Rafael
Oliveira: Acordo Mercosul e União Europeia
- o que brasileiros têm (ou não) a comemorar
Foram
mais de 26 anos de negociação para o acordo entre Mercosul e União Europeia
(UE) ser aprovado pelo Conselho Europeu. Ele deve ser assinado pela presidente
da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, no próximo sábado (17), no
Paraguai. Em seguida, irá para ratificação do Parlamento Europeu e do
legislativo dos quatro países que compõem o Mercosul (Argentina, Brasil,
Paraguai e Uruguai) – o que ainda não tem prazo para ocorrer. De acordo com uma
estimativa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Brasil será o
maior beneficiado pelo acordo – ao menos em parâmetros econômicos. Segundo a
instituição, a assinatura do tratado pode elevar o PIB brasileiro em 0,46% (9,3
bilhões de dólares, considerando valores constantes de 2023) até 2040, um
índice superior ao crescimento projetado para os demais países do Mercosul e
para a União Europeia. O Ipea também estimou um crescimento de 1,49% nos
investimentos no país. Dados divulgados pelo Itamaraty trazem um cenário um
pouco mais modesto, mas ainda assim positivo: 0,34% de crescimento no PIB (R$
37 bilhões) e aumento de 0,76% no investimento (R$ 13,6 bilhões) até 2044.
O
tratado cria a maior zona de livre comércio do planeta e prevê que cerca de 90%
dos produtos negociados entre os países do bloco sejam total ou parcialmente
isentos de tarifas. Parte deles serão isentos assim que o acordo passar a
vigorar, enquanto outros produtos terão redução gradual, alguns de maneira mais
célere e outros em prazos que ultrapassam 15 anos, como é o caso dos veículos
elétricos fabricados pela UE. Alguns produtos agrícolas considerados sensíveis
para a economia, como a carne bovina e o etanol exportados pelos
sul-americanos, e os queijos exportados pelos europeus, terão cotas, sendo que
os montantes que excederem esses limites serão tarifados.
Para a
assessora política do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), Carolina
Alves, entretanto, a análise do Acordo não deve se resumir à balança comercial
e o aumento da economia. Ela aponta motivos de preocupação, tanto do ponto de
vista socioeconômico quanto na seara ambiental, como na transparência e na
participação da sociedade civil. “Quando a gente olha para a balança comercial,
temos uma possibilidade muito grande de um ganho econômico, principalmente em
relação à exportação dos nossos produtos da agropecuária e da mineração. Mas
não dá para olhar só para a balança comercial”, aponta. Para ela, um aumento da
demanda das commodities brasileiras na Europa vai acabar direcionando ainda
mais esforços e investimentos para o agronegócio, em detrimento do
desenvolvimento industrial do país – setor que pode acabar enfraquecido pelo
acordo, até pela maior concorrência de produtos da União Europeia.
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Por que isso importa?
O
acordo entre Mercosul e União Europeia começou a ser negociado em 1999, no
governo de Fernando Henrique Cardoso. Assinado em 2019, o tratado ainda será
ratificado pelo Parlamento Europeu e pode passar, em alguns trechos, pela
aprovação dos parlamentos de alguns países da União Europeia.
A
assessora política do Inesc também destaca que esse aumento na demanda dos
setores primários pode prejudicar os compromissos climáticos do país. “A gente
está falando de um aumento na produção dos setores que são o maior vetor de
desmatamento da nossa economia. Com o acordo, vamos precisar de mais terras
para produzir as culturas e vamos emitir mais, sem falar nos impactos no solo,
nas águas, nos povos indígenas e nas comunidades tradicionais”, diz Alves. Para
a especialista, o ideal seria voltar à mesa de negociação para garantir
salvaguardas ambientais – o que, ela admite, não deve ocorrer. Apesar das
ressalvas, a assessora política faz questão de frisar que o Inesc “não é contra
o comércio entre os blocos”. “Nós somos contra esse comércio desigual, que vai
nos colocar nessa posição de estar vendendo nossos produtos primários e
recebendo produtos de maior valor agregado. É um acordo que pensa em comércio
primeiro, meio ambiente depois. Comércio primeiro e sociedade, povos indígenas
e comunidades tradicionais depois”, afirma.
