Esvaziamento
da Moratória da Soja põe em risco reputação do país, dizem ambientalistas
A
DECISÃO DA ABIOVE (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais) de
deixar a Moratória da Soja enfraquece um dos principais instrumentos de
controle do desmatamento na Amazônia, avaliam ambientalistas. Firmado em 2006,
o acordo voluntário reúne empresas, governo federal e sociedade civil com o
compromisso de não comercializar soja produzida em áreas de floresta derrubadas
após 2008.
Organizações
ambientalistas alertam para os riscos ambientais, climáticos, jurídicos e de
mercado após comunicado da Abiove, na segunda-feira (5). Representante de
algumas das maiores exportadoras de soja do país, como Bunge, Cargill e Amaggi,
a entidade decidiu deixar o pacto após a retomada da vigência da Lei nº
12.709/2024, do estado do Mato Grosso, que impede o acesso a benefícios fiscais
por empresas signatárias de acordos privados como a Moratória da Soja.
Entidades
ruralistas no Mato Grosso se opõem à moratória e argumentam que o acordo impõe
barreiras comerciais injustas aos produtores rurais, impedindo a
comercialização de safras cultivadas em áreas regulares e licenciadas.
A
moratória não permite a compra do grão produzido em áreas desmatadas no bioma
amazônico, mesmo que a derrubada da floresta tenha ocorrido dentro dos limites
legais do Código Florestal. Promulgada em 2012, a lei permite que até 20% da
área de uma propriedade rural na Amazônia seja desmatada para atividades
econômicas.
O pacto
segue válido, mas organizações ambientalistas afirmam que está em curso um
esvaziamento da medida. A saída das
traders do acordo ocorre em um momento de agravamento da crise climática e pode
comprometer metas assumidas pelo país em compromissos internacionais, como o
Acordo de Paris, dizem entidades ouvidas pela Repórter Brasil.
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Riscos climáticos e reputacionais
Para
Rômulo Batista, porta-voz do Greenpeace, “a imagem de campeão climático do
Brasil vai ser afetada porque o [país] vinha diminuindo as suas emissões
conforme vinha diminuindo o desmatamento”. Ele explica que as empresas
“optaram” por priorizar incentivos fiscais custeados com recursos públicos em
detrimento do pacto. “É frustrante o abandono do compromisso mais longevo e bem
sucedido” para combater o desmatamento no bioma.
O
WWF-Brasil classifica a decisão como “um retrocesso grave e injustificável”. Em
nota, a organização afirma que a saída das empresas “enfraquece um dos
instrumentos mais eficazes de combate ao desmatamento no país” e expõe o
agronegócio a riscos ao comprometer a estabilidade climática e a reputação do
setor. O WWF destaca que a Moratória da Soja não foi extinta, mas esvaziada por
decisão voluntária das empresas, que optaram por se afastar de uma iniciativa
reconhecida internacionalmente.
A
organização acrescenta que a medida amplia a insegurança jurídica, fragiliza a
previsibilidade regulatória e compromete a reputação do agronegócio brasileiro
em mercados que exigem comprovação de desmatamento zero, como a União Europeia.
Já o
Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola) avalia que a
saída da associação da Moratória representa “uma ameaça direta à manutenção dos
sistemas de monitoramento, rastreabilidade e auditoria” que hoje garantem a não
aquisição de soja de áreas desmatadas após julho de 2008. Caso a moratória seja
extinta, a entidade afirma que poderá ocorrer aumento do desmatamento, das
emissões de gases de efeito estufa e impactos sobre as metas climáticas
assumidas pelo Brasil no Acordo de Paris.
Assinado
por 195 países e a União Europeia durante a COP21, em 2015, em Paris, o acordo
tem como objetivo principal manter “o aumento da temperatura média global bem
abaixo de 2°C acima dos níveis pré-industriais” e fazer esforços “para limitar
o aumento da temperatura a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais”.
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Monitoramento do desmatamento e produção
Estudo
do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) aponta que o fim da
moratória pode elevar em até 30% a área desmatada na Amazônia até 2045, com
emissões acumuladas da ordem de 20 bilhões de toneladas de dióxido de carbono
decorrentes da conversão de floresta em áreas de exploração agrícola.
Em
quase duas décadas, a Moratória da Soja se consolidou como referência para
dissociar a expansão da soja do desmatamento na Amazônia, segundo Greenpeace,
WWF-Brasil, Imaflora e Ipam. Dados do próprio setor indicam que a área média
desmatada nos municípios monitorados caiu 69%, de 11.424 km²/ano (2002-2008)
para 3.526 km²/ano (2009-2022), enquanto a área plantada com soja no bioma
aumentou 344% no período.
O
WWF-Brasil destaca que, entre 2007 e 2022, a área cultivada com soja na
Amazônia cresceu 1,64 milhão de hectares, mas apenas cerca de 250 mil hectares
ocuparam áreas desmatadas após 2008.
“A
moratória veio para provar que é possível crescer a produção de soja em uma
área tão rica como é a Amazônia [no estado do Mato Grosso], sem avançar sobre a
floresta”, opinou Batista, do Greenpeace. “A justificativa dada [pelos críticos
do pacto] que seria engessar a economia não condiz com a realidade”, completou.
A
Repórter Brasil procurou a Abiove para comentar as críticas feitas à decisão de
se retirar da moratória. Em nota, a associação afirma que a moratória cumpriu
“seu papel” e deixou um “legado incontestável que consolidou o Brasil como
referência global em produção sustentável”. A entidade afirmou ainda que a
expertise adquirida ao longo de quase 20 anos “não serão perdidos” e que a
“legislação servirá para assegurar a continuidade das políticas públicas de
preservação e controle do desmatamento”.
