segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Stephen Wertheim: Hoje, o alvo de Trump foi Caracas. E amanhã?

“Isso é genial”, exclamou Donald Trump, entusiasmado. Era 22 de fevereiro de 2022. Vladimir Putin acabara de declarar a independência de partes do leste da Ucrânia e enviara tropas russas para atuarem como forças de paz. O então e futuro presidente americano ficou impressionado, até mesmo inspirado. “Poderíamos usar isso na nossa fronteira sul”, ponderou Trump.

Trump não sabia, então, que estava falando no início de uma invasão em grande escala que já dura quase quatro anos e infligiu mais de 1,5 milhão de baixas, número que continua a aumentar. E Trump não sabe agora o que desencadeou na Venezuela. O país sul-americano não é a Ucrânia, nem, aliás, o Afeganistão, o Iraque ou a Líbia. Mas, ao ordenar ataques militares para depor o ditador Nicolás Maduro, Trump mergulhou um país de cerca de 28 milhões de pessoas na incerteza e descartou a lição mais óbvia e arduamente conquistada em décadas de fracassos da política externa americana : guerras para mudança de regime são fáceis de começar e difíceis de vencer, muito menos de transformar em algo que se assemelhe a um sucesso genuíno.

Até agora, Trump deu apenas o primeiro passo, se tanto. Ele ainda não derrubou o regime da Venezuela, apenas o decapitou, prendendo o homem no topo. Em seu discurso anunciando a guerra, no entanto, Trump se apresentou como o herói conquistador. O presidente se vangloriou longamente do “poder militar avassalador” que havia demonstrado, como se os Estados Unidos não possuíssem um longo histórico de triunfos operacionais desastrosos — lembrem-se do “choque e pavor” em Bagdá — que deram lugar a desastres estratégicos.

A julgar pelo que Trump diz, a parte mais difícil provavelmente já passou. Agora, a paz, a prosperidade e a liberdade começarão. "Vamos governar o país", declarou ele, e para isso, Trump disse estar disposto a enviar tropas para o terreno e ansioso para ver o petróleo jorrar. O Plano A para o governo pós-Maduro, sugeriu Trump, era manter a vice-presidente de Maduro, Delcy Rodríguez, no poder, porque ela ajudaria os Estados Unidos a fazer o que eles queriam. Duas horas depois, Rodríguez insistiu que Maduro continuava sendo o líder legítimo da Venezuela e denunciou os Estados Unidos como um invasor imperialista ilegal que busca saquear o país.

<><> Vamos então ao Plano B

Independentemente do que aconteça a seguir na Venezuela, as consequências não se limitarão a esse país. Trump claramente pretendia, com seu ataque, afirmar a soberania dos EUA sobre toda a região. "O domínio americano no hemisfério ocidental jamais será questionado novamente", declarou ele. Na estratégia de segurança nacional divulgada no mês passado, o governo declarou um "Corolário Trump" à Doutrina Monroe de 1823, reivindicando um mandato para usar todos os meios necessários para eliminar praticamente qualquer tipo de influência externa das Américas . O governo mal começou a aplicar seu tão alardeado corolário. Trump prefere retratar entidades mais próximas de casa – migrantes, gangues e cartéis – como ameaças existenciais aos Estados Unidos, invadindo o país de fora e subvertendo-o por dentro.

O ataque de Trump à Venezuela confirma o que seu semestre de ataques com lanchas rápidas no Caribe já sugeria: os Estados Unidos estão transformando a agora exausta guerra ao terror em uma guerra contra o chamado narcoterrorismo. A inimizade antes direcionada a terroristas no Oriente Médio está se voltando para um caleidoscópio de ameaças transfronteiriças no hemisfério ocidental. A definição de Trump dessas ameaças é quase infinitamente permeável, estendendo-se ao que ele repetidamente chamou de "inimigo interno". Não foi por acaso que Trump interrompeu seu discurso sobre a Venezuela para improvisar sobre as tropas que enviou para patrulhar cidades americanas.

