“O
mundo está em processo de autodestruição”, diz sociólogo espanhol
Manuel
Castells (Hellín,
Albacete, 1942) afirma que a história contemporânea está repleta de
paradoxos, algo que condiz com alguém de temperamento vital e que busca
conciliar suas próprias contradições. Ele é um intelectual — o sociólogo
espanhol mais citado no mundo — mas esteve nas barricadas de Maio de 68 na França. É anarquista de
coração, mas foi ministro das Universidades. Dedicou sua grande obra, A
Era da Informação, uma trilogia visionária que em breve completará 30 anos,
à internet, mas não utiliza redes sociais. Desconfia das estruturas de poder,
mas é católico.
Castells
analisa sociedades com base em dados, embora acredite que a solução para o
processo autodestrutivo contemporâneo possa ser irracional. Ele recebeu todas
as honrarias e assessorou grandes líderes, mas continua a orientar teses de
estudantes. Professor da Universidade do Sul da Califórnia e emérito de
Berkeley, ele adora visitar a Universidade Tsinghua, na China, todos os anos.
Teórico global, ele passa o máximo de tempo possível em Barcelona: sua
especialização inicial foi o estudo das cidades, e ele afirma que essa é a
melhor área de atuação. Nos encontramos lá, e durante uma conversa que começou
em seu escritório e continuou com uma paella à beira-mar, tentamos aproveitar
sua perspectiva única para entender o que diabos está acontecendo no mundo.
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Eis a entrevista.
·
Você esteve na China há alguns meses. O que está
acontecendo por lá?
Uma transformação
tecnológica, econômica e social sem precedente na história. É a maior economia
do mundo e, em termos tecnológicos, a única alternativa
aos EUA,
o que não nos incomodava antes, mas agora percebemos como é frágil depender de
uma potência que, até então, era amigável, mas que pode não ser mais. As
teorias neoclássicas afirmavam que o mercado e
a internacionalização deveriam ser os motores do desenvolvimento.
Bem, a grande história tem sido a
Ásia: Japão, Sudeste Asiático e agora a China. Em
todos os casos, o Estado tem sido a verdadeira força motriz. Podemos discordar
politicamente — eu não sou um grande fã do Estado —, mas isso mina toda a
teoria. O paradoxo mais extraordinário é que o grande milagre econômico do
século XXI foi liderado por um Estado comunista. A melhor empresa do
século XXI foi um Estado comunista.
·
Até que ponto a febre da IA é uma tentativa
desesperada de um capitalismo exausto de avançar?
A inovação tecnológica
em IA é absolutamente real e despertou o interesse dos mercados financeiros. O
que é pura ficção é a ideia de que as
máquinas em si são inteligentes e humanas: elas não podem tomar decisões a
menos que as programemos para isso. A IA transforma todos os
domínios; é como a internet — não é um setor, não está separada do que fazemos,
está em tudo. Pedro Sánchez me incumbiu de
criar um Conselho Consultivo Internacional sobre Inteligência Artificial.
É muito recente, mas a preocupação é que, se incluída em todas as atividades
sem supervisão, possa causar desequilíbrios. Há a questão de se isso eliminará
empregos, mas toda a história da tecnologia mostra o contrário. Quando se
incorpora mais tecnologia, certos setores perdem, mas outros crescem. A
novidade é que agora são os empregos mais qualificados que estão em risco.
Devemos acompanhar a transformação tecnológica com uma transformação
educacional, especialmente no nível universitário. Aqueles que são altamente
qualificados terão que continuar seus estudos para se adaptar ao novo mundo.
·
Daqui a 100 anos, o que as pessoas pensarão sobre as
mudanças que estamos vivenciando: a internet, os telefones celulares, a
inteligência artificial?
A
atividade humana é determinada por energia e informação. A Revolução
Industrial foi a transformação da energia. A transformação da informação é
a revolução da informática das décadas de 1960 e 70, tão importante quanto a
industrial. O que o motor elétrico representou para a distribuição de energia
em todos os lugares foi a internet. A sociedade já se transformou. Eu a chamo
de sociedade em rede porque é uma nova estrutura social, distinta da industrial
por ser constituída em redes, de longe a forma organizacional mais flexível.
Até termos uma tecnologia capaz de disseminar todas as informações e tomadas de
decisão por meio de redes, não houve mudança social. Para que essa estrutura
social exista e se desenvolva, tudo precisa ser digitalizado. E há aquela
estatística da tese de um dos meus alunos: 99% de toda a informação é
digitalizada. Nós já estamos digitalizados. Nada do que você ou eu fazemos
escapa à digitalização.
·
A meditação e as crenças de todos os tipos
retornaram… Será isso um retiro interior do caos do mundo, como nos anos
setenta? Será que deixamos de realizar algo mais com nossas individualidades
interconectadas?
