sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Financiamento nuclear do BRICS liderado pelo Brasil pode reequilibrar acesso a tecnologias

Especialistas afirmam que desafios para o Brasil não serão apenas o financiamento, mas a regulação e construção de um projeto energético que sustente o desenvolvimento nuclear no país.

A Associação Brasileira para o Desenvolvimento De Atividades Nucleares (ABDAN) foi convidada a assumir a liderança do novo Grupo de Trabalho de Financiamento para Projetos Nucleares no âmbito do BRICS, estrutura idealizada para formular diretrizes e instrumentos financeiros voltados à expansão segura e sustentável da energia nuclear entre os países membros.

Além disso, analisar práticas regulatórias e modelos já consolidados de financiamento nuclear e preparar recomendações técnicas para auxiliar bancos de desenvolvimento, agências e instituições financeiras internacionais que estejam interessadas em investir neste setor.

O desenvolvimento nuclear em países com pouca tradição no campo é visto com desconfiança por países com acesso a armamentos nucleares, com estes temendo que outros países tenham a possibilidade de ter um arsenal nuclear.

Contudo, as tecnologias nucleares possuem múltiplas aplicações pacíficas além da produção de dispositivos atômicos, como geração de energia, medicina, agricultura e pesquisa científica. Portanto, o regime de não proliferação nuclear causou uma desigualdade tecnológica em países em desenvolvimento, como o Brasil.

A Sputnik Brasil entrevistou Celso Cunha, presidente da ABDAN, para saber como foi a escolha para liderar esse grupo de trabalho. Segundo Cunha, a escolha foi a partir da iniciativa brasileira em propor um trabalho direcionado a questões de planejamento financeiro. Ele frisa que o grupo de trabalho é um fórum de empresas que estão nos países do BRICS+, criado há dois anos durante uma reunião na Rússia, em Moscou.

Cunha conta que a expectativa é que o grupo de trabalho inicie os trabalhos em março de 2026, com a ABDAN coordenando as empresas participantes e definindo o foco dessa coordenação.

"Se ela vai envolver somente articulação técnica, formulação técnica, se vai ter a formulação política, vai ter interlocução com instituições financeiras e todas as outras frentes", explica o presidente. "Então, isso ainda não está estabelecido, a partir do momento que se estabeleça o plano de trabalho, e ele seja aprovado, nós vamos poder estar atuando."

Sobre como a associação pode exercer essa liderança na prática, Cunha diz que a ABDAN buscará coesão entre os membros do grupo de trabalho, agregando conhecimentos do programa nuclear brasileiro e políticas desenvolvidas no Brasil com outros países, destacando o uso de tecnologia nuclear para produzir hidrogênio e sua importância na transição energética.

"Acredito firmemente que o grande elemento, como estamos falando do BRICS +, é a gente fomentar a tecnologia nuclear e criar políticas que possam fomentar a tecnologia nuclear".

Para Astrid Cazalbon, doutoranda em relações internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisadora do Grupo de Estudos sobre Segurança Energética (GESENE) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), a iniciativa de cooperação e financiamento nuclear no âmbito do BRICS deve ser compreendida dentro de uma transformação mais ampla da ordem internacional.

Segundo ela, o equilíbrio entre as potências nucleares já vem se alterando em função das pressões ambientais, da transição energética e das mudanças geopolíticas em curso, e a plataforma de energia nuclear do BRICS surge como uma forma de contestação à ordem historicamente dominada pelas potências nucleares ocidentais.

Cazalbon lembra que a Declaração de Kazan, de 2024, reafirma o compromisso do BRICS com a construção de uma ordem mundial mais justa e equilibrada, baseada na cooperação, no desenvolvimento sustentável e na reforma das instituições globais, de modo a representar melhor os interesses dos países emergentes.

"Nesse sentido, iniciativas de cooperação e financiamento nuclear podem reduzir parcialmente assimetrias ao permitir que países que historicamente tiveram acesso limitado às tecnologias nucleares desenvolvam seus próprios setores, sobretudo no uso civil e em aplicações energéticas e não energéticas", explica.

Na avaliação da pesquisadora, esse movimento não implica necessariamente uma mudança direta no equilíbrio das potências nucleares militares, mas sim um reequilíbrio no acesso a capacidades tecnológicas e energéticas estratégicas. O acesso à energia nuclear, à diversificação de matrizes e a tecnologias críticas pode se traduzir em maior capacidade de geração de riqueza e de construção de poder nacional, desde que inserido em uma estratégia de longo prazo.

"Para países como o Brasil, os desafios permanecem não apenas no acesso ao financiamento, mas também na regulação e na construção de um projeto energético e tecnológico autônomo de longo prazo, razão pela qual a atuação do país — inclusive por meio da ABDAN — é fundamental para avançar nesse processo."

<><> Brasil avança pouco e tem pior representatividade feminina da América do Sul, aponta relatório

O Brasil ampliou a presença feminina no Congresso nas últimas duas décadas, mas segue com a pior representatividade da América do Sul. Mesmo com mais mulheres eleitas, o país caiu 41 posições em rankings globais, e especialistas apontam falhas históricas nas cotas e falta de apoio partidário às candidaturas femininas.

