terça-feira, 20 de janeiro de 2026

“Trump mantém o chavismo vivo porque é ele quem controla a Venezuela”, cientista político

A operação militar ilegal dos EUA em Caracas para capturar Nicolás Maduro abalou os alicerces do direito internacional. A própria ideia de uma ordem global baseada em regras é a principal vítima de uma ação com a qual o presidente Donald Trump busca demonstrar seu poder ao mundo.

“O petróleo é um fator importante, mas não o único”, esclarece José Natanson (Buenos Aires, 1975). Em abril, o jornalista, cientista político e diretor da edição Cone Sul do Le Monde Diplomatique publicou o livro Venezuela: Ensaio sobre a Decomposição (Debate).

>>>> Eis a entrevista.

·        Quando publicou seu livro, ele acreditava que não havia motivos para esperar mudanças na Venezuela em curto prazo. Quais fatores internos ou externos foram ativados para interromper esse cenário de relativa estabilidade?

A hipótese de que o chavismo não cairia em curto prazo ainda se mantém, pois continua governando a Venezuela. O que ele obviamente não imaginou na época é que os Estados Unidos poderiam realizar uma operação para capturar e sequestrar o presidente. O chefe de governo mudou, mas o chavismo, como aparato político-militar, permanece de pé. Essa foi uma decisão deliberada de Trump. As Forças Armadas Nacionais Bolivarianas estão praticamente intactas e a infraestrutura econômica não foi destruída. Maduro caiu, mas o sistema continua.

·        Será que Delcy Rodríguez conseguirá se consolidar como uma figura de continuidade aceitável nos EUA? Quais condições precisariam ser atendidas?

Trump compreendeu que não podia destruir o aparato chavista, como fizeram os neoconservadores de George W. Bush durante a segunda Guerra do Iraque, em 2003, quando dissolveram o Partido Baath e as Forças Armadas. O país ficou dividido em sete partes, e um longo período de caos e anarquia se seguiu, forçando os Estados Unidos a manter tropas no país por mais de uma década. Esse não era um cenário desejável para Trump, então ele depôs Maduro e enfraqueceu e encurralou o chavismo, mas o manteve à tona porque eles eram os únicos capazes de exercer controle operacional sobre o país. Isso significava não destruir as Forças Armadas Nacionais Bolivarianas.

Na Venezuela, os militares controlam os portos e aeroportos, a polícia, o abastecimento de alimentos e gasolina, os navios, os carros… são eles que efetivamente controlam o país. Destruir a capacidade operacional do chavismo levaria ao caos em um país com 2.200 quilômetros de fronteira com a Colômbia, lar dos únicos grupos insurgentes de fato na América Latina. É por isso que o papel de Delcy como responsável por essa transição é tão importante.

·        Quais condições precisam ser atendidas para que essa transição aconteça? A aprovação dos representantes chavistas na Venezuela seria a primeira?

Eles já têm isso. Além da retórica inicial, na qual se referiam a Maduro como um presidente legítimo, a liderança chavista já aceitou as novas condições de governo impostas pelos Estados Unidos: “Vocês têm que fazer tudo o que dizemos, porque se não fizerem, haverá um segundo ataque”. Trump afirmou explicitamente que eles tinham esse segundo ataque preparado. Teria sido mais caótico, pois envolveria o envio de um grande número de soldados e resultaria em uma resposta militar, o que não aconteceu desta vez. A Venezuela praticamente não contra-atacou.

·        Qual é a situação das figuras visíveis da oposição venezuelana?

Os dois maiores perdedores nesta operação são Maduro e María Corina Machado. Ele, porque está preso e será julgado em Nova York, e ela, porque Trump decidiu que ela não desempenhará nenhum papel, pelo menos no curto prazo. Como disse Marco Rubio, pediram à oposição venezuelana que demonstrasse sua capacidade de assumir o controle do país em uma operação dessa natureza. Segundo a avaliação dos Estados Unidos, eles não demonstraram. Por isso, decidiram que a transição deveria ser liderada por um líder chavista e não por uma figura da oposição.

