Augusto
Rocha: Das veias abertas ao protagonismo amazônico
om o
retumbante sucesso da estratégia de “inundar a área” (“flood the zone”) é
difícil enxergar o mundo sem as modificações impostas ao cotidiano pela nova
postura dos EUA. Afinal, cerca de metade do território da Venezuela é
considerado “Amazônia” e, como morador da Amazônia brasileira, é inevitável
colocar em contraponto o que se passa aqui com o que se passa por lá.
A
construção de infraestrutura na Amazônia segue sendo uma necessidade e, nestes
tempos, a ocupação com atividades econômicas que não seja mais das “veias
abertas da América Latina” (como já esclareceu detalhadamente o Eduardo
Galeano). A questão que se impõe é: como fazer para e pelo interesse nacional?
Afinal, não faltam os “comissionistas”, que vão encontrar um jeito de entregar
riquezas para estrangeiros.
Como
mudar esta ordem é que vira o desafio para todos nós, pois as veias abertas não
são mais disfarçadas – elas estão escancaradas. Felizmente o Brasil possui uma
boa relação com os EUA, nas várias dimensões. A questão que nos toca é como
manter as boas relações, ao mesmo tempo em que passamos a gerar mais riquezas
para reduzir a desigualdade nacional frente aos países mais ricos.
Numa
eventual ausência de riqueza ou de força, a soberania poderia ser colocada em
dúvida. Por isso, é fundamental começarmos a transformar por nós mesmos a
realidade local, para que não se repita o que aconteceu com a borracha em
tantas outras possibilidades que a natureza amazônica pode oportunizar.
Como
nunca tivemos um passado próspero, o que precisamos é trazer o “país do futuro”
para o país do presente. Sem isso, poderemos nos tornar colônia de algum dos
impérios globais que estão se formando. A ordem internacional abalada precisa
nos levar a construir uma nova postura interna, tanto de geração de riqueza,
saindo de uma autodefesa pela amizade, para uma autodefesa pela riqueza e pela
própria força.
Para
isso necessitaremos sair das commodities tradicionais e passar para a presença
de capital nacional, empresas nacionais e geração de tecnologias e produtos
nacionais, tanto para o mercado brasileiro quanto para o exterior. Será
impossível fazer isso apenas com o agro ou o extrativismo mineral: precisamos
adicionar valor, para não seguir sendo uma colônia virtual, pois, se for assim,
poderemos nos tornar uma colônia real.
A
transformação brasileira pode manter tudo o que temos de bom, inclusive ser
amigo dos EUA, China, Europa e Rússia. Ao mesmo tempo em que, precisaremos
aumentar a capacidade de gerar riqueza e proteção. Tecnologia e capital
nacional são fundamentais para isso. Não será atraindo mais capital estrangeiro
que reduziremos as nossas dependências. O mundo mudou e precisaremos mudar com
ele. Com isso, usar melhor as nossas veias e baixar o juro ajudará a chegar
neste caminho.
• Soja e agrotóxicos sufocam comunidades
tradicionais da Amazônia. Por Jean Silva
Plantações
de soja, agrotóxicos e grilagem de terras na Amazônia brasileira: esse é o
cenário. Em meio ao vasto território, existe um mito de a região florestal
estar vazia, apesar de os povos tradicionais tentarem manter suas formas de
vida. Por 18 meses de estudo etnográfico, Fabio Zuker, pesquisador da Faculdade
de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP investigou a expulsão
por sufocamento no Baixo Tapajós devido ao uso de glifosato em plantações de
soja de terras griladas. Os casos ilustram dificuldades respiratórias,
alimentares e econômicas como formas de expulsar indígenas, quilombolas e
ribeirinhos de suas terras.
O artigo intitulado Expulsion by suffocation: Soybean
plantations, toxicity, and land grabbing in the Brazilian Amazon foi publicado
na revista Environment and Planning E: Nature and Space.
“O
sufocamento acontece de forma literal e metafórica. Literalmente, as pessoas
não conseguem respirar devido à intensa aplicação de agrotóxicos. Elas se
trancam em suas casas, relatando dificuldade para respirar”, conta Zuker. Em
metáfora, é uma alusão à supressão da capacidade dessas comunidades manterem
sua produção, seu modo de vida, manterem-se junto a esse território e às
relações com outras espécies das quais dependem para viver. No trabalho, o
pesquisador evidencia como um imaginário colonial-militar de vazio é produzido
através de danos químicos lentos.
“A
ideia é que o vazio na Amazônia é produzido, e não natural. Foi criado ao longo
da história, desde a Marcha para o Oeste no governo Vargas até o Plano de
Integração Nacional da ditadura militar”, contextualiza.
No
trabalho de antropologia, o pesquisador quis dar um tratamento reflexivo e
crítico ao processo de expulsão por sufocamento. Por isso, encarou a “farsa” do
vazio como uma categoria que permite compreender o processo de fabricação da
paisagem, na qual pequenos pedaços de floresta e comunidades escondem a
dimensão da devastação ambiental.
“O
vazio é produzido pelas próprias atividades [violentas] que o ocupam, como o
uso de agrotóxicos. Uma produção intencional desse espaço esvaziado” – Fabio
Zuker
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Violência e resistência
No
contexto da pesquisa, a expansão do agro é colocada como uma forma de morte
induzida quimicamente pelo uso de agrotóxicos no Baixo Tapajós. Em conversa com
lideranças das comunidades, o pesquisador constatou também a existência de uma
floresta que é quase uma maquiagem. “Pequenos trechos de floresta na beira de
estrada. São as bolhas que sobram aqui e ali”, indica Zuker.
Em
diálogo com Beto, morador e trabalhador rural da região, o pesquisador chama
essas bolhas de “farsa das comunidades”. “Só tem umas casinhas ali, na beira da
estrada. E nada mais. Antes havia uma comunidade grande aqui. Só umas árvores
ali. É tudo soja atrás”, relata o morador.
A farsa
indicada é criada pelas comunidades remanescentes e pelos fragmentos de mata
que, da beira da estrada, escondem os vastos campos de soja que invadem a
paisagem. De outro lado, o pesquisador destaca os processos de resistência para
impedir toda essa lógica de “vazio”.
“Tem um
problema grande nas ciências sociais, que é focar exclusivamente numa narrativa
da violência, da destruição, uma narrativa do apagamento. O que está colocado
em jogo é uma tensão, é uma força que leva para a violência, para o apagamento,
para o processo de sufocamento. Por outro lado, há uma resistência constante de
coletivos indígenas, quilombolas, ribeirinhos que se contrapõe a essa
expulsão”, continua. Ele alega que essa é uma forma de contra plantation ao se
colocarem contra a incorporação de seus territórios numa lógica de violência do
sistema de produção global de grãos e proteínas vegetais.
Junto
com os tupinambás do Baixo Tapajós, a pesquisa resgatou a ideia de um
território vivo em contraposição ao vazio. E em um lugar onde coexistem
múltiplos seres: não humanos que têm um papel fundamental na defesa do
território e defendem junto com os humanos a integridade dele para que ali se
multipliquem outras formas de vida. “Todos esses encantados, esses outros seres
que compõem esse território de múltiplas formas de vida, não somem. Eles têm a
possibilidade de reaparecer e voltar esse léxico. Um processo de retomadas, de
mobilizações contra o avanço do agronegócio”, explica o pesquisador.
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Soluções
O
esforço de documentar esse fenômeno da região amazônica vem de campos
diferentes do saber, que buscam evidenciar a dimensão de danos causados por
agrotóxicos. “Junto com análises de ciências sociais, conseguimos demonstrar
também a partir de narrativas, de histórias de vida, de casos, um padrão de
violência local”, explica Zuker. Essa complementaridade é necessária devido à
dificuldade de produzir conhecimento sobre os efeitos de uma substância
invisível que age no longo prazo.
“Além
de ser difícil traçar os resultados por um período extenso, [a pesquisa nesse
assunto] é também reprimida por conta de pessoas poderosas com muitos
interesses e muita entrada na política local”, alerta. Ainda assim, ele defende
que os índices de desenvolvimento humano das comunidades amazônicas devem
acontecer com a floresta viva e em pé. “Nada indica que o desmatamento seja um
caminho importante para que exista uma melhoria na vida dessas pessoas”,
afirma. Pelo contrário, a floresta e os ecossistemas são partes fundamentais
para essas populações de acordo com sua pesquisa.
Sobre o
uso de agrotóxicos, Zuker defende melhores práticas regulatórias e de
fiscalização para evitar a lógica de expulsão. “Um elemento fundamental é a não
comercialização no Brasil de agrotóxicos que são proibidos nos seus países de
origem”, indica. Contudo, ele ressalta a importância do diálogo de diferentes
setores para promoção do respeito à existência ecológica e do conhecimento
local nessas e em outras regiões que são ameaçadas pela monocultura e pela
mineração.
• Soberania Amazônica. Por Augusto Rocha
A
decadência venezuelana era algo muito triste e que não podíamos fazer muito
além de lamentar e torcer para aquele país encontrar o seu próprio caminho de
mudança. Dada a ordem do pós-guerra e da autodeterminação dos povos, presente
na Carta das Nações Unidas. Com isso, a maior reserva global de petróleo
poderia ser uma dádiva ou um peso para a Venezuela, que possui cerca de 34
milhões de habitantes (segundo o Tradingeconomics) e área semelhante ao Estado
de Mato Grosso.
A ação
norte-americana na Venezuela demonstra o quanto o mundo contemporâneo está
vulnerável, como estava antes da II Guerra Mundial, pois o que vimos foi um ato
de anexação ou colonização, como pontuou o ex-senador Jean-Paul Prates. Com o
desenrolar dos dias, compreenderemos melhor. Se mantida a escalada retórica,
talvez tenhamos que repensar como nos vemos no mundo, pois se a ordem global
voltar ao tempo das anexações, tal qual a Polônia caiu frente à Alemanha em
1939 ou das colonizações, como a do Quênia pela Inglaterra, entre 1895 e 1963,
derivada da “Partilha da África”, no neoimperialismo a partir de 1880.
A
potencial revitalização da deprimente indústria petrolífera venezuelana, que se
avizinha, atrairá muita alegria para empresas e investimentos e eventuais
celebrações dos detratores do regime ditatorial do Nicolás Maduro, pois para
todo governo existem opositores, mas, por outro lado, não podemos perder a
visão do que isto significa na ordem (ou desordem) global. Imaginemos se, na
esteira dos acontecimentos, a Guiana ou Roraima forem anexados? O que dizer
disto? Lembrando o padrão de mudanças dos antecedentes da II Guerra Mundial,
depois da Alemanha anexar a Polônia, caíram a Dinamarca e a Noruega. A
sequência temporal é gradual e não faltam avisos sobre a Groelândia, que, quem
sabe por estranha coincidência, é dinamarquesa.
Neste
contexto, considerando que temos petróleo e terras raras, com uma soberania
amazônica sempre em risco, seja pela falta de pessoas (“integrar para não
entregar”), seja pelas questões climáticas (“batalha essencial para a meta
climática”), teremos que repensar com urgência e emergência a nossa relação com
o mundo e com cenários onde a Carta das Nações Unidas seja ignorada. Neste
potencial cenário, mais belicoso, teremos que nos reencontrar com a nossa
soberania e com a união nacional frente a um potencial ataque estrangeiro ou,
minimamente, o que já temos posto como fato: um aumento da instabilidade no
vizinho.
A
história demonstra que interesses econômicos e políticos terminam em movimentos
bélicos. Cultivar aliados é fundamental, compreender as forças e fraquezas
também é. Neste instante de beligerância precisaremos nos reencontrar como
sociedade, pois a ameaça externa é a melhor força de união de um país. A opção
pacífica não é mais suficiente para encontrar a paz e a soberania. Teremos que
repensar a estratégia para a Amazônia neste novo e inacreditável cenário que
lembra os anos 1500, 1880 e 1939. As semelhanças são mais que suficientes para
gerar uma nova postura
brasileira
frente a Amazônia.
Fonte:
Jornal GGN

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