Miséria,
desespero e suicídio no capitalismo
O
suicídio se manifesta como um fenômeno social complexo, como expressão do
sofrimento ao qual as pessoas estão submetidas, especialmente em relação à
exploração de classe. Leva-se em conta que
“[…] o
grosso dos homens e mulheres que se suicidam são da classe trabalhadora. Quem
se suicida não é um indivíduo abstrato que, na melhor das hipóteses, é homem ou
mulher, tem uma certa idade e vive em determinadas condições socioeconômicas. O
porquê de ele estar em tais condições é ocultado ou, simplesmente, dado como
natural, em vez de explicado”.
O
adoecimento mental é produto das contradições da sociedade capitalista, que se
materializa em ansiedade, estresse, depressão, fobia social, desordens
alimentares, automutilação, insônia, entre outras coisas. O massivo adoecimento
se dá em meio a um cenário no qual se fala muito na necessidade do “sentir-se
bem”, mas o fetiche de uma vida feliz, vendido pela classe dominante e baseado
num certo entendimento de sucesso profissional e de família estável, além de
pressionar as pessoas para que almejem alcançar conquistas muitas vezes
irreais, esconde as contradições que levam os trabalhadores a situações de
desgaste físico e mental, de sofrimento e adoecimento.
Na
sociedade capitalista, os trabalhadores se veem pressionados pela manutenção ou
ampliação da produtividade, ao mesmo tempo exigindo-se que sejam o que se
convencionou chamar de profissionais “bem-sucedidos” e, ao mesmo tempo, devendo
ter uma vida feliz em âmbito privado. Contudo, no sistema capitalista até mesmo
essa vida pessoal está nas mãos do capital, que não pode permitir que qualquer
coisa atrapalhe a produtividade do trabalho. Exige-se que o trabalhador alcance
a “felicidade”, desde que se mantenha o funcionamento da economia e a
exploração sobre a força de trabalho.
O tema
da saúde mental deve ser entendido como parte da realidade concreta da
exploração capitalista. Associar a saúde mental apenas a fatores biológicos de
indivíduos isolados implica em excluir o seu caráter histórico e social. Os
fatores biológicos, que podem concorrer para o adoecimento, não se explicam
sozinhos, devendo estar articulados à compreensão da dinâmica histórica e das
contradições da sociedade. O ciclo vital do ser humano varia em diferentes
épocas, a partir das condições materiais em que produz sua existência. Pode
inclusive ter particularidades no interior das diferentes classes sociais em
uma mesma época e sociedade, ou seja, em última instância, a forma de produção
e reprodução da vida em sociedade determina a existência de diferentes transtornos
físicos e mentais.
Nesse
sentido, para pensar a saúde e a doença, é fundamental compreender as formas
como se organiza o processo de trabalho e de produção de mercadorias e como
isso impacta na vida das pessoas; essa compreensão permite entender como se
adoece e se morre nas diferentes classes em determinada sociedade. No
capitalismo, a burguesia precisa de trabalhadores aptos a produzirem em suas
fábricas, ou seja, na lógica capitalista, o que determina ser saudável ou não é
a capacidade do sujeito de trabalhar e manter-se produtivo. Marx destacava que
o capital não tem “a mínima consideração pela saúde e duração da vida do
trabalhador, a menos que seja forçado pela sociedade a ter essa consideração”.
Neste
modo de produção, ser ou não saudável está relacionado ao desgaste da força de
trabalho. Esse desgaste aponta elementos que extrapolam as análises focadas
apenas nas causas imediatas do adoecimento, devendo abarcar também os impactos
físicos e psicológicos do processo de trabalho, no médio e no longo prazo, que
afetam a vida e até mesmo o cotidiano do trabalhador. Marx comentava que o
capital
“[…]
usurpa o tempo para o crescimento, o desenvolvimento e a manutenção saudável do
corpo. Rouba o tempo requerido para o consumo de ar puro e de luz solar. Avança
sobre o horário das refeições e os incorpora, sempre que possível, ao processo
de produção, fazendo com que os trabalhadores, como meros meios de produção,
sejam abastecidos de alimentos do mesmo modo como a caldeira é abastecida de
carvão, e a maquinaria, de graxa ou óleo”.