Hoje, o alvo era Caracas. E amanhã? Trump já traçou um plano. Ele assumiu o cargo prometendo anexar a Groenlândia e retomar o Canal do Panamá. Agora que depôs Maduro, poderia usar a mesma lógica para atacar diversos países. Trump afirmou ontem que “os cartéis controlam o México”, uma alegação que contém toda a justificativa de que ele precisaria para invadi-lo. Enquanto isso, o secretário de Estado Marco Rubio alertou o governo cubano para que se preocupasse.

Mesmo que o melhor cenário possível se concretize na Venezuela – se uma democracia estável, rica em petróleo e pró-americana surgir repentinamente – o sucesso pode encorajar o governo a descobrir até onde pode ir para remodelar a região a seu gosto.

Mas os melhores cenários raramente se concretizam. O mais provável é que a sorte de Donald Trump com ataques militares relâmpago esteja prestes a acabar. "Grandes nações não travam guerras intermináveis", disse ele em seu primeiro mandato. Então, que tipo de nação é a América de Trump?

¨      Depois da Venezuela, quais outros países podem estar na mira de Trump

O segundo mandato do presidente americano Donald Trump está sendo marcado pelas suas ambições na política externa.

Ele cumpriu suas ameaças contra a Venezuela, capturando seu presidente Nicolás Maduro e a primeira-dama Cilia Flores, em um contundente ataque noturno ao seu complexo fortemente protegido em Caracas. Ao descrever a operação, o presidente americano invocou a Doutrina Monroe de 1823 e sua promessa de supremacia dos Estados Unidos no hemisfério ocidental. Agora, ela é chamada de "Doutrina Donroe".

 ataque dos EUA à Venezuela e a captura de Nicolás Maduro não apenas desestabilizaram o equilíbrio político interno do país, como também enviaram um sinal claro ao restante da América Latina . Para Washington, a operação representa a demonstração mais contundente até agora da disposição do governo americano em usar a força para impor o que considera seus interesses estratégicos no Hemisfério Ocidental.

Para Elizabeth Dickinson, analista sênior para a Colômbia do think tank International Crisis Group (ICG), a mensagem central é inequívoca. "Os Estados Unidos estão afirmando seu direito de pressionar e intervir na região para alinhá-la aos seus interesses de segurança", sublinha. Ela avalia que a operação na Venezuela serve como um aviso direto a outros governos: "Ou se alinham às políticas de Trump ou enfrentarão esse tipo de consequência".

<><> Estratégia implementada passo a passo

Para muitos governos latino-americanos, o ataque confirmou que a nova estratégia de segurança nacional dos EUA não é mais apenas um documento político. "Não se trata apenas de burocracia. Washington está agindo de forma ativa e surpreendente", ressalta Maureen Meyer, vice-presidente de programas da ONG Escritório de Washington para a América Latina (Wola).

Meyer alerta que a região percebe um retorno a práticas do passado. "Há uma crescente preocupação de que isso seja uma retomada da diplomacia das canhoneiras, com um governo dos EUA disposto a usar a força militar." Segundo a especialista, a estratégia de Trump prioriza o Hemisfério Ocidental e combina coerção econômica, pressão política e uma maior presença militar.

<><> Groenlândia

Os Estados Unidos já têm uma base militar na Groenlândia, a Base Espacial de Pituffik. Mas Trump quer a ilha inteira.

"Precisamos da Groenlândia do ponto de vista da segurança nacional", declarou ele a jornalistas. Trump afirma que a região estava "coberta de navios russos e chineses em toda parte".

A vasta ilha no Ártico faz parte do Reino da Dinamarca. Ela fica a cerca de 3,2 mil quilômetros a nordeste dos Estados Unidos.

A Groenlândia é rica em terras raras, fundamentais para a produção de smartphones, veículos elétricos e equipamentos militares. E, atualmente, a produção chinesa de terras raras é muito maior que a dos Estados Unidos.

A ilha também ocupa importante localização estratégica no Atlântico Norte. Ela oferece acesso ao Círculo Polar Ártico, que é cada vez mais importante mundialmente. Afinal, novas rotas marítimas devem ser abertas à medida que o gelo polar for derretendo nos próximos anos.

