Stephen
Wertheim: Hoje, o alvo de Trump foi Caracas. E amanhã?
“Isso é
genial”, exclamou Donald Trump, entusiasmado. Era
22 de fevereiro de 2022. Vladimir Putin acabara de
declarar a independência de partes do leste da Ucrânia e enviara
tropas russas para atuarem como forças de paz. O então e futuro presidente
americano ficou impressionado, até mesmo inspirado. “Poderíamos usar isso na
nossa fronteira sul”, ponderou Trump.
Trump não
sabia, então, que estava falando no início de uma invasão em grande escala que
já dura quase quatro anos e infligiu mais de 1,5 milhão de baixas, número que
continua a aumentar. E Trump não sabe agora o que desencadeou
na Venezuela. O país sul-americano não é a Ucrânia, nem, aliás,
o Afeganistão, o Iraque ou a Líbia. Mas,
ao ordenar ataques militares para depor o ditador Nicolás
Maduro, Trump mergulhou um país de cerca de 28 milhões de pessoas na
incerteza e descartou a lição mais óbvia e arduamente conquistada em décadas de
fracassos da política externa americana : guerras para mudança de regime são
fáceis de começar e difíceis de vencer, muito menos de transformar em algo que
se assemelhe a um sucesso genuíno.
Até
agora, Trump deu apenas o primeiro passo, se tanto. Ele ainda não derrubou o
regime da Venezuela, apenas o decapitou, prendendo o homem no topo. Em seu
discurso anunciando a guerra, no entanto, Trump se apresentou como o herói
conquistador. O presidente se vangloriou longamente do “poder militar
avassalador” que havia demonstrado, como se os Estados Unidos não possuíssem um
longo histórico de triunfos operacionais desastrosos — lembrem-se do “choque e
pavor” em Bagdá — que deram lugar a desastres estratégicos.
A
julgar pelo que Trump diz, a parte mais difícil provavelmente já
passou. Agora, a paz, a prosperidade e a liberdade começarão. "Vamos
governar o país", declarou ele, e para isso, Trump disse estar disposto a
enviar tropas para o terreno e ansioso para ver o petróleo jorrar. O Plano A
para o governo pós-Maduro, sugeriu Trump, era manter a vice-presidente de
Maduro, Delcy Rodríguez, no poder, porque ela ajudaria os Estados Unidos a
fazer o que eles queriam. Duas horas depois, Rodríguez insistiu que Maduro continuava
sendo o líder legítimo da Venezuela e denunciou os Estados Unidos como um
invasor imperialista ilegal que busca saquear o país.
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Vamos então ao Plano B
Independentemente
do que aconteça a seguir na Venezuela, as consequências não se limitarão a esse
país. Trump claramente pretendia, com seu ataque, afirmar a soberania
dos EUA sobre toda a região. "O domínio americano no hemisfério
ocidental jamais será questionado novamente", declarou ele. Na estratégia
de segurança nacional divulgada no mês passado, o governo declarou um
"Corolário Trump" à Doutrina Monroe de 1823,
reivindicando um mandato para usar todos os meios necessários para eliminar
praticamente qualquer tipo de influência externa das Américas . O governo mal
começou a aplicar seu tão alardeado corolário. Trump prefere retratar
entidades mais próximas de casa – migrantes, gangues e cartéis – como ameaças
existenciais aos Estados Unidos, invadindo o país de fora e subvertendo-o por
dentro.
O
ataque de Trump à Venezuela confirma o que seu semestre de
ataques com lanchas rápidas no Caribe já sugeria: os
Estados Unidos estão transformando a agora exausta guerra ao terror em uma
guerra contra o chamado narcoterrorismo. A inimizade antes
direcionada a terroristas no Oriente Médio está se voltando para um
caleidoscópio de ameaças transfronteiriças no hemisfério ocidental. A definição
de Trump dessas ameaças é quase infinitamente permeável, estendendo-se ao que
ele repetidamente chamou de "inimigo interno". Não foi por acaso que
Trump interrompeu seu discurso sobre a Venezuela para improvisar sobre as
tropas que enviou para patrulhar cidades americanas.