Engels,
em seu clássico estudo sobre a situação da classe trabalhadora na Inglaterra no
século XIX, associava o adoecimento às adversidades “a que os operários estão
expostos em razão das flutuações do comércio, do desemprego e dos salários
miseráveis em tempos de crise”. Segundo o estudo de Engels, essa situação
trazia graves consequências para a saúde dos trabalhadores:
“Acontece
com frequência que, acabando o salário semanal antes do fim da semana, nos
últimos dias a família careça de alimentação ou tenha apenas o estritamente
necessário para não morrer de fome. É claro que semelhante modo de vida só pode
originar toda sorte de doenças; quando as enfermidades chegam, quando o homem —
cujo trabalho sustenta a família e cuja atividade física exige mais alimentação
e, por conseguinte, é o primeiro a adoecer —, quando esse homem adoece, é então
que começa a grande miséria”.
Nos
últimos séculos, o capitalismo passou por mudanças na forma de organização do
trabalho, como respostas às suas crises cíclicas, garantindo a manutenção da
extração de mais-valia. Essas formas de organização têm impacto também no
cotidiano do trabalhador, como a perspectiva de controle inclusive sobre a vida
privada, como foi o caso do fordismo. Nas últimas décadas, o que marca mais
profundamente o processo de organização do trabalho é o chamado toyotismo. Essa
forma de organização da produção tem como uma de suas características o chamado
trabalho flexível, exigindo do trabalhador um maior engajamento no processo de
produção, também afetando a sua subjetividade.
Diante
do desgaste físico e mental, os trabalhadores sofrem com o medo de serem
descartados. Suas condições física e psicológica, como a idade ou o
desenvolvimento de doenças crônicas, podem se tornar um problema para a
permanência no trabalho ou para encontrar um novo emprego, correndo o risco de
ficar sem qualquer ocupação. Marx comentava que, para o capital, “as forças de
trabalho retiradas do mercado por estarem gastas ou mortas têm de ser
constantemente substituídas, no mínimo, por uma quantidade igual de novas
forças de trabalho”.
O
adoecimento mental pode se manifestar por meio de diversos sintomas e
transtornos, tendo relação com as diferentes formas de organização do processo
produtivo. Uma doença comum entre os trabalhadores é a depressão, associada ao
desânimo em relação à realidade e à própria vida, fazendo com que a pessoa
perca a vontade não apenas de agir, mas até mesmo de ter qualquer interação com
o mundo que a cerca. Outro transtorno mental comum é a ansiedade, relacionada
ao sentimento de angústia, em que a pessoa se vê impotente diante de uma
realidade que a oprime.
Um
elemento que se relaciona a todos esses sintomas e transtornos é o estresse.
Trata-se de um conjunto de reações do indivíduo diante dos problemas com os
quais precisa lidar em seu cotidiano, provocando nervosismo, tristeza, apatia,
entre outras coisas. O acúmulo desses sentimentos pode provocar uma diversidade
de reações fisiológicas e psíquicas, que levam ao esgotamento.
Fenômenos
como a depressão, a ansiedade e o estresse e outras formas de adoecimento estão
relacionados entre si, podendo ser não apenas a causa de uma ou outra, como uma
possível manifestação de agravamento. Esses não são fenômenos que surgem ao
acaso, como um problema individual causado por uma crise momentânea, mas
produto do vivenciar a sociedade e do estar no mundo. Diante dessas formas de
adoecimento, ainda prevalece uma certa percepção da saúde mental que
“individualiza o fracasso, na forma de culpa”, fazendo com que se isole “a
dimensão política, das determinações objetivas que atacam nossas formas de
vida, redimensionando trabalho, linguagem e desejo, do sofrimento psíquico”.
