Qual
a situação de Cuba após queda de Maduro e por que governo de esquerda do México
passa a ser chave
A
captura do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro abriu uma fase de
incertezas não só na Venezuela, mas também em outro país que, até agora, tem
sido seu principal aliado.
"Cuba
está pronta para cair", declarou o presidente americano, Donald Trump,
apenas um dia depois que forças dos Estados Unidos atacaram Caracas, na
madrugada de 3 de janeiro, e levaram Maduro e sua esposa, Cilia Flores, para
julgamento em Nova York.
Trump
reiterou nos últimos dias que o fornecimento de petróleo da Venezuela seria o
que mantém o regime cubano. E que, se o abastecimento for interrompido, a ilha
ficará sem receita e entrará em colapso por si própria, sem necessidade de
intervenção militar.
"Não
chegará mais dinheiro nem petróleo a Cuba. Zero", sentenciou Trump.
Em
Havana, as autoridades condenaram a operação americana em Caracas. Eles
rejeitam a "ingerência" dos Estados Unidos nos assuntos do país e
prometem se defender em caso de ataque.
Mas, em
nenhum momento, desmentiram as afirmações de Trump sobre a situação limite da
economia cubana. E, neste contexto, surgem várias perguntas.
Como
está Cuba, hoje? Quais serão os impactos das mudanças na Venezuela sobre a
ilha? O país realmente pode entrar em colapso, como diz Trump?
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Economia no limite
A
economia cubana vive uma situação crítica, que nem mesmo o governo do país
tenta mais ocultar.
O
presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, reconheceu que "não se trata de
mais uma crise", mas do "acúmulo de distorções, adversidades,
dificuldades e erros próprios, exacerbados por um cerco externo extremamente
agressivo".
O país
enfrenta a recessão há anos. Cuba é incapaz de pagar suas inúmeras dívidas ou
obter financiamento externo, com sua produção em retrocesso e sem conseguir
garantir o fornecimento de alimentos e produtos básicos para a população,
atingida diariamente por cortes de eletricidade de várias horas.
O
Produto Interno Bruto (PIB, soma de todos os bens e serviços produzidos pelo
país) cubano caiu em mais de 4% até o terceiro trimestre de 2025, segundo os
últimos dados oficiais. E o final do ano passado indicava um resultado ainda
pior, devido ao agravamento da crise energética e aos impactos do furacão
Melissa.
O
grande problema é que as dificuldades econômicas afetam a todos, começando pelo
setor produtivo.
A
produção industrial de Cuba em 2024 foi a mais baixa em 40 anos, segundo os
dados mais recentes do governo do país. E tudo indica que, em 2025, terá se
reduzido ainda mais.
A
agricultura produz em nível mínimo, devido à ineficiência do sistema de gestão
estatal e à falta de fertilizantes e combustível.
E o
turismo internacional, uma importante fonte de divisas, fechou 2025 com uma
estimativa de menos de 2 milhões de visitantes, o número mais baixo em mais de
20 anos, sem considerar a pandemia.
Some-se
a isso a grave escassez de medicamentos, em um contexto de surtos simultâneos
de dengue, zika e chikungunya, e a redução ao mínimo da caderneta de
racionamento, que há anos deixou de garantir a sobrevivência das famílias.
Os
cubanos também sofrem com a inflação. O peso cubano despencou frente ao dólar
nos últimos anos.
Os
dados mais recentes, de junho de 2025, indicam aumento interanual dos preços ao
consumidor de 14,75%.
Como se
tudo isso ainda não bastasse, existe também o embargo financeiro e comercial
imposto pelos Estados Unidos a Cuba desde 1960, que foi fortalecido por Trump
nos seus dois mandatos presidenciais.
O
embargo aumenta ainda mais a pesada carga já imposta a uma economia derrotada,
sem margem de manobra e isolada dos mercados internacionais.
Mas a
questão mais delicada da crise cubana é a situação limite que enfrenta seu
sistema energético.
"Em
muitas partes do país, os cortes de eletricidade são de 20 horas por dia. Ou
seja, eles só têm luz por quatro horas, o que é uma situação difícil",
indica à BBC News Mundo (serviço de notícias em espanhol da BBC) o economista
Omar Everleny, ex-diretor do Centro de Estudos da Economia Cubana da
Universidade de Havana.
Além do
estado precário das centrais elétricas da ilha, os apagões são sobretudo
consequência da falta de petróleo para abastecê-las. E os impactos dessa
escassez se estendem ao transporte, ao setor produtivo e ao dia a dia das
pessoas.
