A
lucidez em uma universidade sitiada
A
universidade pública brasileira vive hoje uma situação paradoxal. Produz mais
artigos, mais relatórios, mais dados e mais indicadores do que nunca. Ao mesmo
tempo, compreende cada vez menos o país que a sustenta. Essa contradição não é
acidental nem recente. Ela expressa uma forma histórica específica de produção
do conhecimento em sociedades dependentes.
Os
livros que fundamentam este texto partem de uma constatação simples e
desconfortável: já pensamos, em grande medida, com as epistemes dos países
centrais da economia mundial. Não se trata de influência cultural difusa nem de
atraso intelectual. Trata-se de uma dependência estruturada, organizada
institucionalmente e financiada pelo fundo público.
Nos
últimos três anos, esse quadro não foi revertido. Pelo contrário. Após um
período de ataques diretos às universidades e à ciência, houve recomposição
parcial do financiamento. Muitos celebraram como reconstrução. O que ocorreu,
na prática, foi outra coisa: o retorno do financiamento veio acompanhado de
maior controle epistemológico.
A
política científica recente não fracassou. Ela funcionou exatamente como deve
funcionar em um país dependente. O erro recorrente é imaginar que haveria uma
internacionalização neutra, capaz de ampliar a circulação do conhecimento sem
subordinação. Nas condições concretas do capitalismo periférico,
internacionalizar significa alinhar agendas, métodos, linguagens e perguntas às
demandas do centro.
Os
órgãos de fomento passaram a operar como instâncias de tradução. Problemas
nacionais são reformulados para caber em agendas globais. Conflitos históricos
são convertidos em indicadores. Questões estruturais viram projetos
fragmentados, gerenciáveis e avaliáveis. O conhecimento torna-se tecnicamente
correto e historicamente raso.
Editais
recentes falam em relevância social, mas medem impacto bibliométrico. Falam em
diversidade epistemológica, mas exigem adesão a métodos e referências
consagrados no Norte. Falam em inovação, mas apenas aquela compatível com a
inserção subordinada do país nas cadeias globais de valor. O discurso muda; a
hierarquia permanece.
O
sistema de avaliação da pós-graduação reforça esse movimento. Rankings, fatores
de impacto e indexações deixaram de ser instrumentos auxiliares e passaram a
organizar a vida acadêmica. O efeito mais profundo não é a exclusão direta, mas
a antecipação da dependência. O pesquisador aprende cedo o que pode perguntar,
o que deve evitar e o que simplesmente não compensa pensar.
Forma-se
um regime de autocensura preventiva. Não é preciso proibir ideias; basta
torná-las inviáveis institucionalmente. A dependência deixa de ser imposição
externa e passa a funcionar como racionalidade cotidiana do trabalho acadêmico.
Publica-se muito. Questiona-se pouco.
É nesse
ponto que a colonialidade se mostra mais atual. Ela não opera apenas excluindo
saberes do Sul, mas incorporando-os de forma controlada. Pode-se falar de
colonialidade, dependência ou epistemologias do Sul – desde que essas
categorias não reorganizem o núcleo explicativo das pesquisas nem questionem os
critérios que as avaliam.
O
resultado é a modernização da dependência cognitiva. O sistema torna-se mais
sofisticado, menos violento e mais eficiente. A crítica é tolerada como
discurso, mas neutralizada como prática. A universidade continua existindo,
funcionando e produzindo – mas com capacidade cada vez menor de interpretar a
própria sociedade.
Projetar
esse movimento para 2026 exige abandonar ilusões. O cenário mais provável é o
da continuidade estabilizada. O financiamento público deve se manter, mas cada
vez mais condicionado. A internacionalização seguirá sendo critério central de
prestígio. As agendas globais continuarão definindo prioridades. Não há sinais
estruturais de inflexão.
Isso
não significa ausência de conflito. O aprofundamento da dependência cognitiva
produz mal-estar crescente. O descompasso entre produtividade e sentido gera
esgotamento, cinismo institucional e crises recorrentes de legitimidade.
Trabalha-se muito. Compreende-se pouco. Vive-se em permanente escassez de tempo
histórico.
É nesse
contexto que a categoria da lucidez se torna decisiva. Lucidez não é solução
política nem programa institucional. É uma posição mínima diante de um tempo
bloqueado. Ser lúcido é reconhecer a posição histórica ocupada e recusar a
naturalização da subordinação como virtude.
A
lucidez não salva a universidade nem supera a dependência. Mas impede algo
essencial: o fechamento completo do sentido. Enquanto houver lucidez, haverá
fratura. Enquanto houver fratura, haverá pensamento. Em um cenário no qual a
superação da dependência não está no horizonte imediato, sustentar a lucidez é
uma forma mínima – e necessária – de resistência intelectual.
A
universidade pública brasileira segue sitiada. Ainda assim, permanece como um
dos poucos lugares onde a crítica pode sobreviver, ainda que sob pressão
permanente.
A
política científica recente não foi perdida. Funcionou exatamente como deveria
em um país dependente. Cometer o mesmo erro repetidamente é presumir que
haveria uma internacionalização neutra e a disseminação do conhecimento
além-fronteiras sem ser subjugado. Sob as condições empíricas do capitalismo
periférico, internacionalizar significa mover questões, formas de saber,
palavras e objetos em sintonia com o que o centro demanda. Não é um desvio,
mais uma regra. As agências de financiamento começaram a trabalhar como
tradutoras cognitivas.
