Ailton
Krenak, sobre marco temporal: ‘nunca engoliram as nossas conquistas na
Constituinte’
Ailton
Krenak não está planejando o ano de 2026. Filósofo, escritor e primeiro
indígena eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL), ele diz que
aprendeu a dizer “não sei” depois dos anos de pandemia. “Será que alguém que
vive em outros calendários, outras cosmovisões, fica preocupado com a mudança
de ano?”, se questiona.
Mas
isso não significa que esteja despreocupado com o mundo. Em entrevista
exclusiva à InfoAmazonia, Ailton Krenak conta que está seriamente atento ao que
se passa no Congresso Nacional e às mudanças que parlamentares e ministros
desejam fazer no artigo 231 da Constituição Federal, que trata dos direitos dos
povos indígenas em suas terras tradicionais.
Esse
trecho da Constituição é um dos principais motivos de sua luta e do que tornou
seu nome conhecido. Em 1987, ele subiu à tribuna do Senado Federal para exigir
respeito aos territórios indígenas. Com isso, o Estado brasileiro garantiu o
direito originário sobre as terras tradicionalmente ocupadas por eles. Essa é
uma das teses mais importantes da política indígena, porque significa assumir
que a legitimidade desses territórios precede o Estado e a própria
Constituição.
No
momento, esse trecho é rediscutido no Congresso Nacional. Em dezembro, foi
discutido no Supremo Tribunal Federal (STF) e, pela segunda vez, o marco
temporal foi considerado inconstitucional. Ailton Krenak fala sobre o que
representa esse debate e como avalia a posição do presidente Lula frente às
questões indígenas. Também revela se deseja ser ministro dos Povos Indígenas e
como enxerga a passagem do tempo.
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Leia a seguir.
• Ailton, como você vive esse fechamento
de ciclo do ano, como é que você imagina esse futuro para 2026?
Ailton
Krenak – Eu, na verdade, desde a pandemia, comecei um movimento interno, que é
de não programar nada para muito além desse futuro imediato, tipo o aqui e
agora. É interessante, porque isso pode deixar a gente sem orientação sobre
como dar conta das nossas obrigações, dos compromissos da gente.
Quando
você é uma pessoa pública, quando você tem muito engajamento, você se obriga a
ficar planejando coisas para o ano que vem. Eu acho que não tem muito sentido a
gente planejar coisas para o ano que vem. É como se a gente estivesse drenando
a energia da gente que podia dar contentamento para o momento que a gente está
vivendo, para esse presente que nós estamos vivendo e esgarçando a nossa
energia com alguma coisa que nem temos certeza se vai acontecer. Muita
projeção, né? Pensar o que vai ser ano que vem.
Fora
que essa contagem de tempo desde sempre fica afligindo a gente, tem a ver com
idade, tem a ver com a passagem do tempo, [você] associa isso com mudança de
ano, o fim do ano, o começo do ano, eu sinto que a maioria das pessoas fica
muito fissurada com isso. Quando, na verdade, se a gente ignorar o calendário,
se a gente tiver perdido o espaço, a gente não vai ter nenhuma linha que vai
demarcar essa passagem daqui para o ano que vem. É uma ficção.
Se a
gente conseguisse fazer um exercício de meditação mesmo, isso era, digamos,
imperceptível. Será que alguém que vive em outros calendários, outras
cosmovisões, fica preocupado com a mudança de ano? Isso tem a ver com o
calendário gregoriano.
• Você disse que isso mudou por causa da
pandemia. Você enxergava de outra forma antes, então?
A
pandemia foi uma oportunidade para eu fazer uma espécie de…revisão. Talvez eu
estivesse me direcionando muito para essa preocupação do dia a dia, ano a ano.
Eu tive a oportunidade de dar uma meia volta. Algumas pessoas querem que eu
diga onde é que eu vou estar fazendo alguma coisa em janeiro ou fevereiro.
