FANATISMO
RASO: Por que devemos nos preocupar com o “boicote às havaianas”?
No fim
de dezembro de 2025, a marca de sandálias Havaianas lançou uma propaganda em
que a atriz Fernanda Torres dizia: “desculpa, mas eu não quero que você comece
2026 com o pé direito. Não é nada contra a sorte, mas vamos combinar: sorte não
depende de você, depende de sorte. O que eu desejo é que você comece o ano novo
com os dois pés. Os dois pés na porta, os dois pés na estrada, os dois pés na
jaca, os dois pés onde você quiser. Vai com tudo, de corpo e alma, da cabeça
aos pés. Havaianas, todo mundo usa, todo mundo ama”.
A peça
publicitária faz menção ao ditado popular “começar com o pé direito”, isto é,
começar bem e com sorte. Entretanto, essa não foi a interpretação que pessoas
de (extrema-)direita fizeram. Em vez de associar a marca a um ano próspero sem
depender da sorte, encararam as falas da atriz do filme premiado Ainda Estou
Aqui como uma panfletagem esquerdista contra a direita brasileira.
O
ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, em um vídeo publicado nas redes sociais,
surgiu descartando um par de sandálias da marca e dizendo que começaria o ano
“com o pé direito, mas não de Havaianas”. Para ele, trata-se de uma campanha
ideológica e merece o boicote. Já o deputado Nikolas Ferreira escreveu que
“Havaianas, nem todo mundo agora vai usar”, estimulando que apoiadores
deixassem de comprar os produtos da empresa. O deputado Rodrigo Valadares fez a
seguinte declaração no X: “Havaianas faz campanha política explícita contra a
direita. Seguimos firmes na defesa de Deus, pátria, família e liberdade. Por
aqui, vamos de Rider, Ipanema, Crocs e outras”. Outros influenciadores e
políticos alinhados à direita também passaram a criticar a peça de publicidade
e a associaram a um pretenso posicionamento político da empresa.
Esse
comportamento ganhou proporções gigantescas, e muitas pessoas comuns passaram a
divulgar essas mensagens de boicote às Havaianas. Houve lojas “queimando
estoque” para se desfazer da marca. Um caso curioso ocorreu em uma loja de
Brusque (Santa Catarina) que vendeu as sandálias por R$ 1,00 e esgotou seu
estoque em poucas horas. E houve quem comprou a sandália (na promoção ou não)
simplesmente para gravar um vídeo em que jogava fora o produto ou o destruía
para endossar esse movimento massivo de ódio à empresa.
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Propagandas anteriores com possível viés político
Em
2014, o craque Romário e já deputado federal também participou de um anúncio da
marca com o teor parecido com o de 2025. Naquele, Romário compra um par de
sandálias e pediu à vendedora uma “sacolinha” para cada pé. Na cena seguinte, o
ex-jogador estava assistindo ao jogo da copa com várias pessoas numa sala de
estar. Um rapaz perguntou a Romário onde estaria o pé esquerdo da sandália uma
vez que Romário estaria usando apenas o pé direito. A resposta veio na última
cena do comercial em que aparece um pacote embrulhado, provavelmente, com a
sandália esquerda dentro. O remetente era Romário e o destinatário era
Maradona, ex-craque e ex-técnico da seleção Argentina. O narrador fechou o
anúncio dizendo: “o pé direito é nosso”.
A
premissa é a mesma da propaganda de 2025: o pé direito é o pé da sorte,
retomando o ditado popular. E naquele momento, não gerou polêmica política. O
Brasil vivia a sua segunda copa do mundo como sede, mas o clima político não
estava ameno. Entre 2013 e 2014, a presidente Dilma Rousseff sofreu pedidos de
impeachment, e as ruas estavam cheias de manifestantes contra o quarto mandato
petista. Ainda assim, o anúncio não foi associado a um viés político.
Mudando
o produto, em fevereiro de 1998, a propaganda do “Comandante Limpol”,
interpretado pelo ator Carlos Moreno, utilizava a imagem de Che Guevara e a
música “Hasta Siempre” como fundo, com a icônica frase: “Quer dizer: Limpol.
