Sidnei
Munhoz: As elites antinacionais, o Congresso e os ataques ao futuro do Brasil
2025 se
encerrou e, de modo abrangente, é possível afirmar que foi um ano melhor do que
o previsto pelos “agentes do mercado”. Alguns deles, de fato, atuam mais como
agentes a serviço de potência estrangeira, regra geral, contra os interesses
nacionais. Outros, agem mais como ventríloquos dos interesses do capital
especulativo, com ramificações espúrias até com o crime organizado. Os juros
definidos pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central continuam
estratosféricos e pressionam a economia a reduzir o seu ritmo. A inflação
desacelera, mas a economia estaciona e às vezes pode até dar marcha à ré. Ainda
não deu, mas é hora de revisar a manutenção dessa taxa de juros que agrada à
grande mídia corporativa e aos bancos que a financiam e a sustentam. Essa
conjuntura intolerável alimenta o rentismo, paralisa o país e, mais do que
isso, endivida e limita a capacidade de ação do Estado.
Em
paralelo, o governo encontra-se acuado por um Congresso mercenário e corrupto,
que açambarca recursos e funções do Poder Executivo, mas sem jamais assumir as
suas responsabilidades. Sejamos claros, temos, quase certamente, o pior
Congresso da história do país, embora possa ainda ficar pior.
Em
2025, assistimos pasmos a um Congresso que, em diferentes ocasiões, procurou
obstaculizar o ritual de um processo de julgamento justo dos golpistas que
pretendiam destruir a democracia, depor e assassinar o presidente da República
e o seu vice, além de executar um ministro do Supremo Tribunal Federal, que
ocupava, à época, a função de presidente do Tribunal Superior Eleitoral.
Sublinhe-se
que os golpistas invadiram e depredaram a própria sede do Congresso Nacional e
do Supremo Tribunal Federal, num acinte à democracia, ao país e ao povo
brasileiro que por maioria havia elegido um novo governante. Como justificar
que parlamentares defendessem quem atentou contra o regime democrático, invadiu
e depredou a própria sede do Congresso? Felizmente, os criminosos foram
julgados e condenados, após o exercício da ampla defesa, conforme os ritos
processuais vigentes. No entanto, o Congresso, em afronta ao ordenamento
jurídico, pretende reverter as penas impostas aos criminosos.
No
mesmo ano, assistimos à farra das emendas parlamentares que funcionam como um
câncer a corroer a capacidade de ação do Poder Executivo. Nessa conjuntura, o
governo, com minoria no Congresso, fica à mercê de uma maioria sem apreço à
democracia e sem projeto de país. Desse modo, acovardado, o governo fica sem
receita para fazer o que lhe compete. Destarte, escasseiam os recursos para
setores prioritários como saúde, educação, infraestrutura e investimentos
decisivos para alavancar o desenvolvimento de tecnologias cruciais a uma
potência com pretensões geopolíticas regionais e globais. Pior ainda, o
dinheiro público sequestrado do Executivo pelo Congresso é utilizado para
alimentar a máquina eleitoral corrupta de parlamentares que se tornam os novos
coronéis das suas regiões. Muitos, é claro, representam a continuidade das
linhagens dos seus antepassados.
Em
síntese, essa farra irresponsável impede o governo de governar, ao privá-lo das
condições para realizar obras e investimentos fundamentais à soberania e ao
desenvolvimento nacional. Em decorrência do exposto, embora o Congresso seja um
dos pilares da nossa democracia, a atual legislatura perverteu o seu sentido ao
minar os valores democráticos e encurralar o governo. A usurpação das
competências governamentais e dos recursos públicos impede o Poder Executivo de
agir conforme os preceitos constitucionais e o mandato popular a ele conferido.
Apesar
disso, o atual governo apresenta alguns dados alvissareiros. Conseguiu
controlar a inflação, tirou novamente o Brasil do mapa da fome, devolveu ao
país o respeito internacional, entre outros tópicos. No entanto, nada disso
convencerá os tacanhos seguidores dos golpistas. Eles estão a postos para
sitiar o governo, em 2026, um ano eleitoral. Nesse cenário, há no mínimo duas
tarefas inadiáveis e entrelaçadas. Apesar das dificuldades para a
governabilidade e a despeito do risco de uma escalada nas tensões, será
necessário confrontar esse Congresso. É óbvio que dentro da lei e da ordem
vigente.
Em
paralelo, será necessário convencer o povo a varrer para o lixo da história,
aqueles que na atual legislatura agiram contra os interesses do país e, em
especial, da população mais pobre. Ou fazemos isso, ou perderemos a grande
oportunidade, talvez derradeira, de tirar o Brasil do berço esplêndido, onde
desde sempre esteve em estado cataléptico por ação e obra das suas elites
antinacionais.
O
Brasil potência precisa romper com esse passado nefasto, reescrever o presente
a assentar os trilhos rumo a um futuro promissor. Mãos à obra!