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Benefícios à indústria vão depender de políticas internas
Mais
otimista em relação ao tratado, a professora de Relações Internacionais da
Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Regiane Bressan, afirma que o
acordo deve trazer benefícios ao bolso do consumidor brasileiro assim que
começar a vigorar, com a redução dos preços de produtos importados do
continente europeu. Vinhos, queijos e lácteos, azeite, chocolates e alguns
destilados devem chegar mais baratos ao continente sul-americano. Se, em um
primeiro momento, a tendência é que essa diminuição beneficie em especial as
classes mais altas, a pesquisadora crê que o benefício alcance uma maior fatia
da população no médio prazo, com o crescimento do país ao longo dos anos.
Na
visão de Bressan, ainda que alguns setores da indústria brasileira, como a
química e a de cosméticos, possam sofrer com uma maior concorrência da
contraparte europeia, mais competitiva, é sim possível que os benefícios do
acordo também alcance esse setor. “Vai depender de como os governos criam
políticas para se aproveitar de um acordo como esse, por exemplo, para
facilitar a importação de tecnologias e insumos para a gente melhorar a nossa
indústria”, afirma a pesquisadora. “Não é porque a gente está negociando com a
Europa que, fatalmente, a gente tem que se tornar um país só da agropecuária.
Nós vamos ter um ganho muito grande nessa área, mas a gente não pode se limitar
a isso, temos que ter políticas para contornar isso”, aponta.
Se
essas políticas vão ser criadas? Depende de quem será o próximo presidente, diz
Bressan. “Falando do presente, eu acho que a gente poderia fazer mais. O
agronegócio é um setor muito forte, que apela muito pelas vantagens em seu
entorno, isso acaba desviando um pouco os esforços para ele. Cabe ao governo
ampliar os recursos e, sobretudo, ampliar as estratégias para a gente fazer uma
nova industrialização”, avalia. Já em relação à questão ambiental, a professora
da Unifesp afirma que dependerá “menos do acordo e mais das políticas que
estamos implementando”. “Eu não sei se estou sendo muito otimista, mas acho que
negociar com a Europa [em termos ambientais] é menos pior do que com a China
[maior parceiro comercial do país], que não está nem um pouco preocupada”, diz.
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Assinatura tem mais a ver com contexto geopolítico do que com comércio
A
negociação do acordo Mercosul-UE, iniciada ainda no século passado, em um
contexto de governos neoliberais, passou anos interrompida por conta de
divergências relacionadas a questões agrícolas, às instabilidades políticas na
América do Sul e ao protecionismo europeu. O diálogo foi retomado em meados da
década de 2010 e União Europeia e Mercosul anunciaram a conclusão técnica em
2019. A permanência de desacordos quanto a exigências ambientais – em um
momento em que o Brasil sob Bolsonaro via os índices de desmatamento escalarem
–, no entanto, seguiu travando a assinatura. Esse impasse foi resolvido no
âmbito técnico entre 2023 e 2024, quando os negociadores dos blocos enfim
fecharam o texto e o tema de meio ambiente saiu da seara comercial e passou
para a arena da cooperação. A despeito disso, a oposição de setores agrícolas
na Europa seguiu sendo um impedimento a uma conclusão política do acordo.
Apenas recentemente, quando o governo da Itália passou a apoiar o tratado e a
UE prometeu um benefício econômico bilionário aos agricultores, é que a
aprovação no Conselho Europeu se mostrou viável.
Para a
professora Regiane Bressan seguem existindo “divergências internas dos países
da União Europeia, mas o acordo surge como uma alternativa aos desafios
globais”, em um contexto de “tarifaço” dos Estados Unidos de Donald Trump. “O
acordo perpassa muito mais por questões estratégicas do que meramente por uma
liberalização tarifária. Tem a ver com um interesse e um desejo geopolítico da
União Europeia de resgatar a sua área de influência aqui na América Latina,
frente aos países dos BRICS, sobretudo a China, em termos econômicos, e também
frente aos EUA, que estão às avessas com o multilateralismo, com as
organizações internacionais e com a ordem econômica internacional”, explica.