Dureza contra a gordura, suavidade para suas mãos”. Antes de falar a frase em
português, o ator disse a frase famosa de suposta autoria de Che Guevara: “Hay
que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”. Nesse anúncio, a política
está muito mais explícita, associando a frase do revolucionário como qualidades
do detergente: duro contra a sujeira e suave para as mãos da dona de casa.
Novamente, a peça publicitária não gerou polêmicas entre partidários da direita
ou da esquerda e não houve boicote à marca. Pelo contrário, as propagandas
criadas pelo publicitário Washington Olivetto e a atuação de Carlos Moreno eram
esperadas e apreciadas pelo público em geral devido à sua criatividade.
O que
faz uma peça publicitária tão politizada como a que aparece a figura de Che
Guevara não gerar polêmica em 1998 enquanto uma propaganda em 2025 que apenas
se utiliza de um ditado popular termina em boicote dessa marca? Bem, pelo viés
materialista (Marx; Engels, 2007), podemos sugerir que as condições materiais e
históricas são outras. Desse modo, é necessário compreendermos como o
direcionamento ideológico está enviesando a interpretação.
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A interpretação enviesada
A
partir dos estudos críticos da sociedade e do capitalismo, Karl Marx (Marx;
Engels, 2007) chegou ao método do materialismo histórico e dialético, em que
analisou as condições materiais com relativa amplitude em busca de suas
contradições, isto é, o que de fato ocorre numa época e como a sociedade como
um todo é afetada. Desse modo, é possível perceber que ao mesmo tempo que a
sociedade de uma época é afetada por uma estrutura, ela também é capaz de
modificar essa estrutura. Desse modo, o pensamento de uma sociedade é fruto de
sua época e de suas contradições.
Louis
Althusser (1987), na esteira de Marx, vai dizer que os indivíduos são
interpelados pela ideologia, e que apenas assim, tornam-se sujeitos. Desse
modo, as contradições de uma dada época são representadas na luta de classes e
a ideologia é controlada pelos aparelhos ideológicos do Estado (Religião,
Política, Escola, Família, Mídia), forjando assim o pensamento das classes
populares. Se quem controla os aparelhos é a classe dominante, o que é
difundido é o pensamento da classe dominante. Desse modo, seus interesses e
privilégios são protegidos.
Michel
Pêcheux (1995) vai dizer que as formações ideológicas posicionam o sujeito
falante na sociedade, isto é, o significado que cada sujeito tem da vida está
relacionado com a ideologia que o atravessa e determina suas convicções. Desse
modo, qualquer palavra ou expressão passará pelo filtro da formação ideológica
de cada indivíduo. A palavra “comunismo” numa formação ideológica de esquerda
vai sugerir uma compreensão de que é um movimento político e um modo de
produção que objetiva a extinção das classes sociais; já numa formação
ideológica de direita vai sugerir a compreensão de um sistema ditatorial. Claro
que esse é um exemplo bem simples para exemplificar, pois, para chegar a essas
definições, há todo um percurso histórico e dialético do método materialista.
Portanto,
as reações das pessoas estão fundamentadas nesse percurso histórico e dialético
que forja a posição ideológica dos indivíduos numa sociedade. Em palavras mais
diretas, é possível perceber se a sociedade é mais progressiva ou mais
conservadora, se mais laica ou mais religiosa, mais radical ou mais moderada,
de acordo com os discursos (as produções orais e escritas) dessa sociedade.
Para isso, vamos fazer um exercício para analisar mais alguns exemplos que se
manifestaram no Brasil nos últimos anos.
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Exemplos concretos de um fanatismo recente no Brasil
Os
seguintes exemplos foram escolhidos por uma questão pragmática: a maior parte
do legislativo brasileiro é composta por políticos de direita e de
extrema-direita. Assim, é possível fazer uma relação com a posição política
majoritária no Brasil. Numa questão quantitativa, as pautas da esquerda
raramente ganham tanta projeção como as manifestações da direita.
