Pedro
Pinho: Os Donos do Mundo – a respeito da submissão e defesa humana aos seus
interesses
A
antropologia não nos informa com precisão em que momento da evolução e/ou da
ocupação da Terra pelos ‘homo sapiens” surgiu o chefe, o líder ou que nome se
dê ao que comandava os demais.
O gênio
Darcy Ribeiro, em ensaio de 1970, lamentava que “a contribuição da Antropologia
ao conhecimento do processo de formação das sociedades nacionais modernas e dos
seus problemas de desenvolvimento” fosse “muito menor do que seria desejável”.
E
prosseguia:
“Também
é, provavelmente, muito menor do que seria possível, apesar das evidentes
limitações metodológicas com que se defrontam as ciências sociais. Na verdade,
os antropólogos – como de resto todos os cientistas sociais – parecem
preparados para empreender pesquisas acuradas sobre problemas restritos e
socialmente irrelevantes, mas pouco propensos a focalizar as questões cruciais
com que se debatem as sociedades modernas, mesmo as que se situam em cheio no
seu campo de preocupação científica”.
Neste
excepcional trabalho, publicado no Current Anthropology (vol. 11, nº 45, 1970),
o mestre enumerou contribuições fundamentais para a compreensão de como os
povos vieram a ser o que são agora.
Alguns
trabalhos de Darcy Ribeiro (“As Américas e a Civilização”, “O processo
civilizatório”, “Os brasileiros”, “O povo brasileiro”) trouxeram preciosos
subsídios, auxílios, ensinamentos mas não chegaram ao âmago da formação deste
poder que nos escraviza, e até com nosso consentimento e nossa vontade.
Uma
resposta fácil e parcialmente correta é a criação da religião. Tirar do homem
seu destino para colocar este porvir em mãos indescritíveis, fora do contexto
material da existência, inalcançável, mas tão poderosa que era dona de nossa
vida, não apenas aquela aqui conhecida, como num outro mundo ignoto.
Mas
populações ateias, como a chinesa? Como explicar esta submissão?
Evidentemente
este escriba não tem a veleidade de dar a resposta que nem Darcy Ribeiro e,
antes dele, Confúcio, Buda, Sócrates, Marx, Freud e outros grandes pensadores
não conseguiram.
Tentemos
não nos frustrar apelando para a História. Cícero, dos mais célebres romanos,
nos deixou o conhecimento da história como o da própria vida: “historia
magistra vitae”.
Mas
logo nos deparamos com a dificuldade antropológica. Pela história, quando
começa a vida narrada pela história?
No
Egito, em 6.000 anos antes de Cristo (a.C.); na Mesopotâmia (Sumérios, Acádios,
Babilônios), 4.000 a.C.; na China, ou entre os aborígenes australianos com
50.000 anos de existência?
Jean-Paul
Sartre (1905-1980), no Prefácio da obra não terminada “O idiota da família”
(1971, 1972), escreveu:
“O
idiota da família é a continuação da Questão de Método (1957). Seu tema: o que
se pode saber de um homem, hoje em dia? Pareceu-me que só poderíamos responder
a esta pergunta através do estudo de um caso concreto: o que sabemos – por
exemplo – de Gustave Flaubert? Para isso, precisamos totalizar as informações
de que dispomos a seu respeito”.
E
Sartre divaga sobre episódios da vida de Flaubert, uns objetivos,
indiscutíveis, outros relacionados a um sentimento vivido, onde se pode
questionar a sinceridade, para concluir:
“Este
livro tenta provar que a irredutibilidade é apenas aparente e que cada
informação, colocada em seu devido lugar, torna-se a parte de um todo que está
constantemente sendo feito e, ao mesmo tempo, revela sua profunda homogeneidade
com todas as partes”.
Veio-me
à mente a figura de nosso estadista Getúlio Dornelles Vargas e de seus
primeiros atos como presidente do Governo interino, fruto da Revolução
Nacionalista de 1930.
Esta
Revolução, a única ocorrida no Brasil, representava uma década de desconfortos
de diversas naturezas com o caminho, dir-se-ia acovardado, com que éramos
conduzidos e, ainda pior, com as diferentes soluções apresentadas para serem
adotadas.
Getúlio,
experiente homem público e intelectual profundo, soube priorizar as medidas e
cercar-se de pessoas competentes com ideologias e comportamentos diversos, de
pré-fascista a comunista, de conservador a revolucionário, guardando, no
entanto e firmemente, dois princípios: prender-se à realidade brasileira – não
se deixar levar, por tentador que fosse, pelos projetos construídos em
realidades sociais, econômicas, políticas, climáticas e geográficas diferentes
da nossa – e estar seguro da contemporaneidade das soluções.
Curiosamente,
quase 100 anos depois, a filósofa estadunidense Nancy Fraser (1947) enumera
quatro tópicos para demostrar a necessidade de mudança profunda da sociedade,
como Vargas se dispôs a fazer no Brasil: (a) distribuição de bens e recursos;
(b) reconhecimento das diferenças; (c) participação no poder decisório
(representação); e (d) no equilíbrio das lutas travadas nas fronteiras das
articulações constitutivas do sistema, o domínio do “capitalismo canibal”.
Fraser
adverte:
“Somente
com pensamentos grandiosos teremos chance de lutar e derrotar o ímpeto
implacável que o capitalismo canibal tem de nos devorar por completo”
(“Capitalismo Canibal”, 2023).