·        O que lhes faltava para estarem em posição de liderar essa mudança?

A oposição venezuelana nunca conseguiu exercer qualquer influência real sobre as Forças Armadas, que nunca se fragmentaram ou dividiram. Elas permanecem coesas, razão pela qual a oposição não consegue exercer controle efetivo sobre o território.

·        Falamos do exército, do chavismo, da oposição… e o povo venezuelano?

Não estou lá, mas o que meus amigos venezuelanos me dizem é que as ruas estão pacíficas. Outro fato relevante é que o chavismo não convocou grandes manifestações ou marchas, embora pudesse tê-las feito. É mais um gesto de docilidade diante das condições impostas pelos Estados Unidos. As ruas estão pacíficas, calmas. Os venezuelanos não querem um cenário de quase guerra civil como o vivenciado durante os grandes ciclos de protesto de 2014 e 2017. Aliás, depois que Maduro fraudou as eleições em 28 de julho, nada aconteceu, porque os venezuelanos que vivem na Venezuela querem paz. Mesmo a paz autoritária de Maduro. Eles a aceitaram, apesar de terem votado contra ele, aquele que fraudou as eleições. A vida continua.

·        Há espaço para mobilizações em larga escala em qualquer uma das direções?

Não, o que existe é um acordo entre a liderança bolivariana e o governo dos Estados Unidos sobre os termos da transição. Esse acordo envolve concessões econômicas, relacionadas ao petróleo; concessões geopolíticas, relacionadas a Cuba e Nicarágua; e, eventualmente, talvez concessões políticas, como a libertação de alguns presos políticos e, em algum momento, eleições supervisionadas. Para mim, a metáfora mais adequada é a queda do ditador dominicano Trujillo em 1961, cercado pelos Estados Unidos e fortemente sancionado pela OEA. Quem conduziu aquela complexa transição, na qual a família buscava vingança e o filho de Trujillo chefiava as Forças Armadas, não foi o líder da oposição, mas Joaquín Balaguer, que era o presidente fantoche de Trujillo. Acredito que Delcy poderia ser o Balaguer da Venezuela.

·        Trump já demonstrou interesse na indústria petrolífera venezuelana. Seria simplista afirmar que esse é o seu único interesse? Existem outras interpretações ?

É um fator importante, mas não o único. Várias coisas o motivaram. Primeiro, mostrar que está disposto a tudo. Há um tom de alerta na mensagem que Trump envia à América Latina com a captura de Maduro: a de que ele pode fazer o que quiser, até mesmo sequestrar um presidente. O segundo motivo, sem dúvida, é o petróleo. Ele tem uma abordagem muito pragmática em suas decisões e acredita que colherá benefícios econômicos significativos com isso. Penso que há um terceiro: substituir a China e a Rússia como seus principais aliados na região. E um último, que tem mais a ver com Marco Rubio: restaurar a democracia na Venezuela. Trump não mencionou eleições ou democracia em nenhum momento, mas acho que Rubio está pensando nisso. E em Cuba, para quem a Venezuela bolivariana continua sendo muito importante.

·        Diversos países da região rejeitaram a incursão militar em Caracas por considerá-la um precedente extremamente perigoso para a paz e a segurança no continente. Como você acha que isso afetará a estabilidade e as relações entre os governos da América Latina?

Isso cria um precedente muito ruim para a América Latina, pois implica que os Estados Unidos decidiram reviver a Doutrina Monroe nos piores termos possíveis e em um país sul-americano. Isso não é um detalhe insignificante. A América Central, como aconteceu no Panamá e em Granada, é uma coisa, mas a América do Sul, onde a influência do Brasil tem sido historicamente muito significativa, é outra. Também é importante considerar que a política de Trump é de cenoura e vara. Vara com a Venezuela, mas cenoura com o governo Milei, que ele resgatou no último minuto da catástrofe financeira com um tuíte do Secretário do Tesouro. Trump ataca, mas também recompensa seus aliados sob a condição de alinhamento total com os Estados Unidos.

·        Cuba poderia ser uma das principais vítimas?

