Exploração
de lítio no Jequitinhonha tem mais casas rachadas do que promessas cumpridas
No Vale
do Jequitinhonha, em Minas Gerais, moradores de uma comunidade colada em uma
mina de lítio, entre os municípios de Araçuaí e Itinga, temem que o teto caia
sobre suas cabeças. Há semanas não se escuta o barulho da mineradora, mas a
preocupação com as rachaduras das casas, causadas por anos de detonações, é
maior do que o alívio momentâneo. Ninguém sabe o que vai acontecer daqui para
frente.
Os
representantes da empresa, que chegou ao Jequitinhonha prometendo mundos e
fundos, disseram que as operações retornariam em novembro, mas o prazo não foi
cumprido. Os impostos e royalties que viriam com a exploração do lítio, um dos
chamados minerais críticos para a transição energética, secaram no último ano.
Mesmo o aumento da oferta de empregos sofreu um revés: a Fagundes Construção e
Mineração, empreiteira terceirizada, demitiu 500 funcionários e se retirou da
operação minerária por falta de pagamento de um montante que chegaria a R$ 115
milhões.
A 1.800
km dali, em um evento paralelo à Conferência do Clima da ONU (COP30), em Belém
(PA), a fundadora e CEO da Sigma Lithium, a maior produtora de lítio do Brasil,
exalta a responsabilidade social da empresa, afirma ter a mina “mais
sustentável do mundo” e diz que a chegada da companhia mudou a história da
região, que “não tinha absolutamente nenhuma atividade econômica”.
<><>
Por que isso importa?
A
exploração de lítio, mineral crítico para a transição energética, é vista como
promissora para o Brasil. Mas a chegada de novas empresas da mineração no Vale
do Jequitinhonha, no norte de Minas Gerais, vendido em Nova York pelo
governador Romeu Zema como “Vale do Lítio”, mostra impactos sociais e
ambientais que os moradores têm enfrentado sozinhos e o descumprimento de
promessas da principal mineradora, a Sigma Lithium. Além disso, revela os
limites do mercado e da empresa, que está tendo dificuldades com a queda do
preço do lítio, o que impacta também o caixa das prefeituras da região pela
redução da arrecadação.
A
contradição entre o que a Agência Pública viu e ouviu no Jequitinhonha nos
cinco dias em que esteve na região e as promessas e afirmações da CEO Ana
Cabral salta aos olhos.
Com
ações negociadas nas bolsas de valores de Canadá, EUA e Brasil, a empresa vale
mais de 1 bilhão de dólares – apesar de queda vertiginosa nos últimos anos –,
aposta suas fichas em marketing e vende seu produto com “preço premium”,
ancorada no discurso ESG (sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança).
Além disso, conta com o apoio político do governador de Minas Gerais, Romeu
Zema (Novo), que chegou a lançar nos Estados Unidos o projeto “Vale do Lítio”,
em 2023, buscando atrair mineradoras para a região. O Jequitinhonha,
historicamente habitado por comunidades tradicionais de agricultura familiar, é
rico em cultura, artesanato e natureza, mas é também marcado pelo abandono do
poder público e por índices socioeconômicos abaixo da média do estado.
Com a
chegada da mineradora em 2012, a região viu a oferta de empregos aumentar e a
economia se aquecer – ainda que em nível aquém ao esperado –, mas também passou
a conviver com a poluição do ar, o barulho ensurdecedor, os danos às casas e
ainda os aumentos nos preços, nos aluguéis e na demanda dos serviços de saúde.
Na
comunidade de Piauí Poço Dantas, a mais afetada pela operação da Sigma,
encontramos moradores decepcionados e sem esperança. Eles reclamam de problemas
respiratórios, dificuldade para dormir, contaminação do ribeirão que dá nome ao
local e afirmam preferir receber indenização para deixar a região a permanecer
sujeitos aos impactos da Sigma.
“Esse
povo veio pra cá, a gente estava de boa. Eles podiam ter deixado a gente
quietinho, não precisavam ter judiado de nós. Eu não sou contra tirar o
minério, mas eles podiam ter legalizado direitinho, ter afastado as pessoas
daqui. Acabaram com a minha casa, mas eu não posso reclamar para eles, porque o
dinheiro fala mais alto”, desabafa o aposentado Amilcar Viana, morador da
região há décadas.