Antes, eu não conseguia dizer “não sei”, porque eu me obrigava a corresponder
às expectativas de todo mundo. Agora, eu consigo falar “eu não sei” numa boa.
Socialmente,
a gente é constrangido a saber as coisas, a planejar as coisas. Quando a gente
não planeja, não projeta, as pessoas podem achar que a gente está… “nossa,
aquela pessoa está fora do tempo, está alienada”.
• Como se nós não estivéssemos preocupados
com…
O
mundo. Quer dizer, eu sigo com algum interesse no mundo, mas não vou deixar o
mundo tomar conta da minha cabeça.
• Eu quero ouvir suas memórias sobre a
Assembleia Nacional Constituinte, como é que você relaciona aquele momento com
os ataques frequentes e muito severos que os parlamentares estão promovendo
contra o artigo 231?
Olha, a
última oportunidade que eu tive de confrontar essa violência do debate político
em Brasília, em torno dos direitos inalienáveis do nosso povo — os direitos
originários —, eu fiquei tão irritado que a minha resposta foi mais emotiva do
que reflexiva sobre aquele período da Constituinte e sobre esse momento atual.
A minha
reação foi dizer que esses caras são cretinos, que eles nunca engoliram as
nossas conquistas na Constituinte e que, pela natureza golpista deles, ficam
sempre aguardando uma curva do rio para fazer alguma trapaça.
O marco
temporal é inconstitucional. Ele é, de fato, algo que não tem sustentação. Ele
está relacionado com a história colonial do nosso país. O Brasil fez a abolição
da escravatura, mas não reparou os danos históricos que impôs ao povo de matriz
africana.
O povo
que foi arrastado da África e jogado na escravidão no Brasil, quando finalmente
o país foi constrangido a encerrar o período escravocrata, não recebeu terras,
não houve reforma agrária, não houve indenização para essas milhares de
famílias. Eles foram jogados na estrada, sem nada nas mãos, atendendo-se aos
interesses dos latifundiários, dos grandes donos de terra, que já eram
denunciados pela literatura no final do século XIX.
Machado
de Assis e outros grandes escritores já falavam dessa dificuldade que os donos
de terra, os senhores de engenho, os donos de minas tinham de repartir qualquer
riqueza.
Essa
mesma vocação, essa mesma lógica predatória, continua orientando as famílias
brasileiras ricas. Os ricos brasileiros são ambiciosos demais, são sovinas, não
são capazes de repartir nada e não têm senso público.
Os
políticos, os senadores, os ministros são das velhas famílias oligárquicas do
período imperial. Continuam sendo os mesmos, não mudam. Se você olhar os
sobrenomes desses caras, são os que receberam terras do rei. Eles continuam se
achando e não vão dividir terra com ninguém.
É por
isso que o MST [Movimento Sem Terra] luta ferozmente por terra. Você vê, o
tempo todo, despejos, violência, assassinatos, porque nós temos uma
aristocracia que acha que é ilustre, mas com comportamento miserável.
Eles
não respeitam os territórios indígenas, usurpam novas terras indígenas e, a
pretexto disso, inventaram o marco temporal. Então, eu desprezo esse debate de
baixo nível que acontece no Congresso e, agora, também no STF [a entrevista foi
feita antes da decisão final da Casa], onde o ministro Gilmar Mendes, de
contrabando, dá presentes às corporações, às mineradoras, aos mesmos e sempre
donos de terra e a alguns interesses novos que ainda não sabemos como vão se
revelar.
Essa
caixinha de surpresa que vai sair dessa decisão do STF vai minar os direitos
que a Constituinte de 88 estabeleceu para os povos indígenas. Mesmo saindo da
marca de dizer que quem não estava nas terras em 5 de outubro não pode ter seus
territórios reconhecidos, eles vão sair dessa lógica apenas para entrar em
outra.
