segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Oliveiros Marques: Venezuela, o petrodólar e a verdadeira guerra que nunca foi sobre democracia

Há narrativas que se repetem com tanta frequência que acabam sendo naturalizadas. Sempre que os Estados Unidos decidem intervir em outro país, o roteiro é conhecido: combate ao narcotráfico, defesa da democracia, luta contra o terrorismo ou enfrentamento de um “regime autoritário”. A retórica é polida, moralizante e cuidadosamente embalada para consumo global. Mas, quando se observa a história com um mínimo de atenção, percebe-se que o enredo real costuma ser outro — muito mais cru, material e estratégico. No caso da Venezuela, ele atende por um nome pouco mencionado nos discursos oficiais: petrodólar. Uma publicação em um perfil no X, sediado na Alemanha, chamou a atenção para isso.

A tese de que a ofensiva contra a Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro não têm como objetivo central a democracia ou o combate à corrupção ganha força quando inserida em um contexto histórico mais amplo. Como claramente explicado no livro de memórias de Henry Kissinger, Years of Renewal, em 1974, no auge da crise do petróleo, o ex-presidente norte-americano costurou um acordo silencioso, porém decisivo, com a Arábia Saudita: todo o petróleo comercializado internacionalmente seria cotado em dólares americanos. Em troca, os Estados Unidos garantiriam proteção militar ao reino saudita. Esse pacto criou uma demanda artificial e permanente pela moeda americana, transformando o dólar no eixo do sistema financeiro global.

Desde então, qualquer país que quisesse comprar petróleo precisava, antes, obter dólares. Isso permitiu aos EUA financiar déficits colossais, sustentar um orçamento militar gigantesco e imprimir moeda em escala inédita, enquanto o resto do mundo precisava produzir para obter aquilo que Washington podia criar do nada. O petrodólar, mais do que porta-aviões ou bases militares, tornou-se o verdadeiro pilar da hegemonia americana.

É justamente aí que a Venezuela entra em cena. O país possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta — cerca de 303 bilhões de barris, algo em torno de 20% de todo o petróleo mundial. Mais importante do que o volume, porém, foi a decisão política tomada a partir de 2018: Caracas anunciou que deixaria de negociar seu petróleo em dólares. Yuan chinês, euro, rublo — qualquer moeda, menos a americana. Paralelamente, buscou ingressar no BRICS, construiu canais de pagamento fora do sistema SWIFT e estreitou laços com China, Rússia e Irã, os principais vetores do processo global de desdolarização.

Para um sistema financeiro dependente do petrodólar, esse movimento é existencialmente ameaçador. Não por acaso, a história recente revela um padrão perturbador. Em 2000, Saddam Hussein anunciou que o Iraque venderia petróleo em euros. Três anos depois, o país foi invadido sob o pretexto de armas de destruição em massa que nunca existiram. O petróleo iraquiano voltou rapidamente a ser cotado em dólares. Em 2009, Muammar Gaddafi propôs o dinar de ouro africano para o comércio de petróleo. Em 2011, a OTAN destruiu a Líbia, e o líder líbio foi brutalmente assassinado. O projeto morreu com ele.

Agora, Maduro. Com reservas muito maiores do que as de Saddam e Gaddafi somadas, vendendo petróleo em yuan e defendendo abertamente a superação do dólar. Não se trata de coincidência, mas de método. Desafiar o petrodólar tem sido, historicamente, um atalho para a mudança forçada de regime.

Declarações recentes de autoridades americanas tornam isso ainda mais explícito. Quando se afirma que o petróleo venezuelano “pertence” aos Estados Unidos porque empresas americanas o exploraram no passado, o discurso abandona qualquer verniz democrático e assume a lógica colonial e imperialista em estado puro. Pela mesma lógica, toda nacionalização de recursos naturais ao longo da história seria um “roubo”, e a soberania dos povos não passaria de um detalhe inconveniente.

O problema para Washington é que o mundo de 1974 já não existe. Rússia, Irã e China negociam energia fora do dólar. A Arábia Saudita discute abertamente aceitar yuan. O CIPS chinês cresce como alternativa ao SWIFT, e o BRICS avança na construção de sistemas próprios de liquidação financeira. Nesse contexto, a entrada da Venezuela no bloco, com seu petróleo abundante, teria um efeito catalisador.

