Francisco
Dominguez: Chile - a falha em enterrar o neoliberalismo levou a um presidente
pinochetista
Surpreendente,
ainda que esperado, em 14 de dezembro a maioria dos chilenos (58% contra 41%)
elegeu o candidato do partido de extrema-direita Republicanos, José Antonio
Kast, como presidente para o mandato de 2026 a 2030, derrotando no segundo
turno a candidata comunista, Jeannette Jara.
Kast é
advogado e legislador, irmão de Miguel Kast – um ministro "Chicago
Boy" sob Pinochet – e filho de Michael Kast, um oficial do exército alemão
e membro do Partido Nazista que emigrou para o Chile após a Segunda Guerra
Mundial.
Durante
sua campanha, Kast "não descartou perdoar condenados por crimes da
ditadura militar, incluindo Miguel Krassnoff, que cumpre mais
de 1.000 anos de prisão por crimes
contra a humanidade.
"Desde
o fim da ditadura em outubro de 1989, a coalizão de centro-esquerda Concertação governou
o Chile quase ininterruptamente por 28 anos (até 2010, e novamente de 2014-2018
e 2022-2026).
Durante
esse período, o povo conquistou avanços significativos em liberdades políticas
e redução da pobreza (de 45% em 1987 para 6% em 2024).
No
entanto, a Concertação passou a maior parte desses anos
aperfeiçoando o modelo neoliberal de Pinochet, transformando o Chile em um
paradigma da privatização. Saúde, educação, serviços públicos, previdência,
rios, mar, recursos naturais e infraestrutura foram colocados em mãos privadas,
com consequências sociais adversas para a maioria dos chilenos.
Inevitavelmente,
a piora nas condições criada por uma pequena, imensamente rica e arrogante
oligarquia pinochetista, explodiu em uma rebelião social em outubro de
2019. Isso foi desencadeado pela tentativa do presidente de direita Sebastián
Piñera de impor um pacote de austeridade, que foi recebido com uma repressão brutal. Ao longo de 2019 e
2020, protestos massivos se desenrolaram ao ritmo de "El pueblo unido
jamás será vencido", carregando imagens de Allende e das vítimas
da ditadura.
O
diversificado movimento de massas obteve concessões substanciais, incluindo a
devolução das contribuições previdenciárias dos amplamente desprezados
administradores privados (AFP) – que constituem uma colossal fraude.
O mais
crucial é que conquistou o direito de eleger "uma convenção
constitucional encarregada
de redigir uma constituição antineoliberal para substituir" a
'constituição' de 1980 de Pinochet. A oportunidade histórica de enterrar o
Pinochetismo e seu legado neoliberal parecia ao alcance quando a Convenção
apresentou sua proposta radical para um
referendo em setembro de 2022.
Em maio
de 2021, os favoráveis à mudança obtiveram 118 cadeiras na Convenção contra 37
da direita (além de 17 reservadas para nações indígenas), e elegeram a líder mapuche Elisa
Loncón Antileo como
sua presidenta. Em novembro de 2021, o candidato da Concertação Gabriel
Boric, então com 35 anos, derrotou confortavelmente José Antonio Kast para se
tornar presidente. Aprovar a nova constituição parecia uma conclusão
inevitável.
No
entanto, em agosto de 2022, a Concertação conseguiu um acordo
para tornar o voto, antes voluntário, obrigatório. Isso incorporou ao processo
de 30 a 50% do eleitorado despolitizado – desencantado com a política e,
notavelmente, contendo o segmento mais pró-Pinochet do Chile entre os 20% mais
pobres.
Esse
bloco se tornou um alvo fácil para uma campanha corporativa e nas redes sociais
de desinformação tóxica, espalhando mentiras
de que a nova constituição confiscaria casas para dar aos sem-teto ou que
permitiria o aborto até o nono mês de gravidez.
A
liderança da Concertação, incluindo o presidente Boric – que havia
apoiado abertamente os objetivos da Convenção – não conseguiu preparar uma
contracampanha eficaz. Em vez disso, Boric dedicou tempo a criticar Cuba,
Venezuela e Nicarágua como ditaduras (aplaudido pela mídia de
extrema-direita),
(in)conscientemente legitimando a narrativa da direita e minando o apelo da
constituição. Ele também realizou uma reunião de alto perfil com
Volodymyr Zelensky para
apoiar a Ucrânia.
Com
pouca defesa contra a campanha de desinformação, a constituição foi rejeitada
por 62% contra 38%. Boric e a Concertação haviam arrancado a
derrota das garras da vitória.
A
partir daí, a posição de centro-esquerda se deteriorou. O neoliberalismo havia
enraizado altos níveis de
informalidade (28%),
emprego precário (jornadas mais longas, salários menores) e uma desigualdade
chocante: o 1% e o 10% mais
ricos recebem mais de 36% e quase 60% da renda total, respectivamente,
enquanto os 50% mais pobres representam cerca de 7%. Milhões estão presos em
dívidas com taxas exorbitantes para chegar ao fim do mês (a dívida das famílias
atingiu 37,7% do
PIB do país, e US$ 133,4 bilhões no final de
2025), e o Chile sofre a pior desigualdade de renda da OCDE, depois do Brasil e
da África do Sul.