O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens Frederik Nielsen, respondeu a Trump, descrevendo a ideia de controle americano sobre a ilha como "fantasia".

"Chega de pressões. Chega de insinuações. Chega de fantasias de anexação", declarou Nielsen.

"Estamos abertos ao diálogo. Estamos abertos às discussões. Mas isso deve acontecer pelos canais adequados e com respeito à legislação internacional."

<><> Colômbia: eleições sob pressão

A Colômbia está se tornando um dos países mais vulneráveis. Trump disse que o país vizinho da Venezuela é governado por um "homem doente" que adora "produzir cocaína e vendê-la nos Estados Unidos". O republicano acrescentou que "ele não fará isso por muito tempo", sem explicar detalhes. O presidente americano já havia criticado duramente o presidente colombiano, Gustavo Petro , em diversas ocasiões. Quando um jornalista perguntou se haveria uma intervenção militar contra a Colômbia, Trump respondeu: "Isso me soa bem".

Poucas horas depois da operação na Venezuela, Trump alertou o presidente colombiano, Gustavo Petro, a "cuidar do próprio traseiro".

Vizinha da Venezuela a oeste, a Colômbia abriga consideráveis reservas petrolíferas e é um importante produtor de ouro, prata, esmeraldas, platina e carvão.

O país também é um centro importante do comércio de drogas da região, principalmente cocaína.

Em setembro, os Estados Unidos começaram a atacar navios no mar do Caribe e no leste do Pacífico, afirmando, sem mostrar evidências, que eles transportavam drogas. Desde então, Trump se mantém em uma disputa cada vez maior com o presidente de esquerda do país. Os Estados Unidos impuseram sanções a Gustavo Petro em outubro, alegando que ele teria permitido que os cartéis de drogas "prosperassem".

A bordo do avião presidencial Air Force One no domingo (4/1), Trump afirmou que a Colômbia é "dirigida por um homem doente, que gosta de produzir cocaína e vendê-la para os Estados Unidos".

Questionado se os Estados Unidos realizariam uma operação dirigida à Colômbia, o presidente americano respondeu: "Para mim, parece bom."

Historicamente, a Colômbia é um forte aliado na guerra de Washington contra as drogas. O país recebe anualmente centenas de milhões de dólares em assistência militar para combater os cartéis.

Elizabeth Dickinson, especialista do ICG, enfatiza que a relação entre Trump e Petro se deteriorou rapidamente. No entanto, considerando os indícios de que a operação contra Maduro exigiu meses de preparação, ela não acredita que haja um perigo imediato de intervenção militar.

O contexto eleitoral na Colômbia oferece outra oportunidade. Com as eleições presidenciais marcadas para maio , Dickinson acredita que "a mensagem para a Colômbia é um sinal da disposição dos Estados Unidos em influenciar o resultado do pleito". Do ponto de vista de Washington, seria preferível um governo mais alinhado com suas prioridades – o combate ao narcotráfico, o controle da imigração e a cooperação em segurança. 

<><> Irã

O Irã enfrenta atualmente protestos em massa contra o governo. Trump alertou que as autoridades do país sofreriam um "golpe muito forte" se mais manifestantes fossem mortos pelas forças de segurança do governo.

"Estamos observando com muita atenção", declarou ele a repórteres, no Air Force One, o avião presidencial americano. "Se eles começarem a matar pessoas como fizeram no passado, acho que receberão um golpe muito forte dos Estados Unidos."

Teoricamente, o Irã está fora dos domínios definidos pela "Doutrina Donroe". Mas Trump já ameaçou anteriormente o regime iraniano com novas ações, depois de atacar suas instalações nucleares no ano passado.

Os ataques ocorreram depois que Israel lançou uma operação em larga escala destinada a destruir a capacidade iraniana de desenvolver armas nucleares, o que culminou no conflito de 12 dias entre os dois países.

O Irã teria estado no topo da agenda em uma reunião entre o presidente americano e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, na semana passada, na residência de Trump em Mar-a-Lago (Flórida, EUA). A imprensa americana também noticiou que Netanyahu mencionou possíveis novos ataques contra o Irã em 2026.

