sábado, 17 de janeiro de 2026

PREVISÕES DE UM ANO ELEITORAL MARCADO PELA VIOLÊNCIA

A violência ocupa um lugar central na história recente das sociedades latino-americanas, não apenas como fenômeno material, expresso em índices de criminalidade e letalidade, mas como experiência social permanente, mediada por discursos, imagens e afetos. Mesmo quando não vivida diretamente, ela se impõe por meio da mídia, do consumo cultural e da circulação incessante de narrativas que associam crime, medo e ordem pública...

Sempre tive um interesse particular pelo tema da criminalidade na América Latina, especialmente no que diz respeito aos crimes midiáticos e às organizações criminosas. Desde o lançamento do filme Cidade de Deus, quando eu ainda era criança, compreender a relação persistente entre pobreza, proibicionismo, tráfico de drogas, corrupção, política e organizações criminosas tornou-se um hobby – especialmente no que diz respeito ao meu consumo de mídia em vídeo. Tropa de Elite foi um dos meus filmes preferidos por algum tempo, até a segunda parte, Tropa de Elite 2.

O fato é que o tema da violência me engajou, e, na era dos streamings, meu algoritmo entendeu isso rápido. Narcos México é a minha série de streaming favorita, seguido da versão colombiana que, assim como Tropa de Elite, é protagonizada por Wagner Moura – desta vez no papel de traficante. Mas não são as únicas séries que me engajaram na fase adulta: Impuros, Arcanjo Renegado, Donos do Jogo, Cidade de Deus (a série), O Jogo que Mudou a História, Todos contra Um, A Divisão etc. E todas estas chegaram até mim por meio dos meus algoritmos. Os sistemas de recomendação não têm dúvidas de que o tema da violência urbana é um dos meus favoritos. Eu não sou uma exceção. Muito longe disso. Sou apenas um homem médio latino-americano. Eu ouso dizer que o tema da violência é, para o homem médio latino-americano, um dos mais engajantes da história recente.

Crescemos em sociedades marcadas pela violência. Quando temos o privilégio de crescer longe das comunidades mais pobres, tomadas por guerras diárias, pelo tráfico e pelas milícias, a violência nos encontra nos telejornais, nas notícias, nos jornais policiais do meio-dia e, sobretudo, no medo. O medo de andar nas ruas escuras, o medo de encontrar “dois caras numa moto”, de parar num sinal à noite, de ter o celular roubado, o cartão clonado, e, especialmente para as mulheres, a integridade física e psicológica destroçada.

Com isto introduzo alguns comentários sobre fatos políticos recentes. Começando por uma das vitórias eleitorais mais marcantes para a América Latina em 2025: a de José Antonio Kast, eleito presidente do Chile. Apelidado pela mídia tradicional de “Bolsonaro Chileno”, o político de extrema-direita se utilizou de um discurso forte contra o crime e a imigração e foi o presidente mais votado da história do Chile. Segundo o doutor em sociologia Eugenio Tironi, em entrevista à BBC, o medo da criminalidade, comumente associada à imigração irregular, especialmente de venezuelanos, foi um dos fatores preponderantes para a vitória de Kast – que tem um discurso “linha dura” de combater violência com violência.

Kast não foi o primeiro nem será o último a conquistar popularidade ao mobilizar um discurso de combate ao crime organizado, com violência e firmeza. Mas, por vezes, o discurso se transmuta em prática e o resultado pode até ser mais eficiente. Após a operação mais sanguinária da história das polícias civis e militares do Brasil, que deixou 121 mortos nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, a popularidade do governador Cláudio Castro alcançou o seu ponto mais alto desde 2022. Figura política de ascensão recente e pouco expressa no âmbito popular, Cláudio Castro teve seu rosto conhecido em todo o Brasil. O subsecretário de inteligência da Polícia Militar do Rio de Janeiro, Daniel Ferreira de Souza, afirmou no Senado que a megaoperação na cidade teve resultado “ínfimo” para desmontar a estrutura do Comando Vermelho. Mas, na mesma entrevista, disse que a operação foi importante em “nível simbólico”.