Hoje, o
alvo era Caracas. E amanhã? Trump já traçou um plano. Ele assumiu o
cargo prometendo anexar a Groenlândia e retomar o Canal do
Panamá. Agora que depôs Maduro, poderia usar a mesma lógica para atacar
diversos países. Trump afirmou ontem que “os cartéis controlam o
México”, uma alegação que contém toda a justificativa de que ele precisaria
para invadi-lo. Enquanto isso, o secretário de Estado Marco Rubio alertou o
governo cubano para que se preocupasse.
Mesmo
que o melhor cenário possível se concretize na Venezuela – se uma
democracia estável, rica em petróleo e pró-americana surgir repentinamente – o
sucesso pode encorajar o governo a descobrir até onde pode ir para remodelar a
região a seu gosto.
Mas os
melhores cenários raramente se concretizam. O mais provável é que a sorte
de Donald Trump com ataques militares relâmpago esteja prestes a
acabar. "Grandes nações não travam guerras intermináveis", disse ele
em seu primeiro mandato. Então, que tipo de nação é a América de Trump?
¨
Depois da Venezuela, quais outros países podem estar na
mira de Trump
O
segundo mandato do presidente americano Donald Trump está sendo
marcado pelas suas ambições na política externa.
Ele cumpriu suas ameaças contra a Venezuela, capturando seu
presidente Nicolás Maduro e a primeira-dama Cilia Flores, em um contundente ataque noturno ao seu complexo
fortemente protegido em Caracas. Ao descrever a operação, o presidente
americano invocou a Doutrina Monroe de 1823 e sua
promessa de supremacia dos Estados Unidos no hemisfério ocidental. Agora, ela é
chamada de "Doutrina Donroe".
O ataque dos EUA à Venezuela e a captura de Nicolás Maduro não apenas
desestabilizaram o equilíbrio político interno do país, como também enviaram um
sinal claro ao restante da América Latina . Para
Washington, a operação representa a demonstração mais contundente até agora da
disposição do governo americano em usar a força para impor o que considera seus
interesses estratégicos no Hemisfério Ocidental.
Para
Elizabeth Dickinson, analista sênior para a Colômbia do think
tank International Crisis Group (ICG), a mensagem central é
inequívoca. "Os Estados Unidos estão afirmando seu direito de pressionar e
intervir na região para alinhá-la aos seus interesses de segurança",
sublinha. Ela avalia que a operação na Venezuela serve como um aviso direto a
outros governos: "Ou se alinham às políticas de Trump ou enfrentarão esse
tipo de consequência".
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Estratégia implementada passo a passo
Para
muitos governos latino-americanos, o ataque confirmou que a nova estratégia de segurança nacional dos EUA não é
mais apenas um documento político. "Não se trata apenas de burocracia.
Washington está agindo de forma ativa e surpreendente", ressalta Maureen
Meyer, vice-presidente de programas da ONG Escritório de Washington para a
América Latina (Wola).
Meyer
alerta que a região percebe um retorno a práticas do passado. "Há uma
crescente preocupação de que isso seja uma retomada da diplomacia das
canhoneiras, com um governo dos EUA disposto a usar a força militar."
Segundo a especialista, a estratégia de Trump prioriza o Hemisfério Ocidental e
combina coerção econômica, pressão política e uma maior presença militar.
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Groenlândia
Os
Estados Unidos já têm uma base militar na Groenlândia, a Base Espacial de Pituffik. Mas Trump quer a ilha inteira.
"Precisamos
da Groenlândia do ponto de vista da segurança nacional", declarou ele a
jornalistas. Trump afirma que a região estava "coberta de navios russos e
chineses em toda parte".
A vasta
ilha no Ártico faz parte do Reino da Dinamarca. Ela fica a cerca de 3,2 mil
quilômetros a nordeste dos Estados Unidos.
A
Groenlândia é rica em terras raras, fundamentais para a
produção de smartphones, veículos elétricos e equipamentos militares. E,
atualmente, a produção chinesa de terras raras é muito maior que a dos Estados
Unidos.
A ilha
também ocupa importante localização estratégica no Atlântico Norte. Ela oferece
acesso ao Círculo Polar Ártico, que é cada vez mais importante mundialmente.
Afinal, novas rotas marítimas devem ser abertas à medida que o gelo polar for
derretendo nos próximos anos.