“Eu
quero sair, mas eu não tenho condição, nem de consertar minha casa e nem de
comprar outra. Só tenho se eles pagarem, porque foram eles que quebraram minha
casa. Eu tenho medo que ela caia em cima da gente de noite”, relata a também
aposentada Maria de Fátima, conhecida como Dona Fatinha. Sua mãe, que morava na
residência mais próxima da pilha de estéril da Sigma, a menos de 100 metros,
morreu no início de 2025 aos 94 anos, após contrair uma pneumonia que a família
relaciona à poeira da mineradora.
Para a
professora da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM)
Aline Faé Stocco, o discurso “verde” da mineração não se sustenta. “A
sustentabilidade passa pela permanência das pessoas nesses locais. O que a
gente vem observando é que essa permanência está insustentável”, aponta Stocco,
que integra o Liquit – Vozes do Território, um grupo de pesquisa formado por
diferentes universidades públicas de Minas Gerais em consórcio com uma
universidade britânica, que tem estudado os impactos da exploração de lítio no
Jequitinhonha.
A
Pública enviou uma lista de perguntas para a Sigma Lithium, que não respondeu
até a publicação. A operação da mineradora segue paralisada.
<><>
Transição energética injusta
O boom
da exploração de lítio no norte de Minas Gerais não está descolado do contexto
global das mudanças climáticas e tem tudo a ver com a necessidade de reduzir a
dependência de combustíveis fósseis, como o petróleo, que são a maior fonte de
emissão de gases estufa. Substituí-los por fontes renováveis de energia, como
eólica e solar, e trocar os automóveis a combustão por veículos elétricos faz
parte da solução para conter o aquecimento do planeta – e é aí que o lítio
entra na história.
Além de
outros usos, como na cerâmica e na indústria farmacêutica, esse elemento
químico é componente essencial tanto para as baterias de automóveis elétricos
quanto nas utilizadas para armazenar energia de fontes renováveis. Ainda que
haja resistência das potências petrolíferas em abandonar os combustíveis
fósseis e oscilações na velocidade da transição energética, a tendência é que a
demanda pelo lítio cresça nos próximos anos.
No
Brasil, que em 2024 teve participação de cerca de 10% na produção mundial, a
região apontada como a de maior potencial para a exploração de minérios que
contêm lítio é justamente o Jequitinhonha – o que disparou uma corrida pelo
“ouro branco”.
Dados
da Agência Nacional de Mineração (ANM), citados em uma perícia feita pelo
Ministério Público Federal (MPF), revelam que há quase 1.400 processos
minerários ligados ao elemento químico na região. O possível impacto da
exploração desenfreada fez com que o MPF recomendasse à ANM e ao órgão estadual
de meio ambiente a suspensão e revisão das autorizações de mineração do lítio
no Jequitinhonha, já que ao menos 248 comunidades tradicionais e quilombolas
podem ser afetadas, com processos minerários diretamente sobrepostos a 80
territórios. Os órgãos ainda não responderam à recomendação.
Entre
os projetos mais avançados estão os da australiana Pilbara Minerals, da
americana Atlas, e da MGLit, subsidiária da canadense Lithium Ionic. As duas
últimas sofreram reveses, com os processos de licenciamento travados por falta
de consulta prévia a comunidades tradicionais. Enquanto a primeira incide nas
comunidades quilombolas da Área de Proteção Ambiental (APA) Chapada do Lagoão,
a segunda pode afetar o Quilombo do Baú – que já sofre com impactos da Sigma.
A
exploração de lítio, vale destacar, não é novidade para os moradores do
Jequitinhonha. Há mais de 30 anos, a Companhia Brasileira de Lítio (CBL) opera
na região, atendendo a demanda de setores como cerâmica, metalurgia e
farmoquímica. Mas, de acordo com os relatos ouvidos pela Pública, a atuação da
CBL nunca chegou perto de gerar os problemas que a jovem operação da Sigma tem
ocasionado. A explicação para isso tem a ver com o método de exploração
escolhido pela mineradora.
Durante
o World Climate Summit, o evento paralelo à COP30 citado no início da
reportagem, a fundadora e CEO da Sigma, Ana Cabral, afirmou que
“sustentabilidade virou uma conversa sobre energia” e “energia significa fazer
mais com menos porque, inevitavelmente, ela precisa ter baixo custo”. “Essa é a
discussão: como torná-la de baixo custo?”, questionou.
Dentro
da estratégia da Sigma para reduzir os custos, está a opção por explorar o
lítio com lavra a céu aberto, um modelo mais barato do que a mina subterrânea
adotada pela CBL, mas com maior impacto ambiental e também social – o que tem
provocado uma crescente judicialização.