Este efeito simbólico da violência, como de costume, se traduziu nos meus algoritmos, especialmente no Instagram e no YouTube. Reels do Instagram e Shorts do YouTube, na minha navegação de ócios diários, foram quase monopolizados por imagens da operação policial. Além de imagens das câmeras dos PMs, de jornalistas “de guerra”, também apareciam policiais dando entrevistas em podcasts explicando as razões da polícia ter que ser violenta, o próprio Cláudio Castro dando entrevistas elogiosas à operação e bolsonaristas diversos que eu nunca assisti voluntariamente (fora dos sistemas de recomendação) afirmando que o governador do RJ estava “fazendo o que o PT não fez”. O ocorrido acelerou o debate sobre a criação de um projeto de lei visando endurecer o combate ao crime organizado no Brasil, com a extrema-direita insistindo em equiparar o crime organizado a organizações terroristas.

É o que me leva a tratar agora do terceiro tema: a nova doutrina de segurança nacional de Donald Trump. Gostaria de chamar a atenção para três características desta doutrina:

1.       O reavivamento da Doutrina Monroe, definindo, de forma radical, que as “Américas”, especialmente os países da América Latina, devem ser campo de influência inquestionável dos EUA.

2.       A intenção de apoiar “governos amigos” na América Latina no combate ao narcotráfico e à influência de rivais geopolíticos, como a China e a Rússia.

3.       O foco no combate ao narcotráfico, equiparando as organizações criminosas que operam no tráfico internacional de drogas a terroristas (exatamente como a extrema-direita brasileira tentou fazer).

Aí entendemos que um “governo amigo” de Trump no Brasil, sem dúvidas, seria composto por aqueles reproduzindo a narrativa de que narcotráfico é terrorismo: o que justificaria inclusive intervenções militares dos EUA em território nacional, confirmando a radicalidade já demonstrada por Trump no reavivamento da Doutrina Monroe. Já se fala em “corolário Trump à doutrina Monroe”, que levou à invasão da Venezuela e ao sequestro do presidente Nicolás Maduro para ser preso e julgado nos EUA. Porém, Maduro não foi preso nem será julgado por ser um ditador, mas sim por ser, alegadamente, um “narcoterrorista”. O combate ao narcotráfico e ao narcoterrorismo é a narrativa prioritária de Trump para justificar sua intervenção. Esta intervenção teve um efeito midiático natural que também foi impulsionado e alimentado pelo próprio Donald Trump, ao postar uma foto de Maduro sendo transportado para os EUA, algemado e vendado. A foto é digna de abertura da série sobre o narcotráfico, até mesmo em sua estética.

E o que os algoritmos têm a ver com isso? Não é novidade a relação íntima entre Donald Trump e as grandes corporações de tecnologia dos EUA, especialmente as redes sociais, assunto que foi tema de artigo meu publicado no site do Lab 404 e no Le Monde Diplomatique. Desde janeiro, a META, controladora do Instagram e do Facebook, já tinha expressamente prometido se aliar a Trump contra países que visam regular as redes sociais. O que leva à reflexão sobre as capacidades dessa aliança e sobre o papel do tema do combate à violência para fortalecê-la.

No artigo científico intitulado “Opinião Pública Algorítmica”, pesquisadores italianos tratam de como os algoritmos das redes sociais contribuem para direcionar, facilitar ou dificultar a formação da opinião pública nas sociedades. Segundo eles, os algoritmos desempenham um papel decisivo na determinação de quais questões de interesse público importam mais e quais notícias são selecionadas e amplificadas. Eles explicam que, nas redes sociais, a opinião pública se materializa como produto das interações entre usuários e conteúdos organizados por algoritmos, o que impõe aos usuários navegar e negociar sua capacidade de ação como parte de um ecossistema sociotécnico mais amplo. Nestes sistemas, ao mesmo tempo em que o algoritmo molda o que o público recebe, é moldado pela reação do mesmo público às informações. Mas a relação não é apenas entre algoritmos e usuários, pois as tecnologias não são neutras: fazem parte de redes mais amplas de interesses políticos, geopolíticos, corporativos, econômicos etc.

