Washington
Araújo: Fiscalizar ou pressionar? O passo além do TCU
O
Tribunal de Contas da União decidiu atravessar uma linha que não lhe pertence.
Ao avançar sobre documentos sigilosos do Banco Central no caso Banco Master, o
TCU não exerce controle: ensaia poder. Não se trata de fiscalização responsável
nem de zelo com o interesse público, mas de uma iniciativa que desloca o centro
do escândalo, tensiona a autonomia da autoridade monetária e cria um precedente
institucional perigoso. Quando um órgão de controle passa a tratar quem
fiscaliza o sistema financeiro como suspeito, algo se rompe no pacto
republicano.
Não se
trata de zelo institucional. Trata-se de uma investida fora de propósito,
descabida e institucionalmente perigosa.
O Banco
Central não é um órgão subordinado ao TCU. Não é uma autarquia qualquer, nem um
departamento administrativo sujeito a revisão discricionária. É a autoridade
monetária do país, dotada de autonomia formal, técnica e decisória, condição
indispensável para a estabilidade do sistema financeiro nacional.
Cabe a
ela supervisionar, intervir e liquidar instituições financeiras. Essa
competência não é compartilhada, tampouco revisável por tribunais
administrativos. Quando o TCU avança sobre esse território, não está apenas
solicitando documentos: está tensionando o desenho institucional do Estado
brasileiro.
A
pergunta que precisa ser feita com clareza é simples e incômoda: a quem
interessa colocar o Banco Central sob suspeição? Quem ganha quando a narrativa
se desloca do controlador de um banco liquidado para a autoridade que cumpriu
seu dever legal?
Não se
trata de provocação retórica. É uma interrogação política, institucional e
ética que precisa ser enfrentada sem rodeios.
O
argumento formal — acesso a documentos para “compreender melhor o histórico” —
soa frágil diante do contexto. Mais frágil ainda quando a inspeção ocorre em
pleno recesso, com material protegido por sigilo e analisado dentro das
dependências da própria autoridade monetária.
Não há
aqui gesto pedagógico nem transparência ampliada. Há, sim, um movimento que
desloca o foco e cria um novo alvo, cuidadosamente escolhido.
Como
jornalista, não posso ignorar o padrão. O Tribunal de Contas da União já
demonstrou, em outros episódios, disposição para avançar além de suas
atribuições constitucionais, como ocorreu na interferência sobre a governança
da Previ, o fundo de pensão do Banco do Brasil.
Naquele
caso, o pano de fundo era uma disputa por poder, influência e controle. O
roteiro agora parece familiar: questionar decisões técnicas para abrir flancos
políticos.
O
centro do escândalo do Banco Master nunca foi o Banco Central. Nunca foi. O
centro está na estrutura de controle da instituição, nas decisões de gestão,
nas relações que orbitam seu controlador e nos efeitos sistêmicos dessas
escolhas.
Ao
deslocar o foco para a autoridade monetária, produz-se uma inversão grave: o
fiscalizador passa a ser tratado como suspeito, enquanto o fiscalizado se
beneficia do ruído.
Há
ainda um elemento que não pode ser varrido para debaixo do tapete: o uso
estratégico da indenização como instrumento de silenciamento. Ao questionar a
legalidade da liquidação, constrói-se a tese de erro estatal.
O erro,
uma vez reconhecido, abre caminho para compensações financeiras. A compensação,
por sua vez, garante silêncio. Silêncio conveniente, silêncio caro, silêncio
funcional para estruturas que sobrevivem na penumbra do poder republicano.
Se o
objetivo do TCU fosse realmente fortalecer o interesse público, talvez fosse o
caso de direcionar seu aparato técnico, sua infraestrutura e sua energia
institucional para onde o escândalo é explícito, documentado e recorrente: as
emendas parlamentares.
Ali
existe um sistema opaco, bilionário, com graves distorções federativas,
suspeitas consistentes de uso eleitoral, ausência de rastreabilidade e impactos
diretos sobre políticas públicas essenciais.
Ali,
sim, o Tribunal de Contas tem competência inequívoca, dever constitucional e
uma dívida histórica com a sociedade. O contraste entre essa omissão e a
disposição de avançar sobre o Banco Central é perturbador.
Por que
não investigar a fundo o orçamento secreto rebatizado? Por que não escrutinar
com rigor os fluxos de recursos que escapam ao controle social?
Por que
não iluminar os arranjos que transformaram emendas em moeda de troca permanente
no Congresso Nacional? Essas perguntas são tão legítimas quanto
desconfortáveis.
E,
justamente por isso, permanecem, em grande medida, sem resposta.
Diante
desse cenário, talvez já tenha passado da hora de inverter o olhar. Se o
Tribunal de Contas da União se sente autorizado a ultrapassar seus limites e a
tensionar a autonomia de outras instituições, é razoável que a sociedade, o
Congresso e a imprensa passem a examinar com mais profundidade o próprio
tribunal.
Seus
critérios, suas motivações, suas alianças e seus silêncios também precisam ser
colocados sob escrutínio público.
A
democracia não se fortalece quando órgãos de controle passam a testar seus
próprios limites e a expandir poder sem freios externos. Fortalece-se quando
cada instituição conhece exatamente até onde pode ir — e quando é chamada a
prestar contas.
Colocar
o Banco Central sob suspeição não esclarece o caso Banco Master; serve apenas
para atrasar respostas, embaralhar responsabilidades e proteger interesses que
não suportariam a luz plena da investigação.