Que é a
de compartilhar com municípios, governadores e outros interesses a definição do
que serão as terras indígenas. O que Gilmar Mendes e o grupo que ele representa
dentro do STF estão fazendo é uma emenda ao marco temporal, já que não
conseguiram fazer uma emenda à Constituição, porque isso é inconstitucional.
Então,
a pretexto de discutir o marco temporal, eles vão continuar legislando por
interesse próprio contra os povos originários e contra os territórios
indígenas. Mudaram o texto, mas mantêm o mesmo propósito: minar o usufruto
exclusivo previsto na Constituição, que estabelece que esse usufruto é
exclusivo dos povos indígenas.
Cada
povo indígena tem o direito de decidir que tipo de atividade será desenvolvida
dentro do seu território, e isso é um direito constitucional. O que eles vão
tentar fazer agora é sair com uma decisão do STF que relativize a soberania dos
povos indígenas sobre seus territórios, introduzindo a possibilidade de
decidir, caso a caso, como isso vai funcionar.
• É uma tentativa de criar brechas?
De
criar um ambiente de contestação e confusão, onde governadores anti-indígenas
vão poder jogar seus lobbies, em que interesses diretos da mineração também
poderão entrar com pedidos de autorização no Congresso para minerar em terras
indígenas. Vão criar situações que dificultam cada vez mais o usufruto
exclusivo dos povos indígenas sobre seus territórios. Sempre tentaram minar
esse direito. Agora, vão tentar tirar algo desse tipo da discussão que está se
encerrando nesta semana no STF.
É bom
lembrar que, de alguma maneira, o Ministério dos Povos Indígenas e o movimento
indígena organizado nacionalmente acreditavam que o STF poderia ter uma
definição mais favorável aos povos indígenas e menos comprometida com as coisas
que saem do Congresso, da Câmara dos Deputados e do Senado.
Só que
estamos vendo que tanto o STF quanto o Congresso são, de fato, anti-indígenas.
Ambos têm disposição para insultar a Constituição, retirando direitos e
divagando sobre como esses direitos podem ser implementados, como se a
Constituição fosse um texto passível de qualquer interpretação, em que cada um
interpreta a seu gosto.
Como se
eles acreditassem que a melhor maneira de governar fosse criando confusão,
deixando a população desestabilizada e desorientada em relação à violência que
se espalha pelo país.
Estamos
vendo como nossos irmãos Guarani Kaiowá, no Mato Grosso do Sul, estão sendo
dizimados descaradamente, com a indiferença do governo do Estado, que já tem
uma história genocida. Assistimos a isso como uma naturalização da violência do
Estado contra as sociedades indígenas.
É como
se isso fosse uma cultura do Estado brasileiro. Já que o povo indígena não
desapareceu e insiste em se reorganizar como sociedade, o Estado sabota, joga
pedra, cria obstáculos.
Todo
discurso sobre o desejo de que nós, povos indígenas, consigamos permanecer
vivos, proteger nossos territórios e prestar o chamado “serviço ambiental” vai
por terra quando, na prática, o que eles fazem é sabotar os territórios
indígenas.
• Como você avalia a forma como o
movimento indígena se organiza para fazer essa luta hoje?
Eu
observo que, depois do trauma do Bolsonaro, o movimento indígena se alinhou de
novo com o Estado. Se alinhou com o Estado não só em relação ao Ministério dos
Povos Indígenas, mas também à Funai, à Sesai, e, de certa maneira, àqueles que
articulam a política ambiental também — como o Ministério do Meio Ambiente e o
ICMBio. Houve uma espécie de confluência, de todo mundo se alinhar com o
propósito de fortalecer a presença do Estado brasileiro na política voltada aos
povos indígenas.
Seja na
proteção territorial, seja no reconhecimento desses territórios. É um
alinhamento, tipo assim: ninguém pode contrariar a proposta do governo com
relação a isso, porque a gente teve um trauma tão recente que agora precisa
sair do trauma.
Fonte:
Por Jullie Pereira, em InfoAmazonia

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