terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Flutuação hormonal afeta imunidade de mulheres, mas exercício físico pode mitigar o efeito

As oscilações hormonais ao longo da vida das mulheres são um dos fatores que mais influenciam o sistema imunológico. Como em uma gangorra, a variação de estrogênio e progesterona incidem em nível celular, alterando o perfil imunológico e inflamatório. É nos dias que antecedem o período menstrual (fase lútea), por exemplo, que a atividade inflamatória é mais intensa. Na menopausa, a queda dos hormônios sexuais promove um estado pró-inflamatório.

Apesar do entendimento sobre a relação entre oscilações hormonais e sistema imunológico ter avançado, ainda não há consenso entre os cientistas sobre os reais impactos do ciclo menstrual, da perimenopausa e da menopausa na imunidade das mulheres. E o motivo para isso é banal: a falta de caracterização adequada do ciclo menstrual em uma parte dos estudos sobre o tema.

Foi o que demonstrou um trabalho de revisão realizado por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Presidente Prudente, apoiado pela FAPESP. Ao revisar os principais estudos pulicados sobre o tema, os pesquisadores constataram que muitos deles ainda se baseiam em métodos simplificados, como o uso de aplicativos de celular, para definir em que fase do ciclo menstrual a mulher se encontra.

“De acordo com a principal diretriz internacional, métodos simplificados apenas nos informam se a pessoa está em período menstrual ou não, e isso não é suficiente para fazer estudos científicos. É preciso utilizar uma combinação de métodos para identificar se ela está na fase folicular, ovulatória ou lútea, pois em cada uma dessas etapas ocorrem variações da progesterona e do estrogênio, hormônios que têm implicações distintas para o sistema imunológico”, explica Barbara de Moura Antunes, pesquisadora que conduziu o estudo.

Antunes explica que essa lacuna metodológica tem gerado resultados contraditórios nas pesquisas sobre o tema. “A inconsistência e a diferença dos métodos utilizados para controlar os hormônios sexuais fazem com que tenhamos os resultados mais diversos e, por consequência, inconclusivos. E isso não preenche lacunas do conhecimento, apenas gera mais confusão e desinformação”, conta.

Para a pesquisadora, a falta de consenso e de rigor nas pesquisas vem de um problema anterior: a falta de inserção de aspectos da mulher nos estudos científicos. “Por muitos anos se preconizou que tanto ensaios clínicos quanto estudos de experimentação animal fossem realizados apenas com homens ou animais machos. Mas acontece que o corpo feminino vive em constante flutuação hormonal, diferentemente do masculino, que mantém níveis mais estáveis ao longo da vida. Ignorar essa dinâmica compromete a compreensão da saúde da mulher”, afirma.

O estudo de revisão publicado na revista Maturitas abre uma nova linha de pesquisa que pretende investigar de modo mais aprofundado essa relação e o impacto do exercício físico nesses diferentes cenários ao longo da vida da mulher.

A equipe responsável pelo artigo agora se prepara para uma nova etapa: a realização de um estudo original com mulheres brasileiras que promete preencher essas lacunas. “O nível de atividade física ou o condicionamento físico, associado com as flutuações hormonais, impacta na resposta inflamatória? Existe um tipo ideal de exercício físico quando falamos de imunidade? As variáveis do treinamento deveriam ser ajustadas ao longo do tempo? Qual o impacto dessa oscilação hormonal na mulher sedentária, ativa e treinada? Tudo isso pretendemos investigar no intuito de ampliar a compreensão sobre a saúde de metade da população”, conta a pesquisadora para a Agência FAPESP.

A pesquisa será dividida em duas fases. A primeira vai analisar mulheres em idade reprodutiva (entre 18 e 35 anos), classificadas por níveis de aptidão cardiorrespiratória. O intuito será investigar como as diferentes fases do ciclo menstrual modulam a resposta inflamatória. Já a segunda fase incluirá mulheres na pré-menopausa, menopausa e pós-menopausa, também divididas por níveis de condicionamento físico, para avaliar os efeitos do declínio hormonal.

Antunes explica que até agora o que se sabe nessa área é que, durante a vida reprodutiva da mulher, os níveis de estradiol (um tipo específico de estrogênio) e progesterona oscilam ao longo do ciclo menstrual, influenciando diretamente o sistema imunológico. Essas flutuações hormonais afetam células imunes, como monócitos e linfócitos, que possuem receptores para hormônios sexuais e, consequentemente, respondem a esse estímulo produzindo citocinas – proteínas sinalizadoras que regulam a inflamação.