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Negacionismo
O
negacionismo da extrema-direita é a recusa em aceitar fatos comprovados, sejam
eles científicos ou históricos, utilizando essa negação como uma estratégia
política para sustentar seu posicionamento e seus projetos de poder. Este
fenômeno é impulsionado pela desconfiança nas instituições tradicionais e
potencializado pelo uso das redes sociais.
O
negacionismo vacinal no Brasil durante a pandemia de COVID-19 foi um fenômeno
notável, caracterizado pela disseminação de desinformação, questionamento da
eficácia e segurança dos imunizantes, e, em grande parte, pelo negacionismo
institucional por parte do governo aparelhado de Jair Bolsonaro. Houve uma
disseminação massiva de informações falsas pelas redes sociais, que, mesmo após
serem desmentidas, continuavam a influenciar a população. O negacionismo
vacinal no Brasil contribuiu e contribui para a baixa nas taxas de cobertura
atuais.
O
Brasil não tem atingido mais a meta de 95% de cobertura vacinal para a maioria
dos imunizantes do calendário há alguns anos, com as taxas rondando
perigosamente 85%. A desinformação e as notícias falsas sobre vacinas cresceram
exponencialmente durante a pandemia, impactando a confiança geral na
imunização. As principais doenças que voltaram a ser uma preocupação devido à
baixa adesão às vacinas incluem: sarampo; poliomielite; coqueluche; difteria;
rubéola; e caxumba.
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Lei estadual em SC
A Alesc
(Assembleia Legislativa de Santa Catarina) aprovou no dia 10 de dezembro de
2025 um projeto de lei que proíbe a adoção de cotas e outras ações afirmativas
em instituições de ensino superior da rede pública ou que recebam verbas
públicas estaduais. De autoria do deputado Alex Brasil (PL), a aprovação
ocorreu com 24 votos favoráveis e sete votos contrários. Agora, segue para
sanção do governador Jorginho Mello (PL).
Votos
contra o projeto: Fabiano da Luz (PT); Marquito (PSOL); Neodi Saretta (PT);
Padre Pedro (PT); Paulinha (Podemos); Rodrigo Minotto (PDT); e Vicente
Caropreso (PSDB). Praticamente todos os votos são de partidos de esquerda e
progressistas, com exceção de 1 voto do Podemos e de 1 voto do PSDB.
Votos
favoráveis: Alex Brasil (PL); Altair Silva (PP); Ana Campagnolo (PL); Antídio
Lunelli (MDB); Camilo Martins (Podemos); Carlos Humberto (PL); Emerson Stein
(MDB); Fernando Krelling (MDB); Ivan Naatz (PL); Jair Miotto (União Brasil);
Jessé Lopes (PL); Junior Cardoso (PRD); Lucas Neves (Podemos); Marcos da Rosa
(União Brasil); Marcius Machado (PL); Matheus Cadorin (Novo); Maurício
Eskudlark (PL); Maurício Peixer (PL); Napoleão Bernardes (PSD); Nilso Berlanda
(PL); Oscar Gutz (PL); Pepê Collaço (PP); Tiago Zilli (MDB); e Volnei Weber
(MDB).
Essa
medida estabelece um retrocesso social na história do Brasil. Simplesmente
repele políticas de inclusão e justiça social, pois as cotas raciais foram
criadas para enfrentar desigualdades históricas e estruturais que marginalizam
pessoas negras, indígenas e outros grupos racializados no acesso ao ensino
superior. Não passa de preconceito disfarçado sob o mito da meritocracia.
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Aborto
O
aborto é uma temática que envolve mais do que política, mas também forte apelo
religioso. Embora a ciência já tenha explicado quais são as formas seguras de
fazê-lo, já se tenha sua permissão na lei e que grande parte dos países
desenvolvidos já o permitam, o Brasil segue na contramão do progresso.
A
criança de 10 anos que engravidou após ser violentada por um tio em São Mateus
(ES) conseguiu realizar o procedimento de aborto em agosto de 2020 após o
Tribunal de Justiça do Espírito Santo conceder a ela o direito previsto na lei
brasileira de interromper uma gravidez fruto de um estupro. Contudo, o processo
virou joguete político, depois de ser vazado para a imprensa. Na época, o caso
ganhou repercussão depois que a ministra Damares Alves, da Secretaria da
Mulher, questionando a lei que aprovou o aborto e a clínica que efetuou o
procedimento. Para os evangélicos (e cristãos em geral), trata-se de
assassinato; entretanto, a ciência médica defende que não é se for feito até o
terceiro mês de gravidez. O médico deste caso foi Olympio Filho, que, há 12 anos,
foi excomungado pela Igreja de Pernambuco por interromper a gravidez de uma
menina de 9 anos, que também havia sido estuprada.
Já em
2022, a juíza Joana Ribeiro Zimmer impediu uma menina de 11 anos de fazer um
aborto depois de ter sido estuprada, em Santa Catarina, e foi promovida e
transferida da 1ª Vara Cível de Tijucas para Brusque. A juíza enviou a menina
para um abrigo, impedindo que ela fosse submetida ao procedimento. A
justificativa foi a de proteger a criança, porque causa dos indícios de que os
abusos ocorriam em casa. Mas, na decisão: “Se no início da medida protetiva o
motivo do acolhimento institucional era a presença de suspeitos homens na casa,
o fato é que, doravante, o risco é que a mãe efetue algum procedimento para
operar a morte do bebê”, escreveu Joana. Fanatismo religioso ainda não permite
a descriminalização do aborto no Brasil, levando muitas mulheres, principalmente
pobres e negras, à morte por procedimentos em clínicas clandestinas.
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Igreja tombada e SUS
Repercussão
causada pelo desconhecimento do termo técnico “tombamento”. O vereador Clayton
Sassá (União Brasil), da cidade de Capão Bonito (SP), confundiu o sentido da
palavra “tombamento” durante uma votação na Câmara Municipal, em junho de 2025.
Nas suas palavras: “Se trata de uma igreja histórica, 150 anos. Não são 150
dias, não são 150 meses. Sou totalmente contrário ao tombamento dessa igreja.
Ao contrário, tem que se tornar um patrimônio público e histórico do nosso
município porque é uma marca para a Igreja Católica”. Ainda que sua defesa seja
justa, demonstrou desconhecimento do termo técnico usado na legislação. Esse
não é um caso isolado de parlamentares da extrema-direita que demonstram
profundo desconhecimento sobre pautas que acusam ou defendem.
Nessa
mesma linha, o deputado estadual por São Paulo Guto Zacarias (União Brasil),
participou do Canal Spectrum, no dia 11 de dezembro de 2025: “Guto Zacarias vs
20 Ativistas LGBT”. Na ocasião, discutiam sobre o SUS, transição de gênero e
castração química, entre outros tópicos relacionados. O deputado demonstrou
total despreparo e conhecimento sobre o SUS, objeto de seus projetos de lei. Em
um momento do programa, foi perguntado a ele sobre os princípios básicos do
SUS. Sem obter resposta, a pessoa que fez a pergunta respondeu: Universalidade
(saúde como direito de todos e dever do Estado), Equidade (tratar desigualmente
os desiguais para reduzir desigualdades) e Integralidade (cuidado completo:
promoção, prevenção, tratamento e reabilitação, vendo a pessoa como um todo).
Outro
caso que ficou famoso foi o do Ministro da Saúde que não sabia da existência do
SUS. Ministro de Bolsonaro, Eduardo Pazuello assumiu o Ministério da Saúde em
16 de maio de 2020 e ficou até 23 de março de 2021. Pazuello gerou polêmica
sobre seu posto ao dizer que: “Eu não sabia nem o que era o SUS”. Essa fala
repercutiu mal porque o governo de Bolsonaro insistia em dizer que era um
governo de ministros técnicos. Pazuello, além de não ser médico, nem sabia da
existência do principal sistema público de saúde do Brasil.
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Bolsonaro negando projetos do PSOL sem os ler
Em 7 de
junho de 2021, Jair Bolsonaro afirmou publicamente que votava contra projetos
do PSOL sem sequer tomar conhecimento do seu conteúdo. Nas suas palavras: “Se é
do PSOL, sou 100% contra. Não interessa qual é o projeto”. Políticos assim
estão muito mais preocupados com a própria visão de mundo do que com a melhoria
de vida da população. Logo, melhor não se preocupar com a vida da população do
que aprovar uma proposta boa da esquerda.
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Populismo
Esse
tipo de comportamento dos parlamentares de partidos conservadores e ligados à
religião é endossado pelos eleitores que os elegem. Esse populismo
contemporâneo brasileiro instaura um inimigo invisível que é o “comunismo
ceifador da liberdade” e cresce ao gerar medo e ódio ao diferente e a tudo que
possa representar esse inimigo inventado. Portanto, o deslocamento do povo para
pautas de extrema-direita é coerente, já que o comunismo está na outra ponta (a
“extrema-esquerda”). Segundo Wodak (2015) Os populistas “ressignificam” crises
reais ou inventadas, apresentando-as como ameaças existenciais ao “povo” e à
“nação”; como resultado direto da traição das elites; e como culpa de “outros”
internalizados (imigrantes, muçulmanos, “parasitas”). Essa retórica cria um
estado de emergência permanente que justifica medidas autoritárias e a
deslegitimação de opositores, pois o discurso populista edifica uma identidade
nacional positiva (“nós”) através da identificação negativa contra um “eles”.
Agora podemos responder a pergunta do título.
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Por que devemos nos preocupar com o “boicote às Havaianas”?
O que
preocupa não é o boicote em si a uma marca qualquer, mas o comportamento social
e o gatilho que gerou tal ação. A política no Brasil vem esvaziando seus
conteúdos e seus debates sérios. A “defesa da moral” vem sendo sobreposta a
pautas de interesse material de seu povo como um todo. Um Estado laico deve
responder à sua constituição, e não a uma bíblia (escrita e reescrita centenas
de vezes há mais de centenas de anos). Aliás, o Estado não deve responder à
religião alguma, ainda que o Brasil caminhe para um Estado fundamentalista – a
criminalização do aborto em pleno 2025 é um bom exemplo.
Não é
uma questão abstrata de ideologia, pois, de acordo com as teorias materialistas
(Pêcheux, 1995), reproduzimos as ideologias que nos atravessam e nos tornamos
sujeitos. Dito de outro modo, as condições materiais brasileiras vêm tornando o
Brasil um país que rachou em nome de um brutal extremismo de direita, revelando
suas contradições que não são percebidas pela metade do país. Em exemplos
concretos, a pandemia mostrou que 700 mil mortes por negligência foi apenas a
ponta de um problema que viria mais adiante: movimento antivacina, desconfiança
do processo eleitoral, tentativa de golpe no 8 de janeiro, discursos eleitorais
que prometem a bíblia como Constituição, assassinatos de opositores políticos e
violência policial autorizada.
Todas
essas ações sendo aplaudidas por pessoas que defendem o cancelamento do outro,
do diferente, do pobre, do trans, do negro, da mulher; entretanto, quando foram
presas pelo atentado de 8 de janeiro, pediram direitos humanos e melhores
condições nas cadeias. Devido ao alto nível de ignorância, é muito provável
que, uma vez fora da prisão, essas mesmas pessoas voltem a defender pena de
morte e o fim dos direitos humanos.
Então,
sair pulando com um pé só diante das lojas das Havaianas demonstra mais do que
pouca inteligência e reflexão crítica, mas o espelho de parte de uma sociedade
doente, que segue, sem nenhum viés crítico, líderes que defendem tortura,
morte, negacionismo, extremismo religioso, sem questionamentos ou compromisso
real com o país.
A única
preocupação é seguir discursos vazios que confirmem seus preconceitos e seu
ódio ao próximo. Como fantoches de um esquema muito bem articulado, agem sem
refletir por um momento em tais ações enquanto, na calada da noite, esses
mesmos políticos fazem votações no parlamento para aumentar seus próprios
privilégios e os da classe dominante; classe essa que os mantém em posição de
usurpar um pouco mais do limitado controle que lhes é permitido ter.
Fonte:
Por Victor Hugo da Silva Vasconcellos, no Le Monde

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