A tentativa de impor pela força a sobrevivência do petrodólar pode, paradoxalmente, acelerar sua erosão. A mensagem enviada ao Sul Global é clara: negociar fora do dólar tem custo militar. Mas, para muitos países, essa constatação apenas reforça a urgência de criar alternativas. A história mostra que impérios raramente caem por um único golpe; eles se desgastam tentando manter, à força, uma ordem que já começou a ruir.

A Venezuela, portanto, não é o centro do mundo, mas um espelho. O que está em jogo não é Maduro, nem a retórica moral que o cerca. É a disputa entre um sistema financeiro construído há 50 anos e um mundo que começa, lentamente, a escapar de seu controle.

Por que o petróleo da Venezuela é tão importante para os EUA

Os ataques dos Estados Unidos a Caracas e a captura do líder venezuelano Nicolás Maduro deixaram a nação sul-americana num estado de incerteza. O presidente Donald Trump anunciou, logo após a ação militar, que os EUA "governarão" a Venezuela até o país ter uma "transição segura", uma decisão que parece ter como motivo central a principal riqueza venezuelana: o petróleo. "Vamos fazer com que nossas grandes empresas petrolíferas americanas, as maiores do mundo, entrem no país, gastem bilhões de dólares, consertem a infraestrutura gravemente danificada, a infraestrutura petrolífera, e comecem a gerar receita para o país", afirmou.

<><> Qual é a importância do petróleo para a Venezuela?

A economia da Venezuela é extremamente dependente do petróleo. O governo Maduro contava quase que exclusivamente com a commodity como fonte de receita para o Estado. O petróleo bruto e produtos derivados representam cerca de 90% das receitas de exportação da Venezuela e ajudaram o governo Maduro a se manter no poder mesmo fortemente sancionado e isolado e em meio a uma grave crise econômica. A Venezuela tem as maiores reservas conhecidas de petróleo do mundo, com mais de 300 bilhões de barris – mais até do que a Arábia Saudita. No entanto, responde por menos de 1% da produção global de petróleo.

Para se ter uma ideia da derrocada da indústria venezuelana, essa parcela era superior a 10% da produção global na década de 1960. A produção de petróleo bruto caiu mais de 70% desde o final da década de 1990, e a Venezuela ocupa hoje o 21º lugar na lista de produtores globais. O colapso remonta ao governo do ex-presidente Hugo Chávez. A revolução socialista dele, nas décadas de 1990 e 2000, deixou um legado de ampla corrupção na empresa estatal de petróleo, a PDVSA, e levou à saída dos investimentos estrangeiros do país devido à interferência do governo no setor petrolífero. Vários acidentes em oleodutos e refinarias de petróleo ampliaram as dificuldades, enquanto as sanções dos EUA – intensificadas a partir de 2017 – limitaram ainda mais a capacidade de produção de petróleo da Venezuela. A PDVSA estabilizou a produção em cerca de 1 milhão de barris por dia, em parte devido às licenças dos EUA que permitem a um número limitado de empresas estrangeiras operar na Venezuela e exportar petróleo.

<><> Investimentos das petrolíferas dos EUA

Ao longo do século 20, os EUA foram um parceiro fundamental para o setor petrolífero venezuelano, com as principais empresas petrolíferas americanas investindo pesadamente no país sul-americano. Todas, exceto a Chevron, deixaram o país após a revolução de Chávez. Apesar de as sanções terem afetado suas operações, a Chevron recebeu licenças especiais do governo do ex-presidente Joe Biden em 2022 para retomar as exportações de petróleo venezuelano sob condições estritas. A ideia era que o abrandamento das sanções à Venezuela aliviaria as pressões no mercado internacional de petróleo após a invasão da Ucrânia pela Rússia . Em outubro deste ano, o governo Trump concedeu à Chevron uma nova autorização para produzir petróleo na Venezuela, argumentando que a empresa americana era um parceiro vital para Caracas. Assim, a Chevron é a beneficiária mais óbvia e imediata de qualquer medida de Trump para permitir mais investimentos americanos na Venezuela, onde ela já emprega cerca de 3 mil pessoas. Após a captura de Maduro, a empresa comunicou que operaria em "total conformidade com todas as leis e regulamentos relevantes" e não fez comentários sobre possíveis planos de expansão.

Trump afirmou que grandes empresas petrolíferas americanas retornarão à Venezuela, o que poderia incluir a ExxonMobil e a ConocoPhillips.