A
despeito disso, a votação do acordo no Conselho Europeu foi apertada, e a
maioria qualificada exigida (15 dos 27 Estados-membros, que precisavam
representar 65% da população do bloco) foi atingida por pouco. A oposição ao
acordo, derrotada, foi capitaneada pela França e pela Polônia, impulsionadas
justamente por seus setores agrícolas. Também votaram contra a Irlanda, a
Áustria e a Hungria, enquanto a Bélgica se absteve, de acordo com a agência
Reuters. Para Bressan, apesar dos embates, a tendência é que o acordo seja de
fato ratificado pelo Parlamento Europeu e pelos países do Mercosul e passe a
vigorar. As disposições que não tratam exclusivamente de aspectos comerciais ou
tarifários, no entanto, como acordos técnicos sobre patentes, direitos autorais
e compras governamentais, precisarão ser aprovadas nos parlamentos de cada país
da União Europeia, em um caminho mais complexo.
O bloco
europeu é composto por Alemanha, Áustria, Bélgica, Bulgária, Chipre, Croácia,
Dinamarca, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Estônia, Finlândia, França, Grécia,
Hungria, Irlanda, Itália, Letônia, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Países Baixos,
Polônia, Portugal, República Tcheca, Romênia e Suécia. A UE é a segunda maior
parceira comercial do Mercosul tanto em relação a exportações quanto a
importações, atrás apenas da China. Além de Argentina, Brasil, Paraguai e
Uruguai, o bloco sul-americano também é composto pela Venezuela, mas o país
está suspenso desde 2017 por “ruptura da ordem democrática” e não está
envolvido no acordo, ao menos por ora. A Bolívia aderiu ao bloco oficialmente
no ano passado, mas ainda não adota as disposições tarifárias do Mercosul, o
que deve ocorrer até 2028. Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Panamá, Peru e
Suriname, são associados ao bloco, mas não serão impactados pelo acordo. Somados,
Mercosul e União Europeia totalizam 718 milhões de pessoas e alcançam um PIB
de cerca de 22 trilhões de dólares (R$
120 trilhões). Atualmente, a balança comercial entre Brasil e UE é levemente
favorável para os europeus. Em 2025, foram 49,8 bilhões de dólares em
exportações e 50,3 bilhões de dólares em importações. O fluxo comercial com o
bloco representa quase 16% do comércio exterior brasileiro. De acordo com a
presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, as exportações da UE
para o Mercosul devem crescer quase 50 bilhões de euros (R$ 311,5 bilhões) até
2040, enquanto as exportações do Mercosul poderão aumentar em até 9 bilhões de
euros (R$ 56 bilhões) com o acordo.
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Por que França e outros países europeus são contra acordo
entre Mercosul e União Europeia
Cerca
de 700 milhões de pessoas unidas em uma única zona comercial. Essa é a proposta
do acordo firmado entre o Mercosul e a União Europeia (UE), que criará uma das
maiores áreas de livre comércio do mundo. O acordo multilateral entre
Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Bolívia e os 27 Estados do bloco
comercial europeu contrasta com a política de tarifas, nacionalismo e acordos
bilaterais adotada pelos Estados Unidos desde a chegada de Donald Trump à Presidência.
No entanto, nem todos os países estão satisfeitos. A França lidera, ao lado da
Polônia, Hungria, Áustria e Irlanda, o grupo que se opõe de forma contundente
ao acordo.
Com o
acordo, seriam eliminadas ao longo dos próximos 15 anos tarifas de importação
de 77% dos produtos agropecuários que a União Europeia compra do Mercosul,
incluindo carnes, frutas, grãos e café, alimentos importantes ao agronegócio
brasileiro. Alguns produtos, porém, enfrentarão as chamadas "cotas
tarifárias". As carnes bovinas, por exemplo, terão uma cota de 99 mil
toneladas por ano — ou seja, pelo tratado, o Mercosul poderá exportar essa
quantidade limite com as tarifas reduzidas. Para muitos agricultores europeus,
o acordo representa a abertura do mercado para uma concorrência desleal, já que
esses produtos sul-americanos tendem a ser mais baratos em razão de custos
trabalhistas e ambientais mais baixos.
Nesta
semana, agricultores franceses voltaram a ocupar as ruas em protesto contra o
acordo. Cerca de 350 tratores invadiram a icônica avenida Champs-Élysées, em
Paris (capital francesa), e acamparam nas proximidades do edifício do
Parlamento. Os protestos refletem um profundo mal-estar no setor agrícola
francês, e a assinatura prevista do acordo entre a União Europeia e o Mercosul
é vista como a gota d'água.
