sábado, 17 de janeiro de 2026

Ameaça de ação militar dos EUA contra a Colômbia é 'real', diz presidente do país

O presidente colombiano, Gustavo Petro, disse à BBC acreditar que existe hoje uma "ameaça real" de ação militar dos Estados Unidos contra a Colômbia.

Segundo Petro, os EUA estão tratando outras nações como parte de um "império" americano. A declaração surge depois de o presidente dos EUA, Donald Trump, ter ameaçado a Colômbia com uma ação militar. Petro afirmou que os EUA correm o risco de passar de um país que "domina o mundo" para um que ficará "isolado do mundo".

Petro também acusou agentes do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês) de agirem como "brigadas nazistas". Trump ampliou de forma significativa as operações do ICE como parte do que seu governo descreveu como combate ao crime e à imigração ilegal nos EUA.

Procurada pela BBC, a Casa Branca ainda não comentou as declarações de Petro.

Após ataques dos EUA à Venezuela e a captura de Nicolás Maduro, Trump afirmou que uma operação militar contra a Colômbia "parece uma boa ideia".

O presidente dos EUA também disse repetidas vezes a Petro para "cuidar do próprio traseiro", declarações que o presidente colombiano condenou com veemência.

Trump e Petro conversaram por telefone na noite de quarta-feira (07/01). Depois da ligação, o presidente americano afirmou que se reuniria com o colega colombiano na Casa Branca em um "futuro próximo". Em uma publicação feita no fim da noite da mesma quarta-feira na plataforma Truth Social, Trump descreveu a conversa como uma "grande honra". Um funcionário colombiano disse, à época, que o diálogo havia refletido uma mudança de 180 graus na retórica "de ambos os lados".

No entanto, na quinta-feira (08/01), o tom de Petro indicou que a relação não havia melhorado de forma significativa.

Ele disse à BBC que a ligação durou pouco menos de uma hora, "a maior parte do tempo ocupada por mim", e tratou de "tráfico de drogas na Colômbia" e da visão do país sobre a Venezuela e "o que está acontecendo na América Latina em relação aos EUA".

Petro voltou a criticar duramente a política recente de fiscalização migratória dos EUA, acusando agentes do ICE de atuarem como "brigadas nazistas".

O presidente Trump costuma atribuir à imigração a responsabilidade por crimes e pelo tráfico de drogas nos EUA, usando esse argumento para justificar operações em larga escala, e acusa países como Colômbia e Venezuela de não fazerem o suficiente para combater o tráfico de drogas.

Desde que voltou à Casa Branca, Trump enviou agentes do ICE para várias cidades ao redor do país. A agência ICE é responsável por fazer cumprir as leis migratórias e conduzir investigações sobre imigração irregular. Também atua na remoção dos EUA de imigrantes sem documentação.

O governo Trump afirma ter deportado 605 mil pessoas entre 20 de janeiro e 10 de dezembro de 2025. Disse ainda que 1,9 milhão de imigrantes "se autodeportaram voluntariamente", após uma campanha agressiva de conscientização pública que incentivava pessoas a deixar o país por conta própria para evitar prisão ou detenção.

Cerca de 65 mil pessoas estavam detidas pelo ICE em 30/11/25, segundo dados obtidos pelo projeto de imigração do Transactional Records Access Clearinghouse, um compilado de dados governamentais da Universidade de Syracuse (EUA).

Nesta semana, um agente de imigração dos EUA matou a tiros uma cidadã americana de 37 anos na cidade de Minneapolis, o que provocou protestos.

Autoridades federais disseram que Renee Nicole Good tentou atropelar agentes de imigração com o carro. Já o prefeito da cidade, Jacob Frey (do Partido Democrata, em oposição a Trump), afirmou que o agente que disparou agiu de forma imprudente e exigiu que os agentes deixassem a cidade.

Petro disse que o ICE "chegou a um ponto em que já não apenas persegue latino-americanos nas ruas, o que para nós é uma afronta, mas também mata cidadãos dos EUA".

Ele acrescentou que, se isso continuar, "em vez de um EUA dominando o mundo — um sonho imperial —, haverá um EUA isolado do mundo. Um império não se constrói ficando isolado do mundo".

Petro afirmou que os EUA, por "décadas", trataram outros governos, especialmente os da América Latina, como parte de um "império", independentemente da lei.

