O
padre que se tornou o primeiro pastor evangélico brasileiro
Há 160
anos, pela primeira vez, uma pessoa nascida no Brasil se tornava pastor
evangélico.
Para
além desse marco, o pregador presbiteriano José Manuel da Conceição (1822-1873)
teve uma biografia e tanto: foi padre católico, passou a ser hostilizado por
sua simpatia com o protestantismo e chamado de "padre louco" e morreu
em desgraça no dia de Natal.
Hoje,
Conceição é visto como um símbolo da liberdade de escolha religiosa e a data de
sua ordenação como pastor em 1865, 17 de dezembro, tornou-se o Dia do Pastor
Presbiteriano.
Mas
como essa trajetória incomum, de padre católico e pastor evangélico, começou?
<><>Inspiração
em tio que era padre
José
Manuel da Conceição nasceu em uma família católica da cidade de São Paulo — seu
pai era um imigrante português que ganhava a vida como pedreiro, sua mãe era
neta de açorianos.
Eles se
mudaram para Sorocaba, no interior paulista, quando o futuro pastor tinha
apenas 2 anos.
"O
menino cresceu em ambiente de devoção católica, mas um catolicismo popular,
baseado em práticas ritualísticas e não em formação teológica mais
profunda", conta à BBC News Brasil o teólogo e historiador Gerson Leite de
Moraes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Conceição
tinha um tio-avô que era padre, com quem aprendeu a ler e a escrever —
cultivando também o desejo de seguir o sacerdócio.
Nos
anos 1840, voltou para São Paulo para estudar teologia.
Na
mesma época, ainda antes de se tornar padre, envolveu-se em atividades
católicas na Fazenda Ipanema, área próxima à cidade de Sorocaba onde funcionava
a Real Fábrica de Ferro São João de Ipanema — também chamada de Fundição
Ipanema, siderúrgica onde trabalhavam diversos imigrantes europeus.
Ali,
acabou conhecendo famílias de fé protestante, na maioria ingleses e alemães, e
demonstrou ficar impressionado com a maneira como eles se dedicavam à fé aos
domingos e como eram ávidos leitores da Bíblia.
Ficou
muito amigo de um médico dinamarquês que vivia no povoado — e com ele aprendeu
geografia, história e alemão.
Segundo
Gerson Leite de Moraes, provavelmente foi neste momento, no contato com os
europeus, que Conceição começou a se aproximar do protestantismo.
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'Padre louco'
Mesmo
assim, antes da conversão definitiva para o protestantismo, Conceição começou a
se formar para ser padre.
Mas a
historiadora e antropóloga Lidice Meyer afirma que, já durante essa preparação
para o sacerdócio, Conceição começou "a ter questionamentos sobre algumas
doutrinas do catolicismo, como o celibato".
"O
contato com estrangeiros de origem protestante o levou a refletir sobre a
vivência da religião no protestantismo, com mais leitura e estudo da Bíblia,
contraposta à religiosidade católica existente no Brasil do século 19",
comenta a historiadora, professora na Universidade Lusófona, em Lisboa.
Em
1845, Conceição foi ordenado padre católico. A Igreja decidiu enviá-lo então
para Limeira, no interior paulista.
Logo
ele chamou a atenção por sua postura um tanto heterodoxa.
O jovem
padre não parecia muito preocupado com o rigor dos rituais e era um grande
incentivador da leitura bíblica, praxe então vista como mais comum aos
protestantes.
Gerson
Leite de Moraes conta haver relatos de que, certa vez, uma paróquia sob comando
do padre iria substituir as imagens dos santos e Conceição teria sugerido que
as antigas podiam ser quebradas e enterradas, o que foi visto como sinal de
desrespeito por católicos mais fervorosos.
Passou
a ser visto como iconoclasta, aquele que se opõe à veneração de imagens.
Na
tradição católica, as imagens fazem parte do ambiente religioso — embora se
entenda que não se trata de venerá-las, mas sim de utilizá-las como forma de
associação ås personalidades religiosas que, estas sim, são veneradas.
O
protestantismo aboliu essa prática e não tem a tradição de representar as
figuras consideradas sagradas com imagens.
Todo
esse quadro fez com que bispos buscassem transferir Conceição como forma de
abafar o constrangimento social que ele poderia estar causando para a
instituição.
Por
isso, o padre trabalhou em Piracicaba, Monte Mor, Taubaté, Ubatuba, Santa
Bárbara d'Oeste, e Brotas, além de Limeira, onde teve duas passagens.
Segundo
Meyer, Conceição "nunca foi bem-visto pela hierarquia católica
romana".
