sábado, 17 de janeiro de 2026

Marcia Carmo: O objetivo de Trump sempre foi tirar Maduro do poder. E agora?

O presidente da Argentina, Javier Milei, foi um dos primeiros a comemorar a ação dos Estados Unidos que retirou o presidente venezuelano Nicolás Maduro de Caracas, nesta madrugada. “A liberdade avança”, escreveu Milei em suas redes sociais. Ele ainda postou trechos de seu discurso na última reunião do Mercosul, realizada em dezembro em Foz de Iguaçu, no qual criticou Maduro diante dos presidentes dos países do bloco, incluindo o anfitrião, o presidente Lula.

Abismo cada vez maior e ‘grupo de 10 países da direita e extrema-direita’

Na sua fala, em Foz de Iguaçu, Milei chamou Maduro de ‘narcoterrorista’ e disse que a Venezuela precisava de Trump para ser “libertada”. Sua postagem, neste sábado (3), termina com uma imagem do presidente Lula ao lado de Maduro, num claro ato de Milei de se distanciar ainda mais do líder brasileiro e se associar, mais fortemente ainda, com Trump. Além de uma provocação política no contexto atual.

O abismo político e ideológico entre os presidentes do Brasil e da Argentina é cada vez maior e ocorre quando presidentes de direita e de extrema-direita são eleitos na América do Sul – Chile, com José Antonio Kast, que toma posse em março, Bolívia, com Rodrigo Paz, Equador, com Noboa, Paraguai, com Santiago Peña....

Milei disse que está sendo criado um grupo de dez países da direita e da extrema-direita e que deseja que Trump participe da primeira reunião, neste ano, em Buenos Aires. Ele claramente intensifica sua oposição aos líderes de esquerda, centro-esquerda, do campo progressista e pretende ser o ‘principal apoiador, o ‘pilar’ ou ‘extensão’ das ações de Trump na América do Sul.

<><> Scheiunbaum e Petro estão com Lula e contra Trump

“O México condena e rejeita energicamente as ações militares dos Estados Unidos na Venezuela”, diz o comunicado do país presidido por Claudia Scheinbaum. A presidenta já tinha feito uma série de declarações e postagens defendendo a soberania venezuelana, citando a carta das Nações Unidas e defendendo o diálogo.

O presidente colombiano Gustavo Petro também condenou a ação dos Estados Unidos contra Maduro. Ele já vinha sendo, publicamente, um dos principais críticos dos ataques bélicos do governo Trump nas águas do Caribe Sul, em frente à Venezuela, e do Pacífico, perto da região da Colômbia. Os dois países são vizinhos do Brasil, o maior país da América Latina. Recentemente, os Estados Unidos retiraram o visto de Petro por ele ter participado de uma manifestação pró-Palestina em Nova York, quando foi realizada a Assembleia Geral das Nações Unidas. Neste sábado, logo cedo, ele escreveu em suas redes sociais: “A Colômbia reitera sua convicção de que a paz, o respeito ao direito internacional e a proteção da vida e da dignidade humana devem prevalecer sobre qualquer forma de confronto armado”.

Neste ambiente de forte tensão e preocupação, as declarações do presidente Lula eram aguardadas com ansiedade entre os líderes e analistas da região. “Ultrapassam uma linha inaceitável”, afirmou Lula. “(Os ataques) representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional”, disse.

<><> Repercussão das declarações de Lula

As declarações do presidente Lula tiveram repercussão imediata na imprensa internacional, com destaques no Página 12, de Buenos Aires, e agências internacionais de notícias. Lula, Petro e Claudia Scheinbaum são os líderes opostos a Milei e outros presidentes da direita e da extrema-direita que apoiam Trump. O atual mapa político da América Latina é muito diferente daquele que existiu no inicio deste século, quando o presidente Lula dialogava com seus pares, Mujica, Tabaré, os Kirchner, entre outros.

Neste ano de 2026, serão realizadas eleições – além do pleito no Brasil – no Peru, na Colômbia, no Haiti e na Costa Rica. Mas o foco atual está na América do Sul, principalmente depois que Trump retornou à Casa Branca em janeiro e colocou a mira da sua artilharia na Venezuela.

<><> Seis perguntas ainda sem respostas

Várias perguntas ainda estão sem resposta depois deste ataque direto, dentro do território venezuelano, com a retirada de Maduro de Caracas. Seis destas perguntas, por enquanto:

. O governo Trump contou com ajuda interna (dissidências militares) para chegar a Maduro e a sua esposa Cilia Flores, nesta madrugada? Era público que a CIA estava no país, como chegou a informar o New York Times, em outubro.

. Quem governará a Venezuela? Os principais aliados de Maduro, como a vice-presidenta Delcy Rodriguez, que foi ministra das Relações Exteriores e o ministro do Interior, Diosdado Cabello, foram os primeiros a comunicar nesta manhã de sábado que Maduro tinha sido “capturado e tirado” da Venezuela, exigindo informações sobre seu paradeiro e “prova de vida” dele, antes que Marco Rubio, dos Estados Unidos, afirmasse que ele tinha sido levado para ser “julgado” em Nova York.