O pacto
empresarial está em avaliação no STF (Supremo Tribunal Federal) em uma ADI
(Ação Direta de Inconstitucionalidade). Também foi alvo de investigação pelo
Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). Produtores contrários à
medida argumentam sobre a possível formação de um cartel entre as exportadoras
de soja, o que afetaria a livre concorrência.
• Banco Votorantim tenta anular multa por
incêndio florestal na Mata Atlântica
O BANCO
VOTORANTIM foi multado em R$ 125 mil e teve uma área embargada pelo Ibama
(Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) após
um incêndio destruir 24,3 hectares de Mata Atlântica em São José do Mipibu
(RN). Segundo o órgão ambiental, a queimada ocorreu em um imóvel rural da
instituição financeira, mas o banco nega ser o dono da área atingida.
Esta
não foi a primeira autuação contra a empresa no local. Em julho de 2021, o
Ibama já havia multado o banco por danificar 0,79 hectare de vegetação nativa
em área de reserva legal da mesma propriedade.
Procurado,
o Banco Votorantim atribuiu as multas a erros do Ibama. A empresa afirma que o
incêndio que motivou a autuação mais recente, em maio de 20205, ocorreu em um
terreno vizinho ao da fazenda registrada em nome do banco. Além disso, a
instituição financeira alega que a propriedade foi vendida a terceiros em 2022.
“O imóvel está em nome do BV [Banco Votorantim], aguardando a regularização em
cartório pelo atual proprietário, que já foi notificado para realizar com
urgência a transferência”, diz a empresa. Leia a nota completa aqui.
Em
relação à multa de 2021, a instituição afirma que o desmatamento teria sido
praticado ainda em 2010, pelo proprietário anterior da área. De acordo com
documentos acessados pela Repórter Brasil, o banco tomou posse do imóvel após
ele ser usado como garantia em um empréstimo feito aos antigos donos.
O Ibama
afirma no auto de infração mais recente que a propriedade não desenvolvia
atividades agropecuárias. O órgão informou ainda que a área afetada pelo fogo
tem “diversidade biológica alta, com ocorrência, ao redor, de mais de 30
espécies arbóreas e arbustivas”.
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Mata Atlântica ameaçada
No auto
de infração, o Ibama ressalta que “a degradação ambiental da região
originalmente ocupada pela floresta (Mata Atlântica) compromete ecossistemas
essenciais, prejudica a disponibilidade e qualidade da água, agrava os efeitos
das mudanças climáticas e ameaça uma biodiversidade única com espécies
endêmicas e em risco de extinção”.
No Rio
Grande do Norte restam apenas 2,5% da cobertura original do bioma, que já
ocupou 6,4 mil km² — ou 13% do território estadual. “Esse cenário coloca o
estado entre os mais críticos para a conservação da Mata Atlântica”, diz o
órgão ambiental.
“A Mata
Atlântica tem um papel fundamental para combater as crises do clima e da
biodiversidade. E está à beira de um colapso”, alerta Luís Fernando Guedes
Pinto, diretor executivo da organização SOS Mata Atlântica. “Do que sobrou [do
bioma] no Brasil, 80% estão em terras privadas. É bem diferente da Amazônia,
por exemplo, onde a maior proporção da floresta que sobrou está em terras
públicas. Esses proprietários, que têm um pedaço de Mata Atlântica, têm papel
fundamental para a conservação da floresta e têm essa responsabilidade”.
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Políticas socioambientais
O Banco Votorantim tem uma política ativa de
compra de créditos de carbono oriundos de projetos remunerados para manter
áreas florestais em pé. A instituição utiliza os créditos para neutralizar as
emissões de suas operações para compensar as emissões dos veículos que financia
e em operações no mercado de capitais.
No
financiamento de veículos o banco anuncia compensar 100% das emissões dos
carros financiados pela empresa durante a vigência dos contratos de
financiamento.
Fiscalizações
recentes do governo federal já denunciaram casos de grilagem, desmatamento e
trabalho escravo em áreas rurais brasileiras que originam créditos de carbono.
Em fevereiro de 2024, a Repórter Brasil mostrou que, no ano anterior, 16
trabalhadores haviam sido resgatados em condições análogas à escravidão numa
fazenda amazônica inserida na área do Projeto Maísa REDD+. Os trabalhadores
faziam desmatamento de uma área do local.
Meses
depois, em junho de 2025, o Infoamazonia identificou que o Banco Votorantim
havia utilizado 140 mil créditos de carbono do projeto Maísa para neutralizar
as emissões dos carros financiados pela instituição. Procurado na ocasião, o
banco afirmou ao Infoamazonia que adquiriu os créditos quando o projeto estava
ativo, devidamente validado e verificado por padrões internacionais. Também
informou que, devido às denúncias, estava avaliando formas de compensar as
emissões anteriormente neutralizadas com os créditos do Projeto Maísa.
“O
investimento em crédito de carbono é válido, mas, mais importante ainda, deve
ser a preservação de áreas e a aplicação de políticas socioambientais que
evitem a concessão de crédito ou o aceite de garantias, como no caso da
alienação fiduciária, em ativos ilegais”, analisa o professor Talden Farias,
doutor em Direito da Cidade e em Recursos Naturais e professor da Universidade
Federal de Pernambuco e da Universidade Federal da Paraíba.
A
alienação fiduciária é a entrega de imóveis como garantia em transações
financeiras, como no caso de um empréstimo.
“Tem
que proteger todos os biomas. Não adianta proteger um bioma e não proteger o
outro”, destaca Guedes Pinto, do SOS Mata Atlântica. “O crédito de carbono é
muito importante, mas para a Mata Atlântica é uma medida complementar. O mais
importante são as políticas públicas para a restauração e o cumprimento do
Código Florestal.”
Fonte:
Repórter Brasil

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