A
Pública identificou ao menos 12 ações judiciais movidas por moradores de Piauí
Poço Dantas contra a Sigma tramitando na Justiça estadual de Minas. Os afetados
pedem indenização e a compra de suas residências, para que possam deixar a
região. Além deles, também há uma ação judicial movida na esfera federal por
indígenas Pankararu e Pataxó da Terra Cinta Vermelha de Jundiba, localizada em
Araçuaí.
Apesar
dos embates judiciais e da resistência de órgãos como o MPF, a própria Sigma,
que foi beneficiada por incentivos fiscais, tem planos de expansão: são 29
processos minerários ativos em Araçuaí e Itinga, divididos em quatro
propriedades, que ocupam quase 19 mil hectares. A empresa já conseguiu o
licenciamento ambiental para uma nova mina e tenta conseguir a licença para
ampliar a atualmente em atividade, a Grota do Cirilo.
O
processo de licenciamento dessa ampliação, no entanto, foi questionado pelo
grupo de pesquisa Liquit. Aline Weber Sulzbacher, também da UFVJM e do Liquit,
aponta que o avanço da mineração na região tem reproduzido “o velho modelo que
internaliza todos os lucros e externaliza os danos sociais e ambientais. “Para
que [as empresas] operem e garantam sua expansão, elas seguem inclusive
externalizando danos psicossociais, de aniquilamento da perspectiva de
continuidade das comunidades nos territórios”, diz.
A visão
de Sulzbacher é compartilhada ao menos parcialmente por um dos fundadores e
ex-co-CEO da Sigma, o britânico Calvyn Gardner, que enfrenta um divórcio
litigioso com Ana Cabral. Em entrevista ao Observatório da Mineração, o
empresário afirmou que mudanças na gestão da empresa deixaram a atenção ao
desenvolvimento de longo prazo da região em segundo plano, levaram a “decisões
focadas quase exclusivamente em lucros de curto prazo” e à priorização de
“aumento rápido da produção e a valorização das ações, com pouca atenção à
sustentabilidade operacional ou à segurança”.
Gardner
encomendou um estudo técnico que constatou problemas técnicos e de segurança na
operação da Sigma, com uma possível instabilidade nas cavas – o que a empresa
nega. O Observatório também revelou que o Plano Integrado de Aproveitamento
Econômico (PAE) protocolado pela Sigma em 2023 foi considerado “insatisfatório”
e que a maior parte das exigências técnicas emitidas pela ANM estão pendentes
de atendimento.
No fim
das contas, o Jequitinhonha está participando da transição energética, mas ela
não está ocorrendo de maneira justa; os moradores estão lidando com os ônus,
enquanto as empresas ficam com os bônus. “Eu não sou contra a mineração, eu sei
que nós precisamos dela para tudo. Eu sou contra o jeito que as mineradoras
fazem. Chegam, invadem, sufocam o povo e fica por isso mesmo”, afirma Márcio*,
um morador de Poço Dantas que preferiu não ser identificado por temer
represálias. “Eles chegaram falando que não iam trazer impacto nenhum, só iam
trazer benefícios, que iam empregar quase 100% da comunidade. Eu fiquei alegre
demais, porque antigamente era escasso de serviço. Só que foi totalmente ao
contrário do que eles falaram”, diz.
<><>
100% afetados por ruídos; 50% com rachaduras nas casas
No
período em que a Pública esteve em Piauí Poço Dantas, o som ambiente era uma
combinação de latidos de cachorros, cacarejar de galinhas e o canto de
passarinhos. Apesar do calor, o horizonte estava limpo e o ar respirável,
aliviando a tosse constante de alguns moradores. Se não fossem as enormes
pilhas de rejeito (ou de “estéril”) que circundam as mais de 60 casas e as
rachaduras em várias delas, a presença da mineração passaria despercebida.
A
paralisação das atividades da Sigma trouxe desemprego e aprofundou o
desequilíbrio das contas municipais, mas também trouxe de volta, ainda que
temporariamente, a tranquilidade para as comunidades vizinhas à mineradora. A
perspectiva de retorno da operação, porém, atormenta os locais, que temem
voltar a conviver com as explosões diárias, a poeira persistente, o fedor dos
explosivos e o barulho de caminhões dia e noite.
