Adhemar
Bahadian: Miserere Nobis
Os que
me privilegiam com sua leitura sabem que, desde os primeiros dias do primeiro
mandato do presidente Donald Trump, sugeri a leitura do livro “ The dangerous
case of Donald Trump”, publicado pela Associação Psiquiátrica dos Estados
Unidos da América.
Não é
comum e muito menos irrisório que a Associação Psiquiátrica dos Estados Unidos
dedique um livro com ensaios escritos pela nata da psiquiatria americana. E a
própria Associação adverte que a decisão de publicá-lo tenha sido pensada e
repensada, inclusive porque, desde os tempos de Goldwater - político que
dispensa apresentações tanto quanto recordações -, havia-se tornado proibido
publicar análises com perfis psicológicos de candidatos a cargos políticos, em
especial ao cargo de presidente da República.
Consciente
deste e de outros percalços, a Associação informa, na nota introdutória ao
livro, que pesou muito mais na decisão de levar ao público suas observações
sobre o psiquismo de Trump a percepção de que os perigos com a eventual eleição
do agente imobiliário em muito ultrapassavam os riscos de litígios e
condenações.
Hoje,
em sua segunda edição nos Estados Unidos, enriquecido com novas análises e
novos achados, o livro deveria merecer a leitura de eleitores, presidentes de
partidos e, sobretudo, do grande público interessado em ir além das copiosas e
frequentes apresentações de candidatos com poder institucional para transformar
para pior a vida de todos nós.
Não é
livro de leitura fácil. Também não é obviamente endereçado aos iniciados nos
meandros nem sempre óbvios das doenças mentais. Acredito que qualquer pessoa
com conhecimentos básicos poderá compreender tudo que ali se descreve. De
especial valor é o prefácio de Jeffrey Sachs, homem de percuciente análise da
geopolítica e professor na Columbia University.
Sem ter
a pretensão de recensear aqui as diversas análises do livro, penso que não
desfiguro a obra se me concentrar no que os autores chamam de personalidade
narcísica de Trump, sempre sequioso em fazer de seus seguidores uma espécie de
espelho a refletir sua sede de aprovação e obediência, tão óbvia no dia a dia
do governante.
A par
deste componente malignamente narcisista, Trump impõe sua visão própria da
realidade, transpondo-a para uma esfera colidente com os fatos vistos e
observados por todos.
Ainda
nesses dias tivemos a infeliz oportunidade de constatarmos “ad nauseam” este
traço malévolo de Trump em suas observações sobre a “legítima defesa” do agente
de imigração que matou com três tiros uma jovem senhora americana no volante de
seu carro.
O vídeo
exibido múltiplas vezes em diferentes ângulos e velocidade nas televisões do
planeta é de uma evidência cristalina. Apenas para Trump não o é. Para ele
houve legítima defesa do atirador, tornando-o "ipso facto" uma vítima
e não um algoz.
Merece
igualmente registro a análise do vice-presidente Vance que salpica condimentos
picantes como a de classificar a vítima como uma radical terrorista, sem
qualquer comprovação desta suspeita.
Seguiu-se
a proibição de que as autoridades competentes estaduais pudessem iniciar uma
investigação dos fatos, ao mesmo tempo em que as altas autoridades federais se
manifestavam concordes com as opiniões de seus líderes. Desta forma, viciou-se
ou até anulou-se a possibilidade de se chegar a uma investigação confiável.
Qualquer
comparação com a trajetória errática da única bala que matou Kennedy não será
coincidência.
Registrei
o episódio e recordei o livro psiquiátrico porque o conceito de fato e verdade
talvez seja o mais manipulável no mundo do conúbio entre a inteligência
artificial e a autocracia.
A
expansão deste mecanismo para a subversão geopolítica que assistimos em
diversos cenários internacionais torna a paranoia do Doutor Fantástico - na
genial interpretação de Peter Sellers - uma alegoria quase infantil.
Já não
há sequer a hipocrisia de vestir a arrogância com a defesa da Democracia, como
ficou evidente na invasão da Venezuela que fez de Trump o maior propagandista
do petróleo é nosso.
A
questão que nos preocupa a todos é a de saber onde nos levará toda essa ciranda
dos demônios em que a cobiça argentária se sobrepõe a séculos de princípios e
leis internacionais em associação com uma “nova ordem” a nos lembrar o “espaço
vital “de Hitler.
Minha
convicção e minha esperança repousam, por incrível que pareça, nos valores da
própria Democracia americana. Não creio que tarde a surgir a reação vigorosa da
dignidade americana contra o desmonte geral a que estamos a assistir.
Trump é
o primeiro a reconhecer esta possibilidade. Ainda outro dia advertiu: se os
Democratas vencerem as eleições de novembro para a renovação do Congresso, a
primeira coisa que farão será o “impeachment" dele, Trump.
Um
breve instante de lucidez. Uma breve brecha de culpa?
Fonte:
JB

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