De
acordo com uma publicação datada de 1900 do jornal presbiteriano O Puritano,
que circulou no Rio entre 1899 e 1953 — portanto após a morte de Conceição —, o
religioso teria comentado sua inadequação perante ao catolicismo.
"Eu
estava destinado ao sacerdócio, mas a leitura da Bíblia e os meus contatos com
os protestantes tornaram-me um mau candidato e depois um pobre, muito pobre
padre católico romano. Todos os outros padres, exceto o bispo, chamavam-me
padre protestante", teria dito Conceição.
O então
padre realmente manteve contato com pastores e leigos protestantes.
Alguns
emprestavam a ele obras de teologia reformista. Gradualmente, Conceição via que
tinha mais afinidade com uma vertente não católica do cristianismo.
A essa
altura, ele já era chamado pelo povo de "padre louco" ou de
"padre protestante".
A
jornalista Magali do Nascimento Cunha, autora do livro Do Púlpito às Mídias
Sociais, relata que Conceição debatia consigo mesmo e falava sozinho nas
pregações.
Ainda
de acordo com ela, o padre tinha uma postura confrontadora.
"Questionava
muito a Igreja Católica, não se conformava com algumas posições sobre a
salvação e se identificava com perspectivas dos protestantes", resume
Cunha, pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião e integrante do Grupo
de Estudos em Comunicação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
Conceição
comungava da ideia protestante histórica de que só a fé bastava para salvar os
pecadores; já o catolicismo tem consolidada a tese de que é necessário praticar
boas obras.
Outro
ponto advogado por Conceição, consonante com a fé protestante e dissonante da
doutrina católica, era que os pecados poderiam ser confessados diretamente a
Deus, sem a necessidade de um padre como intermediário.
Moraes
afirma que o padre também não tinha paciência para as burocracias
institucionais e se incomodava em ter de seguir protocolos.
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Pastor itinerante
Em
1864, Conceição largou a batina e rompeu definitivamente com o catolicismo —
apresentou renúncia ao bispo em setembro daquele ano.
No mês
seguinte, quando o pastor norte-americano Alexander Latimer Blackford
(1829-1890), pioneiro na implantação da Igreja Presbiteriana no Brasil, visitou
Brotas, Conceição se converteu publicamente a essa denominação, sendo batizado.
Ele
havia conhecido Blackford na cidade de Rio Claro, quando ainda atuava como
padre.
Cunha
explica que os presbiterianos são considerados "a primeira grande igreja
protestante estabelecida no Brasil", porque chegaram ao país no século 19
com uma grande estrutura e número de missionários, expandindo-se bastante,
sobretudo no interior de São Paulo.
O
primeiro templo dessa denominação foi inaugurado no Rio em 1862. A conversão de
Conceição insere-se neste contexto.
Em 17
de dezembro de 1865, um ano depois da sua conversão, Conceição foi ordenado
pastor evangélico — o primeiro nascido no Brasil.
Um
feito notável, em parte porque os poucos clérigos de outras igrejas evangélicas
eram missionários estrangeiros.
Além
disso, era época de catolicismo oficial. Os sacerdotes católicos recebiam
remunerações do governo, já que vigorava o regime do padroado. Este era baseado
em um acordo no qual a Igreja Católica concedia ao rei o controle burocrático e
administrativo da Igreja sob seus domínios.
Com a
Independência do Brasil, o padroado acabou mantido. O regime só foi extinto com
a República.
O
rompimento de Conceição com a Igreja Católica não foi fácil.
No seu
livro Profissão de Fé Evangélica, o próprio religioso cita que sofria
"perseguições" devido à sua conversão ao presbiterianismo, dizendo
ter sido alvo de violência física "incitada" por padres.
Cunha
afirma que era comum na época uma postura violenta de católicos contra
missionários protestantes.
Moraes
ratifica que o ex-padre "sofreu preconceitos por parte da Igreja Católica
que ele abandonou".
"Romper
com o catolicismo naquela maneira era abrir mão de uma carreira estável e
aderir a uma fé que era demonizada. A sociedade recebeu a notícia como uma
coisa ruim. Muitas pessoas passaram a olhar para ele com desconfiança",
afirma o professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Segundo
o teólogo, alguns protestantes passam a ver em Conceição, "com um certo
exagero", uma espécie de versão brasileira de reformadores históricos como
o alemão Martinho Lutero (1483-1546), o francês Jean Calvino (1509-1564) e o
suíço Ulrico Zwinglio (1484-1531).