Sim, além do direito internacional e da ideia de uma ordem global baseada em regras. A Venezuela envia a Cuba um terço do petróleo que consome, então um colapso do sistema seria um grande problema. Haverá repercussões. Uma das condições que Trump imporá a Delcy é que “basta dizer basta a Cuba”.

·        Será que poderíamos ver ações semelhantes em países como a Colômbia ou o México?

Não consigo imaginar. Arriscaria dizer que Trump não vai sair pela América Latina caçando presidentes. Maduro foi um caso especial, muito particular e simbólico por causa da questão da imigração, mas não vejo isso acontecendo da mesma forma [em outros países].

·        Como avalia a reação da Europa a essa violação do direito internacional?

É uma reação impotente. Se não tiver influência na Ucrânia, o que terá na Venezuela? No entanto, cria um precedente perigoso. Que argumento alguém pode usar para dizer a Putin que ele não pode fazer tal coisa? Ou a Israel em relação a Gaza? Por que a China não pode retomar ou invadir Taiwan? É a morte do direito internacional. A reação da Rússia e da China tem sido justificadamente cautelosa, com as declarações obrigatórias, porque, embora [a operação] envolva deslocá-las de um de seus principais aliados na América Latina, também pode ser útil para elas em seus próprios conflitos.

·        De que forma esse novo contexto poderá afetar o investimento estrangeiro na região?

Nos últimos anos, a Venezuela conseguiu recuperar parte de sua indústria petrolífera com muito esforço. O embargo dos EUA começou a complicar essa recuperação, então imagino que agora, com o investimento e a influência dos EUA, o país conseguirá recuperar essa indústria rapidamente. É preciso estabelecer um arcabouço legal, promulgar leis e firmar acordos. Não é tão fácil, mas acredito que a produção possa ser recuperada. Não descartaria um pequeno boom econômico na Venezuela depois disso.

·        O que podemos esperar da Venezuela a curto prazo?

Precisamos aguardar para entender os termos exatos das negociações entre a liderança venezuelana e o governo dos Estados Unidos. Se chegarem a um acordo, implícito ou explícito, podemos esperar uma transição liderada pelo chavismo, que manterá o controle das Forças Armadas Nacionais Bolivarianas e do território, e que terá que fazer concessões sucessivas a Trump. E, em algum momento, haverá eleições nas quais a oposição quase certamente poderá participar.

·        Você acha que as negociações para essa transição estão começando agora, ou começaram antes de sábado?

Há indícios de que houve conversas anteriores, com e sem Maduro, mas creio que as verdadeiras começaram quando o detiveram.

¨      A continuidade do chavismo sem Maduro. Por Jeferson Miola

Trump é um gângster que detesta a política tal como consideramos. Ele quer mesmo é fazer negócios através da política. Muitos e lucrativos negócios.

A política –sobretudo o poder de condução da política imperial no mundo– é o meio poderoso que este gângster tem em mãos para impor os interesses do establishment estadunidense com métodos truculentos, mafiosos e criminosos para concretizar negócios estratégicos.

A acusação de narcoterrorismo contra o presidente Nicolás Maduro repete o script conhecido: um pretexto sujo para criar uma fachada de legalidade à invasão da Venezuela e ao sequestro do presidente do país.

O objetivo dessa ação imperialista foi viabilizar, finalmente, a retomada do controle e do roubo da renda petroleira venezuelana depois de 27 anos de tentativas imperiais fracassadas.

Trump tem pressa em “retomar o fluxo de produção” do petróleo venezuelano, como repetiu várias vezes no pronunciamento de sábado, 3/1.

Os EUA não cogitam, pelo menos por enquanto, derrubar o regime chavista e fazer a transição para um governo ultradireitista liderado pela fascista Maria Corina Machado. Não deixa de ser uma incoerência notável para o país que foi o primeiro a declarar Edmundo González como vitorioso da eleição de julho de 2024.

Mudar o regime ou gerar um vazio de poder seria caótico e custoso demais. Além disso, traria muita confusão e atrasaria por tempo imponderável o assalto ao butim petroleiro, cujo plano de retomada divulgado pelos EUA alcança uma cifra superior a 100 bilhões de dólares em investimentos nos próximos anos.

