As
veias abertas do mundo
Com a
militarização ostensiva e provocadora da região atlântica do Caribe, e os
ataques repetidos contra embarcações sob bandeira venezuelana (deixando dezenas
de mortos indefesos entre seus tripulantes), o objetivo imediato do governo
Trump era o controle político, econômico e militar da riqueza petrolífera e
mineral da Venezuela, através da imposição de um regime político totalmente
submetido aos ditames imperiais dos EUA. Para alcançar esse objetivo, a
instalação de bases militares americanas na terra natal de Bolívar era
fundamental. No entanto, não bastava simplesmente colocar María Corina Machado
e Edmundo González Urrutia, duas figuras historicamente aliadas à Casa Branca,
mas totalmente incapazes de governar um país tão profundamente dividido, à frente
do governo venezuelano. Em 3 de janeiro, no mesmo dia do ataque militar à
Venezuela e do sequestro do presidente Maduro e sua esposa, Donald Trump
rebaixou a oposição de direita venezuelana, declarando que MCM “não era
respeitada no país” e, portanto, estava excluída da “transição”. O ataque
militar de 3 de janeiro deixou um saldo de 80 mortos, segundo o New York Times,
uma cifra que outras fontes elevam até a centena.
No que
diz respeito à Venezuela, o que ocorre tem precedentes históricos que remontam
aos séculos de colonialismo espanhol. A Real Compañía Guipuzcoana de Caracas,
por exemplo, foi a sociedade mercantil espanhola fundada em 1728, que operou na
Venezuela entre 1730-1785 como parte da relação colonial com a Venezuela. Seus
principais objetivos eram: controlar o comércio exclusivo entre Espanha e
Venezuela, exportar produtos (cacau, tabaco, algodão, índigo e couros) e
importar mercadorias europeias (ferramentas, tecidos, vinhos, etc.), combater o
contrabando holandês, inglês e de outras nações, assim como orientar o
desenvolvimento econômico local para aumentar os ganhos da Coroa espanhola.
Trezentos
anos e várias guerras pela independência depois, Donald Trump declara que, a
partir de agora, a Venezuela será governada por ele e sua equipe mais próxima,
em benefício das companhias petrolíferas e mineiras norte-americanas: o
Secretário de Estado Marco Rubio, o Secretário de Defesa Pete Hegseth, o
Vice-Chefe do Estado-Maior Stephen Miller, o Diretor da CIA John Ratcliffe e o
Chefe do Estado-Maior Conjunto General Dam Caine, criando assim uma ameaça
colonial real, tangível e sem precedentes. Este é o primeiro passo da
estratégia internacional dos EUA, a “Estratégia de Segurança Nacional”, para
reverter seu declínio histórico e restabelecer sua supremacia mundial, tanto no
Sul Global quanto no Norte Global. Uma “lei e ordem” indiscutíveis, uma lei da
selva internacional e uma ordem fascista em casa e no que considera seu
“quintal”, a América Latina e todo o Hemisfério Ocidental.
Trump
transformou Venezuela em um protetorado de fato dos EUA. Ele também anunciou a
suspensão das exportações de petróleo para Cuba, com o mesmo objetivo de
estabelecer um protetorado na ilha caribenha. Trump busca o controle total das
reservas de hidrocarbonetos da Venezuela, tanto como fonte de lucro quanto como
instrumento de guerra internacional. Sob o cerco militar no Caribe e a
apreensão de carregamentos de petróleo, o governo venezuelano joga o papel, por
enquanto, de administrador “crítico” do processo neocolonial.
A
retórica histérica, racista e anti-imigração do governo Trump, caluniando a
Venezuela como um “Estado narcoterrorista”, e todos os povos latino-americanos
como a causa dos males sociais nos EUA, como desemprego, criminalidade,
“narcotráfico”, é dirigida à multidão fascista interna embriagada com o MAGA
(Make America Great Again), ao ICE (Immigration and Customs Enforcement) como
guarda pretoriana presidencial e a todas as forças de repressão do Estado,
mobilizando-os contra o “inimigo em casa”, os trabalhadores, minorias oprimidas
e pessoas empobrecidas, em condições de desintegração social e de uma escalada
rumo a uma guerra civil. O Departamento de Justiça dos EUA precisou reformular
as acusações contra Maduro, admitindo que o suposto “Cartel de los Soles” não
tinha “existência real”. A acusação de “narcoterrorismo”, portanto, era uma
cortina de fumaça grosseira para uma operação internacional de pirataria.
O
objetivo real dos EUA é “negar aos concorrentes não hemisféricos a capacidade
de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou de possuir ou
controlar ativos estrategicamente vitais em nosso Hemisfério”. Este “Corolário
Trump” à Doutrina Monroe seria, para seus autores, “uma restauração sensata e
potente do poder e das prioridades americanas, consistente com os interesses de
segurança dos Estados Unidos”. É óbvio que os alvos são a UE, à qual a nova
Estratégia de Segurança declara uma guerra comercial (sem falar na intenção
declarada de se apropriar da Groenlândia, atualmente administrada pela
Dinamarca), mas também a Rússia e, sobretudo, a China, o principal inimigo
estratégico, que ocupa uma posição econômica central em toda a América Latina,
com vastos investimentos em infraestrutura e empréstimos.
