Samyra
Crespo: SOS ONU - Civilização Ocidental em Declínio
Desde o
final da II Grande Guerra, exaustos dos anos difíceis de barbárie, matança e
destruição material dos países, a ONU substituía a antiga Liga das Nações e
inaugurava uma proposta internacionalista que atingiu o seu ápice nos anos 80 e
90.
Desde a
Carta dos Direitos Universais nos anos 40' até o momento, tudo o que podemos
chamar de governança internacional passou ou passa pela ONU.
A
adesão às chamadas Convenções Quadro da Nações Unidas são um índice
civilizatorio, e até hoje suas resoluções significaram um contrapeso, um freio
às dissidências entre países e nações.
O
crescimento da Organização, e não só dela, mas também de sua tecnocracia, e de
seus custos exponenciais, vem gerando clamores de 'necessária reforma' há pelo
menos uma década.
E é
possível que muitas de suas ações ou sub-organismos não funcionem tão bem, haja
visto o fracasso do Conselho de Segurança de evitar o que está acontecendo
entre Israel e Hamas em Gaza, e o conflito entre Rússia e Ucrânia, entre
outros.
Contudo,
existe a expressão, 'Não se joga o bebê fora com a água suja do banho'.
E a ONU
é ainda o melhor que temos como um fórum mundial para a resoluções que vão
desde comércio, saúde, segurança alimentar, direitos diversos e proteção do
meio ambiente, destacando a crucial questão climática.
Para
nós, ambientalistas, a ONU desempenhou um papel inquestionável na promoção da
consciência ambiental e na criação das institucionalidades globais ligadas ao
tema.
Promoveu
a 1ª grande conferência de Meio Ambiente em Estocolmo em 72, organizou a Rio
92, a pedra fundamental de todas as ações que conhecemos como Desenvolvimento
Sustentável. Chegamos ao Acordo de Paris e aos Objetivos do Desenvolvimento
Sustentavel - os ODSs, graças a ela.
Ao
assumir como política de estado deslegitimar a ONU e romper com os tratados
climáticos (mas não só) os Estados Unidos constroem uma liderança - pela força
- que decreta o fim de uma visão de mundo onde a cooperação e a paz entre os
povos eram a pedra de toque.
Com
essa decisão, os Estados Unidos, na sua insana disputa de influência com a
China, enterra os anos 90, o período em que sonhamos grande e que pensávamos
ser possível reformar (esverdear) o capitalismo.
O
desmantelamento do sistema ONU não é só um atentado contra o globalismo nem uma
atitude radical negacionista isolada.
É um
brado de força suja, suja de petróleo, irada com a ira própria dos dementes.
Aquele tipo de demência egoísta, supremacista e truculenta.
Como
não reagirmos a esse desastre?
Quando
vejo a triste figura desse presidente norte-americano lembro do grito trovejoso
de um dinossauro. Um estertor que, infelizmente, vai sacolejar o nosso mundo.
Nunca
estivemos tão perto de sucumbir à barbárie, de abandonar os mais caros valores
que cultivamos como civilização ocidental.
Se
estamos mal com a ONU, pior, muito pior estaremos sem ela.
• A retirada dos EUA das instituições
multilaterais mina o Estado de Direito
A abrangente ordem executiva do governo Trump
para retirar os Estados Unidos de dezenas de órgãos das Nações Unidas e
organizações internacionais, bem como de um tratado ratificado pelos Estados
Unidos com o parecer favorável do Senado americano, é um ataque direcionado ao
multilateralismo, ao direito internacional e às instituições globais essenciais
para a salvaguarda dos direitos humanos, da paz e da justiça climática.
Essa
medida, cuja constitucionalidade e efeitos jurídicos são questionáveis, foi
anunciada sob o pretexto de proteger os interesses dos EUA, mas faz exatamente
o oposto. Ao se desvincular da cooperação global em questões ambientais, de
direitos humanos, democracia e paz, os EUA colocam seu próprio futuro e o do
planeta em maior risco.