O
primeiro-ministro da Groenlândia, Jens Frederik Nielsen, respondeu a Trump,
descrevendo a ideia de controle americano sobre a ilha como
"fantasia".
"Chega
de pressões. Chega de insinuações. Chega de fantasias de anexação",
declarou Nielsen.
"Estamos
abertos ao diálogo. Estamos abertos às discussões. Mas isso deve acontecer
pelos canais adequados e com respeito à legislação internacional."
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Colômbia: eleições sob pressão
A
Colômbia está se tornando um dos países mais vulneráveis. Trump disse que o
país vizinho da Venezuela é governado por um "homem doente" que adora
"produzir cocaína e vendê-la nos Estados Unidos". O republicano
acrescentou que "ele não fará isso por muito tempo", sem explicar
detalhes. O presidente americano já havia criticado duramente o presidente
colombiano, Gustavo Petro , em diversas
ocasiões. Quando um jornalista perguntou se haveria uma intervenção militar
contra a Colômbia, Trump respondeu: "Isso me soa bem".
Poucas
horas depois da operação na Venezuela, Trump alertou o presidente colombiano,
Gustavo Petro, a "cuidar do próprio traseiro".
Vizinha
da Venezuela a oeste, a Colômbia abriga consideráveis reservas petrolíferas e é
um importante produtor de ouro, prata, esmeraldas, platina e carvão.
O país
também é um centro importante do comércio de drogas da região, principalmente
cocaína.
Em
setembro, os Estados Unidos começaram a atacar navios no mar do Caribe e no
leste do Pacífico, afirmando, sem mostrar evidências, que eles transportavam
drogas. Desde então, Trump se mantém em uma disputa cada vez maior com o
presidente de esquerda do país. Os Estados Unidos impuseram sanções a Gustavo Petro em outubro,
alegando que ele teria permitido que os cartéis de drogas
"prosperassem".
A bordo
do avião presidencial Air Force One no domingo (4/1), Trump afirmou que a
Colômbia é "dirigida por um homem doente, que gosta de produzir cocaína e
vendê-la para os Estados Unidos".
Questionado
se os Estados Unidos realizariam uma operação dirigida à Colômbia, o presidente
americano respondeu: "Para mim, parece bom."
Historicamente,
a Colômbia é um forte aliado na guerra de Washington contra as drogas. O país
recebe anualmente centenas de milhões de dólares em assistência militar para
combater os cartéis.
Elizabeth
Dickinson, especialista do ICG, enfatiza que a relação entre Trump e Petro se
deteriorou rapidamente. No entanto, considerando os indícios de que a operação
contra Maduro exigiu meses de preparação, ela não acredita que haja um perigo
imediato de intervenção militar.
O
contexto eleitoral na Colômbia oferece outra oportunidade. Com as eleições
presidenciais marcadas para maio , Dickinson
acredita que "a mensagem para a Colômbia é um sinal da disposição dos
Estados Unidos em influenciar o resultado do pleito". Do ponto de vista de
Washington, seria preferível um governo mais alinhado com suas prioridades – o
combate ao narcotráfico, o controle da imigração e a cooperação em
segurança.
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Irã
O Irã
enfrenta atualmente protestos em massa contra o governo. Trump alertou que
as autoridades do país sofreriam um "golpe muito forte" se mais
manifestantes fossem mortos pelas forças de segurança do governo.
"Estamos
observando com muita atenção", declarou ele a repórteres, no Air Force
One, o avião presidencial americano. "Se eles começarem a matar pessoas
como fizeram no passado, acho que receberão um golpe muito forte dos Estados
Unidos."
Teoricamente,
o Irã está fora dos domínios definidos pela "Doutrina Donroe". Mas
Trump já ameaçou anteriormente o regime iraniano com novas ações, depois
de atacar suas instalações nucleares no
ano passado.
Os
ataques ocorreram depois que Israel lançou uma operação em larga escala
destinada a destruir a capacidade iraniana de desenvolver armas nucleares, o
que culminou no conflito de 12 dias entre os dois
países.
O Irã
teria estado no topo da agenda em uma reunião entre o presidente americano e o
primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, na semana passada, na
residência de Trump em Mar-a-Lago (Flórida, EUA). A imprensa americana também
noticiou que Netanyahu mencionou possíveis novos ataques contra o Irã em 2026.
