Bloqueio no 'sistema de limpeza' do cérebro pode sinalizar Alzheimer em fase inicial
O sistema de remoção de resíduos do cérebro - que elimina substâncias nocivas - frequentemente fica bloqueado em pessoas que apresentam sinais precoces da doença de Alzheimer, de acordo com cientistas da Universidade Tecnológica de Nanyang (NTU Singapura), em Singapura.
"Como essas anomalias cerebrais podem ser identificadas visualmente em exames de ressonância magnética (RM) de rotina realizados para avaliar o declínio cognitivo, identificá-las poderia complementar os métodos existentes para detectar o Alzheimer precocemente, sem a necessidade de realizar e pagar por exames adicionais", disse o professor associado Nagaendran Kandiah, líder do estudo, em comunicado.
Ele e colegas explicaram que, dentro do cérebro, os vasos sanguíneos são circundados por pequenos canais chamados espaços perivasculares, que ajudam a drenar resíduos tóxicos, incluindo as proteínas beta-amiloide e tau, que são encontradas em níveis elevados em pessoas com Alzheimer.
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Quando o sistema de remoção de resíduos do cérebro se torna menos eficiente, esses espaços podem aumentar e se tornar visíveis em exames de ressonância magnética.
Para compreender se essa alteração está diretamente ligada à demência, os pesquisadores compararam os espaços perivasculares dilatados com múltiplos indicadores estabelecidos do Alzheimer.
Além disso, examinaram como essas vias de drenagem obstruídas se relacionam com marcadores conhecidos da doença, como o acúmulo de beta-amiloide e danos à substância branca do cérebro, a rede de fibras nervosas que conecta diferentes regiões cerebrais.
<><> Descobertas
Participaram do trabalho quase 1.000 pessoas em Singapura de diferentes origens étnicas. Cerca de 350 apresentavam função cognitiva normal e, o restante, sinais de declínio cognitivo precoce.
Após analisar exames de ressonância magnética, os pesquisadores descobriram que os indivíduos com comprometimento cognitivo leve tinham maior probabilidade de apresentar espaços perivasculares aumentados do que aqueles sem problemas cognitivos.
Os participantes ainda tiveram medidas sete substâncias bioquímicas relacionadas ao Alzheimer. Os resultados mostraram que o aumento dos espaços perivasculares foi associado a quatro delas.
Isso, de acordo com os pesquisadores, sugere que pessoas com drenos cerebrais obstruídos têm maior probabilidade de apresentar aumento de placas amiloides, emaranhados de proteína tau e danos às células cerebrais, o que as coloca em maior risco de desenvolver a doença de Alzheimer.
O que também foi avaliado foram os danos à substância branca, um indicador amplamente utilizado para o Alzheimer. Neste caso, eles estavam associados a seis dos sete marcadores sanguíneos.
Entre os participantes com comprometimento cognitivo leve, a correlação entre os marcadores bioquímicos relacionados à doença de Alzheimer e o aumento dos espaços perivasculares foi mais forte do que a correlação com os danos na substância branca. Essa descoberta aponta para a obstrução da drenagem cerebral como um sinal particularmente precoce da doença de Alzheimer.
"As descobertas têm implicações clínicas substanciais", apontou Kandiah. "Embora o dano à substância branca seja mais amplamente utilizado na prática clínica para avaliar a demência, por ser facilmente reconhecido em exames de ressonância magnética, nossos resultados sugerem que os espaços perivasculares aumentados podem ter um valor único na detecção de sinais precoces da doença de Alzheimer."
A equipe de pesquisa da NTU planeja acompanhar os participantes ao longo do tempo para determinar quantos deles eventualmente desenvolverão Alzheimer. Esse acompanhamento ajudará a confirmar se os espaços perivasculares aumentados podem prever de forma confiável a progressão para demência.