A Ordem
Executiva representa um esforço deliberado para desmantelar a infraestrutura
internacional criada para defender a dignidade, proteger as crianças, promover
a igualdade de gênero e racial, impulsionar o desenvolvimento sustentável,
preservar os oceanos e enfrentar a crise climática. Ela mina os órgãos que
salvaguardam os bens comuns globais e garantem proteções básicas para pessoas
marginalizadas e em situação de vulnerabilidade em todo o mundo, incluindo
refugiados, mulheres, crianças, afrodescendentes e muitos outros.
Rebecca
Brown, presidente e CEO do Centro de Direito Ambiental Internacional (CIEL),
disse:
“Esta
ordem executiva não é apenas uma mudança de política — é um ataque direto ao
sistema multilateral que ajudou a prevenir conflitos, promover os direitos
humanos e proteger os bens comuns globais por quase oitenta anos. Num momento
em que a subida do nível do mar, o calor recorde e os desastres mortais exigem
uma ação urgente e coordenada, o governo dos EUA opta por recuar.”
A
decisão de cortar o financiamento e se retirar da Convenção-Quadro das Nações
Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) não exime os EUA de suas obrigações
legais de prevenir as mudanças climáticas e remediar os danos causados pelo
clima, como deixou claro o mais alto tribunal do mundo no ano passado. Essa
ação é simplesmente uma continuação dos esforços desta administração para
priorizar os interesses corporativos em detrimento das pessoas e do planeta, e
para desrespeitar o Estado de Direito.
Retirar-se
de instituições criadas para apoiar a ação climática global não altera a dura
realidade da crise climática, não refuta as evidências irrefutáveis de suas
causas, nem elimina a clara responsabilidade dos EUA por suas consequências. A
retirada apenas serve para isolar ainda mais os EUA, em detrimento de sua
própria população e de bilhões de pessoas ao redor do mundo.
• O papel das organizações socioambientais
no Brasil e na América Latina. Por Rachel Biderman
Com
passagem pelo World Resources Institute (WRI) e, atualmente, na Conservação
Internacional, onde supervisiona o trabalho na América Latina, Rachel Biderman
se define como uma “ambientalista brasileira que faz a ponte” entre doadores,
filantropos e organizações internacionais com o Brasil, estendendo essa
atuação, nos últimos anos, para toda a América Latina.
Para
ela, o papel primordial das organizações socioambientais reside em manter o
“alerta e a chama acesa”, expondo à sociedade os desafios urgentes que demandam
ação. Ela ressalta a importância da diversidade das organizações sociais, de
ativistas a executoras de projetos no campo, enfatizando o papel de cada uma na
contribuição, à sua maneira, para sinalizar problemas ou para apresentar
soluções. “Essas organizações são pontes com o futuro”, explica, conectando
gerações não apenas em questões ambientais, mas em uma grande variedade de
temas, que passam por direitos humanos, à saúde, à educação, à paz e tudo o
mais que representa o processo civilizatório, sempre buscando um caminho para
uma humanidade melhor e um legado mais positivo.
Rachel
Biderman entende que o papel das organizações sociais vai além do ativismo e
das ações em campo. Para ela, a gestão do conhecimento e o aprofundamento de
algumas organizações, como o IDS, por exemplo, na busca de conhecimento
estruturado e com metodologia científica é fundamental para o fortalecimento do
campo socioambiental; “Há temas complexos que precisam ser estudados,
compreendidos e transmitidos para a sociedade de maneira a fortalecer a
transição nos mais diversos campos da ação econômica, social e política”,
explica.
Muitas
dessas organizações dedicam-se à pesquisa aplicada, buscando soluções concretas
para os desafios socioambientais, conectando governos, empresas e a sociedade
civil para demonstrar a viabilidade dessas soluções. O avanço científico,
especialmente nas áreas climática e de conservação, tem gerado diversas
abordagens, desde tecnologias inovadoras até soluções baseadas na natureza e
agricultura regenerativa. As organizações que se dedicam à pesquisa desempenham
um papel estruturante ao traduzir esse conhecimento científico em práticas
acessíveis para a sociedade e as comunidades.