Aqueles
de nós que podem se dar ao luxo (alguns não podem, porque, se desconectarem,
passarão fome) podem criar espaços de liberdade. Muitas pessoas precisam
meditar, desconectar-se, purificar-se. O mundo em que vivemos é mais violento, mais implacável. A
religião e outras formas de espiritualidade estão se tornando cada vez mais
importantes. Não se trata de fé; quem a tem, tem, e quem não tem, não tem. A
necessidade de algo espiritual além do que nos aprisiona diariamente está
crescendo, e as pessoas estão encontrando soluções diferentes.
Pessoalmente,
acredito que seja crucial neste momento resgatar o papel
da religião e da espiritualidade como um contrapeso a um
mundo que está se autodestruindo. Não se trata apenas do
clima: guerras, tecnologia descontrolada, tudo. É necessária uma
reação política, e não há nenhuma. Certo ou errado, as pessoas não
confiam na política.
Portanto, a solução precisa ser interna, uma força que surge de dentro de nós
para o autocontrole, em vez de um controle externo. Tudo o que resta é uma
motivação interna que (independentemente das estruturas religiosas) está
presente. E isso não pode ser posto em dúvida, não pode ser quebrado.
·
A razão seria a destruição do papel das instituições, da
abordagem "de cima para baixo" que acompanha a internet?
Absolutamente.
De tudo o que fiz, o mais impactante foi uma trilogia. Todos se concentraram no
primeiro volume: a sociedade em rede, a tecnologia,
a economia global… porque o escrevi na década de 90 e ele se
expandiu. Eu não estava fazendo futurologia; a digitalização já estava em
estágio embrionário. Mas há algo mais: existem duas forças muito contraditórias
que organizam nossa sociedade, o que chamei de rede e o eu.
O
segundo volume trata do poder da identidade. Ela pode ser macro (cultural,
política, etc.) ou uma identidade que, se você não pertence ou não quer
pertencer a nenhum grupo cultural, você cria para si mesmo. Você busca uma vida
interior. A identidade opera em dois níveis. Muitos intelectuais de esquerda
têm um racionalismo clássico, mas o que importa na vida é o que as pessoas
consideram importante, e nós não somos racionais, somos animais emocionais —
isso já foi comprovado pela neurociência. Nossos intelectuais não entendem o
nacionalismo catalão ou basco, nem a construção de comunidades religiosas
islâmicas (que, se não toleradas, levam ao radicalismo e à destruição de
estruturas opressivas). O feminismo é identidade. Mas, por atacar o fundamento
da dominação patriarcal, que é o mais antigo, estamos testemunhando
uma violenta reação contra o feminismo e qualquer outra forma de
identidade cultural e sexual. Essa reação está na base do trumpismo,
do Vox e de todos os movimentos de extrema-direita que estão ganhando
terreno na Europa.
·
Movimentos que, de alguma forma, se originam na internet
e, ao mesmo tempo, reagem contra ela.
Sim,
porque a internet não é um mundo em si. A internet somos nós. Todos nós estamos
na internet. O feminismo se desenvolveu muito com a internet,
mas o mesmo aconteceu com o antifeminismo, o sexismo e
o nazismo. É uma plataforma que construímos com base em quem somos e no
que fazemos todos os dias. Todos os ideais utópicos — dos quais participei
desde o início — de "criar uma comunidade universal e interagir livremente
uns com os outros"... Nós interagimos, sim, mas apenas com aqueles que
escolhemos. E se eu sou racista, bem, eu uso a internet para encontrar mais
racistas.
·
Então, o problema da internet não é a hiperconectividade,
mas a homofilia? Essa tendência de se associar com pessoas exatamente iguais a
nós.
Homofilia é
uma expressão perfeita. Inventaram outras, como câmaras de eco, mas é
exatamente isso. A internet somos nós coletivamente, baseados no princípio que
você apontou: eu fico com os meus, eu decido quem são eles. Ali, eu me sinto em
casa, e não me misturo com os outros, não leio os outros, não discuto com os
outros, eu os ignoro ou os extermino. E isso é fragmentação total. Uma
sociedade com instituições que não se sustentam mais e na qual a internet
permite o separatismo cultural. Não é culpa da internet; ela é
maravilhosa, com comunidades maravilhosas: arte, cultura, ciência. Mas ela
também fragmenta.
Quando
uma sociedade está fragmentada, essa fragmentação é amplificada pela internet.
E o mesmo acontece com a IA. O problema não é a tecnologia em si, mas a
amplificação de tendências destrutivas dentro de nós. Eu diria que todos nós
somos ambos, anjos e demônios. Somos animais mal controlados que construímos
instrumentos tão poderosos que, se tentarmos seriamente nos opor a eles,
podemos facilmente nos destruir.
