Juarez
Pinheiro: As veias abertas da América Latina
O ato
dos EUA, de atacar de forma unilateral e contra a ordem mundial a Venezuela, na
madrugada de sábado (03-01-26) foi um soco no estômago dos latino-mericanos,
excluídos os de extrema-direita. O evento atualizou a doutrina Monroe (James
Monroe-1823), segundo a qual a América do Sul é área de influência exclusiva
dos EUA. Também as políticas do "big stick" de Theodoro
Rosevelt (1901/1909). "Fale suavemente e leve um grande porrete". O
evento nos relembrou, ainda, que as "veias da América Latina continuam
abertas" (Eduardo Galeano).
A mídia
corporativa, assim como alguns ingênuos ou neófitos, tiveram a pachorra de
endossar a narrativa mentirosa, das agências internacionais, de que a
agressão americana deveu-se aos fatos de Maduro caracterizar-se como um
ditador e um narco-traficante.
As
razões, porém, como sabemos, foram outras. De natureza econômica e estratégica.
Os americanos obrigaram a Europa a desistir do gaz e petróleo da Rússia
e, agora,estão com seus estoques no limite. Assim, o homem de cabelo
laranja não atuou para liberar o povo de um ditador, mas para poder explorar
ainda mais o país, com exclusividade.
De
sublinhar-se que as dificuldades por que passa a Venezuela, que faz gerar uma
enorme diáspora, são da responsabilidade dos EUA, pela imposição de sanções
econômicas e o embargo de bilhões de dólares, de propriedade venezuelana, que
se encontram depositados em bancos americanos.
De
registrar-se, também, que para eleger-se Trump acenou para o MAGA (Make America
Great Again) de que não renovaria as "guerras eternas" ou mesmo as
"revoluções coloridas". Mas logo no início de seu mandato já
subordinou-se ao Complexo Industrial Militar, ao Pentágono e à CIA. E não
cumpriu a promessa de acabar imediatamente com a Guerra na Ucrânia. Ademais,
foi parceiro de Netanyahu no Genocídio de Gaza. De consequência perdeu apoio em
sua base eleitoral (homem branco, sem curso superior) também em função da
inflação crescente. Assim, a invasão do país, com maior estoque de
"oil" do mundo, serviu também como uma nuvem de fumaça, para camuflar
seu insucesso na economia.
A
postura bélica exacerbada, aos olhos da geopolítica, deixa evidente os momentos
finais de mais um império. Que não é substituído por outro, como em outras
épocas, mas que dá lugar a um mundo multipolar.
Os EUA
sabem que já estão sendo ultrapassados, econômica e tecnologicamente pela
China. Que a Rússia já rivaliza consigo, em tecnologia militar. E então se
desespera, se debate, fomentando e mantendo inúmeros conflitos. E como sabemos,
este é o fim de todos os impérios.
¨
A nova escalada imperialista na AL: Venezuela como
epicentro de um novo pretexto geopolítico dos EUA. Por Kayuã Girardi
Em mais
um ataque à soberania dos países latino-americanos, os Estados Unidos
sequestraram o presidente da República Bolivariana da Venezuela, Nicolás
Maduro, demonstrando, mais uma vez, como se colocam no direito de intervir na
política interna de uma nação soberana. Esse comportamento, de caráter
hegemônico, ao infringir a soberania venezuelana, viola o direito internacional
e ameaça a paz na América Latina e no Caribe.
A
Venezuela é um país que, com a Revolução Bolivariana, deixou de se curvar aos
interesses econômicos do imperialismo mundial sobre o seu petróleo (as maiores
reservas do mundo). Iniciada no final do século XX e consolidada no século XXI
sob a liderança de Hugo Chávez, essa revolução transformou a Venezuela de um
país periférico no cenário latino-americano em um epicentro de avanços sociais
e de políticas radicais no sentido da melhoria da qualidade de vida de seu
povo. Desencadeada por eventos como o “Caracazo” (1989), ela não apenas
reconfigurou as forças internas do país, mas também se tornou um dos eventos
mais significativos da região no novo milênio, resgatando e atualizando o
projeto de integração de Simón Bolívar e o legado socialista da Revolução Cubana.
Ao introduzir novamente os conceitos de socialismo e luta de classes após a
queda da União Soviética na América Latina, o chavismo organizou um grande
movimento de contestação da dominação burguesa e imperialista, retirando a
esquerda da defensiva imposta pela hegemonia neoliberal.
Durante
os governos de Hugo Chávez, a Venezuela registrou um período de crescimento
acelerado, impulsionado pela forte atuação estatal na exploração do petróleo,
que chegou a patamares próximos de três milhões de barris por dia. Essa
capacidade produtiva viabilizou políticas redistributivas de grande escala,
resultando em aumento real da renda das camadas mais pobres ao longo da
primeira década do século XXI. Em 2005, a UNESCO declarou a Venezuela
território livre do analfabetismo, um marco social relevante no contexto
latino-americano. No mesmo período, o Índice de Desenvolvimento Humano do país
avançou de 0,695, em 1999, para 0,771, em 2013, refletindo melhorias em renda,
educação e expectativa de vida. Após a morte do líder bolivariano, teve início
uma escalada sistemática de intervenções e pressões externas lideradas pelos
Estados Unidos. O cerco econômico e político imposto à Venezuela não tem como
objetivo o combate ao narcotráfico nem a defesa abstrata da democracia, mas sim
a contenção de um projeto soberano que contrariou interesses estratégicos no
sistema energético e financeiro internacional.
Seu
sucessor, Nicolás Maduro, foi reeleito presidente em 2024 com 51,20%, o que
representa mais de 5 milhões de votos, garantindo seu terceiro mandato e a
continuidade do projeto chavista. A vitória, uma das mais difíceis, ocorreu
após um período de intensa crise econômica, agravada por um rigoroso bloqueio e
sanções dos EUA, que o governo enfrentou com políticas de controle de preços e
programas sociais como os CLAPs (Comitês Locais de Abastecimento e Produção). A
oposição, desorganizada e com sua principal líder, María Corina Machado,
inelegível por irregularidades administrativas e corrupção, apresentou um
candidato de unidade, Edmundo González, mas falhou em consolidar propostas
concretas para além de um discurso genérico de mudança.
A
campanha de Maduro, baseada em seu plano “7 Transformações” e na forte
mobilização popular por meio das comunas e da estratégia “1×10”, soube
capitalizar uma incipiente recuperação econômica, com a queda da inflação e a
estabilização do bolívar, fatores que garantiram sua reeleição de forma
legítima, apesar de todas as agressões e do isolamento político sofridos. A
Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) indica que, em
2025, o PIB venezuelano cresceu 6,5%, ficando atrás apenas do explosivo
crescimento da Guiana (15,2%). Além disso, a Organização das Nações Unidas para
a Alimentação e a Agricultura (FAO) classifica o país como um caso de
resiliência no combate à fome, tendo reduzido a taxa de subnutrição em 11,7%
entre 2022 e 2024, retirando 3,3 milhões de pessoas da fome. Esses avanços
foram conquistados mesmo em um contexto de emigração significativa e sob o peso
de mais de mil sanções, que formam um bloqueio econômico, impedindo a Venezuela
de vender seu petróleo livremente no mercado mundial há mais de uma década.
O que
está em disputa não é apenas o controle da maior reserva de petróleo do
planeta, mas a sustentação do sistema financeiro internacional baseado no
petrodólar. Em 1974, a Arábia Saudita, principal liderança da OPEP, firmou um
acordo estratégico com os Estados Unidos que estabeleceu a venda do petróleo
exclusivamente em dólares. Na sequência, os demais países da organização
adotaram o mesmo modelo. Esse arranjo criou artificialmente uma demanda
permanente pela moeda estadunidense, permitindo aos EUA se autofinanciarem a
custos reduzidos, manterem juros mais baixos e operarem déficits fiscais e
comerciais crônicos sem provocar colapsos internos. Historicamente, qualquer
país que tentou romper com esse sistema sofreu retaliações severas. O Iraque de
Saddam Hussein foi golpeado após anunciar a adoção do euro nas transações de
petróleo, assim como a Líbia de Muammar Gaddafi após propor uma moeda
pan-africana lastreada em ouro. Nesse contexto, a recuperação econômica recente
da Venezuela não é um detalhe irrelevante: mesmo sendo barrado na adesão ao
BRICS+ pelo Brasil, o país passou a driblar os bloqueios econômicos
comercializando cerca de 80% do seu petróleo com a China, utilizando o renminbi
(yuan), além de transações em rublo e euro, desafiando diretamente a lógica do
petrodólar.
No
último ano de Maduro no poder, a Venezuela demonstrou uma retomada econômica
com a tentativa de se recuperar de um embargo econômico sem precedentes
promovido pelos EUA. Entre 2014 e 2025, o país foi vítima do cerco
estadunidense por meio de um embargo amplo (Lei 113-278), da ordem executiva
13692, da ampliação de sanções contra setores econômicos venezuelanos e de
sanções energéticas severas à PDVSA (estatal petrolífera). Para se ter noção do
impacto desse cerco econômico, pode-se comparar o PIB total em 1999, que era de
115 bilhões de dólares, chegando a 258,9 bilhões de dólares em 2013 (período de
Hugo Chávez), e a 119,8 bilhões de dólares em 2024, aproximando-se dos
patamares pré-chavistas após mais de uma década de embargo.