A
“restauração do poder americano” e os “interesses de segurança americanos”
demonstram que a agressão bélica contra a Venezuela representa um salto na
escalada bélica imperialista internacional, com objetivos estratégicos não
limitados por qualquer área hemisférica, Norte e Sul, Oriente e Ocidente: a
colonização e fragmentação do antigo espaço soviético e da República Popular da
China, retornando-a à era colonial dos “cem anos de humilhação”. Após a guerra
por procuração da OTAN na Ucrânia e o genocídio sionista do povo palestino em
Gaza, a agressão bélica contra a Venezuela e a América Latina é mais um momento
dramático de aceleração rumo a uma Terceira Guerra Mundial.
O que
Trump propõe para a Venezuela é uma nova situação de controle territorial e
comercial que remete a essa empreitada colonial. Mas ele fará isso com um
instrumento mais moderno: a embaixada dos EUA. Daí a pressa com que anunciou a
reabertura da missão diplomática americana em Caracas. A embaixada dos EUA
cumprirá esse papel, só que agora será para a apropriação de petróleo, ouro,
terras raras e outros recursos, bem como para continuar coletando dados e
informações no terreno, vitais para o pleno desenvolvimento do modelo de
controle preditivo baseado em tecnologias de ponta.
Recentemente,
a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que
“atualmente temos influência máxima sobre as autoridades interinas na
Venezuela”, enquanto Marco Rubio declarou que “a Venezuela não pode transportar
petróleo a menos que permitamos”. Isso foi complementado pela declaração de
Trump de que “Delcy Rodríguez se comprometeu a comprar apenas produtos
americanos”, enquanto circulam rumores de ameaças contra autoridades
governamentais como Diosdado Cabello para garantir sua obediência ao governo de
Delcy Rodríguez.
Na
noite de 5 de janeiro, Donald Trump anunciou seu presente de Natal para a
Venezuela: os Estados Unidos confiscariam à força entre 30 e 50 milhões de
barris de petróleo venezuelano. Em 7 de janeiro, o Secretário de Estado Marco
Rubio anunciou as três fases da recolonização da Venezuela. A primeira fase
consistia em assumir o controle da produção de petróleo disponível a curto
prazo, até atingir 50 milhões de barris. Isso não se trata de uma compra
forçada à Venezuela, mas sim do anúncio público do roubo da riqueza
venezuelana, utilizando seu poderio militar e esperando pouca resistência
local.
A
segunda fase envolve assumir o papel de administrador colonial, com os Estados
Unidos vendendo petróleo venezuelano diretamente no mercado mundial,
apropriando-se assim do uso e da administração dos espólios de guerra. Para
amenizar o impacto midiático dessa violação da ordem comercial capitalista,
Marco Rubio declarou que os EUA administrariam esses recursos para a
reconstrução da Venezuela e para promover os interesses americanos. Claramente,
o objetivo é recuperar parte dos gastos militares incorridos durante os meses
de bloqueio naval no sul do Caribe e usar os próprios recursos da Venezuela
para reparar a infraestrutura petrolífera que agora será utilizada para a
extração colonial de petróleo por empresas petrolíferas contratadas pelo
governo Trump.
A
terceira fase, iniciar a transição governamental venezuelana, parece ser o
anúncio de uma avaliação, baseada no comportamento pós-agressão de 3 de
janeiro, sobre o que fazer com o governo de Caracas liderado por Delcy
Rodríguez, bem como o momento para construir representações políticas (com
“pessoas boas”) que garantam a manutenção de sua relação colonial com o país.
Marco Rubio sabe que não pode transformar uma república em colônia sem
resistência local, o que prenuncia uma etapa em que o poder militar, policial e
de inteligência dos EUA desempenhará um papel de liderança, certamente na
esperança de garantir a cooperação das forças militares e policiais locais —
algo que ainda está para se ver.
O
governo venezuelano que assumiu o poder em 3 de janeiro precisa superar algumas
turbulências internas para demonstrar que possui a força necessária para conter
o imperialismo ou assumir um papel colaboracionista. Em qualquer um dos
cenários, precisa consolidar sua capacidade de governar. A possibilidade de
forjar uma ampla unidade nacional contra o colonialismo estadunidense depende
da superação do trauma da captura e do sequestro do casal Maduro-Flores, que
ocorreu com pouca resistência militar, lançando uma sombra de traição interna.
Localizar e responsabilizar os autores dessa traição é um desafio para o atual
governo bolivariano. Isso está ligado à necessidade urgente de elevar o moral
das Forças Armadas nacionais, que sofreram dezenas de baixas — assim como os 32
combatentes cubanos que faziam parte da comitiva presidencial — sem conseguir
fazer o mesmo com as forças invasoras.
