
convocando a população a sair às praças públicas do país nesta quarta-feira
(07/01).
O apelo
surge como resposta direta às declarações do ocupante da Casa Branca, Donald
Trump, que chamou o chefe de Estado colombiano de “doente” e o acusou de apoiar
a produção de drogas, deixando em aberto a possibilidade de uma intervenção
militar em território colombiano.
Petro,
por meio de duas mensagens publicadas em seu perfil nas redes sociais, afirmou
que a mobilização busca defender a soberania nacional contra o que ele
considera uma ameaça de invasão por parte de Washington.
O
presidente anunciou que liderará pessoalmente o protesto na Plaza Bolívar, em
Bogotá , de onde se dirigirá aos cidadãos em um discurso público de defesa
contra as acusações vindas do norte.
“Forças
sociais de toda a Colômbia se uniram à mobilização geral do povo colombiano. Na
quarta-feira, às quatro da tarde, em todas as praças públicas do país. Na Praça
Bolívar, falarei ao povo de Bogotá: Colômbia Livre!” , declarou Petro em sua
mensagem, posteriormente reforçada com um vídeo no qual explicou os motivos da
convocação.
O
presidente também convidou os colombianos a hastearem a bandeira tricolor em
suas casas como símbolo de apoio à autodeterminação nacional e de rejeição a
qualquer interferência estrangeira. O apelo de Petro é um alerta para a
Colômbia contra o colonialismo que busca se impor na região, citando os
atentados em Caracas como exemplo de violência que deixa a região completamente
vulnerável à interferência imperialista.
Fonte:
BBC News Brasil/Opera Mundi

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