A ExxonMobil, a maior empresa petrolífera dos EUA, teve seus ativos expropriados por Chávez em 2007. Os projetos da ConocoPhillips em Hamaca, Petrozuata e Corocoro também foram expropriados. Ambas as empresas ganharam o direito a indenizações multimilionárias em arbitragem internacional, mas a Venezuela jamais as pagou. Essa é a base da reiterada alegação de Trump de "petróleo roubado". "Nós construímos a indústria petrolífera da Venezuela com talento, motivação e habilidade americanos, e o regime socialista roubou isso de nós durante esses governos anteriores, e eles roubaram isso à força", disse Trump. "Isso constituiu um dos maiores roubos de propriedade americana na história do nosso país." A ConocoPhillips disse que está "monitorando os acontecimentos na Venezuela e suas possíveis implicações para o abastecimento e a estabilidade energética globais" e que seria prematuro especular sobre quaisquer atividades comerciais ou investimentos futuros.

<><> EUA precisam mesmo do petróleo venezuelano?

Os Estados Unidos são de longe o maior produtor mundial de petróleo, então, à primeira vista, pode não parecer claro por que Trump está tão interessado no petróleo da Venezuela. No entanto, a questão é o tipo de petróleo que os EUA produzem. Seu principal produto é o petróleo bruto leve, não o tipo mais pesado e viscoso que muitas de suas refinarias, especialmente na costa do Golfo do México, estão equipadas para refinar. As refinarias transformam o petróleo bruto em gasolina, diesel e outros produtos cruciais para a economia. Embora os EUA sejam um grande produtor de petróleo bruto, eles ainda importam petróleo bruto pesado de países como Canadá e México para abastecer refinarias otimizadas para esse tipo de petróleo. Isso significa que grande parte do petróleo bruto produzido pelos EUA acaba sendo exportado. "Usar os tipos certos de petróleo bruto mantém nossas refinarias eficientes, reduz os custos e mantém a segurança energética", explica a associação comercial American Fuel and Petrochemical Manufacturers (AFPM). "Reequipar as refinarias para processar exclusivamente petróleo bruto dos EUA custaria bilhões – um investimento arriscado que levaria décadas para ser aprovado e construído e eventualmente valer a pena."

Embora a produção da Venezuela tenha caído drasticamente, o país abriga as maiores reservas globais de petróleo bruto pesado. Na verdade, por muitas décadas foi o petróleo bruto pesado venezuelano que abasteceu a indústria americana.

Isso torna um novo acesso ao petróleo venezuelano algo extremamente atraente para as empresas americanas.

<><> Tudo vai se dar como Trump quer?

Existem enormes questões legais e logísticas sobre se o petróleo voltará ou não a fluir da Venezuela para os Estados Unidos. Apesar de a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, ter nesta segunda-feira (05/01) estendido a mão para o governo dos EUA para "trabalharem conjuntamente numa agenda de cooperação orientada ao desenvolvimento compartilhado", não está claro se o novo governo venezuelano vai de fato cooperar com os EUA na questão petrolífera. Há ainda a situação da infraestrutura petrolífera da Venezuela. Dan Brouillette, ex-secretário de Energia dos EUA do primeiro governo Trump, afirma que, embora os primeiros relatórios sugiram que as instalações petrolíferas do país permaneçam intactas, não há garantia de que as enormes reservas da Venezuela possam ser exploradas rapidamente. "A restrição nunca foi geológica, mas a governança, as sanções, o acesso a capital e a execução", afirmou. "Se a mudança política trouxer uma estabilização rápida e um poder credível sobre a PDVSA, a vantagem será um aumento gradual da oferta ao longo do tempo, e não um aumento repentino."

Apesar de algumas empresas petrolíferas estrangeiras terem permanecido na Venezuela, as sanções fizeram com que as instalações petrolíferas do país não recebessem os investimentos necessários para se manterem atualizadas. O volume necessário de novos investimentos poderá ficar mais claro nos próximos meses. Outra questão importante é a demanda mundial por mais petróleo. Os preços caíram no último ano e devem cair ainda mais em 2026, em meio a um excesso de produção. Se a expectativa de Trump em relação ao petróleo da Venezuela se concretizar, isso levaria ainda mais petróleo a um mercado global já saturado.

<><> E a China?

A China tem sido um importante parceiro político e econômico da Venezuela nas últimas duas décadas. No setor petrolífero, a empresa chinesa CNPC tem uma joint venture com a PDVSA. A maior parte do petróleo produzido na Venezuela é enviado para a China. No entanto, a China não expandiu significativamente suas operações petrolíferas na Venezuela, mesmo com a quase ausência dos EUA. Pequim criticou duramente a captura de Maduro pelos EUA como uma violação da soberania da Venezuela.


Fonte: DW Brasil


 

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