Cuba
precisa de cerca de 110 mil barris diários de petróleo para funcionar
normalmente. O país produz cerca de 40 mil e, por isso, depende em grande parte
do petróleo recebido do exterior — mais precisamente, de dois fornecedores
quase exclusivos: a Venezuela e o México.
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Qual a dependência do petróleo venezuelano?
As
relações econômicas entre Cuba e a Venezuela se reduziram nos últimos anos a um
intercâmbio muito específico.
"Cuba
fornece serviços médicos, educacionais, treinadores esportivos e, como agora se
confirmou (embora já soubéssemos), também de segurança e militares, em troca de
petróleo venezuelano", afirma à BBC o economista Ricardo Torres,
pesquisador do Centro de Estudos Latino-Americanos e Latinos da Universidade
Americana em Washington, nos Estados Unidos.
Ele
destaca que isso ocorre porque a Venezuela só exporta outros produtos, Cuba não
possui divisas para pagar suas compras de petróleo e já não existem
investimentos bilaterais relevantes, desde a saída da empresa estatal Petróleos
de Venezuela (PDVSA) da ilha, em 2017.
O
petróleo venezuelano foi por anos a principal fonte de sustentação do sistema
elétrico cubano.
No
início do século 21, a Venezuela enviava para Cuba cerca de 100 mil barris
diários de petróleo. Era o auge da aliança entre os então presidentes Hugo
Chávez (1954-2013) e Fidel Castro (1926-2016).
Mas
este fluxo foi repetidamente reduzido, segundo diversas estimativas (não há
dados oficiais confiáveis).
Everleny
explica que os níveis iniciais caíram, em média, para "58 mil barris
diários, depois 38 mil e, finalmente, em 2025, nunca ultrapassaram 30 mil — e,
em alguns meses, chegaram a cair para 18 mil barris".
"Cuba
já estava se adaptando a esta redução sistemática do fluxo da Venezuela",
destaca ele.
A
agência de notícias Reuters calcula que a Venezuela tenha enviado para Cuba, em
média, 27 mil barris diários entre janeiro e novembro de 2025, segundo dados de
embarque de navios petroleiros e documentos da PDVSA. Este volume cobriria
cerca da metade do déficit energético enfrentado pela ilha, segundo a agência.
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E o petróleo mexicano?
No caso
do México, a petroleira estatal Pemex confirmou, em um informe apresentado às
autoridades reguladoras da bolsa de valores nos Estados Unidos em dezembro, que
sua filial Gasolinas Bienestar enviou para Cuba cerca de 17,2 mil barris
diários de petróleo bruto e 2 mil de derivados entre janeiro e setembro de
2025, com valor aproximado de US$ 400 milhões (cerca de R$ 2,15 bilhões).
O
portal jornalístico mexicano Proceso noticiou que, nos 10 primeiros meses de
2025, os embarques de petróleo mexicano para Cuba aumentaram em 121%, em
comparação com o mesmo período do ano anterior.
Ante
esta informação, surge a pergunta: se Cuba está em bancarrota, como o país paga
pelo petróleo mexicano?
Nem a
presidente do México, Claudia Sheinbaum, nem a Pemex e sua subsidiária
forneceram uma resposta clara a este respeito.
Questionada
por um jornalista local, Sheinbaum declarou em entrevista coletiva que o México
envia petróleo para Cuba por duas vias: por "contratos" e como
"ajuda humanitária".
Apesar
dos dados mencionados, a presidente garantiu que "não está sendo embarcado
mais petróleo do que o enviado historicamente e não há um embarque
específico".
Cuba
envia profissionais da área médica para o México.
Foram
concedidos 3.650 vistos para médicos nos últimos sete anos, segundo os últimos
dados da chancelaria mexicana, de outubro do ano passado. Mas não se sabe se
este serviço é parcialmente remunerado com petróleo.
"Suponho
que Cuba não esteja pagando por esse petróleo, pois, se Cuba pudesse comprar
petróleo quando precisa, compraria de qualquer lugar", explica Torres.
"O problema é que o país não tem dinheiro e deve para todo mundo."
De
qualquer forma, a falta de transparência sobre sua natureza e os mecanismos de
pagamento colocou os embarques de petróleo mexicano para Cuba no centro do
debate.
O que
antes era um intercâmbio discreto passou a ter uma dimensão geopolítica.
Afinal, ele determina, em grande parte, a sobrevivência energética da ilha,
especialmente no caso de suspensão do abastecimento venezuelano.
Esta
situação não passou despercebida nos Estados Unidos. Altos funcionários e
congressistas americanos começaram a observar com atenção os embarques de
petróleo mexicano para Cuba.
"Se
o governo Sheinbaum continuar oferecendo petróleo gratuito à ditadura
terrorista de Havana, haverá graves consequências quando renegociarmos o
T-MEC", publicou o congressista republicano Carlos Giménez.
Ele faz
referência à revisão do tratado de livre comércio entre os Estados Unidos e o
México, prevista para ocorrer no mês de julho.
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Cuba irá cair, como diz Trump?
Mas o
que espera Cuba em 2026? A ilha ficará sem combustível? Pode entrar em colapso,
como afirma Donald Trump?
Qualquer
resposta a estas perguntas seria especulação. Por isso, só podemos analisar o
cenário atual em busca de indicações.
O
governo cubano prometeu que 2026 será um ano de recuperação econômica, com
crescimento de 1% do PIB, se forem recuperados o turismo, as exportações, a
produção, os serviços e o financiamento.
Mas nem
os mais otimistas, dentro e fora da ilha, acreditam que este objetivo possa ser
alcançado.
A
possível redução do fornecimento de petróleo poderá deixar quase às escuras um
país que já sofre cortes de eletricidade várias horas por dia, dificultando
ainda mais a produção e o transporte de produtos básicos e dissuadindo
possíveis visitantes estrangeiros.
Soma-se
a isso que cerca de 2,7 milhões de cubanos fugiram da ilha desde a pandemia, em
um êxodo migratório em massa, segundo dados do demógrafo cubano Juan Carlos
Albizu Campos.
Com
isso, Cuba perdeu mais de 25% da sua população, que caiu de mais de 11 milhões
para 8 a 9 milhões de habitantes, segundo diversos cálculos.
A
migração também fez com que a ilha perdesse uma parcela considerável dos jovens
qualificados que poderiam ajudar a alavancar sua economia.
Um
corte total do petróleo venezuelano, que abastece cerca de um terço da demanda
cubana de energia, representaria um golpe devastador.
"Se
isso acontecer, e acredito que irá, o país entraria em uma situação
limite", segundo Ricardo Torres. "Quanto mais você pode tirar a
eletricidade das pessoas? Seria retirá-la por completo."
Torres
opina que, mesmo mantendo o fornecimento mexicano, o sistema elétrico e o
transporte da ilha estariam em risco de paralisação quase total.
O
economista também recorda que Trump tem cartas na manga para prejudicar Cuba
ainda mais. Ele pode suspender os voos, eliminar ou reduzir as remessas de
dinheiro ou suspender completamente as exportações de certos produtos livres do
embargo americano.
Mas os
especialistas não acreditam que uma asfixia total da economia cubana leve
necessariamente a uma mudança política.
O êxodo
recente levou para fora do país as poucas figuras que restavam na oposição da
ilha governada pelo Partido Comunista (o único legalmente existente).
E o
regime de Díaz-Canel intensificou a repressão sobre a dissidência até
praticamente desativá-la, depois dos históricos protestos de 11 de julho de
2021.
"Mesmo
que nos devolvam à idade das cavernas, isso não irá mudar", declarou um
cidadão cubano à BBC News Mundo, em condição de anonimato.
A frase
ilustra o ambiente de pessimismo e resignação que impera na ilha.
Já as
opções de ajuda externa a curto prazo são limitadas.
Os
aportes de aliados distantes de Cuba, como a Rússia e a China, têm sido
marginais até o momento, em comparação com o petróleo venezuelano.
A ilha
também acumula dívidas consideráveis com esses países. Por isso, não se espera
que eles multipliquem seus investimentos ou aumentem seu financiamento.
Também
não se vislumbram outras fontes de financiamento externo para um país excluído
dos circuitos internacionais de crédito e em situação de morosidade com seus
credores — entre eles, o Clube de Paris (instituição informal formada por 22
países — entre eles, o Brasil — que ajuda financeiramente países em
dificuldades econômicas).
Por
isso, mais que um colapso imediato e iminente, o que a maioria dos
especialistas prevê para Cuba é o aprofundamento da crise até um ponto limite,
de difícil sustentação.
"As
pessoas em Cuba estão sobrevivendo", ressalta Omar Everleny.
"Em
meio a apagões, falta de medicamentos, comida e transporte, o nível de
sobrevivência é mínimo. Por isso, não sei se é possível chegar ao subsolo, mas
estamos muito perto do último lugar a que se pode chegar."
Sem um
único indício de saída para a crise, as consequências deste cenário extremo, em
termos políticos, sociais e humanitários, no momento, são uma incógnita.
Fonte:
BBC News Mundo

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