O
suicídio não escapa a esse tipo de interpretação simplista, prevalecendo a
ideia de que se trata de uma escolha subjetiva ou de uma vontade individual.
Essa percepção lembra a polêmica de Marx em seu escrito de 1846 sobre o
suicídio, quando critica a perspectiva dos socialistas utópicos. Para Marx, o
número de suicídios deveria “ser considerado um sintoma da organização
deficiente de nossa sociedade”, afinal, segundo sua compreensão, “na época da
paralisação e das crises da indústria, em temporadas de encarecimento dos meios
de vida e de invernos rigorosos, esse sintoma é sempre mais evidente e assume
um caráter epidêmico”.
O
suicídio é um ato que nunca se pode ter total certeza de quais são as suas
causas. Especula-se sobre os motivos que teriam levado a pessoa ao suicídio,
normalmente procurando em questões imediatas um gatilho que a teria levado a
esse extremo. Contudo, dificilmente se consegue chegar a uma plena compreensão
das motivações. Na medida em que o senso comum considera o suicida alguém fraco
e desprotegido, possivelmente a vítima opta por esconder a profundidade de seu
sofrimento, escondendo parte de suas motivações, seja numa carta de despedida
ou mesmo numa sessão de psicoterapia.
Sabe-se
que o suicida, de alguma forma, perde suas esperanças em estar no mundo. O ato
suicida parece ser uma escolha equivocada, afinal, segundo o senso comum,
bastaria continuar lutando contra tudo e contra todos e ter a vontade de se
erguer. Contudo, isso ignora as condições materiais a que essa pessoa foi
submetida ao longo de sua vida. Soma-se a isso uma realidade em que as relações
pessoais são afetadas pelos problemas sociais e, portanto, paixões e sonhos de
futuro acabam não encontrando a satisfação que se espera de uma vida em comum.
Portanto,
se uma pessoa chega ao limite de tentar tirar a própria vida, não significa
apenas uma escolha ou ação pessoal, mas a expressão do esgotamento diante de
uma realidade opressora, exploradora e cheia de dores e adoecimento. O suicídio
muitas vezes é associado à depressão, ainda que não seja a única explicação
possível. Diante da depressão, parece que “o sujeito interpreta adversidades
como sinal e permissão para a desistência. Os triunfos são sentidos como
derrotas e as realizações, como sinais de insuficiência”.
Para
começar a resolver o problema do adoecimento físico e mental, não resta outra
coisa que não seja atacar sua causa, ou seja, é preciso construir uma nova
sociedade. Contudo, um primeiro obstáculo para que se possa caminhar no sentido
dessa solução passa justamente pelo fato de que uma das consequências do
adoecimento físico e mental das pessoas é o abandono de quaisquer perspectivas
de futuro, optando não por saídas complexas e de longo prazo, mas por soluções
mais imediatas, como o consumo de drogas, entre outras coisas. Certamente não
se trata de um erro procurar amenizar os sofrimentos provocados pela sociedade
capitalista e sua fábrica de misérias. Contudo, ao mesmo tempo, é preciso lutar
contra uma das mais cruéis consequências do capitalismo, que é a perda do senso
de coletividade e a busca de soluções baseadas no individualismo.
Uma
nova sociedade, em que o lucro não esteja no centro de tudo e que o trabalho
não seja um pesado fardo carregado pelas pessoas, pode ser um primeiro passo
para que se possa viver uma vida mais saudável. Um novo mundo, em que seja
possível superar a miséria e o adoecimento, precisa ser construído, mas, para
tanto, é fundamental que os trabalhadores transformem a realidade e se coloquem
na luta pelo socialismo, superando, assim, as sequelas que a miséria
capitalista impõe cotidianamente.
Fonte:
Por Michel Goulart da Silva, em Outras Palavras

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