Os
tratores de agricultores irlandeses também se fizeram ouvir nas últimas
semanas. Dezenas ocuparam em massa as estradas de Athlone (Irlanda), no centro
do país, exibindo faixas com slogans como "Pare UE-Mercosul" e a
bandeira da União Europeia com a palavra "vendidos". O mesmo ocorreu
na Polônia, Hungria e Áustria: estradas bloqueadas, agricultores indignados e
tratores nas capitais cobrando de seus parlamentares que reconsiderem um
tratado negociado há 25 anos. As manifestações em toda a Europa acontecem
poucos dias antes de a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen,
viajar ao Paraguai para a assinatura oficial e levar o documento ao Parlamento
Europeu, que precisa dar a aprovação final a um acordo destinado a impulsionar
de forma significativa os laços comerciais entre os signatários.
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Concorrência 'desleal'
O temor
generalizado em alguns países europeus é o de perda de renda em um setor
submetido a normas de produção consideradas muito mais rigorosas do que as
sul-americanas, o que implica custos mais elevados.
Especialistas
concordam que as diferenças nas regras sanitárias e de bem-estar animal entre o
bloco do Mercosul e o europeu são significativas. Na União Europeia, há normas
rígidas sobre rastreabilidade, uso de pesticidas, hormônios e bem-estar animal.
Há receio de que produtos importados não cumpram padrões equivalentes, mas
ainda assim concorram em preço, um ponto que gera rejeição tanto entre
produtores quanto entre consumidores. "Muitos agricultores franceses já
estão sofrendo com as medidas sanitárias adotadas pelas autoridades para
controlar a crise da dermatose nodular no rebanho", afirma Benjamin
Melman, CIO da Edmond de Rothschild AM, de Paris.
Em
2019, quando o acordo parecia concluído, preocupações ambientais se tornaram um
grande ponto de atrito, impedindo o avanço das negociações desde então. Segundo
diversos estudos de simulação, é provável que o acordo comercial União
Europeia-Mercosul beneficie a França de forma geral, mas com efeitos
distribuídos de forma desigual. "Os vencedores estariam na indústria e nos
serviços, enquanto os custos do ajuste recairiam sobre setores da agricultura,
especialmente carne bovina, aves, açúcar e etanol, nos quais as importações de
concorrentes do Mercosul poderiam ser significativas", explica Germán
Ríos, professor de economia e diretor do Observatório da América Latina da IE
University (Espanha) à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC. Esses
setores agrícolas são altamente organizados e exercem influência política na
França, o que ajuda a explicar a intensidade da oposição interna ao acordo. Para
o professor Ríos, há dois riscos claros para os agricultores. O primeiro é a
possibilidade de gerar perdas localizadas, que poderia levar ao fechamento de
propriedades rurais e à perda de empregos nas regiões afetadas.
O
segundo risco é de natureza fiscal para o país como um todo. "Se os
subsídios de compensação e ajuste forem elevados, podem ampliar o déficit e a
dívida pública, o que pode exigir cortes de gastos em outras áreas ou impostos
mais altos ao longo do tempo", afirma. "O impacto desigual do acordo
divide os Estados membros. Uma coalizão de apoio é liderada pela Alemanha, que
vê no Mercosul um mercado de exportação lucrativo, especialmente para seu setor
automotivo, que atravessa uma crise", afirma Max Maton, economista da
Oxford Economics (Reino Unido).
Em
concordância com Maton, François Rimeu, estrategista sênior da Crédit Mutuel AM
(França), observa que, "embora o acordo seja muito positivo para certas
indústrias europeias, como o setor automotivo, terá efeito mais negativo em
outras, como a agricultura". Por isso, explica Rimeu, é fácil entender por
que a Alemanha apoia firmemente o acordo, enquanto a França se mostra muito
menos entusiasta. Do ponto de vista político, a França enfrenta uma situação
delicada, já que o governo não possui maioria no Poder Legislativo.