<><> Cirurgia inovadora para Parkinson pode garantir mais de uma década de autonomia e qualidade de vida
A cirurgia cerebral realizada no cantor e compositor Moacyr Luz, que convive há quase duas décadas com a doença de Parkinson, reacendeu o debate sobre um dos tratamentos mais avançados disponíveis hoje para pacientes com sintomas motores difíceis de controlar. Não por acaso, a intervenção a que o sambista foi submetido figurou entre as notícias positivas que marcaram 2025: a chamada estimulação cerebral profunda (DBS), embora não interrompa a progressão da doença degenerativa, pode oferecer anos de melhora significativa na qualidade de vida.
“A doença de Parkinson é progressiva, mas a estimulação cerebral profunda permite que o paciente viva melhor por muito tempo”, explica o neurologista e professor da Universidade Iguaçu (Unig), Antonio Catharino. “Em muitos casos, os benefícios se mantêm por cinco, dez ou até 15 anos”, completa.
Estudos clínicos publicados em 2021 na revista científica Neurology indicam que a estimulação cerebral profunda (DBS) pode manter benefícios importantes por mais de uma década em pacientes com doença de Parkinson. Em grupos acompanhados por até 15 anos após a cirurgia, foram observados avanços sustentados em sintomas motores como tremor, rigidez e flutuações motoras, além de redução da necessidade de medicamentos. Embora o procedimento não interrompa a progressão da doença, os dados mostram que ele pode garantir anos adicionais de autonomia, funcionalidade e melhor qualidade de vida a portadores de Parkinson. Além disso, reduz a dosagem necessária de levodopa — medicamento que repõe as dosagens de dopamina no cérebro, fundamental no tratamento.
<><> Mais tempo com independência
O DBS atua regulando a atividade elétrica de áreas específicas do cérebro responsáveis pelos movimentos. Com isso, é possível reduzir em torno de 50% a 60% os principais sintomas motores da doença, causada pela perda de células produtoras de dopamina no cérebro. Além de sintomas motores, o Parkinson acarreta possíveis problemas de fala e cognitivos.
“A redução da dose de levodopa pode chegar a 30% ou até 60%, o que também melhora os efeitos colaterais de um tratamento prolongado”, afirma Catharino. Na prática, isso significa mais autonomia para atividades do dia a dia, menos limitações físicas e maior participação social, que são fatores fundamentais para o bem-estar emocional do paciente e da família.
Um dos pontos menos conhecidos é que pacientes submetidos ao DBS tendem a manter melhores índices funcionais ao longo da evolução da doença quando comparados àqueles que seguem apenas o tratamento medicamentoso. “Mesmo com a progressão natural do Parkinson, a incapacidade pode ser retardada. Há redução do risco de quedas, menor necessidade de hospitalizações e mais independência por um período prolongado”, explica o neurologista.
<><> Tratamento precoce: idade de paciente faz diferença
Os melhores resultados são registrados em casos com diagnóstico bem definido de Parkinson idiopático e boa resposta prévia à levodopa, um preditor importante de sucesso do DBS. De acordo com o especialista, a intervenção é contraindicada para pessoas com quadros psiquiátricos graves, como depressão não controlada ou psicose, que podem ser agravados pela cirurgia. Pacientes mais jovens, geralmente abaixo dos 70 ou 75 anos, tendem a apresentar respostas mais duradouras, embora a idade, por si só, não seja uma contraindicação absoluta. “O importante é uma seleção bem criteriosa dos pacientes e o acompanhamento multidisciplinar pós-operatório, fundamental para diminuir os riscos e melhorar os resultados”, explica o médico.
Apesar dos benefícios, o professor da Unig alerta que o DBS não atua sobre todos os sintomas. Alterações de marcha, equilíbrio, fala e sintomas cognitivos costumam responder pouco ao tratamento, e a doença segue seu curso natural.
“Entender esses limites é importante para alinhar expectativas. O DBS não é cura, mas é uma ferramenta poderosa para melhorar a vida do paciente por muitos anos”, ressalta Catharino.
A estimulação cerebral profunda é considerada um procedimento seguro quando realizada por equipes experientes como a que atendeu Moacyr Luz, no Hospital Albert Einstein, em São Paulo. As complicações graves são raras.
Fonte: Época

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