Não foi por isso que o governo Trump obrigou a ByteDance, controladora do TikTok, a deixar que o algoritmo de sua operação nos EUA fosse controlado por atores norte-americanos? Fiz questão de introduzir esse texto, tratando do meu interesse pelo tema da violência, que precede a ascensão dos algoritmos como mediadores de conteúdo, para agora dizer que, nas redes sociais, os usuários não são meros receptores da personalização: eles interagem com uma estrutura maleável e constantemente moldada por acontecimentos tão diversos e dispersos no tempo e espaço que podem incluir na mesma rede: o medo diário da violência urbana, a decisão do STF de responsabilizar plataformas digitais, a fala de Lula sobre “traficantes serem vítima” e a forma de fazer política internacional de Donald Trump. Vai muito além da interação entre o algoritmo e o usuário. O algorítmico intensifica interesses prévios para aumentar sua capacidade de captar a atenção. E quanto mais captura a atenção, mais influência exerce. E esta influência faz parte de uma rede mais ampla de afetos, economias corporativas, disputas geopolíticas, disputas de classe etc. Em resumo: o algoritmo nos leva a fazer coisas e tomar decisões, mas também é levado a fazer coisas. Ele “produz a” e é “produzido pela” realidade social em que funciona.

Os índices de violência que geraram a sensação de medo entre os chilenos e foram capitalizados politicamente por Kast não chegam nem perto dos brasileiros. Mas, embora apresente índices de criminalidade inferiores aos dos países vizinhos, a insegurança dominou o debate eleitoral no Chile. Segundo a Ipsos, 63% dos chilenos colocam crime e violência como sua maior preocupação – percentual superior ao de México, Colômbia e Brasil. Apesar de ter taxas de homicídio muito menores, o Chile se tornou o segundo país mais preocupado com a violência entre 30 nações pesquisadas. É de se esperar que a extrema-direita brasileira adote a mesma estratégia. Isso onde o governo Trump está expressamente disposto a ajudar políticos amigos ao mesmo tempo em que aumenta sua influência na América Latina inclusive com intervenções militares; a META está expressamente disposta a combater governos que querem regular as redes; e o Brasil avança no debate regulatório com a proeminência da ação política de atores progressistas e da Suprema Corte.

É de se esperar, no Brasil, algo como o que ocorreu na Venezuela? Muito improvável, apesar de o “improvável” estar acontecendo na era geopolítica que se inaugura. É de se esperar que haja mais operações policiais cinematográficas para agendar o debate público? Talvez. O que dá para ter certeza é que não estamos livres de intervenções externas em nosso processo democrático no ano corrente. E um dos meus palpites é que é de se esperar que o algoritmo do brasileiro médio, assim como o meu, trabalhe para trazer o tema da violência urbana (especialmente o tráfico de drogas e as organizações criminosas) ao centro do debate eleitoral.

•        Genoino diz que classe dominante brasileira é “corrupta, autoritária e entreguista” e cobra enfrentamento ao imperialismo

O ex-deputado federal e ex-presidente do Partido dos Trabalhadores José Genoino afirmou que a classe dominante brasileira é “corrupta, autoritária e entreguista” e que o país vive uma encruzilhada histórica que exige enfrentamento político, mobilização popular e clareza de lado. 

Logo no início da conversa, Genoino sintetizou sua avaliação do momento político brasileiro e internacional. “A classe dominante brasileira é corrupta, autoritária e entreguista. Por isso que nós temos que ter essa clareza para lutar por um Brasil diferente do que tá aí”, afirmou, ao comentar desde o escândalo do Banco Master até a postura de autoridades brasileiras diante da ofensiva dos Estados Unidos contra a Venezuela.

Segundo ele, não se trata sequer de uma elite no sentido clássico do termo. “Isso não é elite. Coisa em lugar nenhum do mundo ser elite. É baixo nível demais”, disse, ao criticar governadores que manifestaram apoio a Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos. Para Genoino, essas posições revelam um “espírito vira-lata” e uma tradição histórica de subserviência. “Essa subserviência, esse entreguismo não tem ideia de projeto nacional, de soberania nacional, de democracia, de amor pelo povo”, afirmou.

Durante a entrevista, Genoino avaliou que a crise atual tem um aspecto pedagógico. “A crise tá deixando claro as coisas. Não precisa interpretar muito, é só ver. É um verdadeiro manual de política, um verdadeiro manual de teoria política”, disse. Para ele, a conjuntura junta, de forma explícita, a luta antiimperialista, a defesa da democracia e a luta por direitos sociais.

