Fernando
Nogueira da Costa: Doutrina Monroe do imperador Donald
A
Doutrina Monroe foi formulada em 1823, no contexto da consolidação dos Estados
Unidos como Estado nacional e da desagregação dos impérios coloniais ibéricos.
Seu enunciado clássico – “a América para os americanos” – afirmava dois
princípios centrais.
O
primeiro era a “não recolonização”. As potências europeias não deveriam
intervir nem restabelecer domínios coloniais no continente americano. O segundo
era a “não intervenção europeia”. Qualquer ingerência europeia nos assuntos do
hemisfério ocidental seria considerada uma ameaça aos EUA.
À
primeira vista, tratava-se de uma doutrina anti-imperialismo europeu. Na
prática histórica, contudo, ela se converteu progressivamente em um princípio
de legitimação da hegemonia dos EUA sobre a América Latina, inclusive hoje com
apoio dos “vendilhões da pátria” como o clã Capachonaro.
Desse
modo, saiu como fosse uma doutrina defensiva até se transformar em uma doutrina
intervencionista. O ponto de inflexão ocorreu no início do século XX,
especialmente com o Corolário Roosevelt, em 1904. Nele, os EUA passaram a se
arrogar o direito de intervir militarmente em países latino-americanos sempre
quando julgassem haver “instabilidade política”, “ameaça à ordem”, ou risco aos
interesses econômicos e financeiros internacionais. Leia-se: americanos.
A
partir daí, a Doutrina Monroe deixou de ser apenas um princípio geopolítico
defensivo. Passou a funcionar como doutrina de polícia hemisférica. Quanto à
questão de ser imperialismo militar ou colonialismo econômico, a resposta mais
precisa é: ambos, de forma articulada e historicamente variável.
O
imperialismo militar é instrumental. Houve, sim, intervenções militares
diretas, sobretudo no Caribe e América Central (Cuba, Haiti, República
Dominicana, Nicarágua, Panamá) – a atual invasão da Venezuela é a primeira na
América do Sul. Aconteceram ocupações prolongadas, apoio a golpes militares no
século XX, treinamento e financiamento de Forças Armadas locais com base na
doutrina da Guerra Fria (anticomunista).
O uso
da força militar não tinha como objetivo a anexação territorial clássica, mas a
imposição de regimes políticos compatíveis com a ordem hemisférica desejada
pelos EUA. Nesse sentido, os militares locais, ao acatarem esse comando
imperialista, se configuraram como “traíras”.
O
colonialismo econômico é estrutural. Mais duradouro e decisivo ele foi sem
colonização formal, caracterizado por controle indireto sobre políticas
fiscais, monetárias e cambiais, defesa de direitos de propriedade estrangeira,
subordinação financeira via dívida externa, abertura compulsória a capitais e
empresas norte-americanas e bloqueio de estratégias autônomas de
industrialização ou soberania tecnológica.
Nesse
colonialismo à outrance – expressão francesa com significado
de “ao extremo” indicadora de algo feito sem limites, com exagero ou de forma
implacável –, a coerção militar aparece como último recurso. O mecanismo
dominante é a dependência econômica institucionalizada.
Assim,
a Doutrina Monroe não é colonialismo clássico, pois não institui administrações
coloniais diretas nem substitui formalmente os Estados nacionais
latino-americanos. Tampouco é apenas imperialismo militar episódico.
Ela
funciona melhor como um regime de hegemonia imperial informal, no qual o poder
militar garante a última instância de coerção e o poder econômico-financeiro
organiza a dependência cotidiana. Em termos de economia política, trata-se de
uma forma histórica de imperialismo sem colônias, compatível com a expansão do
capitalismo norte-americano, a internacionalização do dólar, e a reprodução de
economias periféricas funcionalmente subordinadas.