A
presidência de Boric "fracassou em mudar a estrutura
econômica e as desigualdades sociais no Chile". Sua taxa de
aprovação despencou para 22% em maio de
2024, com a mídia de direita capitalizando sem pudor os altos níveis de
criminalidade e
a imigração ilegal que
inundava o mercado de trabalho para culpar seu governo.
Nesse
clima, Jeannette Jara, candidata da renovada coalizão da Concertação 'Unidade
pelo Chile', enfrentou uma batalha árdua. Ela buscou oferecer uma ruptura
progressista com a acomodada centro-esquerda pró-neoliberal chilena, ao mesmo
tempo em que mantinha o apoio da antiga coalizão. Sua plataforma incluía políticas
antineoliberais-chave,
mas provou ser muito pouco e muito tarde. No entanto, seus 41% dos votos
representam um apoio sólido a uma guinada à esquerda.
Como
ministra do Trabalho de Boric, Jara assegurou uma "tão esperada reforma do
sistema previdenciário, que, entre outras coisas, aumentou as aposentadorias
atuais e futuras por meio de um sistema de solidariedade entre os
contribuintes. Ela também conseguiu a redução da
[jornada de trabalho] de 45 para 40 horas semanais e também é lembrada por seus
esforços para aumentar o salário mínimo para mais de 500.000 pesos chilenos,
cerca de US$ 530".
No
entanto, essas conquistas – em grande parte graças à sua iniciativa – foram
insuficientes para convencer os eleitores mais pobres de direita de que ela
representava um novo começo. A relação clientelista de longo prazo entre
setores dos pobres e o pinochetismo significou que Kast venceu em 4 dos 5
distritos mais
pobres do país (em 2021 Kast venceu em 20 dos distritos
mais pobres).
Há uma
razão mais profunda para essa 'anomalia': a principal preocupação dos 50% mais
pobres da população são o crime, a imigração, a previdência, a saúde e a
desigualdade de renda, áreas abordadas de forma inadequada pelos governos
da Concertação.
A
candidatura de Jeannette Jara expressou a necessidade política de romper a
dominação de 50 anos do neoliberalismo com um programa radical para reverter
suas mais graves iniquidades, que seja atraente para os mais pobres. Obter 41%
como candidata comunista é uma façanha notável.
A
vitória de Kast prova que 'gerenciar o neoliberalismo' é uma estratégia
fracassada para a esquerda, pois apenas alimenta o pinochetismo, ao qual a
centro-esquerda se acomodou por décadas. A esquerda, com o Partido Comunista em
seu núcleo, enfrenta agora o desafio de organizar uma resistência massiva
contra a agenda de Kast de austeridade fiscal, expulsão em massa de imigrantes
e uma restauração neoliberal plena que apagará até mesmo as tímidas reformas
progressistas da Concertação de 1990-2025.
Os
comunistas chilenos, como a força mais consistentemente antineoliberal dentro
da esquerda mais ampla, têm o potencial de moldar e organizar uma ampla frente
política e social de resistência contra o governo de extrema-direita de Kast. A
resistência contra Kast estará inextricavelmente ligada à luta contra o
neoliberalismo. Uma fraqueza crítica no Chile continua sendo a falta de uma
liderança de esquerda autorizada capaz de organizar com sucesso a classe
trabalhadora para cumprir a própria promessa de Boric: "se o Chile foi o
berço do neoliberalismo, também será seu túmulo."
¨
O Chile e a pedagogia das derrotas. Por Gabriel Teles
A
experiência recente da esquerda chilena não deve ser lida como um simples
fracasso político, nem como um desvio moral de dirigentes que teriam se
afastado de um projeto original. Ela funciona melhor como lição histórica
negativa: mostra, mais uma vez, o destino de processos insurgentes quando são
traduzidos em governabilidade. O Chile não inventou nada. Apenas atualizou um
roteiro já conhecido.
O
levante de outubro de 2019 foi um desses momentos raros em que a sociedade
parece sair do lugar. Iniciado pelo aumento da tarifa do metrô em Santiago e
rapidamente expandido para todo o país, ele condensou décadas de desigualdade,
endividamento e privatização herdadas da ditadura e administradas pela
democracia. Não porque tivesse um programa definido, mas porque suspendeu,
ainda que brevemente, a normalidade neoliberal. A ordem cotidiana foi
interrompida, a autoridade perdeu evidência, o medo mudou de lado. O que estava
em jogo não era uma reforma específica, mas a própria capacidade do sistema de
se manter de pé.
Havia
ali algo difícil de capturar: formas de ação que escapavam à representação, uma
criatividade social que não cabia nos canais tradicionais, uma recusa prática à
mediação. Assembleias territoriais surgiram fora dos partidos e sindicatos,
bairros passaram a deliberar por conta própria, redes informais organizaram
abastecimento, cuidado e defesa coletiva. A ação direta não era um meio para
pressionar negociações futuras, mas uma prática imediata de ruptura com a
normalidade. Barricadas, evasões, ocupações e intervenções simbólicas não
buscavam reconhecimento institucional; suspendiam, ainda que provisoriamente, o
funcionamento regular da cidade. Esse excesso — e não sua ausência — foi o
verdadeiro problema colocado pelo levante.