Moraes
ressalta que esse tipo de conversão, de padre para pastor, era atípico. Mas
facilitava, já que a base teológica comum fazia com que o religioso pudesse
exercer o novo ofício de fé sem muita necessidade de novos estudos ou uma nova
formação.
Para
Meyer, a conversão de Conceição "estabeleceu um precedente" e levou
outros padres a "seguirem o mesmo caminho".
Entre
os exemplos mais ilustres estão os casos de Hipólito de Oliveira Cassiano,
Manoel Vicente Ferreira e Anibal Nora, ex-padres que também se tornaram
pastores.
"Antes
de Conceição, todos os missionários protestantes [no Brasil], do século 16 ao
19, eram oriundos de outros países, majoritariamente França e Estados
Unidos", afirma Meyer.
"Embora
já houvesse a presença de pastores luteranos e anglicanos, estes não se
voltavam à pregação aos brasileiros, mas sim a atender aos imigrantes de fala
alemã e inglesa."
Segundo
o especialista, relatos de quem assistiu às pregações protestantes de Conceição
destacavam como qualidade o diferencial de ele ser brasileiro e assim,
conseguir se comunicar de maneira mais direta com seus ouvintes.
A
personalidade do religioso seguiria exótica dentro da nova instituição.
Ao
contrário do que costuma acontecer, ele não quis ser nomeado para atuar em uma
jurisdição — inquieto, preferiu tornar-se um pregador itinerante.
Quase
sempre se deslocando a pé, como andarilho, atuou como missionário em boa parte
do interior paulista, no sul de Minas Gerais e também no Rio de Janeiro.
"Era
pastor conversionista. Viajava pelas cidades, pregando e convertendo
pessoas", explica Magali Cunha.
Conceição
visitou diversas comunidades católicas onde antes havia celebrado missas como
padre — com isso, acabaria convertendo católicos, que o admiravam, para a
Igreja Presbiteriana.
Segundo
Moraes, ele era um "evangelista nato" e um "homem muito
abnegado".
Distribuía
edições da Bíblia por onde passava. E também foi vítima de preconceitos,
desconfiança pública e, em alguns casos, violência física.
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Morte
Aos 51
anos, o pastor tinha a saúde debilitada, o que atribuía às andanças como
pregador itinerante que era. Seus últimos dias foram de infortúnio.
Na
semana do Natal de 1873, ele seguia ao Rio de Janeiro, a convite de Blackford.
A ideia era descansar um pouco.
Tarde
da noite, precisou abrigar-se na estação de trem do bairro do Campinho, no que
é hoje a capital fluminense.
"Vendo-o,
um policial o tomou por um mendigo, devido à pobreza de suas roupas",
relata Meyer.
Ele foi
preso, enquadrado por vadiagem, como era praxe na época.
Ficou
detido por três dias, até que confirmou sua identidade.
"Posto
em liberdade, sem dinheiro para uma passagem de trem, pôs-se a viajar a pé, mas
acabou por desmaiar próximo a um armazém", conta a professora da
Universidade Lusófona.
"Um
soldado o levou para uma enfermaria [em Campinho], onde ele foi tratado como
indigente, morrendo no mesmo dia."
O
ex-padre e pastor morreu em 25 de dezembro, dia de Natal.
Meyer
afirma que provavelmente Conceição faleceu devido à fraqueza e às condições de
sua prisão, talvez propiciando uma pneumonia.
Moraes
acrescenta que, segundo alguns relatos, o pastor teve em seus momentos finais
problemas mentais, falando coisas desconexas.
"Uma
morte muito triste, como um maltrapilho, um sujeito que foi visto como um
sem-teto, um preguiçoso, alguma coisa assim. Preso por vadiagem. Não foi
reconhecido", diz o professor.
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Liberdade de escolha
Para a
história do cristianismo no país, Conceição é um marco da diversidade.
"Sua
trajetória revela o nascimento do pluralismo religioso no Brasil", avalia
Moraes.
"Carrega
a ideia da liberdade de mudança de religião e também o fim do monopólio
católico na administração dos bens de salvação", acrescenta, destacando
que o pastor teve um impacto "muito grande" no protestantismo
brasileiro.
Para
Meyer, a história de Conceição "é emblemática por mostrar a capacidade de
um indivíduo de romper com as estruturas convencionais a partir de sua própria
escolha".
"Hoje
a liberdade de escolha da religião a que se segue bem como o grande trânsito
religioso que existe no Brasil não deixa de ser uma herança de alguns
revolucionários como José Manuel da Conceição, que ousaram desafiar as normas
pré-estabelecidas", argumenta ela.
Fonte:
BBC News Brasil

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