Um
relatório do Ministério Público mineiro (MPMG), feito a partir de entrevistas
com moradores atingidos, revela um pouco do impacto da mineradora quando em
atividade: 100% dizem ser afetados pelos ruídos do empreendimento, com 70%
afirmando que o barulho é alto ou muito alto; 76% reclamam da poeira, com 55%
apontando impactos na saúde; 89% dizem sentir as detonações e 50% relatam
rachaduras em suas residências.
“É uma
bênção essa empresa estar parada agora. Se eu limpo a casa, ela mantém limpa.
Você não ouve barulho, dorme tranquilo. Essas pedras [que a empresa coloca nos
caminhões], parece que tá jogando dentro da casa da gente, é doído”, conta o
morador Antônio Souza, que tem outros parentes vivendo na comunidade e nos
relata uma realidade bem diferente do discurso “verde” da mineradora.
Um dos
exemplos do marketing focado em ESG da Sigma é a sua planta de mineração
“quíntuplo zero”: zero barragens, zero produtos químicos, zero consumo de água
potável e zero utilização de energia de origem fóssil. Até pelo menos outubro
deste ano, o “quinto zero” alardeado pela empresa era de zero emissões de
carbono, afirmação que aparece em inúmeros comunicados publicados no site
oficial.
Desde
que a Repórter Brasil revelou que os créditos de carbono utilizados pela
empresa para compensar suas emissões de gases estavam ligados a um esquema de
desmatamento ilegal e grilagem investigado pela Polícia Federal, no entanto, o
“quinto zero” passou a ser de zero acidentes de trabalho.
A
situação reflete algo que especialistas que vêm se debruçando sobre os impactos
da mineradora apontam: mais do que apenas exportar um produto da cadeia do
lítio, a Sigma aposta em vender um modelo de “mineração sustentável”, que a
permite elevar o valor de seu produto. “Essa imagem de ‘lítio verde’
aparentemente traz mais dinheiro do que a produção real de minério”, afirma o
professor da UFMG Klemens Laschefski no documentário “À beira do abismo – a
batalha por matérias-primas: a mineração de lítio no Brasil”.
Não por
acaso, os questionamentos e as críticas têm gerado reações ruidosas da empresa,
com veículos de imprensa e organizações recebendo notificações extrajudiciais
ou ameaças de processo, e com moradores da região preferindo não se identificar
por temerem retaliações a parentes que estão empregados na mineradora.
<><>
Dificuldades econômicas fazem Sigma adiar planos de expansão
A saída
da empreiteira Fagundes Construção e Mineração – que rendeu um processo
judicial, tramitando em sigilo – e a consequente paralisação da mineração foram
minimizadas pela Sigma em seus comunicados oficiais. Segundo a empresa,
trata-se de uma “troca de fornecedores” para “aumentar a eficiência”, uma nova
terceirizada está sendo contratada e os trabalhadores demitidos serão
reabsorvidos – ainda que não haja divulgação de quantos e nem de quando isso
ocorrerá. Mas o embate com a empreiteira está longe de ser a única dificuldade
enfrentada pela mineradora nos últimos tempos.
Apesar
de ter apresentado números vistos como positivos pelo mercado em seu último
relatório trimestral, o crescimento prometido não tem se concretizado. Os
balanços anuais apresentados pela empresa mostram prejuízos líquidos
consecutivos entre 2022 e 2024, anos com dados disponíveis. Nos nove primeiros
meses de 2025, o prejuízo líquido ficou em torno de 25,7 milhões de dólares
canadenses (quase R$ 100 milhões).
As
dificuldades financeiras da Sigma, que levaram a empresa a ter sua
classificação rebaixada na Nasdaq, estão relacionadas a uma baixa expressiva no
preço do lítio no mercado internacional. O minério está longe de ser raro e,
nos últimos anos, uma combinação entre aumento da oferta e um avanço da
transição energética menos acelerado do que as previsões, fizeram com que seu
valor despencasse.
No
final de 2022, quando a Sigma avançava na construção de sua operação no
Jequitinhonha, o preço do lítio atingia seu pico, chegando a valer quase 600
mil yuans (mais de R$ 450 mil) a tonelada – a mercadoria é negociada em moeda
chinesa pois o país asiático, líder na produção de baterias elétricas, é o
principal comprador. Este ano, em junho, despencou para cerca de 60 mil yuans,
10% do valor registrado no pico. Nos últimos meses, registrou alguma
recuperação, chegando a quase 95 mil yuans (R$ 72 mil), mas ainda muito
distante dos valores registrados três anos atrás.
