sábado, 17 de janeiro de 2026


 

Sidnei Munhoz: As elites antinacionais, o Congresso e os ataques ao futuro do Brasil

2025 se encerrou e, de modo abrangente, é possível afirmar que foi um ano melhor do que o previsto pelos “agentes do mercado”. Alguns deles, de fato, atuam mais como agentes a serviço de potência estrangeira, regra geral, contra os interesses nacionais. Outros, agem mais como ventríloquos dos interesses do capital especulativo, com ramificações espúrias até com o crime organizado. Os juros definidos pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central continuam estratosféricos e pressionam a economia a reduzir o seu ritmo. A inflação desacelera, mas a economia estaciona e às vezes pode até dar marcha à ré. Ainda não deu, mas é hora de revisar a manutenção dessa taxa de juros que agrada à grande mídia corporativa e aos bancos que a financiam e a sustentam. Essa conjuntura intolerável alimenta o rentismo, paralisa o país e, mais do que isso, endivida e limita a capacidade de ação do Estado.

Em paralelo, o governo encontra-se acuado por um Congresso mercenário e corrupto, que açambarca recursos e funções do Poder Executivo, mas sem jamais assumir as suas responsabilidades. Sejamos claros, temos, quase certamente, o pior Congresso da história do país, embora possa ainda ficar pior.

Em 2025, assistimos pasmos a um Congresso que, em diferentes ocasiões, procurou obstaculizar o ritual de um processo de julgamento justo dos golpistas que pretendiam destruir a democracia, depor e assassinar o presidente da República e o seu vice, além de executar um ministro do Supremo Tribunal Federal, que ocupava, à época, a função de presidente do Tribunal Superior Eleitoral.

Sublinhe-se que os golpistas invadiram e depredaram a própria sede do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, num acinte à democracia, ao país e ao povo brasileiro que por maioria havia elegido um novo governante. Como justificar que parlamentares defendessem quem atentou contra o regime democrático, invadiu e depredou a própria sede do Congresso? Felizmente, os criminosos foram julgados e condenados, após o exercício da ampla defesa, conforme os ritos processuais vigentes. No entanto, o Congresso, em afronta ao ordenamento jurídico, pretende reverter as penas impostas aos criminosos.

No mesmo ano, assistimos à farra das emendas parlamentares que funcionam como um câncer a corroer a capacidade de ação do Poder Executivo. Nessa conjuntura, o governo, com minoria no Congresso, fica à mercê de uma maioria sem apreço à democracia e sem projeto de país. Desse modo, acovardado, o governo fica sem receita para fazer o que lhe compete. Destarte, escasseiam os recursos para setores prioritários como saúde, educação, infraestrutura e investimentos decisivos para alavancar o desenvolvimento de tecnologias cruciais a uma potência com pretensões geopolíticas regionais e globais. Pior ainda, o dinheiro público sequestrado do Executivo pelo Congresso é utilizado para alimentar a máquina eleitoral corrupta de parlamentares que se tornam os novos coronéis das suas regiões. Muitos, é claro, representam a continuidade das linhagens dos seus antepassados.

Em síntese, essa farra irresponsável impede o governo de governar, ao privá-lo das condições para realizar obras e investimentos fundamentais à soberania e ao desenvolvimento nacional. Em decorrência do exposto, embora o Congresso seja um dos pilares da nossa democracia, a atual legislatura perverteu o seu sentido ao minar os valores democráticos e encurralar o governo. A usurpação das competências governamentais e dos recursos públicos impede o Poder Executivo de agir conforme os preceitos constitucionais e o mandato popular a ele conferido.

Apesar disso, o atual governo apresenta alguns dados alvissareiros. Conseguiu controlar a inflação, tirou novamente o Brasil do mapa da fome, devolveu ao país o respeito internacional, entre outros tópicos. No entanto, nada disso convencerá os tacanhos seguidores dos golpistas. Eles estão a postos para sitiar o governo, em 2026, um ano eleitoral. Nesse cenário, há no mínimo duas tarefas inadiáveis e entrelaçadas. Apesar das dificuldades para a governabilidade e a despeito do risco de uma escalada nas tensões, será necessário confrontar esse Congresso. É óbvio que dentro da lei e da ordem vigente.

Em paralelo, será necessário convencer o povo a varrer para o lixo da história, aqueles que na atual legislatura agiram contra os interesses do país e, em especial, da população mais pobre. Ou fazemos isso, ou perderemos a grande oportunidade, talvez derradeira, de tirar o Brasil do berço esplêndido, onde desde sempre esteve em estado cataléptico por ação e obra das suas elites antinacionais.

O Brasil potência precisa romper com esse passado nefasto, reescrever o presente a assentar os trilhos rumo a um futuro promissor. Mãos à obra!