O
contraste entre a Doutrina Monroe e o imperialismo europeu clássico do século
XIX revela duas formas historicamente distintas de dominação, associadas a
estágios diferentes do capitalismo, do Estado e do sistema financeiro
internacional. A comparação fica mais clara quando é organizada por dimensões
estruturais.
Quanto
à forma de dominação, o imperialismo europeu clássico (século XIX) era um
colonialismo formal com anexação territorial direta, administração colonial,
supressão da soberania jurídica e governos coloniais ou protetorados. Por
exemplo, houve isso na Índia britânica, Argélia francesa e no Congo belga. A
colônia não decidia política monetária, política fiscal, comércio exterior,
organização institucional.
A
Doutrina Monroe (hegemonia americana) pregou uma dominação informal com
manutenção da soberania formal dos Estados latino-americanos, intervenção
episódica quando era necessário, controle indireto via finanças, comércio e
política. Os Estados continuariam “independentes”, mas estruturalmente
condicionados.
A
diferença central entre ambas as formas não é o grau de poder, mas sim a forma
institucional da dominação.
Quanto
aos instrumentos econômicos, o mercantilismo é tradição europeia e o
capitalismo financeiro com acionistas norte-americanos majoritários é inovação
americana.
A
Europa do século XIX exercia um imperialismo ligado ao capital mercantil e
industrial. Os objetivos eram o acesso a matérias-primas baratas, mercados
cativos para manufaturas, monopólios comerciais garantidos pelo Estado. Fazia
uso explícito de tarifas, companhias coloniais, trabalho forçado.
Os EUA,
com sua Doutrina Monroe, impôs um imperialismo associado ao capital financeiro
corporativo. Os objetivos eram a abertura de mercados, a proteção de
investimentos de americanos, a liberdade de fluxos de capital e a estabilidade
monetária pró-credor. Sua preferência era por tratados, dívida, arbitragem
internacional e sanções. O controle se exercia sem monopólio formal, mas com
assimetria estrutural.
Quanto
ao uso da força militar, há ocupação permanente e coerção seletiva. A Europa
clássica impunha exércitos coloniais permanentes. A violência era constitutiva
da ordem colonial. Havia dominação cotidiana e territorial.
Na
Doutrina Monroe, o uso da força é apresentado como “último recurso”, porque
suas intervenções são pontuais, os golpes militares são apoiados (como o de
1964 no Brasil), adota sanções e bloqueios. A presença militar americana é
estratégica, rotativa e indireta. A violência não desaparece, mas é
intermitente e funcional.
Entre o
imperialismo europeu e o norte-americano, a relação com o Estado local, no
primeiro, era de substituição e, no segundo, de captura. No europeu, o Estado
local era destruído, substituído, ou rebaixado a administração colonial. Elites
coloniais eram se submetiam ao colonizador.
Na
Doutrina Monroe, o Estado local é mantido formalmente, capturado parcialmente
por apoiadores submissos, disciplinado por incentivos e punições. Elites não
nacionalistas tornam-se intermediárias, rentistas, associadas ao capital
externo. A dominação é internalizada, não apenas imposta.
Quanto
à ideologia legitimadora, a Europa do século XIX dizia ter uma “missão
civilizatória” e adotava o racismo científico, a hierarquia racial explícita e
o colonialismo assumido. A Doutrina Monroe adotou uma linguagem universalista
falando em “democracia” (sem respeito às escolhas eleitorais), estabilidade
fiscal e inflacionária, livre mercado, e segurança hemisférica. O imperialismo
norte-americano não se assume como tal, é “envergonhado”, porque a hegemonia
moderna precisa parecer não imperial.
O
problema passa a ser os custos e o retorno fiscal. No imperialismo europeu, as
colônias geravam tributos diretos, trabalho barato, superávits comerciais. A
administração colonial tinha custo, mas o retorno fiscal era visível.
Na
Doutrina Monroe, a presença externa gera déficit fiscal e não produz receita
pública direta. O retorno é: geopolítico, monetário (hegemonia do dólar),
estratégico, não tributário. O imperialismo americano custa caro ao Estado,
apesar de beneficiar o sistema capitalista, defendido “com unhas e dentes”.