Questões
nacionais são reinterpretadas para se alinhar com agendas globais. Conflitos
históricos tornam-se marcadores. Questões estruturais são divididas em projetos
gerenciáveis, avaliáveis e comparáveis. O conhecimento torna-se tecnicamente
correto, mas superficial no contexto histórico. Leva a história e a transmuta
em projetos práticos que satisfazem as necessidades do mercado. A forma
científica se aperfeiçoou, mas o conteúdo crítico está empobrecido.
Chamadas
recentes mencionam relevância social, mas medem impacto bibliométrico. Assim,
falam de diversidade epistemológica, mas insistem na adesão prévia a métodos e
referências do Norte. Inovação – mas apenas de uma forma que se encaixe na
inserção subordinada do país na cadeia de valor global. Atualiza o vocabulário,
mas não altera a hierarquia. Esta progressão é ainda apoiada pelo sistema de
avaliação de pós-graduação.
Rankings,
fatores de impacto e índices não são mais periféricos, mas estão começando a
estruturar a existência acadêmica. O impacto mais profundo deste processo não é
a exclusão direta, mas a antecipação da dependência. O pesquisador pode
descobrir cedo o que pode perguntar, o que não deve e o que simplesmente não
vale a pena perguntar se quiser sobreviver institucionalmente.
Assim,
estabelece-se um regime de autocensura epistemológica preventiva. Não há razão
para banir ideias; apenas que são inviáveis, do ponto de vista avaliativo. A
dependência deixa de ser uma mera imposição extrínseca e torna-se, em vez
disso, a racionalidade cotidiana do trabalho acadêmico. Escreve-se muito,
produz-se demais, mas há sempre menos questionamento. É aqui que a
colonialidade se manifesta de forma mais imediata.
Como
demonstrou Aníbal Quijano, a colonialidade perdura após o fim oficial do
colonialismo, mas continua na forma de um padrão de poder que organiza o mundo
que conhecemos hoje. Na literatura do conhecimento, ela existe não apenas
eliminando o conhecimento do Sul neste contexto, mas através de uma
incorporação disciplinada e judiciosa. Pode-se argumentar sobre colonialidade,
dependência ou epistemologias do Sul – desde que essas categorias não
transformem o centro explicativo da pesquisa, ou os próprios critérios que as
julgam.
Nesse
sentido, as contribuições de Boaventura de Sousa Santos têm particular
relevância, pois a hierarquia epistemológica constitui parte integrante da
modernidade capitalista. O problema, no entanto, não é tanto a falta de
conhecimento alternativo, mas a impossibilidade estrutural desse conhecimento
ocupar uma posição fundamental na produção científica legitimada. Como
consequência dessa transformação, a dependência cognitiva passou por uma
modernização.
Esse
sistema torna-se mais complexo, mais técnico e menos abertamente violento. A
crítica é permitida como discurso, mas neutralizada como prática. A
universidade continua a existir, a funcionar, a produzir, mas com uma
capacidade cada vez menor de tornar a história inteligível o suficiente sobre a
sociedade que a sustenta. Projetar esse cenário para 2026 envolve tanto
desilusão quanto ilusões. O mais provável é a continuidade. O financiamento
público geralmente existe, mas é mais condicionado.
A
internacionalização continuará a ser uma medida chave de prestígio. As
prioridades permanecerão fixadas por agendas globais. Nenhum sinal de inflexão
estrutural, apenas uma acomodação. Isso provavelmente será considerado como
plenamente humano, único e publicável pela maioria das instituições acadêmicas
e sites. Conflito em seu ponto não significa que o conflito não ocorrerá. A
dependência cognitiva cria mais desconforto dentro da universidade.
Essa
desconexão entre produtividade e significado produz fadiga, cinismo
institucional e crises contínuas de legitimidade. As pessoas trabalham muito,
sabem quase nada e vivem de acordo com uma escassez perpétua de tempo
histórico. A lucidez é, portanto, central interpretativamente a esse respeito.
A lucidez não é uma resposta política, nem um programa institucional, nem mesmo
uma obrigação de alcançar rapidamente. É uma posição cognitiva mínima em um
momento restrito.
Ser
lúcido é reconhecer uma posição histórica enquanto repudia a naturalização da
subordinação como virtude ou destino. Essa lucidez não salvará a universidade,
nem se emancipará de sua dependência. Mas bloqueia algo indubitável, que é um
fechamento completo de significado. Haverá, enquanto houver lucidez, fratura. A
fratura gera pensamento. E em um terreno onde superar a dependência não está
nem perto do horizonte histórico, manter a lucidez é mínimo, em vez de
meramente necessário, como um modo de resistência intelectual. A universidade
pública brasileira está sitiada.
Mas
ainda é um dos raros lugares onde a crítica pode sobreviver: mesmo que a
crítica seja, na melhor das hipóteses, relativizada, tensionada ou sempre sob
ameaça. Isso não é algo fácil: Ver isso claramente e não sucumbir a ilusões
exige não equiparar adaptação com emancipação ou sobrevivência institucional
com autonomia intelectual.
Fonte:
Por João dos Reis Silva Júnior, em A Terra é Redonda

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