No
Brasil, toda vez que a verdade é empurrada para a sombra, não é por acaso:
alguém lucra, alguém se cala e a sociedade paga a conta. Como diria minha
saudosa avó Querubina: Aí tem coisa!
• Caso Master extrapola tensão no TCU e
ministros falam em "constrangimento"
Os
novos desdobramentos do caso do Banco Master acirraram o clima nos bastidores
do TCU (Tribunal de Contas da União), consolidando a divisão interna na Corte.
Ministros ouvidos sob reserva falam em “constrangimento geral” e consideram que
a inspeção do trabalho do BC (Banco Central) tomou o formato de “intimidação”.
A
notícia de que o BC também se tornou alvo de uma ofensiva virtual, revelada
pela jornalista Malu Gaspar, de O Globo, contribuiu para alimentar ainda mais a
avaliação de que há excesso na condução do caso, relatado pelo ministro
Jhonatan de Jesus. Um dos magistrados ouvidos pela CNN Brasil avaliou que o
episódio pode ter um efeito irreversível na credibilidade da Corte.
Não há,
entretanto, expectativa de que a ação seja capaz de reverter a liquidação do
Banco Master, determinada pelo BC. O mais provável, disse o magistrado, é que o
foco da ação seja influenciar o processo de liquidação dos ativos do banco,
retardando esse processo.
A tese
é que o processo pode se tornar mais lento e burocrático, o que dificultaria o
ressarcimento de credores. Uma ideia é que a Corte possa vir a exigir que todos
os ativos a serem liquidados precisem passar por diversas avaliações de
mercado, por exemplo. Nos bastidores do TCU, entretanto, a expectativa é de que
a polêmica do caso ainda pode se aprofundar, com novos desdobramentos também no
meio político.
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Competência da Corte
O
presidente do TCU, Vital do Rêgo, evitou rebater críticas internas a respeito
da condução do caso envolvendo o Banco Master. Foi ele quem autorizou a
inspeção no Banco Central para averiguar o processo de liquidação do banco
acusado de fraude.
Em
conversa com a CNN Brasil, o magistrado se limitou a reiterar o teor da nota em
que defendeu a competência do tribunal para fiscalizar o BC.
“Não
paira qualquer dúvida sobre a competência do TCU para fiscalizar o Banco
Central, que decorre diretamente da Constituição Federal”, afirma o documento.
“Nos
arts. 70 e 71 da Constituição, o TCU é investido do controle externo da
administração pública federal direta e indireta, abrangendo a fiscalização
contábil, financeira, orçamentária, operacional e patrimonial dos órgãos e
entidades, inclusive autarquias como o Banco Central. A fiscalização inclui a
verificação da legalidade, legitimidade e economicidade dos atos de gestão
pública, sem prejuízo da autonomia técnica e decisória do Banco Central”,
prossegue a nota.
• Waack: Crise do Master exibe
instituições sem credibilidade
O
escândalo do Banco Master está provocando uma crise institucional de graves
proporções. Instituições brasileiras ligadas à política — entre elas o STF
(Supremo Tribunal Federal) — já vêm sofrendo, há tempos, uma perda
significativa de credibilidade, processo que os acontecimentos em torno do
banco vêm acelerando.
Até o
momento, não há explicação convincente para o envolvimento do STF na
investigação do escândalo, ainda mais sob sigilo máximo. Da mesma forma, não se
apresenta justificativa plausível para o fato de o TCU (Tribunal de Contas da
União) ter, na prática, arrogado para si o direito de investigar o
investigador, isto é, o Banco Central — também sob total sigilo.
A crise
institucional não decorre do simples fato de um órgão averiguar o que outro faz
ou deixa de fazer, pois isso está previsto na legislação e garantido pela
Constituição. O problema reside no fato — demonstrado pela forte reação da
sociedade civil organizada — de que não se acredita nos motivos alegados pelo
STF e pelo TCU para justificar suas atuações no caso.
Em
outras palavras, suspeita-se de que instituições de Estado não estejam agindo
como instituições de Estado, mas sim como instrumentos em uma campanha de
pressão política contra a autoridade monetária, em razão de esta ter liquidado
um banco privado cuja atuação a Polícia Federal aponta como fraudulenta. Um
banco que teria feito da compra de influência nas instituições da República a
chave de sua longa sobrevivência, até a explosão do escândalo.
A
sensação generalizada é a de podridão política, marcada por falta de pudor e
atrevimento em escala inédita para um país que acreditava já ter visto de tudo
em matéria de corrupção. Acreditava.
• Embate entre TCU e BC aumenta crise
institucional
O
embate entre o TCU (Tribunal de Contas da União) e o BC (Banco Central) no caso
Master cresce e eleva a crise institucional em Brasília. O TCU avança, o BC
reage, e vem uma nova rodada de provocações.
Sim,
provocações, porque o fundamento jurídico para a atuação do TCU vai ficando
cada vez mais frágil. Nesta terça-feira (6), o Banco Central respondeu ao
pedido de inspeção do tribunal para que ela não seja uma decisão da cabeça de
um único ministro, como tem sido.
Na
outra ponta, o presidente do TCU, Vital do Rêgo, pediu apoio aos colegas e
defendeu que ninguém no Brasil está imune ao controle externo. Até aqui, a
atuação do relator Jhonatan de Jesus é vista como uma tentativa de proteger o
patrimônio do Banco Master e, de seu controlador, Daniel Vorcaro, acusado de
crimes financeiros.
Ora, o
TCU atua apenas sobre recursos da União, não de privados. Quanto mais a
política domina o caso, mais imprevisível vai ficando o desfecho dessa
história.
Fonte:
Brasil 247/CNN Brasil

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