Isso se
refletiu no preço das ações da companhia. Na bolsa de valores canadense, em que
a Sigma foi listada pela primeira vez, o preço da ação chegou a valer quase 56
dólares canadenses (cerca de R$ 204, na cotação da época) em junho de 2023,
quando as primeiras remessas do produto foram exportadas, mas despencou para
menos de 6 dólares canadenses em julho de 2025. Atualmente, a ação está na casa
dos 14 dólares canadenses (cerca de R$ 56).
Com o
mercado pagando muito menos pelo lítio do que antes, vários dos planos da
mineradora têm sido adiados, como a intenção de verticalizar a produção,
fabricando um produto de maior valor agregado.
Além
disso, a construção de uma segunda planta industrial estava prevista para ser
concluída ainda em 2025, o que não ocorreu. A ampliação permitiria que a
empresa aumentasse sua capacidade de produção de concentrado de lítio de 270
mil toneladas/ano para 520 mil.
A obra
recebeu, em agosto de 2024, aprovação de um financiamento de R$ 486,7 milhões
do BNDES, com recursos do Fundo Clima, instrumento voltado para projetos que
ajudem na mitigação ou na adaptação às mudanças climáticas. Só que, sem
conseguir obter a carta fiança exigida pelo banco, a empresa ainda não executou
o empréstimo e a obra não avançou, levando outra empresa terceirizada, a FX
Minas Construtora, a demitir parte da equipe que estava mobilizada para o
serviço.
Com os
percalços, para além de impactos socioambientais, a promessa de
“desenvolvimento” do Jequitinhonha não tem se concretizado.
Só da
Sigma, as promessas de royalties pela exploração minerária beiravam R$ 1 bilhão
em 20 anos – uma média de quase R$ 50 milhões/ano. Nesses primeiros anos de
operação, porém, o montante não chegou nem perto disso. Em 2023, seu primeiro
ano de operação, a empresa pagou R$ 9,5 milhões de Compensação Financeira pela
Exploração Mineral (CFEM), metade para Itinga e metade para Araçuaí. Em 2024, o
valor saltou para R$ 12,5 milhões, na mesma proporção. Em 2025, no entanto, os
dados da Agência Nacional de Mineração (ANM) revelam que a empresa não pagou um
centavo sequer de CFEM.
O
orçamento das duas prefeituras revelam um impacto significativo com essa falta
de pagamento. Itinga, por exemplo, recebeu apenas 10% dos R$ 11,2 milhões de
royalties previstos para 2025 (equivalente a 11% do orçamento). Araçuaí, por
sua vez, previu R$ 14,6 milhões (5,6% do orçamento previsto), mas registra em
seu Portal da Transparência o recebimento de apenas R$ 155 mil em CFEM (pouco
mais de 1% do previsto). A discrepância entre expectativa e realidade também
aparece na arrecadação com o Imposto Sobre Serviços (ISS), uma das principais
fontes de receita dos municípios. Araçuaí, por exemplo, previu R$ 8 milhões e
arrecadou R$ 5,1 milhões até o fim de novembro. Em Itinga, a previsão foi de R$
17 milhões, mas menos de R$ 1 milhão foi arrecadado.
“[Esses
recursos] têm feito falta. Os essenciais a gente procurou manter, mas eu não
consegui executar muita coisa do orçamento em 2025 A informação que se tem é
que a empresa não está financeiramente tão bem”, afirma o prefeito de Itinga,
João Bosco Cordeiro, conhecido como Bosquinho (PSD).
“O Vale
é uma região com algumas vulnerabilidades, mas dizer que era absolutamente
miserável e que, a partir da Sigma, houve uma redenção, não condiz com a
realidade. Criou-se a expectativa de uma prosperidade absoluta, mas isso não se
concretizou ainda”, afirma o mandatário, que ressalta apoiar a chegada da
mineração na região e acreditar que o cenário irá melhorar no médio prazo.
Para o
prefeito de Araçuaí, Tadeu Barbosa (PSD), a região está vivenciando “um
paradoxo de coisas boas e ruins”, citando impactos positivos em emprego e
investimentos e negativos nos aluguéis, demanda de saúde e de educação. “A
Sigma entra, traz diversificação e melhoria, só que não é como salvadora da
pátria. Essa construção se dá com uma sequência de tempo que, no meu
entendimento, ainda está em maturação. Nós vamos ver as coisas acontecendo em
um prazo ainda não muito próximo”, diz.
<><>
CEO da Sigma virou alvo de notas de repúdio após declaração
Além de
dificuldades financeiras e denúncias de impactos socioambientais, a Sigma
também está enfrentando questionamentos perante a opinião pública da região,
graças a uma entrevista de Ana Cabral à rede de televisão CNBC. Durante a
COP30, a empresária deu declarações que uniram quase todo o Vale do
Jequitinhonha – contra ela.
“Nós
treinamos aquela geração perdida do Vale, que eram mulas d’água, crianças que
não tinham escola. Elas passavam o dia carregando água da cisterna pública para
a casa, da casa para a cisterna pública. Nós instalamos caixa d’água, abrimos
quatro escolas. Essas crianças, que não foram educadas, foram trabalhar no
bananal. Nós pegamos a mão de obra do bananal e treinamos para serem operadores
de planta. 43 operadores da planta, dos 200 que nós temos, são ex-mulas d’água,
olha que lindo, né?”, disse a fundadora da mineradora.
Na
página do LinkedIn da Sigma, foi publicada uma versão editada da entrevista,
sem as menções a “mulas d’água”. Desde que a polêmica foi disparada, a empresa
restringiu comentários em suas redes sociais. Homenageada pela Assembleia
Legislativa de Minas Gerais (ALMG) em agosto, a CEO da Sigma agora virou alvo
de notas de repúdio.
A fala,
vista como “paternalista”, “irresponsável” e até “mentirosa” por moradores da
região, gerou reações – em diferentes intensidades – de políticos locais
(incluindo vereadores, deputados estaduais, federais e os prefeitos de ambos os
municípios), da dona de um bananal localizado na região, entre outras figuras
públicas. Ao longo dos dias em que a Pública esteve na cidade, bastava tocar no
assunto “Sigma” para que manifestações efusivas de descontentamento fossem
trazidas pelos habitantes do Vale.
A
Diocese de Araçuaí também divulgou uma nota de repúdio contra a fala da CEO da
Sigma. Dom Geraldo Maia, bispo responsável pela região, afirmou à reportagem
que não retomará a interlocução que vinha mantendo com a empresa na tentativa
de dirimir os conflitos enquanto não houver retratação.
“Nós
não queremos que aqui seja chamado de Vale da Miséria e nem de Vale do Lítio. É
o Vale do Jequitinhonha, com suas belezas, suas tradições, sua cultura. Não
podemos deixar que essa beleza do Vale seja maculada em nome de um pretenso
processo redentor”, aponta o religioso à Pública, destacando que o lítio não é
a primeira tábua de salvação prometida à região, que já teve nas plantações de
eucalipto uma saída “milagrosa” – sem que isso se convertesse em prosperidade
para a população local.
Ao que
tudo indica, porém, não haverá pedido de desculpas: em post no Instagram, a
empresa dobrou a aposta, questionando quem estaria financiando “campanhas de
marketing” milionárias “para incessantemente espalhar fake news sobre a Sigma”.
Mas o fato é que a versão da empresa não se sustenta. A “construção” de quatro
escolas, por exemplo, não procede: a Sigma ajudou na reforma de três e, segundo
o prefeito de Araçuaí, “está comprometida com a reforma” de uma outra. Uma das
escolas reformadas, justamente a da comunidade Piauí Poço Dantas, existe desde
a década de 1970.
Além
disso, a despeito de haver, de fato, registros de pessoas – inclusive de
crianças – carregando latas d’água na cabeça, os moradores e autoridades
ouvidos pela Pública repudiam a insinuação de trabalho infantil, negam a
existência de “cisterna pública” na região, refutam que isso tenha tirado
crianças da escola ou provocado uma “geração perdida” e afirmam que o termo
“mula d’água” não faz parte do vocabulário da região e foi visto como altamente
pejorativo. Mais do que isso, apontam que a Sigma chegou apenas na década de
2010, e que os registros de carregamento de água datam do século passado, dos
anos 1970/80.
“Essa
mulher vem de longe para tirar nossas riquezas, para ficar rica, e ainda sai
falando mal do povo do Vale do Jequitinhonha? Isso eu não aceito!”, afirma uma
moradora que preferiu não se identificar, resumindo o espírito da região após a
fala de Cabral.
Fonte:
Por Rafael Oliveira & José Cícero, da Agência Pública

Nenhum comentário:
Postar um comentário