Trump e Petro são adversários de longa data e trocam com frequência insultos e ameaças tarifárias nas redes sociais.

Após a ação militar americana na Venezuela, Petro acusou os EUA de buscar guerras por causa de "petróleo e carvão". Acrescentou que, se os EUA não tivessem abandonado o Acordo de Paris, no qual os países concordaram em limitar o aumento da temperatura global por meio da redução do uso de combustíveis fósseis, "não haveria guerras, haveria uma relação muito mais democrática e pacífica com o mundo. E com a América do Sul".

"A questão venezuelana é sobre isso", disse.

Depois das declarações de Trump ameaçando uma ação militar na Colômbia, foram realizados protestos em várias partes do país sul-americano em nome da soberania e da democracia.

Petro disse à BBC que os comentários de Trump representaram uma "ameaça real", citando a perda de territórios colombianos (como o Panamá no século 20), e afirmou que "a possibilidade de eliminar [a ameaça] depende das conversas em andamento".

Questionado sobre como a Colômbia se defenderia em caso de um ataque dos EUA, Petro disse que "preferia que fosse por meio do diálogo". Segundo Petro, "há trabalho sendo feito" nesse sentido.

Mas acrescentou: "A história da Colômbia mostra como ela respondeu a grandes Exércitos".

"Não se trata de enfrentar um grande Exército com armas que não temos. Nós nem sequer temos defesas antiaéreas. Em vez disso, contamos com as massas, com nossas montanhas e nossas selvas, como sempre fizemos."

Petro confirmou que também conversou com Delcy Rodríguez, presidente interina da Venezuela e ex-vice-presidente e ministra do Petróleo, e a convidou para visitar a Colômbia.

Ele afirmou que a Venezuela "há muito tempo é alvo de interferência de várias agências de inteligência", acrescentando que, embora essas agências tenham permissão para atuar na Colômbia, isso ocorre exclusivamente para o combate ao tráfico de drogas. Petro denunciou tentativas do que classificou como outras "operações secretas" no país.

Ele não comentou diretamente quando foi questionado se temia que a CIA realizasse na Colômbia operações secretas semelhantes às que, segundo ele, ocorreram na Venezuela, ou se temia que seu próprio governo ou círculos próximos pudessem ter informantes.

Maduro foi capturado pela Força Delta, principal unidade de contraterrorismo do Exército dos EUA, após uma fonte da CIA dentro do governo venezuelano ajudar os EUA a rastrear a localização do líder venezuelano.

Sendo a maior produtora mundial de cocaína, a Colômbia é um dos principais polos do tráfico global de drogas. O país também possui reservas relevantes de petróleo, além de ouro, prata, esmeraldas, platina e carvão.

Os EUA afirmaram que irão controlar as vendas de petróleo venezuelano "por tempo indeterminado", enquanto se preparam para reverter restrições impostas ao petróleo bruto do país nos mercados globais.

Falando a bordo do Air Force One (a aeronave presidencial dos EUA) após a operação na Venezuela, Trump descreveu Petro como um "homem doente que gosta de produzir cocaína e vendê-la aos EUA" e acrescentou: "Ele não vai continuar fazendo isso por muito tempo".

Petro negou as acusações, afirmando que "sempre ficou provado que não estou envolvido nisso".

"Há 20 anos luto contra os cartéis de drogas, ao custo de minha família ter de ir para o exílio", disse.

Ex-guerrilheiro, Petro adotou desde o início do mandato uma estratégia de "paz total", com prioridade ao diálogo com grupos armados. Críticos afirmam que a abordagem foi leniente demais, em um contexto de recordes na produção de cocaína.

Questionado sobre o que deu errado e se aceitava ser responsabilizado, Petro disse que o crescimento do cultivo de coca está desacelerando e descreveu "duas abordagens simultâneas".

"Uma é conversar sobre paz com grupos que são criminosos. A outra é desenvolver uma ofensiva militar contra aqueles que não querem a paz", afirmou.

Segundo Petro, há negociações em curso no sul da Colômbia, "onde ocorreu a maior redução no cultivo de folhas de coca" e "onde a taxa de homicídios mais caiu no país". A cocaína é produzida a partir das folhas da planta da coca.

A política de diálogo, afirmou, tem como objetivo "desescalar a violência". E acrescentou: "Não somos ingênuos, sabemos com quem estamos negociando".