Não
poderia ser um discurso de Getúlio Vargas?
Busquemos
identificar nossos algozes.
Os de
Vargas estavam no Poder do Império e permaneciam na I República.
Eram os
escravistas, os proprietários de terras, latifundiários, inimigos do saber que
identificavam como rebeldia, e de qualquer mudança na sociedade. Eles tentaram
o golpe de 1932, voltaram a golpear Vargas em 1945 e foram derrotados com o
suicídio, um ato político extraordinário, não para salvar sua honra,
inatacável, mas sua obra, a institucionalização de um país para crescer, se
desenvolver, amadurecer, ser tão
importante quanto o era territorialmente.
A
sociedade humana também foi mudando. O colonialismo que avançou pelas Américas,
África, Ásia e Oceania, após a II Grande Guerra, deu lugar aos donos do
dinheiro. Não eram países nem famílias, mas aqueles que usassem o dinheiro não
só para serem cada vez mais ricos, como para corromper, dispensar as forças
armadas para lhes garantir o poder.
E com a
corrupção veio a ignorância e a desinformação. É neste estágio em que nos
encontramos no século XXI.
Um
pequeno número de trilionários, faturando bilhões por anos, corrompem os
poderes constituídos, as mídias, as ciências, para serem cada vez mais ricos e
mais distantes de perderem este poder por qualquer movimentação da sociedade,
mesmo faminta, morando ao relento, mas ignorante de sua situação.
O
editorial do Movimento de Solidariedade Ibero-Americana (MSIA), de novembro de
2025, sintetiza num parágrafo o que intitulou “Soberania limitada, da ‘Nova
Ordem Mundial’ ao crime organizado”.
Transcrevemos:
“O que
a ‘Nova Ordem Mundial’ se propôs a implementar entre as nações
ibero-americanas, no início da década de 1990, era uma ordem pós-Estados
nacionais soberanos, que seriam substituídos por um sistema de soberanias
limitadas, como condição para controle dos seus vastos recursos naturais. Tal
compartilhamento de soberanias implicava no desmantelamento de suas Forças
Armadas, de seus projetos de tecnologias avançadas, em debilitamento das forças
da ordem pública, privatização de empresas estratégicas, adoção de políticas
econômicas neoliberais (“Consenso de Washington”) e imposição de uma ideologia identitária, em
ataque direto aos princípios de Pátria e família”.
Voltemos
a Sartre na “Questão do Método”. Ele cita Friedrich Engels (1820-1895): “Os
homens fazem, eles próprios, sua história, mas num meio dado que os
condiciona”. E questiona:
“Como
se deve entender que o homem faz a História, se, por outro lado, é a História
que o faz? O marxismo idealista parece ter escolhido a interpretação mais
fácil: inteiramente determinado pelas circunstâncias anteriores, isto é, em
última análise, pelas condições econômicas, o homem é um produto passivo, uma
soma de reflexos condicionados. Mas este objeto inerte, ao inserir-se no mundo
social, em meio a outras inércias igualmente condicionadas, contribui, pela
natureza que recebeu, para precipitar ou para frear o curso do mundo: ele muda
a sociedade, como uma bomba que, sem deixar de obedecer ao princípio da
inércia, pode destruir um edifício”.
Prossigamos
com o editorial de novembro de 2025 do MSIA:
“Na
Ibero-América, essa utopia de um virtual ‘governo mundial’ controlado pela alta
finança globalizada e seus instrumentos de influência abriu caminho para
imposição de soberanias territoriais sobre amplas regiões do subcontinente por
facções criminosas organizadas em escala transnacional. O resultado é um
intricado sistema de ‘microssoberanias’ ou virtuais ‘microestados’, controlando
a vida do equivalente de mais de um quarto da população de todas as nações
ibero-americanas, desde o rio Bravo à Patagônia. De acordo com estudo da
Universidade de Cambridge, nada menos que 26% da população brasileira vive em
áreas sob domínio do crime organizado”.
E, após
discorrer sobre as duas principais organizações criminosas no Brasil: o Comando
Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), o editorial do MSIA nos
adverte, neste ano eleitoral, sobre
“os
recentes acontecimentos no Brasil, (que) apontam para a cumplicidade
imprescindível da criminalidade com o sistema financeiro, onde grandes volumes
de dinheiro provenientes do narcotráfico e outras atividades ilícitas têm sido
historicamente lavadas, e onde a globalização financeira multiplicou as
possibilidades de lavagem de dinheiro. Sem falar em indícios crescentes de
ligações com figuras poderosas da classe política nos três poderes da
república, em uma teia obscura que se estende a vários setores da economia
produtiva”.
Acrescentemos
as ações marginais de indivíduos de alto status socioeconômico, agindo como se
fossem rotinas das próprias ocupações profissionais – os crimes de colarinho
branco, que ocupam manchetes das mídias, menos para esclarecer do que para
confundir e deixar livres os responsáveis pelas fraudes como do recente caso do
Banco Master.
Todo
cuidado é necessário para votar nos futuros membros do Congresso Nacional, para
a Câmara dos Deputados e para o Senado Federal, senão correremos o risco de, ao
invés de comemorar o centenário da Revolução Nacionalista de 1930, que
possibilitou a primeira construção de um estado soberano e cidadão no Brasil,
nos lamentaremos pelo fim do Estado Brasileiro, fracionado pelas organizações
criminosas.
Fonte:
Viomundo

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