<><> México: entre cooperação e soberania

A chegada de Trump ao poder em 2016, para seu primeiro mandato, foi definida pelos seus anúncios da construção de um muro ao longo da fronteira sul dos Estados Unidos com o México.

No primeiro dia do seu segundo mandato, em 2025, o presidente assinou uma ordem executiva, alterando o nome do Golfo do México para "Golfo da América".

Trump vem afirmando frequentemente que as autoridades mexicanas não estão fazendo o suficiente para impedir o fluxo de imigrantes ilegais para os Estados Unidos.

O México ocupa uma posição diferente, mas não menos delicada. Segundo Meyer, o país aprendeu a gerir uma relação marcada pela coerção. "A ameaça real de tarifas e força militar levou o México a adaptar políticas para conter a migração e o narcotráfico", frisa a analista.

No entanto, poucas horas após a intervenção dos EUA na Venezuela, Trump questionou a autoridade da presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, que se opôs às operações americanas contra os cartéis de drogas em seu país. "Ela não governa o México, os cartéis governam. Temos que fazer algo em relação ao México", afirmou Trump.

Dessa forma, o ataque à Venezuela aumenta o nível de alarme regional.

"Esse precedente obriga os governos a recalibrar a forma como reagem e como cooperam com uma administração imprevisível", adverte Meyer.

<><> Cuba em posição vulnerável

Cuba aparece repetidamente nos alertas de Washington. Dickinson lembra que "Cuba tem sido uma prioridade política há décadas para figuras-chave no círculo de Trump".

Cuba fica a apenas 145 km do sul da Flórida. A ilha sofre sanções dos Estados Unidos desde o início dos anos 1960 e mantinha relações estreitas com a Venezuela de Nicolás Maduro.

Trump sugeriu no domingo (4/1) que a intervenção militar norte-americana no país não é necessária porque Cuba estaria "pronta para cair".

"Não acho que precisamos de nenhuma ação", disse ele. "Parece que está caindo."

"Não sei se eles irão se manter, mas Cuba, agora, não tem renda", acrescentou Trump. "Eles ganhavam sua renda da Venezuela, do petróleo venezuelano."

Cuba aparece repetidamente nos alertas de Washington. Dickinson lembra que "Cuba tem sido uma prioridade política há décadas para figuras-chave no círculo de Trump".

O secretário de Estado americano, Marco Rubio, filho de exilados cubanos, passou anos se posicionando como um opositor ferrenho do regime socialista autoritário de Havana.

Meyer aponta que já existem efeitos colaterais. "Os Estados Unidos esperam enfraquecer ainda mais a economia cubana, reduzindo seu acesso ao petróleo e rompendo suas relações com a Venezuela". Embora não esteja claro se haverá uma ação militar direta, a especialista acredita que Havana está em uma posição particularmente vulnerável.

A Venezuela supostamente fornece cerca de 30% do petróleo consumido em Cuba, o que deixa Havana exposta em caso de colapso do fornecimento, na ausência de Maduro.

O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, é filho de imigrantes cubanos e defende há muito tempo a mudança de regime na ilha.

No sábado (3/1), ele declarou aos jornalistas que "se eu morasse em Havana e estivesse no governo, estaria preocupado, pelo menos um pouquinho".

"Quando o presidente fala, é preciso levá-lo a sério."

<><> Quem tem mais a temer?

Embora a operação na Venezuela não indique necessariamente que ocorrerão ações imediatas em outros países, Dickinson enfatiza que a ameaça faz parte da estratégia. "A possibilidade de intervenção exerce uma pressão constante para que os governos se adaptem às prioridades dos EUA".

Para Meyer, o maior impacto do ataque não é imediato, mas estrutural. "Um precedente perigoso foi estabelecido", alerta.

A região agora observa Washington conduzir a transição na Venezuela, ciente de que o sucesso ou o fracasso desta operação condicionará os próximos passos dos Estados Unidos na América Latina.

 

Fonte: The Guardian/BBC News Mundo/DW Brasil

 

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