¨ A engrenagem da
mediocridade. Por Arley Haley Faria
O que
mais me assusta em nosso tempo não é a brutalidade aberta. Não são os gritos,
as ameaças explícitas, os gestos escancarados de violência. Isso a história já
nos ensinou a reconhecer, a nomear, a enfrentar, ainda que nem sempre com
sucesso. O que realmente inquieta é outra coisa: a forma como a mediocridade
ganhou método.
Não
vejo tanques nas ruas, nem golpes clássicos, nem ditaduras declaradas. Vejo um
apodrecimento cotidiano, administrado com a calma burocrática de quem assina um
papel, carimba um documento e segue para o próximo item da pauta. Não é caos. É
engrenagem.
Talvez
isso soe menos dramático do que deveria. Talvez por isso seja tão eficaz. Não
há ruptura visível, não há cena histórica fácil de identificar. O que há é uma
sucessão de pequenas concessões, ajustes, normalizações. A democracia não cai.
Ela se desgasta. Ela range. Ela continua funcionando, mas cada vez mais vazia
por dentro.
Essa
engrenagem não pertence ao passado. Ela está viva, operando agora, disputando o
futuro imediato. Em pleno ciclo eleitoral, figuras que antes pareciam
caricaturas ou personagens laterais agora ocupam o centro da cena. Lideram
pesquisas, moldam o debate público, ganham espaço permanente na mídia. O
absurdo deixou de ser espetáculo. Virou programa. O grotesco deixou de ser
exceção. Tornou-se linguagem política aceitável.
Essa
engrenagem não é movida por gênios maquiavélicos. Pelo contrário. Ela avança
por meio de personagens toscos, muitas vezes intelectualmente limitados, mas
plenamente conscientes do papel que desempenham. Vestem a carapuça, falam para
a plateia que neles se reconhece, acreditam ser protagonistas quando são apenas
peças substituíveis. Mas peças se acumulam. E quando giram juntas, mesmo sem
coordenação explícita, produzem um sistema coerente de erosão democrática.
Nomear não é exagero, é método. Quando o processo é sistêmico, os rostos
importam.
O
primeiro bloco dessa engrenagem é a desumanização simbólica. É ali que vidas
são reduzidas a caricaturas, onde o outro deixa de ser sujeito e passa a ser
objeto de escárnio. Quando Nikolas Ferreira se vestiu de mulher na tribuna para
debochar de pessoas trans, não fez uma piada. Encenou poder. Quando Rodrigo
Amorim quebrou a placa com o nome de Marielle Franco, não foi apenas um gesto
tosco: inaugurou seu mandato com um ritual de apagamento da memória de quem
ousou existir politicamente fora do lugar autorizado. Quando deputados
ruralistas chamaram Marina Silva de mal-educada ou adestrada, não estavam
apenas sendo rudes. Estavam marcando corpos negros, femininos, amazônidas como
alvos legítimos.
Esses
gestos não são excessos isolados. São ensaios. Testes de limite. Pequenos
experimentos para medir até onde se pode ir sem pagar preço. Esse bloco fabrica
inimigos, hierarquiza vidas, cria a sensação de que há cidadãos descartáveis.
Não é destempero. É pedagogia. Ensina quem pode ser humilhado. Ensina quem não
merece luto. Ensina quem pode ser apagado.
Sobre
esse terreno floresce o segundo motor da engrenagem: o ataque sistemático ao
conhecimento. A anti-intelectualidade deixa de ser ignorância espontânea e se
converte em identidade política. Cleitinho constrói sua persona dizendo que
estudo atrapalha e que coragem resolve. Ricardo Salles mente sobre dados
ambientais, persegue fiscais, transforma o desmonte da fiscalização em símbolo
de liberdade econômica. Bia Kicis transforma tribunais e universidades em
centros permanentes de conspiração. Carla Zambelli saca uma arma em via pública
e ainda assim se apresenta como vítima do sistema.
Aqui, a
ignorância não é falha. É performance. O desprezo ao saber vira prova de
autenticidade. A tosquice passa a ser lida como coragem. A engrenagem captura
um ressentimento real contra instituições que prometeram muito e entregaram
pouco e o devolve em forma de desprezo sistemático por qualquer mediação
racional.
Com os
inimigos fabricados e o conhecimento corroído, abre-se espaço para o terceiro
bloco: o desmonte gerencial. Ele não grita. Administra. Opera em silêncio,
embalado em planilhas, relatórios, discursos de eficiência. Romeu Zema
privatiza e terceiriza serviços essenciais em nome da modernização. Tarcísio de
Freitas fragmenta a educação pública e vende infraestrutura como se fosse
entulho. Paulo Guedes reduziu a fome a detalhe contábil e tratou o Estado como
obstáculo moral ao progresso.
Eles
não são incompetentes. São eticamente achatados, administrativamente frios,
moralmente indiferentes às consequências humanas do que fazem. Esse bloco se
apresenta como racionalidade técnica, como se fosse neutro, inevitável.
Direitos viram custos. Vidas viram números. O público perde sentido. Não há
vilão evidente, apenas decisões difíceis. O grotesco distrai. A planilha passa.