Em
síntese, o imperialismo europeu clássico era territorial, visível e
administrado.
A
Doutrina Monroe fundou um imperialismo sistêmico, invisível e financeirizado.
Em termos históricos, no século XIX, conquistava-se territórios e, no século
XX–XXI, controla-se regras, fluxos e expectativas.
A
Doutrina Monroe não é um resíduo do colonialismo europeu, mas sua superação
funcional. É uma forma de dominação mais barata politicamente, ainda sendo mais
cara fiscalmente. É muito mais compatível com o capitalismo financeiro
contemporâneo, cujo controle das empresas transnacionais se dá por
participações acionárias majoritárias, principalmente, de bilionários
americanos: “a turma do Imperador Donald”.
¨ Não é apenas pelo
petróleo – 10 teses sobre a Venezuela. Por Gabriel Teles
Escrevo
sem a pretensão de especialista em geopolítica ou em Venezuela. Não falo a
partir de um campo disciplinar fechado, mas do acompanhamento atento e
sistemático das dinâmicas dos conflitos internacionais, que há anos venho
observando com dedicação teórica e política. Os acontecimentos em torno da
Venezuela devem ser lidos como parte de um processo histórico mais amplo,
marcado pela crise da ordem internacional e pela reorganização das formas de
dominação nas periferias do capitalismo.
O
discurso dominante voltou a girar em torno de um velho argumento (confortável
tanto para governos quanto para parte da esquerda) segundo o qual tudo se
explicaria pelo petróleo.
Essa
leitura, na verdade, obscurece mais do que revela. Ao meu ver, ela despolitiza
o conflito, apaga suas mediações de classe e desloca o foco das transformações
mais profundas em curso no sistema internacional e na própria América Latina. O
que está em jogo na Venezuela não é apenas um recurso natural, nem um regime
específico, mas um novo padrão de tutela imperial, articulado à reorganização
inter-imperialista e à fragilização estrutural das soberanias periféricas.
As
teses que apresento a seguir não pretendem oferecer uma explicação definitiva.
Busco, antes, organizar o terreno do debate, afastar ilusões recorrentes e
recuperar critérios materiais para a análise.
<><>
A Venezuela como expressão de uma transição na dinâmica internacional
O que
se passa na Venezuela não é um desvio latino-americano, nem um excesso
circunstancial. É expressão concentrada do momento histórico atual. A crise da
hegemonia dos Estados Unidos, a intensificação da disputa entre grandes
potências e o abandono progressivo das mediações multilaterais produziram um
cenário em que intervenções voltam a ser normalizadas. Venezuela, Ucrânia,
Palestina e Taiwan não são casos idênticos, mas respondem à mesma lógica: a
gestão violenta de uma transição geopolítica.
<><>
Recursos estratégicos e mediações geopolíticas
A
obsessão com o “petróleo venezuelano” costuma errar o alvo. O petróleo importa
menos como fonte de energia e mais como mediação financeira e geopolítica do
dólar. A isso se soma um elemento cada vez mais central: minerais estratégicos
e terras raras, decisivos para as cadeias tecnológicas e militares. A América
Latina reaparece como território-chave dessa disputa, especialmente diante da
expansão chinesa na região.
<><>
Limites históricos da soberania periférica
Convém
não romantizar. A PDVSA, estatal petrolífera venezuelana responsável pela
exploração, refino e exportação de petróleo, nunca foi uma ruptura
anticapitalista. Sempre operou como empresa estatal híbrida, integrada ao
mercado mundial, com parcerias privadas e presença de capital estrangeiro. O
conflito nunca foi o “socialismo”, mas o grau de autonomia política na gestão
de recursos estratégicos. Em tempos de relativa estabilidade, essa soberania
limitada foi tolerada. Em contexto de disputa acirrada, ela se torna
intolerável.