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Política interna e geopolítica
"As
eleições se aproximam. O descontentamento é grande e os políticos parecem
dispostos a explorar a situação. Portanto, embora o impacto do acordo com o
Mercosul na economia francesa possa ser, em geral, misto, compreendemos que o
governo queira garantir que não haja uma onda de protestos por parte daqueles
que saem perdendo no setor agrícola", explica Melman, da Edmond de
Rothschild AM. Em países como a Polônia e a Irlanda, o setor agropecuário
também tem peso eleitoral, de modo que aceitar o acordo pode implicar custos
políticos internos.
Uma vez
plenamente implementado, o acordo significará que os exportadores da União
Europeia economizarão cerca de US$ 4,6 bilhões (aproximadamente R$ 24,7
bilhões) por ano em tarifas, principalmente em produtos químicos e
farmacêuticos, máquinas industriais em geral e automóveis. Mas, para muitos
analistas, o acordo do Mercosul é mais estratégico do que macroeconômico e
ajudaria a reduzir a influência chinesa na região. "As implicações
econômicas e os benefícios para empresas de capital aberto são modestos, mas o
acordo comercial fortalece a posição geopolítica da União Europeia na América
do Sul", avalia Nenad Dinic, do Equity Strategy Research da Julius Baer
(Suíça).
Maton,
da Oxford Economics, concorda com este ponto: "O impacto econômico total
do acordo será modesto se for aprovado definitivamente. No entanto,
politicamente, ele reflete um compromisso com o multilateralismo e o livre
comércio, que parece estar em declínio diante das crescentes tensões
geopolíticas, da transição para acordos bilaterais e da chegada de Trump
[presidente dos Estados Unidos, que assumiu o cargo em 2025]."
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Minerais críticos
"Estrategicamente,
o Mercosul ajudaria a União Europeia a se diversificar além da China como fonte
de minerais críticos, vitais para a transição verde e para as cadeias de
suprimentos relacionadas à defesa", acrescenta Maton. O acordo permitiria
à União Europeia acesso muito melhor aos abundantes minerais críticos dos
países do Mercosul, por meio da eliminação de impostos sobre exportações. Argentina,
Brasil, Paraguai, Uruguai e Bolívia concentram uma parte considerável dos
recursos mundiais de lítio, grafite e níquel.
Em um
momento em que o protecionismo comercial parece estar em alta, cinco países da
América do Sul optaram por estreitar seus laços com a Europa e aceitar que, em
algumas indústrias, haverá vencedores e, em outras, perdedores. E isso é algo
que dificilmente se pode evitar.
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Impactos do acordo para o Brasil
O
acordo prevê a redução de tarifas de importação, que pode ser imediata ou
gradual (em até 15 anos), a depender dos setores. Essa liberação vai atingir
91% dos bens que o Brasil importa da União Europeia e, do outro lado, 95% dos
bens que o bloco europeu importa do Brasil.
Caso
entre em vigor, o acordo vai alavancar alguns setores brasileiros
(principalmente o agronegócio) e pode prejudicar outros, mas governo e
economistas têm uma visão otimista sobre o saldo desse impacto para o
crescimento do país. Além disso, pode beneficiar o consumidor, com o potencial
barateamento de produtos importados, como azeites, queijos, vinhos e frutas de
clima temperado (frutas secas, peras, maçãs, pêssegos, cerejas e kiwis) — esse
impacto, porém, vai ser gradual e pode ser compensando por outros fatores que
afetam os preços dos produtos, como a taxa de câmbio, ressalta o economista
Felippe Serigatti, pesquisador da FGV Agro.
Fernando
Ribeiro, coordenador de estudos de comércio internacional do Ipea, ressalta que
o principal impacto nos preços do consumidor será indireto, ao deixar a
produção brasileira mais barata, devido à importação de máquinas e insumos a
preços menores. "E quando a gente vê os produtos cuja importação mais
cresce [nas simulações sobre o impacto do acordo], são exatamente máquinas,
equipamentos elétricos e outros itens usados como insumos para produção
industrial", reforça Ribeiro.
Segundo
estudo do Ipea divulgado em 2024, haverá crescimento importante da importação
de produtos europeus no Brasil, mas a projeção é que a maior parte vai
substituir artigos que importamos de outras regiões do mundo, como China.
Com
isso, a instituição projeta que o impacto geral do acordo para a balança
comercial brasileira ficaria próximo do zero a zero, ao considerar os efeitos
acumulados entre 2024 e 2040.
Fonte:
Agencia Pública/BBC News Mundo
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