Os EUA não cogitam nem mesmo novas eleições, como prevê a Constituição Bolivariana em caso de vacância definitiva do cargo, que na prática ocorrerá devido ao sequestro do presidente constitucional do país.

O secretário de Estado Marco Rubio disse que “é prematuro [falar de eleições na Venezuela] neste momento. Há muito trabalho pela frente. Importam-nos as eleições, importa-nos a democracia, mas o que mais nos importa, antes de tudo, é a segurança, o bem-estar e a prosperidade dos Estados Unidos”.

A opção, portanto, foi manter o chavismo no poder, porém, sem Nicolás Maduro, mas com a vice Delcy Rodríguez, que “está essencialmente disposta a fazer o que consideramos necessário para tornar a Venezuela grande novamente”, disse Trump.

Com Maduro a relação ficara insuportável. “Simplesmente não conseguíamos trabalhar com ele”, disse Rubio. “Ele nunca cumpriu nenhum dos acordos que fez. E nós lhe oferecemos, em diversas ocasiões, a oportunidade de se afastar de forma positiva. Ele optou por não fazê-lo, e agora está em Nova York”, complementou.

A “transição” com Delcy vinha sendo considerada há meses, em paralelo à intensificação dos ataques e ameaças de Trump à Venezuela. Em reportagem de 16 de outubro passado, o jornal Herald Miami noticiou a existência de diálogos entre autoridades venezuelanas e estadunidenses com a mediação do Catar, fato confirmado por fontes venezuelanas.

Após as demonstrações ostensivas de poderio bélico dos EUA no Caribe, com bombardeios de embarcações pesqueiras na região e assassinato de centenas de civis, assim como as ações diretas da CIA no terreno, tais diálogos teriam sido intensificados com a discussão de possíveis cenários de continuidade do chavismo sem Maduro.

A hipótese de que o processo na Venezuela tenha se desenrolado no contexto de acomodação de interesses das potências mundiais [EUA-América Latina, China-Taiwan e Rússia-Ucrânia] em coordenação com o chavismo ganhou fortes evidências nessas 48 horas posteriores à operação.

É chamativo que nenhuma das 150 aeronaves, entre helicópteros e drones que passearam em baixíssima altitude pelo espaço aéreo venezuelano, tenha sido abatida pela defesa venezuelana, que utiliza sofisticada tecnologia militar russa.

Também não foi contabilizada nenhuma baixa de soldado dos EUA, nem mesmo ferido, ao passo que 32 cubanos que integravam o destacado grupamento de inteligência responsável pela guarda presidencial foram “assassinados a sangue frio”, conforme as Forças Armadas Bolivarianas.

Na “Mensagem da Venezuela ao mundo e aos Estados Unidos”, publicada em espanhol e inglês nesta 2ª feira, 5/1, mesmo dia em que Maduro é levado à audiência de custódia em Nova York, Delcy declara que “consideramos prioritário avançar em um relacionamento internacional equilibrado e respeitoso entre EUA e Venezuela”.

“Estendemos um convite ao governo dos EUA para trabalharmos juntos em uma agenda de cooperação, orientada pelo desenvolvimento compartilhado, no marco da legalidade internacional que fortaleça uma coexistência comunitária duradoura”, acrescentou.

Delcy termina a mensagem com uma declaração direta a Trump – “Presidente Donald Trump: nossos povos e nossa região merecem a paz e o diálogo, não a guerra”.

Os acontecimentos deste 3 de janeiro criam um ambiente de imponderabilidade e incertezas sobre o futuro da Venezuela, da América do Sul e da geopolítica mundial.

A questão a ser considerada, realisticamente, e sobretudo em termos de capacidade militar, é se haviam outras opções nesta que se caracteriza como a batalha mais ameaçadora à sobrevivência do chavismo nesses 27 anos de resistência à guerra imperialista implacável.

 

Fonte: Entrevista com José Natanson, para David Noriega, no El Diario/Brasil 247

 

Nenhum comentário: