segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Augusto Rocha: Das veias abertas ao protagonismo amazônico

om o retumbante sucesso da estratégia de “inundar a área” (“flood the zone”) é difícil enxergar o mundo sem as modificações impostas ao cotidiano pela nova postura dos EUA. Afinal, cerca de metade do território da Venezuela é considerado “Amazônia” e, como morador da Amazônia brasileira, é inevitável colocar em contraponto o que se passa aqui com o que se passa por lá.

A construção de infraestrutura na Amazônia segue sendo uma necessidade e, nestes tempos, a ocupação com atividades econômicas que não seja mais das “veias abertas da América Latina” (como já esclareceu detalhadamente o Eduardo Galeano). A questão que se impõe é: como fazer para e pelo interesse nacional? Afinal, não faltam os “comissionistas”, que vão encontrar um jeito de entregar riquezas para estrangeiros.

Como mudar esta ordem é que vira o desafio para todos nós, pois as veias abertas não são mais disfarçadas – elas estão escancaradas. Felizmente o Brasil possui uma boa relação com os EUA, nas várias dimensões. A questão que nos toca é como manter as boas relações, ao mesmo tempo em que passamos a gerar mais riquezas para reduzir a desigualdade nacional frente aos países mais ricos.

Numa eventual ausência de riqueza ou de força, a soberania poderia ser colocada em dúvida. Por isso, é fundamental começarmos a transformar por nós mesmos a realidade local, para que não se repita o que aconteceu com a borracha em tantas outras possibilidades que a natureza amazônica pode oportunizar.

Como nunca tivemos um passado próspero, o que precisamos é trazer o “país do futuro” para o país do presente. Sem isso, poderemos nos tornar colônia de algum dos impérios globais que estão se formando. A ordem internacional abalada precisa nos levar a construir uma nova postura interna, tanto de geração de riqueza, saindo de uma autodefesa pela amizade, para uma autodefesa pela riqueza e pela própria força.

Para isso necessitaremos sair das commodities tradicionais e passar para a presença de capital nacional, empresas nacionais e geração de tecnologias e produtos nacionais, tanto para o mercado brasileiro quanto para o exterior. Será impossível fazer isso apenas com o agro ou o extrativismo mineral: precisamos adicionar valor, para não seguir sendo uma colônia virtual, pois, se for assim, poderemos nos tornar uma colônia real.

A transformação brasileira pode manter tudo o que temos de bom, inclusive ser amigo dos EUA, China, Europa e Rússia. Ao mesmo tempo em que, precisaremos aumentar a capacidade de gerar riqueza e proteção. Tecnologia e capital nacional são fundamentais para isso. Não será atraindo mais capital estrangeiro que reduziremos as nossas dependências. O mundo mudou e precisaremos mudar com ele. Com isso, usar melhor as nossas veias e baixar o juro ajudará a chegar neste caminho.

•        Soja e agrotóxicos sufocam comunidades tradicionais da Amazônia. Por Jean Silva

Plantações de soja, agrotóxicos e grilagem de terras na Amazônia brasileira: esse é o cenário. Em meio ao vasto território, existe um mito de a região florestal estar vazia, apesar de os povos tradicionais tentarem manter suas formas de vida. Por 18 meses de estudo etnográfico, Fabio Zuker, pesquisador da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP investigou a expulsão por sufocamento no Baixo Tapajós devido ao uso de glifosato em plantações de soja de terras griladas. Os casos ilustram dificuldades respiratórias, alimentares e econômicas como formas de expulsar indígenas, quilombolas e ribeirinhos de suas terras.

O artigo intitulado Expulsion by suffocation: Soybean plantations, toxicity, and land grabbing in the Brazilian Amazon foi publicado na revista Environment and Planning E: Nature and Space.

“O sufocamento acontece de forma literal e metafórica. Literalmente, as pessoas não conseguem respirar devido à intensa aplicação de agrotóxicos. Elas se trancam em suas casas, relatando dificuldade para respirar”, conta Zuker. Em metáfora, é uma alusão à supressão da capacidade dessas comunidades manterem sua produção, seu modo de vida, manterem-se junto a esse território e às relações com outras espécies das quais dependem para viver. No trabalho, o pesquisador evidencia como um imaginário colonial-militar de vazio é produzido através de danos químicos lentos.

“A ideia é que o vazio na Amazônia é produzido, e não natural. Foi criado ao longo da história, desde a Marcha para o Oeste no governo Vargas até o Plano de Integração Nacional da ditadura militar”, contextualiza.

No trabalho de antropologia, o pesquisador quis dar um tratamento reflexivo e crítico ao processo de expulsão por sufocamento. Por isso, encarou a “farsa” do vazio como uma categoria que permite compreender o processo de fabricação da paisagem, na qual pequenos pedaços de floresta e comunidades escondem a dimensão da devastação ambiental.

“O vazio é produzido pelas próprias atividades [violentas] que o ocupam, como o uso de agrotóxicos. Uma produção intencional desse espaço esvaziado” – Fabio Zuker

<><> Violência e resistência

No contexto da pesquisa, a expansão do agro é colocada como uma forma de morte induzida quimicamente pelo uso de agrotóxicos no Baixo Tapajós. Em conversa com lideranças das comunidades, o pesquisador constatou também a existência de uma floresta que é quase uma maquiagem. “Pequenos trechos de floresta na beira de estrada. São as bolhas que sobram aqui e ali”, indica Zuker.

Em diálogo com Beto, morador e trabalhador rural da região, o pesquisador chama essas bolhas de “farsa das comunidades”. “Só tem umas casinhas ali, na beira da estrada. E nada mais. Antes havia uma comunidade grande aqui. Só umas árvores ali. É tudo soja atrás”, relata o morador.

A farsa indicada é criada pelas comunidades remanescentes e pelos fragmentos de mata que, da beira da estrada, escondem os vastos campos de soja que invadem a paisagem. De outro lado, o pesquisador destaca os processos de resistência para impedir toda essa lógica de “vazio”.

“Tem um problema grande nas ciências sociais, que é focar exclusivamente numa narrativa da violência, da destruição, uma narrativa do apagamento. O que está colocado em jogo é uma tensão, é uma força que leva para a violência, para o apagamento, para o processo de sufocamento. Por outro lado, há uma resistência constante de coletivos indígenas, quilombolas, ribeirinhos que se contrapõe a essa expulsão”, continua. Ele alega que essa é uma forma de contra plantation ao se colocarem contra a incorporação de seus territórios numa lógica de violência do sistema de produção global de grãos e proteínas vegetais.

Junto com os tupinambás do Baixo Tapajós, a pesquisa resgatou a ideia de um território vivo em contraposição ao vazio. E em um lugar onde coexistem múltiplos seres: não humanos que têm um papel fundamental na defesa do território e defendem junto com os humanos a integridade dele para que ali se multipliquem outras formas de vida. “Todos esses encantados, esses outros seres que compõem esse território de múltiplas formas de vida, não somem. Eles têm a possibilidade de reaparecer e voltar esse léxico. Um processo de retomadas, de mobilizações contra o avanço do agronegócio”, explica o pesquisador.

<><> Soluções

O esforço de documentar esse fenômeno da região amazônica vem de campos diferentes do saber, que buscam evidenciar a dimensão de danos causados por agrotóxicos. “Junto com análises de ciências sociais, conseguimos demonstrar também a partir de narrativas, de histórias de vida, de casos, um padrão de violência local”, explica Zuker. Essa complementaridade é necessária devido à dificuldade de produzir conhecimento sobre os efeitos de uma substância invisível que age no longo prazo.

“Além de ser difícil traçar os resultados por um período extenso, [a pesquisa nesse assunto] é também reprimida por conta de pessoas poderosas com muitos interesses e muita entrada na política local”, alerta. Ainda assim, ele defende que os índices de desenvolvimento humano das comunidades amazônicas devem acontecer com a floresta viva e em pé. “Nada indica que o desmatamento seja um caminho importante para que exista uma melhoria na vida dessas pessoas”, afirma. Pelo contrário, a floresta e os ecossistemas são partes fundamentais para essas populações de acordo com sua pesquisa.

Sobre o uso de agrotóxicos, Zuker defende melhores práticas regulatórias e de fiscalização para evitar a lógica de expulsão. “Um elemento fundamental é a não comercialização no Brasil de agrotóxicos que são proibidos nos seus países de origem”, indica. Contudo, ele ressalta a importância do diálogo de diferentes setores para promoção do respeito à existência ecológica e do conhecimento local nessas e em outras regiões que são ameaçadas pela monocultura e pela mineração.

•        Soberania Amazônica. Por Augusto Rocha

A decadência venezuelana era algo muito triste e que não podíamos fazer muito além de lamentar e torcer para aquele país encontrar o seu próprio caminho de mudança. Dada a ordem do pós-guerra e da autodeterminação dos povos, presente na Carta das Nações Unidas. Com isso, a maior reserva global de petróleo poderia ser uma dádiva ou um peso para a Venezuela, que possui cerca de 34 milhões de habitantes (segundo o Tradingeconomics) e área semelhante ao Estado de Mato Grosso.

A ação norte-americana na Venezuela demonstra o quanto o mundo contemporâneo está vulnerável, como estava antes da II Guerra Mundial, pois o que vimos foi um ato de anexação ou colonização, como pontuou o ex-senador Jean-Paul Prates. Com o desenrolar dos dias, compreenderemos melhor. Se mantida a escalada retórica, talvez tenhamos que repensar como nos vemos no mundo, pois se a ordem global voltar ao tempo das anexações, tal qual a Polônia caiu frente à Alemanha em 1939 ou das colonizações, como a do Quênia pela Inglaterra, entre 1895 e 1963, derivada da “Partilha da África”, no neoimperialismo a partir de 1880.

A potencial revitalização da deprimente indústria petrolífera venezuelana, que se avizinha, atrairá muita alegria para empresas e investimentos e eventuais celebrações dos detratores do regime ditatorial do Nicolás Maduro, pois para todo governo existem opositores, mas, por outro lado, não podemos perder a visão do que isto significa na ordem (ou desordem) global. Imaginemos se, na esteira dos acontecimentos, a Guiana ou Roraima forem anexados? O que dizer disto? Lembrando o padrão de mudanças dos antecedentes da II Guerra Mundial, depois da Alemanha anexar a Polônia, caíram a Dinamarca e a Noruega. A sequência temporal é gradual e não faltam avisos sobre a Groelândia, que, quem sabe por estranha coincidência, é dinamarquesa.

Neste contexto, considerando que temos petróleo e terras raras, com uma soberania amazônica sempre em risco, seja pela falta de pessoas (“integrar para não entregar”), seja pelas questões climáticas (“batalha essencial para a meta climática”), teremos que repensar com urgência e emergência a nossa relação com o mundo e com cenários onde a Carta das Nações Unidas seja ignorada. Neste potencial cenário, mais belicoso, teremos que nos reencontrar com a nossa soberania e com a união nacional frente a um potencial ataque estrangeiro ou, minimamente, o que já temos posto como fato: um aumento da instabilidade no vizinho.

A história demonstra que interesses econômicos e políticos terminam em movimentos bélicos. Cultivar aliados é fundamental, compreender as forças e fraquezas também é. Neste instante de beligerância precisaremos nos reencontrar como sociedade, pois a ameaça externa é a melhor força de união de um país. A opção pacífica não é mais suficiente para encontrar a paz e a soberania. Teremos que repensar a estratégia para a Amazônia neste novo e inacreditável cenário que lembra os anos 1500, 1880 e 1939. As semelhanças são mais que suficientes para gerar uma nova postura

brasileira frente a Amazônia.

 

Fonte: Jornal GGN

 

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