¨      A engrenagem da mediocridade. Por Arley Haley Faria

O que mais me assusta em nosso tempo não é a brutalidade aberta. Não são os gritos, as ameaças explícitas, os gestos escancarados de violência. Isso a história já nos ensinou a reconhecer, a nomear, a enfrentar, ainda que nem sempre com sucesso. O que realmente inquieta é outra coisa: a forma como a mediocridade ganhou método.

Não vejo tanques nas ruas, nem golpes clássicos, nem ditaduras declaradas. Vejo um apodrecimento cotidiano, administrado com a calma burocrática de quem assina um papel, carimba um documento e segue para o próximo item da pauta. Não é caos. É engrenagem.

Talvez isso soe menos dramático do que deveria. Talvez por isso seja tão eficaz. Não há ruptura visível, não há cena histórica fácil de identificar. O que há é uma sucessão de pequenas concessões, ajustes, normalizações. A democracia não cai. Ela se desgasta. Ela range. Ela continua funcionando, mas cada vez mais vazia por dentro.

Essa engrenagem não pertence ao passado. Ela está viva, operando agora, disputando o futuro imediato. Em pleno ciclo eleitoral, figuras que antes pareciam caricaturas ou personagens laterais agora ocupam o centro da cena. Lideram pesquisas, moldam o debate público, ganham espaço permanente na mídia. O absurdo deixou de ser espetáculo. Virou programa. O grotesco deixou de ser exceção. Tornou-se linguagem política aceitável.

Essa engrenagem não é movida por gênios maquiavélicos. Pelo contrário. Ela avança por meio de personagens toscos, muitas vezes intelectualmente limitados, mas plenamente conscientes do papel que desempenham. Vestem a carapuça, falam para a plateia que neles se reconhece, acreditam ser protagonistas quando são apenas peças substituíveis. Mas peças se acumulam. E quando giram juntas, mesmo sem coordenação explícita, produzem um sistema coerente de erosão democrática.
Nomear não é exagero, é método. Quando o processo é sistêmico, os rostos importam.

O primeiro bloco dessa engrenagem é a desumanização simbólica. É ali que vidas são reduzidas a caricaturas, onde o outro deixa de ser sujeito e passa a ser objeto de escárnio. Quando Nikolas Ferreira se vestiu de mulher na tribuna para debochar de pessoas trans, não fez uma piada. Encenou poder. Quando Rodrigo Amorim quebrou a placa com o nome de Marielle Franco, não foi apenas um gesto tosco: inaugurou seu mandato com um ritual de apagamento da memória de quem ousou existir politicamente fora do lugar autorizado. Quando deputados ruralistas chamaram Marina Silva de mal-educada ou adestrada, não estavam apenas sendo rudes. Estavam marcando corpos negros, femininos, amazônidas como alvos legítimos.

Esses gestos não são excessos isolados. São ensaios. Testes de limite. Pequenos experimentos para medir até onde se pode ir sem pagar preço. Esse bloco fabrica inimigos, hierarquiza vidas, cria a sensação de que há cidadãos descartáveis. Não é destempero. É pedagogia. Ensina quem pode ser humilhado. Ensina quem não merece luto. Ensina quem pode ser apagado.

Sobre esse terreno floresce o segundo motor da engrenagem: o ataque sistemático ao conhecimento. A anti-intelectualidade deixa de ser ignorância espontânea e se converte em identidade política. Cleitinho constrói sua persona dizendo que estudo atrapalha e que coragem resolve. Ricardo Salles mente sobre dados ambientais, persegue fiscais, transforma o desmonte da fiscalização em símbolo de liberdade econômica. Bia Kicis transforma tribunais e universidades em centros permanentes de conspiração. Carla Zambelli saca uma arma em via pública e ainda assim se apresenta como vítima do sistema.

Aqui, a ignorância não é falha. É performance. O desprezo ao saber vira prova de autenticidade. A tosquice passa a ser lida como coragem. A engrenagem captura um ressentimento real contra instituições que prometeram muito e entregaram pouco e o devolve em forma de desprezo sistemático por qualquer mediação racional.

Com os inimigos fabricados e o conhecimento corroído, abre-se espaço para o terceiro bloco: o desmonte gerencial. Ele não grita. Administra. Opera em silêncio, embalado em planilhas, relatórios, discursos de eficiência. Romeu Zema privatiza e terceiriza serviços essenciais em nome da modernização. Tarcísio de Freitas fragmenta a educação pública e vende infraestrutura como se fosse entulho. Paulo Guedes reduziu a fome a detalhe contábil e tratou o Estado como obstáculo moral ao progresso.

Eles não são incompetentes. São eticamente achatados, administrativamente frios, moralmente indiferentes às consequências humanas do que fazem. Esse bloco se apresenta como racionalidade técnica, como se fosse neutro, inevitável. Direitos viram custos. Vidas viram números. O público perde sentido. Não há vilão evidente, apenas decisões difíceis. O grotesco distrai. A planilha passa.