·
A teoria era que as comunidades menos favorecidas se
fortaleceriam por meio de redes, mas estamos vendo o oposto, uma união sem
precedentes entre o poder tecnológico e o poder político.
Ambos.
Por um lado, a internet foi, e é, a base de grandes movimentos sociais
transformadores. O movimento 15M na Espanha não
teria existido sem ela, nem os movimentos sociais que continuam a acontecer em
todo o mundo. Por outro lado, grupos poderosos estão cada vez mais dominando
por meio de sistemas de controle algorítmico, e grupos destrutivos,
antifeministas, racistas e outros também estão se organizando online. Não
é que começamos com uma coisa e depois a outra aconteceu. É que, à medida que a
internet emergiu de pequenas comunidades bem-intencionadas (cientistas,
intelectuais, etc.) e se expandiu globalmente, o próprio mundo foi moldado. E o
mundo está cheio, eu diria, não apenas de pessoas más, mas do lado ruim de
todos nós. Se você consegue articular isso por meio de redes em escala global
ou local, tudo isso é amplificado.
·
Você continua otimista? Ainda acredita na revolução?
Bem,
digamos transformação social. Revolução, para mim, tem um significado
estritamente político. Acontece quando há uma mudança, uma destruição de um
Estado, de um sistema institucional. Falar de revolução tecnológica também está
correto. Quanto ao otimismo: sou tradicionalista; continuo repetindo a famosa
frase de Gramsci: "pessimismo
do intelecto e otimismo da vontade". Se você é otimista, mas não sabe
em que mundo vive, vai se dar mal. É preciso analisar. E se eu analisar, vejo
um mundo hoje claramente em um processo de autodestrutividade.
·
O que está acontecendo nos EUA?
A
mudança fundamental na ordem mundial, que a transforma em desordem. É
(aqui posso usar o termo) uma revolução: é uma mudança no sistema
institucional. O trumpismo não é efêmero.
Ele vem de um agente do antissistema político, que é Trump. Ele não é um
antissistema anticapitalista: ele é o mais capitalista de todos. É outro
paradoxo da história: um bilionário se torna o agente de transformação do
sistema político apoiado pela classe trabalhadora.
·
Acha que um Papa americano será importante?
Fundamental,
como Francisco tem sido. O papel da Igreja Católica pode ser
fundamental, mas se não for, será apenas mais um grupo religioso. Porque não
sobrou nada. A democracia só existe na mente das pessoas. E se as
pessoas não acreditam em partidos políticos, na democracia, nas instituições,
bem, acabou. Nesse contexto, quanto mais anti-establishment você
for, melhor.
Esse
foi o sucesso do Podemos, mas quando se tornou parte do sistema, acabou. E o
mesmo acontece agora: a política da moda é a antipolítica. O Vox é um
partido anti-establishment. O
revolucionário Trump não está apenas transformando o sistema
institucional, mas também a globalização, que se baseava na ausência de
fronteiras econômicas. Tarifas são usadas como estratégia geopolítica. O mundo
é mais uma vez movido pelo nacionalismo, a palavra da vez.
Os EUA,
a China, o Japão. Na Europa, os movimentos de extrema-direita são
nacionalistas, antieuropeus; tudo começou com o Brexit. O debate público na
Espanha era: "O nacionalismo é retrógrado; somos todos cidadãos do
mundo." E, inversamente, houve um ressurgimento em todo o mundo.
·
Será esta uma forma de impor limites à sociedade digital?
Quando
dizemos que as redes sociais são
instrumentos de ódio, racismo, sexismo e nacionalismo de todos os
tipos, bons ou ruins, do que estamos falando? Estamos falando de como a
internet amplifica essas tendências. A internet não é, por definição, e não
pode ser, nacionalista. Ela é global. Mas é a plataforma global para o
nacionalismo de todos os estados.
·
Nós culpamos a internet por tudo, mas em seu livro mais
recente (A Sociedade Digital, Alianza, 2024) é dito se tratar de um
pânico moral, uma reação à mudança.
Qualquer
grande mudança no mundo da comunicação é acompanhada por uma reação contrária.
Aconteceu com a televisão. Profissionais de uma mídia têm dificuldade em migrar
para outra. O mesmo ocorre com os intelectuais. Aqueles que antes detinham
influência histórica já não a têm mais; encontram-se desintermediados pela
internet. Podem publicar suas colunas, livros ou artigos, assim como qualquer
pessoa pode publicar o que quiser online. Os inflienciadores
são mais influentes do que os intelectuais. Então, atacam o mensageiro.
Quer dizer, se você ainda está pensando em Kant em vez de lidar com o
que está acontecendo no mundo e apresentar ideias que interessem às pessoas…
Eles estão desorientados pela internet porque eram a referência cultural e
agora estão perdidos na cacofonia geral.
Fonte: Entrevista
com Manuel Castells para Delia Rodríguez, no El País

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