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A profissionalização das ONGs
Ao
refletir sobre a profissionalização do setor, Rachel Biderman observa uma
evolução significativa ao longo de seus 33 anos de experiência. O voluntarismo,
comum no início, deu lugar a uma crescente presença de profissionais altamente
qualificados, com uma base de conhecimento muito mais ampla. Ela destaca que as
novas gerações já demonstram maior qualificação e consciência em relação aos
desafios planetários, com acesso facilitado à informação e maior capacidade de
questionamento. Contudo, ela expressa preocupação com um grupo de jovens que se
mostra desesperançoso, o que considera um grande desafio a ser enfrentado.
Em
relação às fontes de recursos para o ambientalismo, a ativista aponta para um
crescimento nos últimos 10 a 15 anos, impulsionado principalmente pelo setor
privado e financeiro, que começa a reconhecer os riscos das mudanças climáticas
e a investir em soluções, muitas vezes com retorno para os negócios. A
filantropia também cresceu, especialmente no hemisfério norte, onde incentivos
fiscais favorecem as doações. No entanto, ela adverte que a dependência de
recursos externos pode trazer limitações, com agendas predefinidas que nem
sempre se alinham com as prioridades locais.
A
dificuldade de acesso a fundos multilaterais por organizações menos
profissionalizadas e a recente tendência de diminuição de recursos da
cooperação internacional também são pontos de preocupação. Em contrapartida,
ela vê um aumento nas parcerias corporativas e no potencial do mercado de
carbono como fontes alternativas de financiamento, embora com suas próprias
particularidades e desafios. Para ela, o alinhamento das pautas empresariais
com as demandas da sociobiodiversidade é apenas parcial e vinculado a áreas
onde os interesses convergem.
A
proximidade da COP30 no Brasil é vista por Rachel Biderman como uma
oportunidade ímpar para o país mostrar o acúmulo de conhecimento e a alta
profissionalização do seu terceiro setor, especialmente no que se refere à
Amazônia e a biodiversidade dos biomas brasileiros. Ela espera que o evento
sirva como uma “grande vitrine” das soluções brasileiras, desde que a
participação das organizações sociais seja viabilizada de forma acessível. E
esse é um ponto que merece muita atenção, não apenas de governos, mas também
das muitas empresas que irão a Belém para dar uma tonalidade verde a seu
marketing.
A
participação plural das organizações vai precisar de recursos para garantir a
logística e a infraestrutura necessária para essa presença, que será
fundamental para apresentar demandas, soluções e inovações que serão parte
importante do legado dessa COP.
De
ponto de vista internacional, a COP30 representa uma oportunidade crucial para
o Brasil clamar por justiça climática e enfatizar a necessidade de alianças
entre todos os setores, em especial o engajamento fundamental do setor
financeiro em investimentos alinhados com as metas climáticas globais.
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Olhar para o futuro
Rachel
Biderman demonstra otimismo em relação ao futuro, ancorada em sua vivência na
época da Agenda 21 e na crença no potencial dos Objetivos de Desenvolvimento
Sustentável (ODS) como um “mapa do caminho”. Ela deposita sua esperança nas
novas gerações, que já demonstram uma compreensão única da urgência da questão
ambiental, e acredita que a transição de poder para essa geração será um ponto
de inflexão.
A
lembrança da Carta da Terra e da Agenda 21 reforça a visão da ativista sobre a
existência de uma “receita” para o desenvolvimento sustentável, um caminho já
traçado que agora demanda ação e implementação efetiva. Sua perspectiva
experiente e engajada oferece um panorama valioso sobre os desafios e as
oportunidades para as organizações socioambientais na construção de um futuro
mais justo e sustentável para o Brasil e a América Latina.
Fonte:
Envolverde

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