<><>
Fraturas internas como condição da ingerência externa
Nenhuma
intervenção externa se sustenta sem apoio ou passividade interna. A
decomposição prolongada do Estado venezuelano, agravada por sanções, mas também
por autoritarismo e esgotamento do pacto social, abriu espaço para fraturas na
burocracia política, militar e econômica. Para esses setores, a ingerência
externa pode aparecer como oportunidade de reorganização do poder, não como
ameaça.
<><>
Lawfare como técnica de legitimação da exceção
As
acusações criminais e o discurso de “aplicação da lei” não são desvios
retóricos. São parte de uma estratégia consciente de “lawfare” internacional.
O direito passa a funcionar como arma política, transformando uso da força em
procedimento legal, intervenção em dever moral. Não se trata de provar crimes,
mas de organizar narrativas. Não se trata de provar crimes, mas de produzir condições
de aceitabilidade política para a exceção permanente.
<><>
Seletividade estrutural do direito internacional
Não
estamos assistindo ao colapso de uma ordem jurídica universal, mas à
explicitação de sua natureza histórica. O direito internacional sempre operou
de forma seletiva e hierárquica. A novidade é o descaramento. Guerra vira
polícia, ocupação vira governança, tutela vira transição. A norma não
desaparece, ela se submete abertamente à força. O direito internacional não
entra em colapso. Ele funciona exatamente como sempre funcionou – só que agora
sem pudor.
<><>
Tutela imperial como forma contemporânea de dominação
Quando
Washington fala em “administrar a Venezuela até uma transição adequada”, a
linguagem revela mais do que esconde. Não se trata de justiça, democracia ou
estabilização institucional, mas de gestão direta de território, Estado e
recursos. Trata-se de tutela com vocabulário técnico, de protetorado
apresentado como solução administrativa.
Essa
forma de dominação é compatível com um mundo em que o imperialismo não precisa
mais se apresentar como ocupação clássica. A tutela aparece como
responsabilidade, a intervenção como serviço, o controle como auxílio. O poder
se exerce sem espetáculo, mas com profundidade estrutural.
<><>
Administração da crise e esvaziamento da soberania
A
ausência de destruição generalizada não é sinal de contenção humanitária. É
racionalidade econômica. O capital prefere administrar do que arrasar. Desde
que os fluxos sigam funcionando, campos operem, exportações continuem e
mercados permaneçam calmos, a soberania pode ser esvaziada sem grandes rupturas
visíveis.
Essa
forma de dominação é mais eficaz justamente por ser menos ruidosa. O território
permanece “em pé”, mas politicamente desativado. O Estado existe, mas opera sob
tutela. A violência se desloca do espetáculo da guerra para a normalidade da
administração.
<><>
Autoritarismo como efeito da crise internacional
A
insegurança sistêmica e o enfraquecimento da ordem multilateral empurram
Estados periféricos ao nacionalismo defensivo, à militarização e à
centralização do poder executivo. A exceção vira regra. A democracia vira
retórica.
Na
Venezuela, isso se expressou na consolidação de um regime fechado. Em outros
países, aparece como expansão do aparato policial, endurecimento penal e
naturalização da violência estatal. O autoritarismo não surge como desvio, mas
como efeito estrutural da crise internacional combinado às fragilidades
internas.
<><>
Centralidade do critério de classe
Guerras
inter-imperiais têm enorme capacidade de capturar a esquerda, dissolvendo a
política de classe em alinhamentos automáticos. Reduzir o anti-imperialismo a
ser apenas antiestadunidense ignora que não existe imperialismo bom. China e
Rússia não são alternativas emancipatórias, mas polos concorrentes.
O único
critério consequente continua sendo o de classe. Quem decide, quem lucra, quem
paga e quem morre. Sem isso, o anti-imperialismo vira fetiche e a crítica vira
adorno.
Fonte:
A Terra é Redonda

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