E é aqui que as engrenagens se acoplam: o grotesco produz ruído, o ruído consome indignação, a indignação consumida reduz vigilância, a vigilância reduzida facilita o desmonte técnico. Nada disso é acidental.

Nenhuma engrenagem dessa magnitude funciona sem amortecimento. E é aí que entra uma haste silenciosa, quase invisível: a hibernação moral. A indignação vira cansaço. O cansaço vira cinismo. O cinismo vira adaptação. Nada é exatamente aceitável, mas tudo passa a ser tolerável. Esse bloco não é operado pelos fanáticos, mas pelos razoáveis. Pelo cidadão que suspira e muda de assunto. Pelo profissional que prefere não se expor. Pelo progressista exausto que já viu isso antes e decide poupar energia. Quando autoridades debocham de mortos da pandemia, quando políticas públicas são desmontadas sem alarde, quando o inaceitável se repete, a reação vem fraca, protocolar, cansada. Um comentário indignado. Um post. Depois, silêncio.

A hibernação moral não cria monstros. Ela cria o ambiente em que monstros não precisam mais se justificar. Esse ambiente encontra seu acelerador máximo no bloco digital-performático. A política deixa de ser espaço de decisão e se converte em palco permanente. Não se governa, se encena. Não se argumenta, se viraliza. O gesto importa mais que a consequência. O personagem vale mais que o projeto.

O algoritmo não é neutro. Ele seleciona, amplifica, normaliza. Transforma grotesco em rotina, violência simbólica em entretenimento, escândalo em hábito. A saturação não é efeito colateral. É estratégia. Impedir o silêncio. Impedir a pausa. Impedir a reflexão. Tudo acontece o tempo todo para que nada seja realmente enfrentado.
Basta observar os gestos. Donald Trump assinando decretos diante das câmeras como quem apresenta um truque de palco, a plateia reagindo antes mesmo de saber o conteúdo. Javier Milei empunhando uma motosserra em comícios, transformando o desmonte do Estado em espetáculo físico, quase infantil. Não são excentricidades locais nem folclore político. São encenações replicáveis. O gesto vem antes da política. A imagem precede a consequência. Quando o mesmo teatro se repete em línguas diferentes, fica claro que não se trata de improviso nacional, mas de um método que atravessa fronteiras.

Seria um erro ler tudo isso como fenômeno exclusivamente brasileiro. A engrenagem opera em rede. Narrativas, estratégias, personagens e gestos circulam internacionalmente com rapidez. O que parece improviso local é, muitas vezes, fórmula testada em outros lugares. Trump, Bannon, Orbán, Milei. Mudam os sotaques, não o método. O grotesco é exportável. A anti-intelectualidade é replicável. A desumanização é adaptável a qualquer contexto. O Brasil não inventa essa engrenagem. Ele a importa, a tropicaliza, a acelera.

A engrenagem aprende. Ela testa limites, substitui peças, corrige excessos, recalibra o tom. Quando uma figura se desgasta, outra surge com linguagem mais polida, menos ruidosa, mais palatável. O método permanece. Apenas muda a embalagem. Em períodos eleitorais, essa capacidade adaptativa se intensifica. O sistema identifica o que rejeita votos, o que mobiliza ressentimento, o que produz fadiga. Não precisa vencer todas as disputas. Precisa apenas avançar o suficiente para manter a erosão em curso.

É nesse terreno que a engrenagem se torna hereditária. Flávio Bolsonaro surge como continuidade natural, não por mérito próprio, mas por linhagem simbólica. Apresenta-se como versão administrável do radicalismo paterno, oferecendo a mesma substância em embalagem menos ruidosa. Michelle Bolsonaro opera em outro registro, mais difuso e talvez mais eficaz: uma moralidade vaga, religiosa, ressentida, pronta para ser mobilizada sem precisar se comprometer com decisões concretas.

Nada disso exige genialidade. Exige repetição. Exige cansaço. Exige adaptação. A engrenagem funciona porque não depende de grandes vitórias, mas de pequenas desistências diárias. Uns fabricam inimigos, outros destroem confiança, outros corroem o Estado, outros saturam o espaço público, outros conectam à máquina global. Juntos, produzem a lenta desintegração da democracia.

O que se perde nesse processo não é apenas uma política pública ou um direito específico. Perde-se a linguagem comum como espaço de construção. Perde-se a confiança no tempo como aliado. Perde-se a ideia de futuro como projeto coletivo. A engrenagem da mediocridade não precisa ser brilhante para ser eficaz. Basta que continuemos a observá-la girar, cansados, enquanto ela decide por nós. No entanto, o movimento não é perpétuo. A engrenagem só para quando o atrito da realidade, e da recusa em normalizar o absurdo, se torna maior que a força do motor.

 

Fonte: Correio da Cidadania


Nenhum comentário: