sábado, 17 de janeiro de 2026

Luís Nassif: Xadrez do Master, a maior crise institucional da história do mercado

Duas “notícias de fatos” foram protocoladas pelo Banco Central junto ao Ministério Público Federal em relação ao caso Banco Master.

A primeira foi protocolada formalmente no meio de 2025, referente a crimes ocorridos entre final de 2024 e início de 2025. A segunda foi protocolada em novembro de 2025, sobre crimes de 2023 a 2024.

Nos próximos dias, haverá novas notícias de fato, já em andamento.

O mapeamento do esquema Master identificou os seguintes movimentos:

>>> 1. O Esquema de Sangria (2023-2024)

O banco utilizou uma triangulação para desviar aproximadamente R$ 11,5 bilhões:

O que o Master fazia emprestar dinheiro para uma empresa, 500 milhões de reais. Essa empresa aplicava os 500 milhões de reais em um fundo da REAG. Na verdade, pagava 10 milhões de IOF e aplicava o restante no fundo.

Quando olhava-se para o balanço da empresa, estava aparentemente correto. Ela tinha 500 milhões de dívida e 500 milhões em investimento, em ativos.

Mas quando o dinheiro entrava no fundo da REAG, saía do controle do BC e passava a depender da fiscalização da CVM. O BC não tinha como enxergar o que havia no fundo. E o  fundo usava o dinheiro para comprar ativos sem valor real (como “cártulas do BESC”) por preços exorbitantes. Por exemplo, o fundo comprava por R$ 500 milhões algo que valia R$ 10 milhões.

O BC identificou seis fundos administrados pela REAG (Astralo 95, Reag Growth 95, Hans 95, Olaf 95, Maia 95 e Anna) com patrimônio total de R$ 102,4 bilhões, suspeitos de participarem de um esquema de lavagem de aproximadamente R$ 11,5 bilhões.

O vendedor do ativo (um laranja) ficava com o lucro, que circulava por outros fundos até chegar aos beneficiários finais.

Ia pingando de fundo em fundo, parando sempre nos mesmos fundos dos mesmos laranjas. Esse esquema sangrou o Master em 11,5 bilhões entre 2023 e 2024.

>>> 2. A Pirâmide de Liquidez (Esquema Ponzi)

A lógica bancária consiste em captar depósitos a um determinado custo e emprestar a um custo maior, embutindo o spread do banco.

Para manter o fluxo de caixa enquanto o dinheiro era desviado:

•        O banco oferecia carências longas (3 a 5 anos) nos empréstimos para adiar a percepção de inadimplência.

•        Captava novos investimentos via CDB para pagar os investidores antigos, caracterizando uma pirâmide financeira. Chegou a oferecer CDBs por 140% do CDI. Seria praticamente impossível encontrar tomador de empréstimo disposto a pagar 150% ou 160% do CDI.

•        Veio a crise de 2024, a credibilidade caiu, a captação secou e o banco perdeu a capacidade de pagar os vencimentos.

>>> 3. A Fraude da “Tirreno” e o BRB (Final de 2024-2025)

Desesperado por liquidez, o banco tentou uma “transfusão de sangue”:

Usou a a empresa Tirreno (gerida por um ex-funcionário) para simular a venda de uma carteira de crédito de R$ 6 bilhões ao Master. O Master não pagava a Tirreno, criando apenas um registro contábil. A Tirreno “vendia”, o Master reconhecia, mas não pagava.  Criava ativo fictício, que só existia contabilmente.

Análise do Banco Central de 30 CPFs aleatórios dessa carteira revelou que nenhuma das operações de crédito existiu – não houve movimentação financeira correspondente.

Em seguida, o Master revendeu essa mesma carteira ao BRB por R$ 12 bilhões, manipulando a taxa de juros (de 4% para 2% ao mês) para dobrar o valor nominal do ativo. (Aqui entra um toque de matemática financeira que deixarei para explicar em outra oportunidade).

Na sequência, houve a proposta para o BRB comprar o Master. O objetivo era fundir os balanços para esconder a fraude e usar a capacidade de captação do BRB (banco público) para continuar o esquema. A bomba explodiria algum tempo depois nas costas dos contribuintes.

No início de 2025, reduziu de 140% para cerca de 110-114% em alguns prazos após anúncio de aquisição pelo BRB.

>>> 4. Intervenção e Colapso

Percebendo a criação do esquema Ponzi, o Banco Central limitou a captação do Master a 100% do CDI, o que paralisou o crescimento do banco (em 2025, captou apenas R$ 90 milhões contra um passivo bilionário).

Desde abril de 2025, o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) passou a pagar os CDBs vencidos do Master através de uma linha emergencial.

O controlador teve que vender ativos pessoais (Hotéis Fasano, aviões, lanchas) para tentar aportar capital, até que tentou usar dinheiro dos fundos administrados por laranjas, o que foi barrado pelo BC.

O banco foi liquidado quando não tinha caixa para pagar nem 15% dos vencimentos da semana.

>>> 5. O Componente Político e Institucional

Trata-se de uma crise institucional sem precedentes.

Usa-se a expressão “to be, to fail” para caracterizar instituições muito grandes, cuja quebra pode significar um risco sistêmico. No BC a expressão utilizada é “too big to fail da corrupção”. O banco não era um risco para o sistema financeiro (apenas 0,5% dos ativos), mas um risco sistêmico para as instituições, pois teria “comprado” influência no Senado, Câmara, TCU e agências de risco.

Essa foi a razão do BC ter demorado para agir, segundo se alega internamente.

A liquidação gerou uma crise institucional sem precedentes, com o STF, TCU e Congresso questionando simultaneamente decisões técnicas do Banco Central.

Há controvérsias sobre a cronologia – documentos mostram negociações prolongadas entre BC, Master e BRB, com o BC impondo condições crescentemente restritivas antes de vetar a operação em setembro de 2025. A alegação era que a rede de influência do Master não permitiria nenhum passo em falso.

Questiona-se como agências como a Fitch elevaram a nota do banco e como uma Big Four (KPMG/PwC) auditou os balanços sem apontar as fraudes.

Do lado dos advogados do Master, provavelmente a linha de argumentação será a de que fio a interrupção da venda de ativos dos fundos que levou à queda da instituição.

Há muito jogo pela frente. Mas o caso Master entrará pela história como o capítulo maior da degradação institucional do país.

•        Banco Central identifica 36 empresas em desvio bilionário no Banco Master

O Banco Central identificou indícios de um esquema financeiro envolvendo 36 empresas que teriam sido utilizadas para a concessão de empréstimos supostamente fictícios no Banco Master, permitindo o desvio de R$ 11,5 bilhões. Segundo a apuração, os recursos teriam circulado por uma complexa rede de fundos de investimento administrados pela Reag antes de retornar ao sistema financeiro, em operações que levantaram suspeitas de fraude e lavagem de dinheiro. As informações são do Valor Econômico.

As informações constam de uma comunicação enviada pelo Banco Central ao Ministério Público em 17 de novembro, na véspera da decretação da liquidação extrajudicial do Banco Master.  A relação reúne, em sua maioria, empresas de pequeno porte, muitas delas recém-constituídas, com capital social reduzido e forte concentração no setor da construção civil, embora também apareçam companhias de segmentos como alimentos, hotelaria e comércio exterior.

De acordo com o relatório, parte dessas empresas apresenta características típicas de firmas sem operação efetiva, o que contrasta com os procedimentos tradicionais de concessão de crédito no sistema bancário, que costumam envolver análise detalhada de risco, histórico financeiro e relacionamento comercial. Além disso, o Banco Central destacou o caminho percorrido pelos recursos, considerado atípico e repetido em todos os casos analisados.

Segundo a autoridade monetária, os valores captados pelo Banco Master junto a depositantes, principalmente por meio de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) — muitos deles com garantia do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) — teriam sido desviados ao longo de uma cadeia de empréstimos e investimentos. Após saírem do banco, os recursos retornavam como novas aplicações em CDBs, agora em nome de fundos considerados “laranjas”, ligados a integrantes do suposto esquema.

Um dos casos citados é o da Brain Realty Consultoria e Participações, que teria tomado um empréstimo de R$ 449,36 milhões. Após a liberação do crédito, a empresa teria direcionado os recursos principalmente para os fundos D Mais e Bravo, ambos administrados no âmbito da Reag. O Banco Central estima que o valor médio supostamente desviado por empresa que transitou por esses fundos foi de R$ 288 milhões, sendo que o menor aporte identificado foi de R$ 57 milhões.

Os fundos D Mais e Bravo, por sua vez, aplicavam os recursos em outros veículos da própria Reag, onde ocorreria efetivamente o desvio, segundo o relatório. Um dos principais instrumentos citados é o FIDC High Tower, que comprava títulos conhecidos como cártulas do antigo Banco do Estado de Santa Catarina (Besc), incorporado pelo Banco do Brasil em 2008. Esses papéis, com baixa liquidez, teriam sido adquiridos por valores reduzidos e posteriormente reavaliados nos balanços por montantes muito superiores.

O Banco Central aponta que um conjunto dessas cártulas foi comprado pelo fundo High Tower por cerca de R$ 850 milhões e depois reavaliado para R$ 10,8 bilhões. A diferença de preços teria sido apropriada como lucro pelo suposto esquema. Em decorrência de operações desse tipo, o fundo chegou a informar um retorno anual de mais de 10,5 milhões por cento em 2024, o que resultou em um ganho financeiro de R$ 10,502 bilhões no período, mesmo após amortizações relevantes.

Após o desvio, teria início um processo de lavagem de dinheiro, com sucessivos reinvestimentos em fundos exclusivos ligados à Reag, até que os valores chegassem a beneficiários finais apontados como laranjas. No relatório enviado ao Ministério Público, o Banco Central detalha transferências, coincidência de valores e a sincronização de datas e horários das movimentações. No caso da Brain Realty, o rastreamento indicou que o dinheiro acabou retornando ao Banco Master na forma de aplicação em CDB.

A autoridade monetária destacou ainda seis fundos com participação relevante nessas operações: Astralo 95, Reag Growth 95, Hans 95, Maia 95 e Anna. A Reag já havia sido mencionada na Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025, que investigou o uso de fundos de investimento para ocultação e lavagem de recursos atribuídos ao PCC.

Esse é um dos dois grandes conjuntos de irregularidades comunicados pelo Banco Central ao Ministério Público. Em outro relatório, encaminhado em julho de 2025, o órgão apontou supostas fraudes na venda de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB), envolvendo operações que, segundo as apurações, não existiam. O Banco Central afirma ter identificado ligações entre os dois esquemas, inclusive pedidos de aumento de capital com recursos provenientes de contas consideradas laranjas.

No documento encaminhado ao Ministério Público, o Banco Central solicitou o congelamento de R$ 11,5 bilhões em ativos para tentar recuperar os valores supostamente desviados, com o objetivo de ressarcir credores da massa falida do Banco Master, como o FGC e fundos de pensão de entidades públicas.

Procurada, a Reag afirmou, em nota, que não é alvo da Operação Compliance Zero e declarou que “os fundos mencionados são produtos regulados, auditados e supervisionados pela CVM e pelo Banco Central”, acrescentando que “todos os aportes são obrigatoriamente homologados pelo BC, que checa a origem dos recursos e a capacidade econômica de quem faz o aporte”.

Já a defesa de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, informou que “não foi solicitado o envio de nenhuma das três operações mencionadas (Carbono Oculto, Quasar ou Tank) ao Supremo Tribunal Federal (STF)”. Segundo a nota, “o pedido feito à Justiça teve como único objetivo apurar a procedência de notícias que associavam, de forma indevida, Daniel Vorcaro e o Banco Master a essas operações”, ressaltando que decisões judiciais teriam afirmado não haver relação entre o controlador, o banco e os casos citados.

•        TCU afasta omissão do BC no caso Banco Master

Uma análise preliminar conduzida por auditores do Tribunal de Contas da União (TCU) concluiu que não houve inação nem falta de acompanhamento do Banco Central no processo que resultou na liquidação extrajudicial do Banco Master.

O entendimento consta em um parecer técnico sigiloso divulgado pelo jornal Valor Econômico, que integra o processo relatado pelo ministro Jhonatan de Jesus.

Segundo os técnicos da Audbancos, unidade do TCU responsável pela área financeira, a cronologia apresentada pelo Banco Central demonstra monitoramento contínuo da instituição desde o primeiro semestre de 2024, inclusive com comunicação ao Ministério Público Federal sobre indícios de crimes nas operações do banco, controlado por Daniel Vorcaro.

O parecer aponta que o BC identificou uma grave e persistente situação de iliquidez, com incapacidade reiterada de honrar compromissos e violação de normas legais e regulatórias, o que daria respaldo jurídico à liquidação com base na Lei 6.024/1974.

Os auditores também destacaram que não cabe ao TCU interferir no mérito da decisão, desde que o ato esteja amparado pela legalidade, fundamentação técnica e interesse público.

Embora o relator tenha sinalizado a possibilidade de conceder uma medida cautelar para suspender a liquidação, os técnicos avaliaram que não estavam presentes os requisitos jurídicos necessários, como o fumus boni iuris, para justificar tal providência. Ainda assim, o ministro autorizou posteriormente uma inspeção no Banco Central, decisão que foi contestada pela autarquia e acabou suspensa após recurso.

 

Fonte: Jornal GGN/Brasil 247

 

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