Ela conta que da menstruação até a ovulação (final da fase folicular), o estrogênio está em alta e a progesterona em baixa, favorecendo uma resposta anti-inflamatória e melhor desempenho físico e cognitivo. Já na fase lútea, que antecede a menstruação, o cenário se inverte: o estrogênio cai e a progesterona sobe, tornando o organismo mais suscetível à inflamação, ao cansaço, com maior percepção de fadiga e possível atraso na recuperação muscular.

Os estudos conduzidos pelo grupo mostram que na fase folicular há maior presença de marcadores anti-inflamatórios e protetivos à saúde (como IL-1ra e HDL-c), enquanto na fase lútea predominam marcadores pró-inflamatórios (como TNF-α e IL-6).

“Com o envelhecimento, especialmente na menopausa, ocorre um declínio acentuado do estradiol, o que está associado a diversos problemas de saúde, como doenças cardiovasculares, perda de massa muscular [sarcopenia], osteoporose e alterações no metabolismo lipídico.”

Os estudos analisados mostraram ainda que o exercício físico, mesmo não revertendo a queda do estradiol, atua como uma ferramenta poderosa para prevenir e tratar os efeitos negativos do envelhecimento. “Ele melhora a produção de citocinas anti-inflamatórias, fortalece músculos e ossos e ajuda a manter a saúde geral da mulher em todas as fases da vida.”

•        Climatério: como as mulheres podem enfrentar essa fase

Climatério é o nome dado ao período de transição em que a mulher passa da fase reprodutiva para a fase de pós-menopausa. Esse período é marcado por sintomas físicos, como ondas de calor, tonturas e palpitações, e por sintomas psicológicos, afetando a vida pessoal, social e sexual. Muitas mulheres enfrentam uma nova perceptividade delas mesmas e de sua atratividade. Algumas dicas podem ajudar a enfrentar essa fase, saiba mais a seguir.

<><> Sintomas do climatério

As funções ovarianas diminuem no climatério, por isso, os ciclos menstruais passam a ser mais irregulares até que se cessem por completo. Além de ondas de calor e transpiração, também surgem outros sinais:

•        Suores noturnos que prejudicam o sono;

•        Distúrbios menstruais;

•        Coceira nos órgãos sexuais;

•        Secura da mucosa vaginal;

•        Irritabilidade;

•        Depressão;

•        Diminuição da libido;

•        Desconforto durante as relações sexuais;

•        Diminuição do tamanho das mamas e da elasticidade da pele.

A fase do climatério também pode ter consequências na vida pessoal e social das mulheres. Muitas delas relatam uma sensação de vazio decorrente da perda da juventude, da atratividade ou dos papéis sociais e profissionais, uma vez que a sociedade costuma privilegiar a juventude. Há, assim, fatores biológicos, psicológicos e sociais associados ao climatério que podem afetar gravemente a qualidade de vida da mulher.

Um estudo publicado no Environmental Research and Public Health investigou o climatério na vida de 148 mulheres com idades entre 44 e 62 anos. Os resultados mostram que quanto mais intensos os sintomas do climatério, menor a qualidade de vida das mulheres. Geralmente, essa baixa qualidade de vida está relacionada aos sentimentos de fracasso e de perda da juventude, beleza e oportunidades. Os sintomas mais fortes também mostraram afetar a vida diária, incluindo vida sexual, relacionamento e percepção de atratividade.

Nesse sentido, o estudo aconselha educar as mulheres sobre os métodos e opções para aliviar os sintomas do climatério, visando influenciar positivamente em suas vidas diárias e ajudá-las a enfrentar as situações difíceis que podem surgir.

<><> Como passar bem pelo climatério

Manter cuidados com a saúde durante o climatério é fundamental para o equilíbrio do corpo e de seus processos biológicos. Assim, alguns hábitos saudáveis podem ajudar, incluindo hidratar-se diariamente, praticar exercícios físicos com regularidade, alimentar-se de forma saudável e evitar substâncias prejudiciais à saúde, como fumo e álcool. Para ajudar com as mudanças fisiológicas e seus sinais, há opções de tratamento disponíveis que serão recomendados devidamente por meio de orientação médica.

Para mais, a educação em saúde, como já mencionada, pode melhorar a qualidade de vida das mulheres nessa fase. É preciso ter um diálogo entre as mulheres e os profissionais de saúde que a acompanham que informe sobre as mudanças biológicas, emocionais e sociais que podem ocorrer durante o climatério. Assim, se forem bem preparadas com informações adequadas e expectativas realistas, as mulheres podem enfrentar melhor essa fase.

 

Fonte: Por Maria Fernanda Ziegler – Agência FAPESP/eCycle

 

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