No
século XXI, os EUA continuam a interferir na política interna de diversos
países, o que frequentemente gera crises institucionais e convulsões sociais.
Nos países onde a democracia liberal está institucionalizada, torna-se mais
fácil uma intervenção com viés político e econômico a partir do momento em que
seus governos deixam de servir aos interesses do imperialismo. Por isso, o
golpe na Venezuela não está sendo fácil: mesmo com Trump sequestrando Maduro, o
povo venezuelano está nas ruas, com apoio da Força Armada Nacional Bolivariana
e da vice-presidente Delcy Eloína Rodríguez Gómez. O histórico demonstra que
irão intervir direta ou indiretamente em cada nação que dê qualquer sinal de
reação ou independência. Existem diferentes formas de intervenção no século
XXI: sanções econômicas (Venezuela, Cuba, Nicarágua), guerra jurídica (lawfare)
(Brasil, Equador, Argentina), financiamento de oposição via ONGs e fundações
(NED, USAID, IRI), golpes brandos ou parlamentares (Honduras, Paraguai,
Bolívia), operações de inteligência e cibernéticas, guerra midiática e
desinformação.
Por
trás do pretexto discursivo de combate ao narcotráfico, restauração democrática
e crise humanitária, encontra-se, na verdade, a tentativa de conter a
influência russa e chinesa no “quintal” tradicional do império, bem como o
esvaziamento da integração autônoma, com o enfraquecimento da UNASUL e da
CELAC. Isso deixa a América Latina permanentemente vulnerável à ingerência
externa. A Venezuela é a amostra mais visível desse processo sob três eixos
principais: 1) controle de recursos, para reaver influência sobre as maiores
reservas de petróleo do mundo; 2) confronto geopolítico global, para enviar um
sinal claro à Rússia e à China de que os EUA não tolerarão esferas de
influência rivais em seu hemisfério; e 3) reafirmação da hegemonia regional,
para reverter o ciclo de governos de esquerda e projetos de integração
autônomos (como o bolivariano) que desafiaram sua liderança.
Essas
intervenções têm sempre o objetivo de se apropriar de setores estratégicos,
recursos e do controle territorial, além de expandir o sistema neoliberal que
impede o desenvolvimento econômico e a autodeterminação nacional. Essa lógica
acarretaria o fim da independência e da soberania, perpetuando o colonialismo e
a servilidade. As intervenções militares e os golpes orquestrados estão
diretamente ligados às políticas econômicas neoliberais e a um domínio cultural
que estrangula qualquer reação contrária. Diante disso, é fundamental pensar em
um modelo econômico latino-americano baseado no desenvolvimento, na justiça
social e na soberania nacional, integrando os países para um pleno
desenvolvimento.
Trata-se
de rejeitar um sistema político e econômico criado em outra realidade, que tem
como objetivo a eterna exploração de uma nação sobre outra. A Venezuela é o
exemplo disso: desde a Revolução Bolivariana, nunca se curvou aos interesses
dos Estados Unidos, não implementou medidas neoliberais em sua economia e não
permitiu que empresas estrangeiras explorassem seu petróleo. Sua trajetória de
resistência e seus planos de desenvolvimento, iniciados sob a liderança de Hugo
Chávez, são um exemplo a ser seguido por toda a esquerda latino-americana, pois
demonstram, mesmo com todas as contradições, que uma América Latina soberana e
independente é possível.
A
Doutrina Monroe está de volta, e a Venezuela hoje é o principal campo de
batalha dessa nova fase, na qual os princípios históricos de hegemonia
estadunidense foram reativados e modernizados para os desafios enfrentados no
século XXI. A América Latina e o Caribe encaram novamente o dilema histórico
entre autonomia e dependência. Esse cenário de pressão imperialista contra a
Venezuela inflama feridas históricas não curadas e promove a desestabilização
do continente. O Brasil, liderado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é
um dos atores centrais para a formulação de uma política externa
latino-americana ativa, que defenda a soberania e a não intervenção como
pilares principais. Buscar seu lugar nessa nova ordem multipolar emergente, com
destaque para o protagonismo no BRICS+, é um caminho estratégico para alcançar
o pleno desenvolvimento e a soberania para o povo latino-americano e caribenho.
Fonte:
Brasil 247

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