. Maria Corina Machado, principal opositora de Maduro, que tem apoio de Trump, de Milei e outros presidentes da região, e que deixou a Venezuela para receber o Prêmio Nobel da Paz, sabia da operação militar para retirar o venezuelano de Caracas neste sábado? Ela disse, nesta semana, que voltaria ‘em breve’ para o país caribenho. Voltará? O que fará?

. Os ataques com mísseis nas águas do Caribe Sul, em frente à Venezuela, que começaram no fim de agosto e início de setembro, acabaram?

. Os EUA tinha iniciado os ataques (então verbais) contra Maduro sob o argumento de que ele era parte de cartéis de tráfico de drogas. Depois passou a afirmar que a questão era o petróleo que pertenceria aos EUA – a Venezuela tem uma das maiores reservas de petróleo do mundo e a América do Sul em seu conjunto possui alguns dos maiores recursos naturais do planeta, como água, lítio, petróleo e gás....

. Como fica o diálogo entre Lula e Trump depois deste sábado, dia três de janeiro de 2026?

¨      Não passou de calúnia: Sem provas, EUA recuam de acusação que atribuía liderança de narcotráfico a Maduro

O governo dos Estados Unidos recuou de uma das principais acusações contra o líder venezuelano Nicolás Maduro e deixou de atribuir ao presidente deposto a chefia de um suposto grupo de narcotraficantes chamado "Cartel de los Soles".

A mudança está em uma nova versão do ato de acusação contra Maduro, tornada pública pelo Departamento de Justiça após a captura do chavista pelos EUA, no último sábado (3).

No documento original, de 2020, Maduro era descrito como o líder do suposto Cartel de los Soles, termo mencionado 32 vezes.

Esse também foi o tom adotado pela gestão de Donald Trump durante todo o ano de 2025, quando o alegado grupo foi declarado como "terrorista" pela Casa Branca.

A nova acusação, no entanto, cita a organização apenas duas vezes, descrevendo-a não como um cartel formal, mas como um "sistema de clientelismo" e uma "cultura de corrupção" alimentada por recursos do narcotráfico.

Segundo a versão atualizada, os lucros do tráfico de drogas "fluem para funcionários civis, militares e de inteligência corruptos em níveis mais baixos, que operam dentro de um sistema de clientelismo gerenciado por aqueles que estão no topo — indicados como Cartel de los Soles, uma referência ao emblema de sol usado nos uniformes de oficiais militares venezuelanos de alto escalão".

De acordo com a acusação, Maduro e seu antecessor, Hugo Chávez, participaram, perpetuaram e protegeram esse suposto esquema de clientelismo.

Especialistas em crime organizado na América Latina há muito argumentam que "Cartel de los Soles" é um termo coloquial criado pela mídia venezuelana nos anos 1990, antes da ascensão de Chávez ao poder, para se referir a redes de funcionários corruptos envolvidos com o narcotráfico, e não a um cartel hierárquico, como os colombianos e mexicanos.

O recuo na caracterização do suposto cartel joga dúvidas adicionais sobre a legitimidade da designação antiterrorista aplicada pelo governo Trump no ano passado, embora as acusações centrais contra Maduro de envolvimento com o narcotráfico permaneçam.

¨      Trump diz que EUA vão supervisionar a Venezuela por no mínimo um ano

O presidente Donald Trump disse que espera que os Estados Unidos supervisionem a Venezuela e administrem suas reservas de petróleo por, no mínimo, um ano.

Em entrevista publicada pelo jornal The New York Times nesta quinta-feira, 8, Trump afirmou que "só o tempo dirá" até quando os EUA supervisão diretamente o país sul-americano.

No entanto, quando questionado se isso significava três meses, seis meses ou um ano, o republicano respondeu: "Eu diria muito mais tempo".

No sábado, 3, um ataque militar dos Estados Unidos capturou o líder venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores. Os dois foram levados a Nova York para serem julgados por ligação com o narcotráfico. Delcy Rodríguez, vice de Maduro, assumiu a presidência interinamente diante do vácuo de poder.

A afirmação do líder americano sobre o domínio dos EUA sobre a Venezuela, dona das maiores reservas de petróleo conhecidas do mundo, ocorre apesar de Rodríguez ter dito logo após a posse que nenhum "agente externo" governa Caracas.

Trump também afirmou que a Venezuela seria "reconstruída de forma muito lucrativa, ressaltando que os EUA estão atualmente "se dando muito bem" com o governo de Rodríguez.

<><> Plano para a Venezuela

Na quarta-feira, o governo Trump deixou claro que ditaria as decisões tomadas pelos líderes da Venezuela e controlaria as vendas de petróleo do país "indefinidamente".

O secretário de Estado americano, Marco Rubio , divulgou que os EUA têm um plano de três etapas para a Venezuela, que envolve estabilização, recuperação e transição. A proposta está diretamente atrelada à abertura do petróleo venezuelano a empresas petrolíferas americanas e, segundo Rubio, previne a Venezuela de "mergulhar no caos".

Pouco antes, o Departamento de Energia americano havia suspendido algumas de suas sanções contra Caracas para permitir o transporte e a venda de petróleo venezuelano no mercado global.

A pasta também indicou que Washington controlará por tempo "indefinido" a distribuição do petróleo venezuelano aos mercados globais. Já o lucro do petróleo sancionado e confiscado pelos EUA ficará retido em contas controladas pelo governo americano antes de ser distribuído.

<><> Venezuela reporta 100 mortos

Também na quarta-feira, o ministro do Interior da Venezuela, Diosdado Cabello, informou que 100 pessoas morreram no ataque dos EUA. Até então, Caracas não havia divulgado um número de mortos. Autoridades venezuelanas disseram que grande parte do contingente de segurança de Maduro foi morta "a sangue frio". Cuba afirmou que 32 membros de suas forças armadas e serviços de inteligência na Venezuela foram mortos.

<><> Trump impõe condições para manter Delcy Rodríguez no poder

O governo de Donald Trump estabeleceu um conjunto rigoroso de exigências para avalizar a permanência de Delcy Rodríguez na presidência da Venezuela. O ultimato de Washington ocorre na esteira da captura de Nicolás Maduro e sinaliza uma tutela direta sobre a transição política no país sul-americano. Para manter o cargo, Rodríguez deverá romper alianças estratégicas com Cuba e Irã, além de priorizar petroleiras dos Estados Unidos na exploração das reservas nacionais.

O desenho do pacto revelado pelo site Politico e confirmado por diplomatas latino-americanos na ONU ao ICL Notícias, prevê que Caracas interrompa imediatamente o fornecimento de petróleo a adversários dos EUA. A estratégia visa não apenas garantir o suprimento energético, mas frear tentativas de desdolarização do setor de combustíveis.

Segundo Stephen Miller, assessor de segurança interna da Casa Branca, o novo governo venezuelano já sinalizou submissão: as autoridades enviaram mensagens deixando “claro que irão cumprir os termos, demandas, condições e requisitos dos Estados Unidos”, afirmou durante entrevista à CNN.

<><> Petróleo sob gestão americana

A reconstrução da infraestrutura petrolífera venezuelana, degradada por anos de subinvestimento e sanções, é a espinha dorsal do plano de Trump. O presidente americano sugeriu que Washington pode subsidiar os esforços de empresas como Exxon Mobil, Chevron e ConocoPhillips para retomar a produção em larga escala.

Em entrevista à NBC News, Trump estimou que o setor poderia estar em pleno funcionamento em menos de 18 meses, embora especialistas projetem um prazo de até uma década.

“Uma quantidade tremenda de dinheiro terá de ser gasta, e as empresas de petróleo vão gastar, e depois serão reembolsadas por nós ou por meio de receitas”, afirmou o republicano. Para Trump, uma Venezuela produtora é vital para “reduzir os preços do petróleo” no mercado global.

Apesar do otimismo da Casa Branca, as grandes companhias mantêm cautela. A Chevron, única gigante que ainda opera no país, afirmou estar focada na integridade de seus ativos, enquanto a ConocoPhillips classificou como “prematuro especular sobre quaisquer atividades comerciais”.

<><> O isolamento da oposição e o adiamento de eleições

A estratégia americana para Caracas também promove um rearranjo nas forças políticas locais. A Casa Branca tem adotado um tom de distanciamento em relação a María Corina Machado, principal líder da oposição e vencedora do Nobel da Paz de 2025. Trump minimizou o papel de Machado, descrevendo-a como uma figura sem apoio suficiente para garantir a estabilidade doméstica.

A prioridade de Washington, no momento, seria evitar um vácuo de poder que resulte em crise migratória. Por isso, a realização de novas eleições não é vista como urgente. “Primeiro temos de consertar o país. Não dá para ter uma eleição. Não há como as pessoas sequer conseguirem votar”, declarou Trump.

Enquanto Delcy Rodríguez busca se equilibrar entre as exigências de Washington e a manutenção das instituições internas, Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, enfrentam o sistema judiciário americano. Ambos compareceram a um tribunal federal em Nova York nesta segunda-feira (5), onde Maduro se declarou inocente das acusações de tráfico de drogas e armas.

<><> Reação diplomática e riscos regionais

O avanço da influência americana sobre a gestão de Caracas gera desconforto em vizinhos regionais. Na ONU, o Itamaraty manifestou preocupação com a soberania venezuelana, alertando que a transformação do país em um protetorado dos EUA não seria bem aceita pelo governo brasileiro.

A administração Trump, contudo, mantém o tom de advertência. O secretário de Estado, Marco Rubio, indicou que uma “quarentena” será aplicada a petroleiros sancionados até que o cumprimento integral do acordo seja verificado. Caso o governo interino de Rodríguez recue nas promessas, Trump já advertiu que os Estados Unidos estão preparados para uma ofensiva militar ainda mais agressiva.

 

Fonte: Brasil 247/JB/Reuters/Jornal GGN

 

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