E é
aqui que as engrenagens se acoplam: o grotesco produz ruído, o ruído consome
indignação, a indignação consumida reduz vigilância, a vigilância reduzida
facilita o desmonte técnico. Nada disso é acidental.
Nenhuma
engrenagem dessa magnitude funciona sem amortecimento. E é aí que entra uma
haste silenciosa, quase invisível: a hibernação moral. A indignação vira
cansaço. O cansaço vira cinismo. O cinismo vira adaptação. Nada é exatamente
aceitável, mas tudo passa a ser tolerável. Esse bloco não é operado pelos
fanáticos, mas pelos razoáveis. Pelo cidadão que suspira e muda de assunto.
Pelo profissional que prefere não se expor. Pelo progressista exausto que já
viu isso antes e decide poupar energia. Quando autoridades debocham de mortos
da pandemia, quando políticas públicas são desmontadas sem alarde, quando o
inaceitável se repete, a reação vem fraca, protocolar, cansada. Um comentário
indignado. Um post. Depois, silêncio.
A
hibernação moral não cria monstros. Ela cria o ambiente em que monstros não
precisam mais se justificar. Esse ambiente encontra seu acelerador máximo no
bloco digital-performático. A política deixa de ser espaço de decisão e se
converte em palco permanente. Não se governa, se encena. Não se argumenta, se
viraliza. O gesto importa mais que a consequência. O personagem vale mais que o
projeto.
O
algoritmo não é neutro. Ele seleciona, amplifica, normaliza. Transforma
grotesco em rotina, violência simbólica em entretenimento, escândalo em hábito.
A saturação não é efeito colateral. É estratégia. Impedir o silêncio. Impedir a
pausa. Impedir a reflexão. Tudo acontece o tempo todo para que nada seja
realmente enfrentado.
Basta observar os gestos. Donald Trump assinando decretos diante das câmeras
como quem apresenta um truque de palco, a plateia reagindo antes mesmo de saber
o conteúdo. Javier Milei empunhando uma motosserra em comícios, transformando o
desmonte do Estado em espetáculo físico, quase infantil. Não são
excentricidades locais nem folclore político. São encenações replicáveis. O
gesto vem antes da política. A imagem precede a consequência. Quando o mesmo
teatro se repete em línguas diferentes, fica claro que não se trata de
improviso nacional, mas de um método que atravessa fronteiras.
Seria
um erro ler tudo isso como fenômeno exclusivamente brasileiro. A engrenagem
opera em rede. Narrativas, estratégias, personagens e gestos circulam
internacionalmente com rapidez. O que parece improviso local é, muitas vezes,
fórmula testada em outros lugares. Trump, Bannon, Orbán, Milei. Mudam os
sotaques, não o método. O grotesco é exportável. A anti-intelectualidade é
replicável. A desumanização é adaptável a qualquer contexto. O Brasil não
inventa essa engrenagem. Ele a importa, a tropicaliza, a acelera.
A
engrenagem aprende. Ela testa limites, substitui peças, corrige excessos,
recalibra o tom. Quando uma figura se desgasta, outra surge com linguagem mais
polida, menos ruidosa, mais palatável. O método permanece. Apenas muda a
embalagem. Em períodos eleitorais, essa capacidade adaptativa se intensifica. O
sistema identifica o que rejeita votos, o que mobiliza ressentimento, o que
produz fadiga. Não precisa vencer todas as disputas. Precisa apenas avançar o
suficiente para manter a erosão em curso.
É nesse
terreno que a engrenagem se torna hereditária. Flávio Bolsonaro surge como
continuidade natural, não por mérito próprio, mas por linhagem simbólica.
Apresenta-se como versão administrável do radicalismo paterno, oferecendo a
mesma substância em embalagem menos ruidosa. Michelle Bolsonaro opera em outro
registro, mais difuso e talvez mais eficaz: uma moralidade vaga, religiosa,
ressentida, pronta para ser mobilizada sem precisar se comprometer com decisões
concretas.
Nada
disso exige genialidade. Exige repetição. Exige cansaço. Exige adaptação. A
engrenagem funciona porque não depende de grandes vitórias, mas de pequenas
desistências diárias. Uns fabricam inimigos, outros destroem confiança, outros
corroem o Estado, outros saturam o espaço público, outros conectam à máquina
global. Juntos, produzem a lenta desintegração da democracia.
O que
se perde nesse processo não é apenas uma política pública ou um direito
específico. Perde-se a linguagem comum como espaço de construção. Perde-se a
confiança no tempo como aliado. Perde-se a ideia de futuro como projeto
coletivo. A engrenagem da mediocridade não precisa ser brilhante para ser
eficaz. Basta que continuemos a observá-la girar, cansados, enquanto ela decide
por nós. No entanto, o movimento não é perpétuo. A engrenagem só para quando o
atrito da realidade, e da recusa em normalizar o absurdo, se torna maior que a
força do motor.
Fonte:
Correio da Cidadania

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