A
resposta veio sob a forma da institucionalização. O processo constituinte e a
aposta eleitoral não foram simples concessões arrancadas pela rua, mas
mecanismos de deslocamento. O conflito foi retirado do terreno onde produzia
efeitos imediatos e transferido para espaços onde tudo precisa ser convertido
em linguagem jurídica, calendário político e negociação permanente. A crise
deixou de ser vivida para ser administrada.
Os
dados são claros. Ao longo do governo de Gabriel Boric, foram aprovadas dezenas
de leis voltadas à segurança pública. Leis que ampliam penas, restringem
ocupações, reforçam atribuições policiais e endurecem o tratamento penal de
protestos. Nenhuma dessas medidas rompe com o legado repressivo do Estado
chileno; ao contrário, o atualizam.
Nos
territórios mapuche, o estado de exceção foi mantido e renovado sucessivas
vezes. A militarização não diminuiu. Houve operações policiais letais, prisões
preventivas prolongadas e continuidade da criminalização da luta territorial. O
discurso mudou; a prática permaneceu.
No
campo econômico, os pilares do modelo não foram tocados. O sistema
previdenciário privado seguiu operando. A estrutura tributária não sofreu
mudanças capazes de alterar a concentração de renda. O Chile continuou
dependente do extrativismo mineral e da lógica financeira. As reformas
aprovadas foram graduais, negociadas e limitadas por compromissos com o
mercado.
Mesmo
políticas frequentemente apresentadas como conquistas — como a redução da
jornada de trabalho ou aumentos do salário mínimo — foram implementadas de
forma escalonada, sem alterar a precariedade estrutural do trabalho. Melhoram
condições, mas não mudam a lógica.
O
processo constituinte, por sua vez, terminou derrotado. O texto rejeitado não
conseguiu mobilizar novamente a energia de 2019. Não houve defesa ativa nas
ruas. A distância entre a população mobilizada anos antes e o procedimento
constitucional era evidente. Quando o texto caiu, não houve reação à altura. O
ciclo já estava encerrado.
O
efeito político foi imediato. A direita recompôs forças com um discurso
simples: ordem, segurança, estabilidade. O terreno estava preparado. A
desmobilização prévia facilitou a restauração conservadora.
Nesse
movimento, perdeu-se mais do que intensidade. Perdeu-se o antagonismo. O que
antes aparecia como ruptura passou a ser tratado como transição. A política
institucional assumiu a tarefa de resolver a crise que a sociedade havia
aberto, e ao fazê-lo, começou a fechá-la.
O
processo constituinte cumpriu essa função. Não fracassou apesar de suas
limitações institucionais; esgotou-se porque sua razão de existir era conter o
conflito. Ao separar mobilização de decisão, produziu uma distância crescente
entre a energia social que havia explodido nas ruas e os procedimentos que
agora falavam em seu nome. Quando o texto constitucional foi rejeitado, o
levante já não estava ali para defendê-lo. Sua força havia sido drenada.
É nesse
cenário que emerge o governo de Gabriel Boric. Não como ruptura interrompida,
mas como forma política adequada ao encerramento do ciclo. Um governo jovem,
progressista, capaz de dialogar com as linguagens do levante, mas também de
restaurar a normalidade que ele havia colocado em suspenso.
O
neoliberalismo chileno não foi desmontado. Foi administrado com outra
tonalidade. Seus pilares permaneceram: a estrutura econômica, a lógica da
acumulação, a centralidade do mercado, o aparato repressivo. As reformas
existiram, mas operaram no plano da compensação, não da transformação.
Ajustaram efeitos sem tocar causas.
A
repressão, longe de ser um desvio inesperado, tornou-se parte desse arranjo. As
leis de segurança, a criminalização das ocupações, o tratamento dos conflitos
territoriais indicam que o progressismo, quando governa após um levante,
precisa conter aquilo que diz representar. Quanto mais reivindica a herança da
rebelião, mais se vê obrigado a impedir que ela retorne.
A
derrota do ciclo iniciado em 2019 não se deu apenas pela força policial. Ela
ocorreu quando a crise passou a ser representada. No momento em que a esquerda
assumiu a tarefa de falar em nome do conflito, o conflito perdeu autonomia. A
governabilidade substituiu o risco. A mediação substituiu a ruptura.
Nesse
sentido, a esquerda não foi simplesmente superada pela direita. Ela organizou
as condições para sua volta. Ao encerrar o levante sem transformar as
estruturas que o produziram, deixou aberto o caminho para forças que prometem
ordem sem mediações, disciplina sem linguagem progressista.
A
experiência chilena deixa uma lição desconfortável. O progressismo não é uma
etapa intermediária rumo à ruptura. Ele é, muitas vezes, o mecanismo que impede
que a ruptura avance. Governar uma crise estrutural sem enfrentá-la é
estabilizá-la em favor da ordem existente.
Fonte:
Brasil 247/Outras Palavras

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