O dirigente histórico do PT relatou sua participação em atos recentes e disse ver o início do ano marcado por mobilização. “Eu sou otimista, até porque o ano tá se iniciando no clima de luta”, afirmou. Ele citou o ato em frente ao consulado dos Estados Unidos em solidariedade à Venezuela e a mobilização em memória do 8 de janeiro. Também declarou apoio à decisão do presidente Lula de vetar o projeto que alterava a dosimetria das penas dos condenados pelos atos golpistas. “O Lula deu uma grande contribuição”, disse.

Genoino foi enfático ao criticar a tentativa de relativizar as penas dos golpistas. “Quando era o andar de baixo, eles não falavam em dosimetria. Quando chegou no andar de cima, aí vem a dosimetria e eles se vitimizam como coitadinhos”, afirmou. Para ele, há uma tentativa recorrente de “passar o pano” e repetir o padrão histórico brasileiro de “mudar alguma coisa para que nada mude”.

Na avaliação do ex-deputado, a grande mídia tem papel central nesse processo. “A maneira como a grande mídia monopolista cobre essa questão da dosimetria é uma vergonha”, afirmou. Segundo ele, práticas que antes eram tratadas como inaceitáveis estão sendo normalizadas. “O grande problema é que a barbárie tá sendo normalizada como algo que faz parte da vida”, alertou.

No plano internacional, Genoino afirmou que o mundo vive uma situação de extrema gravidade diante da postura dos Estados Unidos sob o governo Trump. “Nós estamos diante de uma grave ameaça. É uma situação muito extremada o que esse imperador tá fazendo com o mundo”, disse. Ele criticou a ideia de “paz pela força” e afirmou que Trump “perdeu qualquer vergonha de assumir os seus interesses”, citando explicitamente o petróleo da Venezuela e ameaças a outros países, como Cuba e a Groenlândia.

Para Genoino, a resposta do Brasil deve passar por uma política externa ativa e pela integração regional. Ele elogiou os contatos feitos pelo presidente Lula com Colômbia, México e outros países. “O presidente Lula tomou uma decisão correta. A posição dele tá evoluindo para uma definição mais clara sobre a integração latino-americana”, avaliou. Ao mesmo tempo, criticou duramente a Europa. “A Europa é vassala. A Europa é uma vergonha”, afirmou.

Outro eixo central da entrevista foi a política de defesa nacional. Genoino defendeu uma profunda reformulação das Forças Armadas, com nova doutrina e subordinação efetiva ao poder civil. “Não basta só botar dinheiro. Simplesmente aumentar o orçamento sem discutir uma política é um equívoco”, disse. Para ele, é necessário abandonar a lógica do “inimigo interno” e reconhecer que as ameaças são externas. “Não é o inimigo interno, é o externo com todas as letras”, afirmou.

Ele defendeu investimentos em áreas estratégicas. “O Brasil tem que investir na guerra cibernética, no enriquecimento do urânio, na tecnologia do espaço aéreo”, disse, alertando para riscos à soberania, como a cessão da base de Alcântara e a gestão estrangeira de satélites brasileiros. Segundo Genoino, sem um projeto de desenvolvimento autônomo, não há política de defesa consistente.

Genoino também fez críticas à trajetória histórica das Forças Armadas, marcada, segundo ele, pela doutrina da tutela e pela formação voltada contra o próprio povo. “O conceito do povo como inimigo gerou um despreparo total para a verdadeira defesa da soberania nacional”, afirmou. Para ele, é urgente estabelecer uma nova doutrina de defesa nacional, alinhada às exigências de um mundo em crise.

Ao longo da entrevista, o ex-presidente do PT ressaltou que o Brasil vive uma disputa profunda. “É um Brasil em disputa”, afirmou, destacando que estão em jogo a democracia, os direitos do povo negro, das mulheres, dos povos originários, o desenvolvimento econômico e a soberania nacional. “Tudo tá em disputa, tudo escancarado”, disse.

Na avaliação final, Genoino afirmou que não há espaço para ilusões. “Não dá para esperar bons modos do capitalismo”, declarou. Para ele, o único caminho possível é o da luta política e social. “O caminho é o da luta, é o do protesto, é o da indignação, é o de organizar essas energias que tão dispersas”, afirmou, concluindo que a resistência ao imperialismo e à barbárie exige clareza, mobilização e enfrentamento permanente.

 

Fonte: Por Walmir Estima, no Le Monde/Brasil 247

 

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