Por
outro lado, Donald Trump, seja como parte de uma estratégia ou em resposta à
realidade objetiva, afirmou repetidamente que o governo interino liderado por
Delcy Rodríguez está cooperando com sua administração e “não quer repetir os
erros de Maduro”. A presidente interina Delcy Rodríguez negou timidamente essas
afirmações, embora tenha indicado que qualquer petróleo que sair da Venezuela o
fará sob as condições comerciais normais de venda e pagamento. Essa
ambiguidade, compreensível dado o impacto das ações militares de 3 de janeiro,
precisa ser superada, seja para organizar a resistência anticolonial, seja para
evitar assumir o papel de um órgão governamental colonial.
O
sentimento nacionalista está varrendo o país, mas carece de uma direção
política clara. A esquerda venezuelana, especialmente o Partido Comunista da
Venezuela (PCV) e a Corrente Comunes, expressaram claramente sua oposição às
ambições coloniais do governo Trump, apontando também o regime de Maduro (do
qual Delcy Rodríguez fez parte até recentemente) como responsável por levar o
país a essa situação crítica, por meio da implementação de um programa
antioperário que desmantelou até mesmo as liberdades democráticas mais básicas
daqueles que desejam se organizar autonomamente. Uma frente nacional capaz de
mudar a atual conjuntura defensiva não pode ser construída apenas pela esquerda
classista. A possibilidade de uma resistência efetiva à agressão militar e ao
colonialismo estadunidenses depende da construção de uma ampla frente contra o
imperialismo, que não adote uma política ambivalente diante dele. O governo
Delcy Rodríguez ainda não demonstrou qualquer disposição para assumir esse
papel, e há indícios fortes em sentido contrário.
Se
trata de uma tarefa internacional. O projeto colonial estadunidense para
Venezuela ameaça diretamente, de modo imediato, Colômbia (com a qual a
Venezuela constituiu, no século XIX, a Grã-Colômbia, que também incluía o
Panamá e o Equador) e Cuba, berço da luta libertadora latino-americana
contemporânea, com estreitos laços econômicos e políticos com a Venezuela. Ao
ameaçar Cuba e Colômbia e anunciar sua intenção de ocupar a Groenlândia, Trump
deixou claro que o ataque à Venezuela faz parte de uma guerra imperialista
global. A escalada militar de Trump revelou, também, a cumplicidade dos
“democratas” da União Europeia, que toleraram a operação ilegal de Trump e
responderam com a mesma subserviência às ameaças de Trump de tomar a
Groenlândia. Uma frente de dez governos latino-americanos de direita já atua no
apoio da perspectiva imperialista sob o comando de um preposto direto de Trump
(o presidente argentino Javier Milei) em escala continental. Seu objetivo
central para 2026 é o de condicionar politicamente, sem excluir a pressão
econômica e até militar, as eleições gerais no Brasil, o gigante da América do
Sul. Não há espaço para uma equidistância entre o imperialismo dos EUA, da UE e
da OTAN, e suas vítimas exploradas e oprimidas no mundo, todos aqueles que
resistem ao neocolonialismo e à escravidão de povos e nações.
A
principal tarefa hoje é defender a Venezuela, derrotar o imperialismo e
combater a escalada bélica mundial; ela repousa primordialmente na luta da
classe trabalhadora internacional, unida e à frente de todos os movimentos
populares, em uma Frente Única Anti-imperialista internacional. É compreensível
haver diferenças políticas, críticas e debates entre os combatentes,
principalmente em momentos decisivos da história. Mas nenhuma posição hipócrita
de “equidistância” é aceitável, e qualquer capitulação ao imperialismo na
própria Venezuela e na América Latina deve ser combatida sem concessões, e
derrotada. A linha divisória vermelha é entre opressores e oprimidos, entre a
capitulação à opressão e a luta pela libertação nacional e social.
Até 2
de janeiro, a principal tarefa dos lutadores classistas venezuelanos era
recuperar as liberdades democráticas mínimas que permitissem à classe
trabalhadora expressar suas opiniões e se organizar para enfrentar a ofensiva
imperialista e a deriva autoritária do governo Maduro. A partir de 3 de
janeiro, e após os anúncios da Casa Branca sobre a transformação da Venezuela
em uma colônia dos EUA, a prioridade passou a ser a defesa da independência
nacional com o mais amplo regime possível de liberdades políticas. Não há
dúvidas sobre a importância de promover a mais ampla unidade de ação possível
com todas as forças políticas e sociais que reivindicam a soberania e a
independência nacional: é hora de focar no terreno comum em relação à defesa da
nação, sua soberania e independência. E também de promover esta unidade em toda
a América Latina, em defesa de sua independência política e sua unidade
anti-imperialista.
Fonte:
Por Luis Bonilla-Molina e Osvaldo Coggiola, em A Terra é Redonda

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