¨      Os venezuelanos que se opõem a Maduro e também a Trump: 'É como um vilão te salvando de outro'

"É como se um vilão estivesse salvando você de outro."

É assim que Gabriel (nome fictício) descreve o que sente em relação aos acontecimentos dos últimos dias no seu país, a Venezuela.

Gabriel é migrante* (deixou a Venezuela), latino e faz parte da comunidade LGBTQIA+. Ele afirma que representa "tudo o que Donald Trump é contra".

Por isso, ele critica as políticas do presidente dos Estados Unidos. Mas também é forte opositor de Nicolás Maduro.

"O chavismo fez com que eu precisasse emigrar da Venezuela da noite para o dia, com US$ 250 [cerca de R$ 1,3 mil] no bolso", ele conta. "Precisei começar do zero em outro país e fiquei impossibilitado de ver minha família por 10 anos."

Gabriel conta que, agora, se sente em um limbo.

"Parece que as pessoas não conseguem compreender como é possível ficar contra as duas posições", segundo ele. "É difícil fazer com que elas entendam este ponto intermediário."

"No meu círculo próximo, nos encontramos nessa batalha interna. Sem dúvida, fico alegre ao ver Maduro algemado. Mas, por outro lado, preciso agradecer a Trump por isso?"

Na narrativa do mundo atual, que parece fazer com que tudo seja branco ou preto, Gabriel e as demais pessoas entrevistadas para esta reportagem fazem parte desta ampla variedade de tons de cinza que compõem a Venezuela.

São as pessoas que, mesmo sendo opositoras de Maduro e do chavismo, também são contrários a Donald Trump e às ações tomadas pelo governo americano nos últimos dias.

Todos os entrevistados conversaram com a BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) em condição de anonimato.

<><> 'Os gringos nos invadiram'

"Acordei com os bombardeios", conta Ana, da sua casa na capital venezuelana, Caracas. "Estou perto do Forte Tiuna [um dos pontos atacados] e pensei: 'Caramba, os gringos nos invadiram!'"

"Isso é trágico, muito doloroso. Quando vejo as fotos dos destroços, me sinto mal."

"No primeiro dia da invasão, acabei chorando de ansiedade", relembra ela. "É muito forte."

Pela educação que recebeu, Ana é de esquerda e contrária a tudo o que relembre o intervencionismo americano.

"A América Latina tem um histórico terrível toda vez que os Estados Unidos têm algum capricho ou acreditam que algum presidente não deveria governar, como no caso do ex-presidente do Chile, Salvador Allende [1908-1973], por exemplo", relembra ela.

"Por isso, cada vez que ouvia a ideia de que Trump poderia invadir a Venezuela, eu tentava explicar que isso seria contraproducente para nós", conta Ana.

"Um político pedir a invasão é o contrário da política, pois significa que você é incapaz de conseguir alguma coisa."

Neste particular, Ana critica a líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, por dizer que "sozinhos, não podemos sair do chavismo" e por ter invocado o TIAR [Tratado Interamericano de Assistência Recíproca] para intervir no país. "O que ela queria era que retirassem Maduro para que ela passasse a governar."

Um olhar treinado para os tons de cinza da Venezuela talvez pudesse dizer que Ana é chavista, mas ela é árdua opositora do regime.

"Nunca aprovei os chavistas", ela conta. "Sempre fiquei com um pé atrás por Hugo Chávez [1954-2013] ser militar. E, depois, ele se tornou mais autoritário e conseguiu manipular o sistema para ficar no poder."

"Nós brincávamos que não havia nada pior do que Chávez. E ficamos com Maduro — zero carisma e brutalidade total."

"A repressão foi a marca característica do seu governo, ao lado da crise econômica, que explodiu com ele e foi terrível", lamenta Ana.

O posicionamento de Ana fez com que ela fosse atacada inúmeras vezes.

Nos últimos dias, se intensificaram os ataques a todos os que saem da linha considerada dentro de uma "postura chavista" ou de uma "postura opositora" na Venezuela.

Gabriel afirma que foi assustadora a quantidade de comentários e ataques, sem falar na exacerbação da xenofobia, observada principalmente nas redes sociais.

<><> Sem comemorações

Atualmente, ser venezuelano é vivenciar muitas emoções de cada vez.

E, embora as imagens de venezuelanos comemorando a foto de Maduro "com algemas" tenham dado a volta ao mundo, pessoas como Gabriel nem mesmo pensam em comemorar.

Para ele, "é muito complexo. O que tanto sonhávamos está acontecendo, mas nos sentimos um pouco culpados."

"Além disso, somos cautelosos nas redes sociais, pois a primeira leitura que fazem é 'aqui está o venezuelano comemorando o imperialismo'."

O mesmo se passa com Laura. Como Gabriel, ela também precisou emigrar do país.

Laura também não comemorou o ocorrido na madrugada de 3 de janeiro. Ela vive pesarosa com o intervencionismo, "tanto este de Trump quanto a clara intervenção da Rússia e da China no meu país".

"Por isso, estou confusa com tudo o que está acontecendo e sinto uma espécie de alívio, um resquício de esperança por ver este homem e sua esposa frente à justiça. Sentimos uma porção de coisas ao mesmo tempo."

Em cada setor da vida de Laura, ela tenta "servir de ponte" entre duas posições que parecem intransponíveis, para que "a narrativa da Venezuela seja construída de forma complexa", não apenas em uma dicotomia entre branco e preto.

"Me chamam de 'morna'", ela conta. "E isso vem da parte radical da esquerda e da parte radical pró-Trump."

"Não é que eu queira ficar bem com todo mundo, mas sim falar de realidades complexas. E isso não diminui minha integridade moral e ética, pelo contrário."

Laura reconhece que é difícil "manter a equanimidade, pois a experiência da ditadura está incorporada no corpo, na própria carne, no que nos coube ver e viver".

Mas, como venezuelana, ela também viveu "na polarização e como ela foi capitalizada pelo poder e pelas forças políticas para fortalecer um ódio que, a longo prazo, nos prejudicará a todos".

<><> A Venezuela através de dois prismas

Tanto Gabriel quanto Laura reconhecem que foi frustrante observar que, nestes últimos dias, as pessoas tentaram simplificar a questão venezuelana segundo o prisma ideológico de cada um.

"O êxodo migratório, os protestos de 2016 e 2017, as eleições roubadas de 2024, a problemática dos presos políticos nos últimos anos, sentir que, em diversas ocasiões, levantamos a voz, pedimos que nos ajudassem a divulgar, a se juntar à causa...", relembra Gabriel.

"Nos últimos dias, senti que, apesar de tudo o que denunciamos tantas vezes na Venezuela, parecia que ninguém havia ouvido, lido nem visto."

Laura insiste no seu sentimento mais profundo: a solidão do venezuelano.

"Ninguém pode dizer que não tentamos de tudo", segundo ela. "A opinião pública e a esquerda internacional nos mantiveram abandonados por anos."

"Fomos abandonados pelo próprio Estado, para quem não fomos prioridade, nem para os Estados Unidos. É desolador."

Gabriel destaca que os ataques e a incompreensão não chegam apenas pelas redes sociais. Elas também são trazidas pelos seus conhecidos e colegas de trabalho.

"Parece que os últimos dias se resumiram a 'os venezuelanos estão comemorando a invasão norte-americana porque simplesmente odeiam o chavismo'. E a questão é mais complexa do que isso."

Ana faz um balanço de toda a situação.

"O que a invasão nos trouxer? Valeu a pena?", questiona ela. "Todas as vidas perdidas, tudo o que foi destruído. O que se conseguiu de bom?"

"Levaram Maduro e Cilia Flores. Eu os detesto. Mas, segundo os tratados internacionais, nenhum país tem o direito de se meter em outro para sequestrar um presidente."

"Agora, seremos o feudo neocolonial dos Estados Unidos, com Delcy Rodríguez mandando, mas de forma neoliberal", segundo Ana.

Laura destaca que, muitas vezes, no debate sobre a situação venezuelana, "perdemos de vista que, na Venezuela, a prioridade é a vida, que há pessoas sofrendo e que há coisas que são simples para muitos, mas difíceis de se obter, como ter luz, água ou falar por telefone na rua".

"Esquecemos que estamos falando de pessoas", conclui ela.

* Os nomes de todos os entrevistados são fictícios, para proteger sua identidade. Pelo mesmo motivo, a reportagem não especifica o local onde se encontram os dois entrevistados que deixaram a Venezuela.

 

Fonte BBC News

 

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