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México: entre cooperação e soberania
A
chegada de Trump ao poder em 2016, para seu primeiro mandato, foi definida
pelos seus anúncios da construção de um muro ao longo da
fronteira sul dos Estados Unidos com o México.
No
primeiro dia do seu segundo mandato, em 2025, o presidente assinou uma ordem
executiva, alterando o nome do Golfo do México para "Golfo da América".
Trump
vem afirmando frequentemente que as autoridades mexicanas não estão fazendo o
suficiente para impedir o fluxo de imigrantes ilegais para os Estados Unidos.
O
México ocupa uma posição diferente, mas não menos delicada. Segundo Meyer, o
país aprendeu a gerir uma relação marcada pela coerção. "A ameaça real de
tarifas e força militar levou o México a adaptar políticas para conter a
migração e o narcotráfico", frisa a analista.
No
entanto, poucas horas após a intervenção dos EUA na Venezuela, Trump questionou
a autoridade da presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, que se opôs às
operações americanas contra os cartéis de drogas em seu país. "Ela não
governa o México, os cartéis governam. Temos que fazer algo em relação ao
México", afirmou Trump.
Dessa
forma, o ataque à Venezuela aumenta o nível de alarme regional.
"Esse
precedente obriga os governos a recalibrar a forma como reagem e como cooperam
com uma administração imprevisível", adverte Meyer.
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Cuba em posição vulnerável
Cuba aparece
repetidamente nos alertas de Washington. Dickinson lembra que "Cuba tem
sido uma prioridade política há décadas para figuras-chave no círculo de
Trump".
Cuba
fica a apenas 145 km do sul da Flórida. A ilha sofre sanções dos Estados Unidos desde o início
dos anos 1960 e mantinha relações estreitas com a Venezuela de Nicolás Maduro.
Trump
sugeriu no domingo (4/1) que a intervenção militar norte-americana no país não
é necessária porque Cuba estaria "pronta para cair".
"Não
acho que precisamos de nenhuma ação", disse ele. "Parece que está
caindo."
"Não
sei se eles irão se manter, mas Cuba, agora, não tem renda", acrescentou
Trump. "Eles ganhavam sua renda da Venezuela, do petróleo
venezuelano."
Cuba aparece
repetidamente nos alertas de Washington. Dickinson lembra que "Cuba tem
sido uma prioridade política há décadas para figuras-chave no círculo de
Trump".
O
secretário de Estado americano, Marco Rubio, filho de exilados cubanos, passou
anos se posicionando como um opositor ferrenho do regime socialista autoritário
de Havana.
Meyer
aponta que já existem efeitos colaterais. "Os Estados Unidos esperam
enfraquecer ainda mais a economia cubana, reduzindo seu acesso ao petróleo e
rompendo suas relações com a Venezuela". Embora não esteja claro se haverá
uma ação militar direta, a especialista acredita que Havana está em uma
posição particularmente vulnerável.
A
Venezuela supostamente fornece cerca de 30% do petróleo consumido em Cuba, o
que deixa Havana exposta em caso de colapso do fornecimento, na ausência de
Maduro.
O
secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, é filho de imigrantes
cubanos e defende há muito tempo a mudança de regime na ilha.
No
sábado (3/1), ele declarou aos jornalistas que "se eu morasse em Havana e
estivesse no governo, estaria preocupado, pelo menos um pouquinho".
"Quando
o presidente fala, é preciso levá-lo a sério."
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Quem tem mais a temer?
Embora
a operação na Venezuela não indique necessariamente que ocorrerão ações
imediatas em outros países, Dickinson enfatiza que a ameaça faz parte da
estratégia. "A possibilidade de intervenção exerce uma pressão constante
para que os governos se adaptem às prioridades dos EUA".
Para
Meyer, o maior impacto do ataque não é imediato, mas estrutural. "Um
precedente perigoso foi estabelecido", alerta.
A
região agora observa Washington conduzir a transição na Venezuela, ciente de
que o sucesso ou o fracasso desta operação condicionará os próximos passos dos
Estados Unidos na América Latina.
Fonte: The
Guardian/BBC News Mundo/DW Brasil

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