De acordo com dados compilados pela Folha de S.Paulo, o Brasil ampliou a presença feminina no Congresso entre 2005 e 2025, com crescimento de 111% na Câmara e 60% no Senado. Apesar disso, especialistas ouvidos pela mídia consideram o avanço insuficiente diante do desempenho de outros países latino-americanos. Relatórios da União Interparlamentar e da ONU Mulheres mostram que, mesmo com mais mulheres eleitas, o país caiu 41 posições em rankings internacionais de representatividade parlamentar.

Na Câmara, o número de deputadas passou de 44 para 93 em duas décadas, enquanto o Senado avançou de 10 para 16 mulheres. Ainda assim, o Brasil ocupa apenas a 133ª posição global, com 18,1% de mulheres na Câmara e 19,8% no Senado — o pior resultado da América do Sul. Países como Cuba, Nicarágua, México e Costa Rica figuram entre os mais bem colocados, com parlamentos próximos ou superiores à paridade de gênero.

Segundo especialistas que falaram à Folha, o desempenho brasileiro revela falhas estruturais e a necessidade de maior investimento partidário em candidaturas femininas competitivas. A cientista política Débora Thomé destaca que o avanço é "irrisório" diante do progresso observado em países vizinhos, que partiram de condições semelhantes nos anos 2000 e hoje figuram entre os líderes mundiais em representatividade feminina.

A legislação de cotas, criada em 1995 e ampliada em 1997, determinou inicialmente que 20% e depois 30% das candidaturas proporcionais fossem reservadas a um dos sexos. No entanto, até 2009, os partidos não eram obrigados a preencher essas vagas, o que resultou em candidaturas fictícias e baixa efetividade das regras.

Segundo a cientista política Maiane Bittencourt, a lei falhou porque estabelecia cotas de candidaturas, não de cadeiras, e porque o sistema proporcional de lista aberta favorece campanhas individualizadas e caras, prejudicando candidatas que recebem menos recursos internos. Esses fatores limitaram o impacto das cotas até meados da década de 2010.

A partir de 2014, observa-se um salto mais consistente na presença feminina, impulsionado tanto por mudanças legais quanto por uma nova onda do feminismo no país, amplificada pelas redes sociais. Em 2018, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou que ao menos 30% do fundo eleitoral e do tempo de propaganda fossem destinados exclusivamente às campanhas de mulheres, medida reforçada pela emenda constitucional de 2022.

Com a obrigatoriedade de investir recursos significativos em candidaturas femininas, os partidos passaram a lançar mais mulheres competitivas, inclusive em grupos conservadores, refletindo a composição ideológica predominante no Congresso. Para Thomé, isso demonstra que o problema nunca foi a falta de mulheres interessadas, mas a ausência de apoio efetivo das siglas.

As especialistas concordam que o caminho para melhorar a representatividade feminina passa pela atuação direta dos partidos. As leis existem e foram aprimoradas, afirmam, mas só devem produzir resultados mais robustos se forem plenamente aplicadas e acompanhadas de estratégias reais de fortalecimento das candidaturas de mulheres.

•        México consolida posição de liderança em infraestrutura de supercomputação na América Latina

A infraestrutura de supercomputação no México concentra-se principalmente em universidades e centros de pesquisa públicos, com aproximadamente 12 centros de alto desempenho, segundo especialistas citados pela mídia local.

Embora sistemas de alto desempenho possam existir em instituições privadas, como bancos, suas informações não são públicas e seu uso seria para fins muito específicos, explicou Lukas Nellen Filla, pesquisador do Instituto de Ciências Nucleares da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), em declarações publicadas pelo jornal mexicano La Jornada.

Entre as instituições que concentram essa infraestrutura estão a UNAM, o Centro de Pesquisa e Estudos Avançados do Instituto Politécnico Nacional (Cinvestav), o Centro de Pesquisa em Matemática, a Universidade de Sonora, a Universidade de Guadalajara, a Universidade Autônoma Metropolitana, além de centros de pesquisa em Puebla e San Luis Potosí.

A história da supercomputação no México remonta a 1991, quando a Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) instalou o Cray Y-P4/464, conhecido como Sirio, considerado o primeiro supercomputador não só do país, mas de toda a América Latina, marcando o início de uma crescente demanda acadêmica por esse tipo de infraestrutura.

Nas décadas seguintes, a UNAM incorporou sistemas cada vez mais poderosos, como o Berenice em 1997, o Bakliz em 2003 e o KanBalam em 2007. A capacidade de processamento do KanBalam colocou o México entre as principais universidades do mundo em supercomputação e como líder na América Latina.

Em 2013, a universidade adquiriu o Miztli, um cluster de supercomputadores que expandiu significativamente a capacidade nacional, atingindo mais de 8.000 processadores em 2017 e um desempenho equivalente a dezenas de milhares de computadores pessoais de última geração.

Em paralelo, o jornal mexicano documentou o surgimento do Abacus no Cinvestav, outro sistema de alto desempenho que também posicionou o México como líder regional, ostentando uma capacidade comparável à operação simultânea de cerca de 25.000 laptops.

Atualmente, o uso da supercomputação no México abrange desde a ciência básica e aplicada até campos emergentes impulsionados pela inteligência artificial (IA), como a linguística. No entanto, especialistas alertam que ainda é necessário ampliar seu alcance para as humanidades, as artes e o setor industrial, bem como finalizar projetos estratégicos como o Coatlicue, o futuro supercomputador nacional.

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

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